terça-feira, 26 de maio de 2026

Muqaddimah Al-‘Allāmah Ibn Khaldūn - e Estudo Sobre.

 

Muqaddimah
Al-‘Allāmah Ibn Khaldūn

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso

Diz o servo necessitado da misericórdia de Deus Altíssimo, ‘Abd al-Raḥmān Ibn Khaldūn al-Ḥaḍramī — que Deus o perdoe:

Louvado seja Deus, possuidor da força e do poder, dominador do reino e do domínio, a quem pertencem os mais belos nomes e os atributos supremos; cujo saber abrange o oculto e o manifesto; poderoso, não lhe escapando o peso de um átomo nos céus nem na terra; conhecedor das ações dos servos, que lhes determinou os movimentos e os repousos; que escreveu para eles as provisões e os termos; que os guia pelos caminhos da salvação e do êxito; que lhes mostrou as evidências e os sinais; que os fez sucessores na terra e os elevou uns acima dos outros em graus, para prová-los naquilo que lhes concedeu; aquele que criou a criação do nada e a fez multiplicar-se; que lhes concedeu o sustento e os benefícios; que lhes mostrou os caminhos da retidão e da corrupção; que lhes enviou os mensageiros com as provas claras e os sustentou com milagres e sinais manifestos; que selou com Muḥammad — que Deus o abençoe e lhe dê paz — os profetas e mensageiros; e fez de sua lei a ab-rogadora das leis; e sustentou sua comunidade contra as comunidades; e elevou sua palavra acima das palavras dos incrédulos e politeístas.

E testemunho que não há divindade além de Deus, único, sem associado, testemunho sincero pelo qual se alcança a salvação no dia do retorno; e testemunho que Muḥammad é seu servo e mensageiro, enviado com orientação e religião da verdade para fazê-la prevalecer sobre toda religião, ainda que os politeístas o detestem.

E que Deus o abençoe e aos seus familiares, seus companheiros e seus seguidores, enquanto alternarem os dias e as noites.

Depois disso: a ciência da história é, em aparência, uma notícia acerca dos dias, dos Estados e dos acontecimentos dos séculos primeiros. Nela se multiplicam os exemplos e se apresentam as parábolas. Beneficia-nos nas situações da religião e do mundo, conduzindo-nos aos estados dos passados dentre as nações, em seus caracteres, nas condutas dos profetas em suas biografias, e dos reis em seus Estados e políticas, até que aquele que observa possa obter proveito, em matéria de religião e de mundo, pela imitação daqueles estados.

Mas o interior disso é consideração, investigação, verificação e exame das causas dos acontecimentos e seus princípios; e conhecimento profundo da qualidade dos acontecimentos e de suas causas. Portanto, a história é enraizada na sabedoria e digna de ser contada dentre suas ciências.

E porque os historiadores e os intérpretes e os imames da transmissão se equivocaram nos relatos e nas ocorrências, confiando apenas na simples transmissão, seja ela autêntica ou fraca, sem apresentá-la aos seus fundamentos, nem compará-la com seus semelhantes, nem medi-la pelos critérios da sabedoria e pelo conhecimento da natureza da civilização e dos estados humanos, nem confrontá-la com os fundamentos da política e a natureza das coisas existentes; afastaram-se da verdade e vaguearam nos desertos da ilusão e do erro.

Especialmente ao tratar de números de riquezas, exércitos e tributos, porque estes são os assuntos mais suscetíveis à mentira e ao exagero, e necessitam inevitavelmente ser submetidos aos fundamentos e às regras.

Pois a notícia, quando meramente transmitida e não governada pelas regras dos hábitos, pelos fundamentos da política, pela natureza da civilização e pelas condições da sociedade humana; nem comparada com o presente pelo ausente, nem o testemunhado pelo oculto, então não se estará seguro de escorregar e afastar-se do caminho da veracidade.

E frequentemente os historiadores, intérpretes e imames da transmissão erraram nesses sentidos ao relatarem acontecimentos e histórias, confiando na mera transmissão.

E a razão disso é o desconhecimento da natureza da civilização. Pois cada acontecimento, seja pertencente à essência ou à ação, possui inevitavelmente uma natureza própria em sua essência e em seus acidentes que o cercam.

Assim, quando o ouvinte conhece a natureza dos acontecimentos e das circunstâncias na existência, isso lhe servirá de auxílio para distinguir a verdade da falsidade nas notícias, e a veracidade da mentira, mediante um critério demonstrativo do qual não há desvio.

E este é um conhecimento independente por si mesmo. Pois ele possui assunto próprio, que é a civilização humana e a sociedade humana; e possui questões, que são a exposição dos acidentes e estados que atingem a essência dessa civilização, um após o outro.

E isto é o caráter de toda ciência: possuir assunto e questões.

Talvez isso tenha sido compreendido pelos sábios anteriormente, mas não chegou até nós palavra acerca disso. Pois as ciências são numerosas, e os sábios das nações são abundantes; e o que não chegou até nós dentre as ciências é mais do que aquilo que chegou.

Onde estão as ciências dos persas, cuja destruição foi ordenada por ‘Umar — que Deus esteja satisfeito com ele — no momento da conquista? E onde estão as ciências dos caldeus, dos sírios e dos babilônios, e os resultados e efeitos que possuíam? E onde estão as ciências dos coptas e daqueles que vieram antes deles? Apenas as ciências de uma única nação chegaram até nós, e elas são as dos gregos, por causa do cuidado de al-Ma’mūn em traduzi-las, graças à abundância de tradutores e aos recursos que despendeu nisso.

E talvez não tenham escrito sobre esta ciência porque ela não fazia parte de suas preocupações. E Deus sabe.

Este livro nosso é o primeiro livro a tratar desta ciência, segundo o que alcançamos. E não é resultado de ensino cuja tradição recebemos dos mestres; mas é algo que a reflexão encontrou e a investigação correta conduziu.

Portanto, não é ciência estranha dentre as ciências da sabedoria, nem invenção sem precedente dentre as artes.

E agora começamos a apresentar neste livro aquilo que nos foi facilitado por Deus Altíssimo, dentre os objetivos desta ciência e de seus problemas. E organizamos isso em uma introdução e três livros.

A introdução é acerca da excelência da ciência da história, da verificação dos métodos e dos erros dos historiadores.

O primeiro livro trata da civilização humana em geral, e dos acidentes que pertencem a ela por essência, tais como soberania, autoridade, aquisição, meios de vida, artes e ciências, e das causas e razões disso.

O segundo livro trata das notícias dos árabes e de suas gerações e Estados, desde o começo da criação até este nosso tempo; e inclui o que lhes foi contemporâneo dentre as nações famosas e os grandes Estados.

O terceiro livro trata das notícias dos berberes e daqueles dentre os povos não árabes que lhes são aparentados, como os zanāta e outros, e dos Estados que existiram no Magrebe e suas regiões.

E talvez, ao tratar dos acontecimentos e dos Estados, tenhamos seguido o caminho dos historiadores e imitadores; porém expusemos também as causas dos acontecimentos e os fundamentos dos Estados, e removemos o véu dos motivos dos eventos.

Assim, o interior deste livro contém sabedoria e investigação das causas e dos seres; e o exterior dele não passa de história e notícias.

E peço a Deus auxílio para a retidão e a correção; e que Ele nos conceda, por sua graça, êxito para alcançar a verdade e a exatidão. Pois Ele é suficiente para nós e excelente guardião.

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Capítulo da introdução

Na excelência da ciência da história e na investigação dos métodos dos historiadores, e exposição dos erros que lhes acontecem.

Saiba que a ciência da história é ciência nobre quanto ao objetivo, abundante em benefícios e elevada em finalidade. Pois ela nos faz conhecer os estados das nações passadas nos seus caracteres, os profetas em suas biografias, e os reis em seus Estados e políticas.

Até que o imitador possa seguir os exemplos desses homens em matéria de religião e de mundo.

E porque a falsidade alcança naturalmente as notícias, é necessário mencionar as causas que levam a ela.

Dentre elas está o partidarismo em favor de opiniões e doutrinas. Pois, quando a alma está equilibrada na aceitação das notícias, concede à notícia seu direito de investigação e exame, até que a verdade nela se torne clara. Mas, quando a alma está inclinada para uma opinião ou doutrina, aceita imediatamente aquilo que concorda com ela.

E essa inclinação e esse partidarismo lançam um véu sobre os olhos da percepção e da crítica, levando à aceitação da mentira e à transmissão dela.

Dentre elas também está a confiança nos transmissores. E isso retorna à crítica e à autenticação.

Dentre elas está a negligência quanto aos objetivos. Pois muitos transmissores ignoram o propósito daquilo que viram ou ouviram, e transmitem a notícia segundo conjectura e imaginação, caindo na mentira.

Dentre elas está a falsa suposição de veracidade. E isso também retorna à confiança nos transmissores.

Dentre elas está a incapacidade de aplicar os acontecimentos às suas causas verdadeiras, por causa da obscuridade da impostura e do artificialismo nas situações. Assim, transmite-se a notícia tal como foi ouvida, sem consideração nem investigação.

Dentre elas está a busca do favor dos possuidores de posição e dignidade, por meio do elogio e do embelezamento dos estados, difundindo fama favorável. Assim, as notícias são transmitidas de forma contrária à verdade.

Pois as almas amam elogios e inclinam-se às coisas do mundo, como prestígio e riqueza. E na maioria dos casos não desejam virtude nem competem pelas qualidades dos homens de bem.

Dentre elas — e esta é a mais forte — está o desconhecimento das naturezas das condições da civilização.

Pois todo acontecimento ocorrido na civilização, seja pertencente à essência dela ou algo que lhe aconteça, possui inevitavelmente natureza própria.

Assim, quando o ouvinte conhece a natureza da civilização e das condições existentes na sociedade humana, isso lhe serve como critério para distinguir a verdade da falsidade nas notícias, e a veracidade da mentira.

E esta é uma regra separadora entre verdade e falsidade, pela qual o investigador obtém verificação nas notícias.

Muitos dos imames da transmissão foram enganados por relatos absurdos e notícias falsas, por causa da confiança na mera transmissão.

E dentre as causas disso está também o esquecimento das transformações que ocorrem nas nações e nas gerações com a passagem dos tempos e dos dias.

Pois as condições do mundo e das nações, seus costumes e doutrinas, não permanecem numa única forma e num método constante. Ao contrário, há alternância entre dias e passagem de estados de uma condição para outra.

Assim como isso ocorre nos indivíduos, nos tempos e nas cidades, também ocorre nas regiões, nos séculos e nos Estados.

E esta é uma enfermidade oculta e profunda, cuja percepção só acontece após longo tempo.

Poucos são aqueles que a percebem.

E o motivo disso é que os homens, na maior parte, seguem hábitos e tradições. E a familiaridade com os estados impede a percepção da mudança.

Quando a mudança ocorre gradualmente e sucessivamente, ela se torna imperceptível. E só é percebida depois de muito tempo, quando a diferença se torna evidente.

Assim, aquele que observa pensa que o estado presente sempre existiu daquela forma.

E os historiadores, quando seguem apenas a transmissão, sem considerar os fundamentos dos hábitos, as regras da política, a natureza da civilização e as condições da sociedade humana; nem medem o ausente pelo presente, nem o oculto pelo testemunhado; frequentemente erram o caminho da verdade.

E isso aconteceu a muitos dentre eles.

E dentre os exemplos disso está aquilo que os historiadores mencionam acerca dos exércitos dos antigos Estados, e os números daqueles que participaram das guerras e batalhas.

Pois eles frequentemente ultrapassam os limites do habitual e entram no domínio do impossível.

E isso porque não consideraram os fundamentos dos costumes, nem a natureza da civilização, nem as condições dos agrupamentos humanos.

Pois os Estados possuem necessariamente limites na força militar, nos recursos e na capacidade de sustento.

Assim, quando os relatos ultrapassam esses limites conhecidos, deve-se saber que há exagero ou falsificação.

E isso porque os agrupamentos humanos somente se mantêm pela cooperação para obtenção de alimento e sobrevivência.

E a capacidade de alimentação é proporcional ao número de trabalhadores e produtores.

Portanto, quando os números relatados excedem aquilo que os territórios e regiões podem sustentar, a falsidade torna-se evidente.

Do mesmo modo, as cidades e metrópoles possuem proporções conhecidas em extensão, população e construção.

Quando os relatos ultrapassam as proporções habituais da civilização, isso indica afastamento da verdade.

E muitas pessoas ignoram isso, por desconhecerem as naturezas das coisas existentes.

Assim, aceitam notícias impossíveis e as transmitem.

E Deus é o guia para a verdade.

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Capítulo

Que o homem é civil por natureza, e que é indispensável para ele a sociedade humana, a qual os filósofos expressam pela expressão “cidade”.

E isso significa civilização.

A explicação disso é que Deus — glorificado seja — criou o homem e o formou numa constituição que não pode viver nem manter sua existência senão mediante alimento.

E guiou-o, pela disposição natural, para buscar alimento, e colocou nele poder para obtê-lo.

Mas a capacidade de um único indivíduo é insuficiente para obter aquilo de que necessita em alimento.

E ele não alcança sozinho a quantidade suficiente para sua subsistência e permanência da vida.

Assim, é indispensável a cooperação dos filhos de sua espécie.

E não se obtém, mediante a cooperação de um grupo deles, aquilo suficiente para a necessidade de um dentre eles apenas; ao contrário, obtém-se, mediante cooperação, quantidade suficiente para muitos deles.

Por exemplo: um único indivíduo não consegue sozinho obter sua porção de trigo; tampouco consegue prepará-la como alimento, moendo-a, amassando-a e cozinhando-a.

Portanto, torna-se indispensável a reunião de muitas capacidades dentre os filhos de sua espécie para obter alimento para ele e para eles.

Assim, mediante cooperação, realizam-se as necessidades deles.

E da mesma forma acontece quanto à defesa contra os animais agressivos.

Pois Deus — glorificado seja —, quando criou os animais e distribuiu entre eles as capacidades, concedeu a muitos deles força muito maior do que a força do homem.

Assim, não concedeu ao homem grande força corporal em comparação com muitos animais.

Mas concedeu-lhe pensamento e mão.

A mão foi preparada para as artes mediante o pensamento.

Assim, as artes obtidas pela reflexão substituem, para ele, aquilo que os animais possuem naturalmente em força.

Então, armas foram preparadas para ele, substituindo os dentes dos animais ferozes, os chifres dos animais cornudos e os cascos dos animais que golpeiam.

E o pensamento guia isso para sua obtenção.

Portanto, é indispensável para o homem a cooperação dos filhos de sua espécie para obtenção de alimento e defesa.

E, sem essa cooperação, não se completaria sua existência, nem se realizaria aquilo que Deus quis do povoamento do mundo por meio deles e de sua sucessão na terra.

E este é o significado da civilização.

E os filósofos expressam isso dizendo: “O homem é civil por natureza”, isto é, é inevitável para ele a sociedade, que é a cidade, segundo a terminologia deles.

E este é o significado da civilização.

E também é indispensável entre os homens um impedidor e governante que afaste uns dos outros a agressão.

Pois a agressividade e a injustiça são características animais presentes na natureza dos seres vivos.

E as armas preparadas para defesa contra os animais irracionais existem também entre todos os homens.

Portanto, não bastam para afastar a agressão entre eles, porque todos as possuem.

Assim, torna-se indispensável algo mais, pelo qual um homem se diferencie dos outros.

E esse algo deve necessariamente proceder de um dentre eles, possuindo predominância e autoridade, para que nenhum deles agrida o outro.

E este é o significado da autoridade real.

Portanto, ficou estabelecido que a existência da autoridade governante é necessária para a espécie humana.

E quando isso é estabelecido, a civilização humana torna-se necessária.

E a sabedoria divina exige a existência da civilização e da continuidade da espécie humana, para realização da sucessão que Deus decretou na terra.

Glorificado seja aquele em cuja mão está o reino de todas as coisas.

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Capítulo

Sobre a civilização beduína e as nações selvagens.

Saiba que a diferença de condições entre os povos ocorre conforme a diferença dos modos de obtenção da subsistência.

Pois a reunião deles para a sociedade e cooperação tem como objetivo obter sustento e buscar meios de vida.

Assim, alguns dentre eles limitam-se ao necessário e ao indispensável na obtenção de alimentos, vestimentas e moradias.

E estes são os beduínos.

Eles utilizam para suas moradias casas de pelos, lã ou árvores, ou cavernas naturais das montanhas, para proteção contra calor e frio.

E suas condições estão próximas das condições primitivas e da natureza primeira.

E alguns dentre eles ampliam as condições acima do necessário, chegando ao luxo e à abundância.

Assim, utilizam casas construídas com pedra e barro, adornam-nas com revestimentos e refinam as condições da vida.

E estes são os habitantes das cidades e das metrópoles.

E a origem de tudo isso é a civilização e a cooperação para obtenção das necessidades da vida.

Então, quando há abundância além do necessário, as almas inclinam-se ao repouso e ao conforto.

E os costumes passam da simplicidade para o luxo e o refinamento.

Assim surgem hábitos de alimento, vestimenta, construção, mobiliário e demais estados da civilização.

E cada geração acrescenta às condições da geração anterior novas formas de luxo e refinamento.

Até que se consolidem as artes e se fortaleçam os hábitos da vida urbana.

Então a civilização alcança o máximo de sua natureza.

Mas o luxo, quando ultrapassa o limite da necessidade, conduz à corrupção dos costumes.

Pois a alma, quando se habitua ao conforto e ao repouso, afasta-se da dureza e da coragem.

E os homens tornam-se dependentes daquilo a que se acostumaram dentre os prazeres e os hábitos.

Assim, enfraquece-se neles a força da resistência e desaparece a austeridade.

Ao contrário dos beduínos, pois eles permanecem próximos da condição natural.

Por isso são mais aptos à coragem, mais preparados para defesa e mais capazes de suportar dificuldades.

E a razão disso é que os habitantes do luxo entregam a defesa de si mesmos aos governantes e soldados que os protegem.

Então perdem o hábito da defesa e da luta.

Enquanto os beduínos confiam em si mesmos para proteção e defesa.

Por isso, a coragem torna-se caráter firme entre eles.

E por isso os beduínos são mais capazes de alcançar domínio do que os habitantes das cidades.

Pois a coragem e a força de resistência existem entre eles em maior grau.

E a razão disso é que os homens, quando vivem em conforto e tranquilidade, tornam-se dependentes daqueles que os defendem.

Assim, enfraquecem suas almas quanto à resistência e à defesa.

Enquanto os beduínos, por viverem em estado de vigilância e temor, permanecem armados e atentos.

E isso fortalece neles o caráter da coragem.

Além disso, os beduínos estão mais afastados da corrupção dos costumes que acompanha o luxo.

Pois os habitantes das cidades entregam-se aos prazeres, diversões e refinamentos.

Então multiplicam-se entre eles os vícios e desaparecem as qualidades da austeridade.

Ao passo que os beduínos, devido à rudeza da vida e à limitação às necessidades, permanecem mais próximos do bem e afastados das corrupções.

Assim, suas almas são mais puras e mais preparadas para aceitar virtudes.

E frequentemente os habitantes das religiões surgem dentre os beduínos, por causa da simplicidade de suas condições e da distância em relação aos hábitos da corrupção.

Enquanto os habitantes das cidades tornam-se mergulhados nos prazeres do mundo e nas suas paixões.

Portanto, os beduínos estão mais dispostos para o bem do que os habitantes urbanos.

E isso não significa que todos os beduínos sejam virtuosos, nem que todos os habitantes das cidades sejam corruptos; mas trata-se daquilo que predomina na natureza de cada grupo.

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Capítulo

Que a asabiyyah existe somente mediante parentesco ou algo equivalente a ele.

Saiba que o vínculo entre os homens, mediante ajuda e proteção, somente se realiza pela solidariedade decorrente de parentesco ou de algo semelhante.

Pois a compaixão pelos parentes é natural nas almas humanas.

E raramente alguém aceita ver injustiça ou destruição atingir seus parentes e próximos sem ser movido à defesa e à proteção deles.

E quando existe entre eles parentesco próximo, fortalece-se a solidariedade e intensifica-se a união.

Assim, a agressão contra um dentre eles torna-se pesada para os demais.

E isto é o significado da asabiyyah.

E talvez isso também ocorra mediante alianças, pactos, clientela e convivência prolongada.

Pois a convivência contínua produz afeição e união semelhantes às produzidas pelo parentesco.

Assim, a solidariedade pode surgir de causas diferentes do sangue, quando os vínculos se consolidam e as almas se acostumam ao auxílio mútuo.

Mas o parentesco permanece sendo a origem mais forte disso, porque a natureza humana inclina-se naturalmente à defesa dos próximos.

E saiba que o domínio e a autoridade somente se realizam mediante asabiyyah.

Pois o poder necessita de auxílio, proteção e defesa.

E nenhuma dessas coisas se completa sem solidariedade grupal.

Assim, toda autoridade fundada sem asabiyyah rapidamente desaparece.

E a asabiyyah mais forte é aquela baseada em parentesco próximo.

Depois dela vêm as solidariedades derivadas de alianças e vínculos adquiridos.

Quando a asabiyyah torna-se forte num grupo, surge neles desejo de superioridade e domínio.

Pois a natureza da autoridade é exigir predominância e vitória.

Então o grupo busca submeter outros grupos e ampliar sua autoridade.

E quando alcançam o domínio, procuram estabelecer o reino e consolidar o Estado.

Assim surgem os Estados.

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Capítulo

Que o objetivo da asabiyyah é o reino e a autoridade.

Pois toda solidariedade grupal, quando se fortalece e se consolida, tende naturalmente à obtenção do domínio.

E isso porque a vitória e a proteção são os frutos da solidariedade.

Quando a solidariedade alcança o máximo de sua força, conduz inevitavelmente ao poder.

E raramente um grupo possuidor de forte asabiyyah permanece submetido a outro grupo por longo tempo.

Pois a natureza da solidariedade exige elevação e predominância.

Assim, quando o grupo alcança o domínio, estabelece-se nele a autoridade real.

E saiba que o reino possui significados e condições.

Pois o reino é dominar os homens mediante poder e autoridade, e obrigá-los às exigências da vontade e do julgamento.

E isso ocorre algumas vezes por mera força e opressão.

Outras vezes ocorre mediante política e condução conforme os interesses do povo.

Quando o objetivo do governante é apenas satisfazer seus desejos e paixões, o reino torna-se injustiça e tirania.

Mas, quando o objetivo é conduzir os homens conforme aquilo que lhes traz benefício e afasta danos, então isso é política racional.

E quando a condução ocorre conforme a lei revelada por Deus, visando os interesses da vida terrena e da vida futura, então isso é o califado.

Pois a finalidade da lei revelada é conduzir os homens ao benefício da outra vida e também aos interesses da vida presente relacionados a ela.

Assim, o califado é representar o Legislador na proteção da religião e no governo do mundo segundo ela.

E isso é diferente do simples reino político.

Pois o reino político busca apenas organizar os interesses mundanos segundo a razão humana.

Enquanto o califado considera os interesses da outra vida juntamente com os da vida terrena.

Por isso, o califado foi estabelecido após o Mensageiro de Deus — que Deus o abençoe e lhe dê paz — para proteger a religião e administrar os assuntos da comunidade.

E os primeiros que assumiram isso foram os califas retos — que Deus esteja satisfeito com eles.

Depois disso, o reino misturou-se ao califado.

Então o significado da autoridade transformou-se gradualmente.

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Capítulo

Que os Estados possuem duração natural, assim como os indivíduos.

Saiba que os Estados têm durações limitadas na maioria dos casos.

E raramente ultrapassam três gerações.

Pois a primeira geração conserva a rudeza beduína, a dureza, a coragem e a participação na glória.

Assim, a força da asabiyyah permanece firme entre eles.

A segunda geração conviveu com aqueles da primeira geração e recebeu deles a glória e o poder.

Mas passou da rudeza para a suavidade, e da participação comum na glória para a submissão à autoridade de um só governante.

Assim, enfraqueceu-se neles parte da coragem e da austeridade.

Entretanto, ainda permanece entre eles algo da primeira condição, por causa da convivência com seus predecessores.

Quanto à terceira geração, ela esquece completamente o período da rudeza e da vida beduína, como se jamais tivesse existido.

Então desaparece deles a doçura da glória e da asabiyyah, devido à submissão prolongada.

E alcançam o extremo do luxo e do refinamento.

Assim, tornam-se dependentes do Estado, como mulheres e crianças dependem daquele que cuida deles.

Então a asabiyyah se dissolve completamente.

E eles esquecem a proteção, a defesa e a exigência dos direitos.

Assim, os outros homens os veem como presa fácil.

E continuam aparentando possuir autoridade, por causa das marcas externas do reino, como exércitos, vestimentas, insígnias e cerimônias.

Mas a verdade de sua força já desapareceu.

Então Deus permite que outro grupo, possuidor de asabiyyah mais forte, triunfe sobre eles.

E o Estado passa para esse novo grupo.

Assim ocorre nos Estados e dinastias.

E raramente um Estado ultrapassa essas três gerações.

E a duração de uma geração é, na maioria dos casos, quarenta anos.

Porque esse é o limite médio entre crescimento e declínio na vida humana.

E Deus é o herdeiro da terra e daqueles que nela estão.

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Capítulo

Que a convocação religiosa aumenta a força da asabiyyah no surgimento do Estado.

Pois a convocação religiosa remove das almas a inveja e a rivalidade que existem entre os possuidores de asabiyyah.

Assim, as intenções unem-se na verdade.

E quando ocorre acordo e convergência, fortalece-se o poder e torna-se possível a vitória.

Pois os homens, quando possuem objetivos diversos e opiniões conflitantes, multiplicam-se entre eles as disputas e enfraquece-se sua força.

Mas, quando a religião os reúne em torno de uma única finalidade, desaparecem as causas da rivalidade.

Então ocorre entre eles auxílio mútuo e união.

E a força deles torna-se dupla.

Por isso, a convocação religiosa foi fundamento dos grandes Estados no início do Islã.

Pois os árabes eram o povo mais distante da submissão uns aos outros, por causa da rudeza da vida beduína e da força da arrogância existente entre eles.

Assim, seus objetivos eram numerosos e suas tendências divergentes.

E quando a religião veio por meio do Profeta — que Deus o abençoe e lhe dê paz —, removendo deles os vícios da arrogância e da rivalidade, e reunindo-os na verdade, tornaram-se os mais fortes dos povos.

Então dominaram os Estados e venceram os reis.

E isso ocorreu porque a força da religião uniu-se à força da asabiyyah.

Assim, a força tornou-se multiplicada.

Pois a convocação religiosa possui efeito extraordinário na união das intenções e na disposição para a morte.

E saiba que todo Estado fundado apenas na asabiyyah, sem apoio religioso, alcança domínio limitado.

Mas, quando a convocação religiosa se junta à asabiyyah, o domínio torna-se mais amplo e poderoso.

Por isso, os árabes somente obtiveram reino universal mediante religião e lei revelada.

Pois eram incapazes de reunir-se apenas pela política natural.

E a razão disso é que sua rudeza e sua independência tornavam difícil a submissão de alguns deles aos outros.

Então, quando a religião removeu isso de suas almas, tornou-se fácil sua união e obediência.

E Deus faz prevalecer sua luz, ainda que os incrédulos detestem.

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Capítulo

Que o luxo é o fim natural da civilização e anúncio de sua corrupção.

Saiba que as nações, quando alcançam domínio e abundância, inclinam-se ao conforto e ao luxo.

Então passam a buscar refinamentos nos alimentos, vestimentas, construções, utensílios e demais hábitos da vida.

E as artes multiplicam-se nas cidades e metrópoles.

Assim, aumentam os gastos e os costumes de luxo.

Então os habitantes tornam-se dependentes dos hábitos adquiridos.

E aquilo que antes era considerado abundância passa a ser visto como necessidade.

Assim crescem as despesas do Estado e do povo.

E os governantes aumentam os tributos e impostos para sustentar os gastos do reino e as condições do luxo.

Mas os impostos excessivos reduzem a atividade dos produtores.

Pois os homens, quando percebem que o fruto de seus esforços lhes é retirado, perdem o desejo de trabalhar e produzir.

Então diminuem as atividades econômicas e enfraquecem os mercados.

E quando diminuem as receitas do Estado, os governantes aumentam novamente os impostos.

Assim, a corrupção amplia-se progressivamente.

E o luxo conduz também à corrupção moral.

Pois os homens acostumados ao conforto tornam-se incapazes de suportar dificuldades.

Então desaparecem deles a coragem e a resistência.

E os filhos das famílias nobres crescem em abundância e proteção, afastados das qualidades da austeridade.

Assim, tornam-se frágeis diante dos perigos e incapazes de defender o Estado.

Enquanto isso, grupos mais rudes e mais fortes surgem nas regiões afastadas.

E conservam a coragem e a asabiyyah.

Então cobiçam o domínio do Estado enfraquecido.

E quando encontram oportunidade, atacam-no e o conquistam.

Assim, o luxo torna-se causa da destruição da civilização.

Pois ele corrói gradualmente a força interna do Estado.

E Deus é aquele que alterna os dias entre os homens.

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Capítulo

Que os impostos excessivos conduzem ao declínio das receitas do Estado.

Saiba que no início do Estado os impostos são pequenos em quantidade, mas grandes em arrecadação.

Porque os impostos, no começo do Estado, são estabelecidos conforme a lei e a moderação.

Assim, os homens realizam suas atividades com ânimo e disposição, devido à pequena carga tributária.

Então multiplicam-se os empreendimentos e aumentam os ganhos.

E, com o aumento das atividades, cresce a arrecadação total do Estado.

Depois disso, quando o Estado envelhece e os governantes acostumam-se ao luxo e aos gastos excessivos, aumentam os impostos sobre os súditos.

Então tornam pesadas as cargas tributárias.

E os homens perdem o desejo de trabalhar, por causa daquilo que lhes é retirado dos frutos de seus esforços.

Assim diminuem as atividades produtivas.

E, com a redução das atividades, diminuem também as receitas do Estado.

Então os governantes imaginam que a solução está em aumentar ainda mais os impostos.

Mas isso apenas amplia a corrupção.

Porque os produtores abandonam seus trabalhos e os comerciantes reduzem seus negócios.

Então os mercados enfraquecem e as cidades decaem.

E a arrecadação continua diminuindo, apesar do aumento das taxas.

Até que o Estado alcance estágio em que não consegue sustentar seus exércitos e suas despesas.

Então começa o declínio.

E saiba que a justiça é o fundamento da civilização.

Pois a injustiça destrói o povoamento.

E o significado da injustiça não é apenas tomar riquezas ou propriedades sem compensação.

Ao contrário, a injustiça é mais abrangente.

Todo aquele que toma propriedade de alguém, ou o força a trabalhar sem direito, ou exige dele algo não determinado pela lei, ou impõe tributos ilegítimos, pratica injustiça.

E os destruidores da civilização são numerosos quando a injustiça se espalha.

Pois os homens abandonam o trabalho quando perdem esperança de conservar o fruto de seus esforços.

Então o povoamento diminui e o Estado enfraquece.

E quando o povoamento diminui, os mercados enfraquecem, os lucros desaparecem e as receitas do Estado reduzem-se.

Então o Estado aproxima-se da ruína.

Pois o reino e a autoridade somente se sustentam pela civilização, e a civilização somente se sustenta pela justiça.

E quando a injustiça se espalha, Deus anuncia a destruição da civilização.

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Capítulo

Que as profissões e os meios de subsistência são naturais na civilização.

Saiba que Deus — glorificado seja — criou os homens necessitando de alimento para permanência de suas vidas.

E guiou-os aos meios de obtenção do sustento.

Assim, tornou indispensável para eles o trabalho e a busca.

E os meios de subsistência diferem conforme as diferentes maneiras de obtenção.

Alguns obtêm sustento pela agricultura.

Outros pela criação de animais.

Outros pelo comércio.

Outros pelas artes e profissões.

E todas essas atividades pertencem à civilização humana.

Pois o homem sozinho não consegue satisfazer todas as suas necessidades.

Assim, torna-se indispensável a divisão dos trabalhos entre os homens.

Então um grupo produz alimento.

Outro produz vestimentas.

Outro fabrica ferramentas.

Outro realiza construções.

E mediante cooperação completam-se as necessidades da vida.

E saiba que os lucros obtidos pelos homens são, na verdade, valores de seus trabalhos.

Pois aquilo que é adquirido sem trabalho é raro ou depende do trabalho de outros.

Assim, o fundamento dos ganhos e aquisições é o trabalho humano.

E quando os trabalhos multiplicam-se e aperfeiçoam-se nas cidades, aumentam também os lucros e as riquezas.

Porque as artes refinadas possuem maior valor e maior retorno.

Então as cidades grandes tornam-se mais ricas que as pequenas.

E os habitantes das metrópoles vivem em condições mais amplas.

Mas o excesso de luxo e abundância conduz novamente à corrupção e ao desperdício.

Assim, as condições da civilização alternam-se entre crescimento e decadência.

Capítulo

Que as ciências e as artes somente se multiplicam nas civilizações abundantes e desenvolvidas.

Saiba que as ciências são numerosas apenas quando a civilização é grande e o luxo abundante.

Pois as ciências e as artes pertencem às condições suplementares da civilização, que ultrapassam as necessidades indispensáveis.

Assim, enquanto os homens permanecem ocupados apenas em garantir alimento e sobrevivência, não encontram tempo nem disposição para as ciências e os conhecimentos.

Mas, quando a civilização se amplia e surgem abundância e conforto, alguns homens dedicam-se às ciências e às artes.

Então aparecem os mestres, os estudiosos e os autores.

E as ciências multiplicam-se conforme a multiplicação da civilização.

Por isso, as grandes metrópoles do mundo são os lugares onde as ciências florescem.

Enquanto os povos beduínos permanecem afastados das ciências, devido à simplicidade de suas condições e à limitação às necessidades da vida.

E saiba que o ensino das ciências exige continuidade e repetição.

Pois as aptidões são adquiridas gradualmente.

E a abundância de disciplinas e resumos excessivamente condensados prejudica os estudantes.

Porque o estudante, no início, é incapaz de compreender os problemas complexos e as divergências detalhadas.

Assim, deve-se começar pelas questões simples e gerais.

Depois disso, avança-se gradualmente para aquilo que é mais difícil.

E saiba também que a severidade excessiva no ensino prejudica os estudantes.

Pois ela conduz à preguiça, à mentira e à corrupção do caráter.

Porque aquele que é educado mediante violência e opressão torna-se incapaz de agir livremente.

Então perde a energia da alma e acostuma-se à submissão e à hipocrisia.

E isso corrompe os significados da humanidade nele.

Assim, a boa educação deve ocorrer gradualmente e com suavidade.

E dentre as coisas que prejudicam os estudantes está também a multiplicidade de métodos e terminologias no ensino das ciências.

Pois isso confunde o entendimento e dispersa a mente.

Então o estudante imagina que as ciências são numerosas em si mesmas, quando na verdade a diferença está apenas nos métodos de exposição.

E isso aumenta a dificuldade da aprendizagem.

Portanto, o mais adequado no ensino é limitar-se, no início, a um único método claro e completo.

Depois disso, o estudante pode conhecer as divergências e as diferentes abordagens.

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Capítulo

Que os árabes são os povos mais afastados da política do reino.

Saiba que os árabes, por causa de sua rudeza e vida beduína, são os povos mais difíceis de serem governados uns pelos outros.

Pois eles vivem em independência e liberdade.

E detestam submissão e obediência.

Assim, raramente se submetem à autoridade de um governante, exceto mediante influência religiosa.

Pois a religião remove deles a arrogância e a rivalidade.

Então torna-se possível reuni-los sob autoridade comum.

Por isso, o Islã foi o fundamento de seu reino.

E quando a influência religiosa enfraqueceu, os árabes retornaram à rivalidade e à dispersão.

Assim, seu poder fragmentou-se.

E saiba que os árabes, quando conquistam regiões rapidamente, frequentemente conduzem-nas à ruína.

Pois sua natureza beduína está afastada das artes da construção e da preservação da civilização.

Eles estão habituados à obtenção rápida mediante domínio e saque.

E não possuem paciência para as obras da urbanização e da administração contínua.

Assim, quando dominam cidades e metrópoles, utilizam os recursos sem reconstruí-los adequadamente.

Então as condições do povoamento enfraquecem.

Mas isso não ocorre por incapacidade natural absoluta; ao contrário, ocorre devido aos hábitos da vida beduína que predominam neles.

E quando se estabelecem por longo período numa civilização urbana, transformam-se gradualmente segundo os hábitos dela.

E dentre as naturezas dos árabes está que eles são os mais distantes dos ofícios e das artes.

Pois as artes são hábitos urbanos adquiridos pela estabilidade da civilização.

Enquanto os árabes permanecem mais próximos da simplicidade beduína.

Assim, as profissões refinadas, as construções elaboradas e as artes detalhadas raramente aparecem entre eles, exceto quando permanecem longo tempo sob influência de civilizações urbanas.

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Capítulo

Que os povos vencidos tendem a imitar os vencedores.

E a razão disso é que a alma acredita na perfeição daquele que a domina.

Assim, o vencido vê o vencedor com olhar de grandeza e considera perfeitas suas condições, hábitos e modos.

Então procura imitá-lo em vestimentas, armas, montarias, costumes e demais estados.

E isso ocorre porque a submissão produz admiração interior.

Assim, os filhos sempre imitam seus pais, os estudantes seus mestres e os povos vencidos seus conquistadores.

E frequentemente isso conduz o povo derrotado ao abandono gradual de suas próprias tradições e características.

Então passam a considerar inferiores seus próprios hábitos.

E isso continua até que desapareçam os sinais distintivos de sua identidade.

E saiba que a imitação é mais forte quando o domínio do vencedor é completo e prolongado.

Pois a convivência contínua fortalece a influência psicológica da submissão.

E os homens acreditam que a causa da superioridade do vencedor está em seus costumes e aparências.

Então esforçam-se para reproduzi-los.

Mas a verdadeira causa da vitória frequentemente está na força da asabiyyah e não nos aspectos exteriores.

Entretanto, a maioria dos homens não percebe isso.

Assim, ocupam-se das aparências e abandonam as causas profundas do poder.

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Capítulo

Que o reino, quando alcança o máximo da expansão, aproxima-se da decadência.

Pois os Estados, no início, são simples quanto às despesas e limitados quanto às necessidades.

Então suas receitas bastam para sustentá-los.

Mas, quando o reino se amplia e o luxo cresce, multiplicam-se os gastos do governante, dos soldados e dos servidores.

Então aumentam os impostos e as imposições sobre os súditos.

E os governantes habituam-se aos prazeres, às construções grandiosas, às vestimentas luxuosas e à multiplicidade de servidores.

Assim, tornam-se incapazes de retornar à simplicidade do início do Estado.

Então os gastos continuam crescendo progressivamente.

E quando as receitas não bastam, recorrem à opressão e à injustiça.

Assim confiscam propriedades, multiplicam tributos e interferem nos negócios dos comerciantes e produtores.

Então os homens perdem o desejo de produzir.

E o povoamento enfraquece.

Quando isso se prolonga, o Estado torna-se velho e debilitado.

Então perde gradualmente a força da asabiyyah que o sustentava em seu início.

E os governantes passam a depender de soldados mercenários e auxiliares estrangeiros.

Porque os filhos do Estado tornaram-se acostumados ao luxo e afastados da coragem.

Então o governante busca proteção em grupos externos.

Mas esses grupos não possuem lealdade verdadeira ao Estado; apenas servem enquanto recebem benefícios.

Assim, a autoridade torna-se artificial e frágil.

E quando surge um grupo novo possuidor de forte asabiyyah, ele encontra o Estado enfraquecido internamente.

Então o conquista com facilidade.

E frequentemente os habitantes do próprio Estado auxiliam os conquistadores, devido ao ódio produzido pela injustiça e pelos impostos excessivos.

Assim ocorre a decadência dos Estados.

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Capítulo

Que os Estados possuem estágios e transformações.

Saiba que os Estados possuem, como os indivíduos, idades e condições naturais.

E geralmente passam por cinco estágios.

O primeiro estágio é o da vitória e conquista.

Nele, o governante compartilha a glória com seu grupo e mantém os costumes da asabiyyah.

O segundo estágio é o da consolidação da autoridade.

Nele, o governante concentra o poder em si mesmo e afasta seus companheiros da participação na autoridade.

Então ele impede que os membros de sua asabiyyah participem do poder, para que a autoridade permaneça exclusivamente em suas mãos.

Assim, recorre a servos, clientes e auxiliares externos para fortalecer sua posição contra seus antigos companheiros.

O terceiro estágio é o da tranquilidade e do descanso.

Nele, o governante dedica-se à coleta de riquezas, à construção de monumentos, à ampliação das cidades e ao refinamento das condições do reino.

Então surgem grandes construções, fortalezas, palácios e cidades magníficas.

E multiplicam-se os exércitos, os servidores e os auxiliares.

O quarto estágio é o da satisfação e conformidade.

Nele, os governantes contentam-se com aquilo que seus predecessores construíram.

Assim, seguem seus caminhos e imitam suas tradições.

E evitam mudanças importantes, acreditando que a preservação do que existe é melhor que inovação.

O quinto estágio é o da extravagância e dissipação.

Nele, o governante entrega-se aos prazeres, distribui riquezas entre favoritos e companheiros de diversão, e escolhe para altos cargos pessoas indignas e incapazes.

Então a administração enfraquece e a corrupção espalha-se.

E o governante desperdiça as reservas acumuladas pelos predecessores.

Assim, destrói aquilo que foi construído no início do Estado.

E quando o Estado alcança esse estágio, torna-se acometido por enfermidade crônica difícil de curar.

Então aproxima-se inevitavelmente da ruína.

Porque perdeu a força da asabiyyah, espalhou a injustiça, multiplicou o luxo e corrompeu as condições da civilização.

Assim, Deus permite a ascensão de outro grupo mais forte, que herda o reino.

E esta é a condição dos Estados no mundo.

Capítulo

Que o governante, quando se separa de sua asabiyyah original, aproxima-se da fraqueza.

Saiba que o fundador do Estado necessita de sua asabiyyah para alcançar o domínio.

Pois ela é a fonte de sua força e proteção.

Mas, quando o poder se consolida para ele, começa a temer aqueles que participaram da autoridade com ele.

Porque acredita que possam disputar-lhe o reino.

Então procura afastá-los gradualmente.

E substitui-os por servos, clientes e estrangeiros.

Assim, enfraquece a força original do Estado.

Pois os novos auxiliares não possuem solidariedade verdadeira nem disposição para morrer pelo governante como possuíam os membros da asabiyyah inicial.

Ao contrário, sua ligação depende de recompensas e benefícios.

Então, quando os benefícios cessam ou a situação se enfraquece, desaparece a lealdade deles.

E isso constitui uma das causas ocultas da decadência dos Estados.

Porque a autoridade torna-se apoiada em aparências externas e não mais em solidariedade natural.

Assim, o Estado permanece de pé exteriormente, enquanto sua essência já se enfraqueceu.

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Capítulo

Que o luxo destrói as qualidades da coragem.

Saiba que os homens acostumados ao luxo e à abundância tornam-se dependentes do conforto.

Então afastam-se da resistência às dificuldades.

E seus corpos e almas enfraquecem.

Pois a coragem nasce da capacidade de suportar dureza, fome, medo e privação.

Enquanto o excesso de conforto produz apego à segurança e temor da perda.

Assim, os filhos das famílias nobres criados no luxo tornam-se menos aptos à guerra e à defesa.

Ao contrário daqueles que vivem em condições simples e austeras.

Por isso, os povos beduínos são mais preparados para combate e conquista.

E frequentemente ocorre que um pequeno grupo rude triunfe sobre um Estado poderoso e numeroso, porque a força da coragem e da asabiyyah supera a mera quantidade.

E Deus concede domínio a quem deseja dentre seus servos.

Capítulo

Que os povos submetidos ao domínio prolongado tornam-se enfraquecidos em sua disposição para defesa.

Pois a submissão contínua destrói a energia da alma.

E isso porque o homem, quando é impedido de agir por si mesmo e acostumado à dependência de outro, perde gradualmente a coragem e a confiança.

Então torna-se semelhante àquele que foi domesticado dentre os animais.

Assim, os povos submetidos durante longo período ao domínio tirânico tornam-se incapazes de defender-se ou buscar liberdade.

Pois a opressão destrói a força interior das almas.

E isso ocorre especialmente quando os governantes utilizam severidade excessiva, castigos contínuos e humilhação.

Então os homens acostumam-se ao medo e à submissão.

E perdem o desejo de resistência.

Ao contrário dos povos beduínos e independentes, pois eles preservam o senso de honra e a disposição para defesa.

Por isso, os povos submetidos necessitam frequentemente de auxílio externo para libertarem-se.

Porque a força da resistência já desapareceu dentre eles.

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Capítulo

Que a injustiça anuncia a ruína da civilização.

Saiba que a agressão contra os bens dos homens remove deles a esperança de obter lucro mediante trabalho.

Então abandonam a produção e os empreendimentos.

Pois, quando percebem que o resultado de seus esforços será tomado injustamente, perdem o desejo de trabalhar.

Assim, diminuem os mercados e enfraquece o povoamento.

E a injustiça não se limita à tomada de propriedades.

Ao contrário, toda imposição indevida, todo trabalho forçado, toda tributação excessiva e toda interferência arbitrária nas atividades dos homens constituem injustiça.

E quando a injustiça se torna generalizada, acelera-se a destruição da civilização.

Porque os homens escondem riquezas, abandonam negócios e afastam-se das cidades.

Então as regiões tornam-se vazias e os Estados enfraquecem.

E saiba que Deus proibiu a injustiça entre seus servos por causa dos danos que ela causa à civilização e à ordem do mundo.

Pois a continuidade do povoamento depende da justiça.

E quando o povoamento se enfraquece, diminuem necessariamente as receitas do Estado.

Então os governantes aumentam ainda mais os impostos e as exigências sobre os súditos.

Assim, a corrupção intensifica-se progressivamente.

E o Estado aproxima-se do colapso.

Pois o fundamento do reino é a civilização, e o fundamento da civilização é a justiça.

Quando a justiça desaparece, desaparece também o povoamento.

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Capítulo

Que as cidades e metrópoles possuem idades naturais como os indivíduos e os Estados.

Saiba que as cidades surgem inicialmente pequenas e simples.

Então crescem gradualmente conforme o crescimento da civilização e do reino.

E multiplicam-se nelas as construções, os mercados, as artes e os habitantes.

Assim alcançam o auge da prosperidade.

Mas, quando o luxo aumenta excessivamente e os impostos tornam-se pesados, começam os sinais de decadência.

Então diminuem as atividades econômicas e enfraquece o povoamento.

E muitos habitantes abandonam as cidades em busca de regiões menos opressivas.

Assim, os edifícios deterioram-se e os mercados esvaziam-se.

E frequentemente permanecem nas cidades apenas os sinais exteriores de sua antiga grandeza.

Pois a essência da prosperidade já desapareceu.

E saiba que a destruição das cidades ocorre gradualmente e não de uma só vez.

Assim como o crescimento da civilização acontece pouco a pouco, também sua decadência se desenvolve progressivamente.

Até que a cidade se torne ruína após ter sido centro de povoamento e poder.

E esta é a condição das civilizações humanas no mundo.

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Capítulo

Que a abundância de servos e auxiliares no Estado é sinal de decadência.

Pois os governantes, quando se afastam da simplicidade e da austeridade, passam a cercar-se de grande número de servidores, guardas e auxiliares.

Então aumentam os gastos do reino.

E os governantes tornam-se dependentes desses auxiliares para proteção e administração.

Assim, enfraquece-se ainda mais a coragem natural dos filhos do Estado.

Então o governante passa a confiar mais nos auxiliares estrangeiros e nos servidores do que nos membros de sua própria asabiyyah.

E isso é sinal de enfraquecimento da autoridade natural.

Pois o Estado forte em seu início necessita de poucos auxiliares, devido à força da solidariedade entre seus membros.

Mas, quando a asabiyyah enfraquece, cresce a necessidade de aparato externo para sustentar o reino.

Assim, multiplicam-se os guardas, os soldados mercenários, os administradores e os cobradores de impostos.

Então aumentam também as despesas e os encargos sobre os súditos.

E saiba que a multiplicação excessiva de funcionários no Estado conduz inevitavelmente à corrupção administrativa.

Porque muitos deles passam a buscar seus próprios interesses.

Então espalham injustiça e exploração entre o povo.

E o governante torna-se incapaz de controlar completamente seus auxiliares devido ao grande número deles.

Assim, a corrupção alastra-se pelas instituições do reino.

  •  

Capítulo

Que os governantes, no fim dos Estados, tornam-se inclinados à extravagância.

Pois o governante, quando nasce já em meio ao luxo e à abundância, desconhece as dificuldades pelas quais passaram os fundadores do Estado.

Assim, considera naturais as riquezas e os confortos que herdou.

Então aumenta continuamente os gastos em prazeres, construções, presentes e cerimônias.

E distribui riquezas para obter lealdade e elogios.

Mas isso corrói gradualmente as reservas acumuladas pelos predecessores.

E frequentemente os governantes do fim dos Estados escolhem companheiros de diversão e pessoas indignas para posições importantes.

Porque preferem aqueles que os agradam aos que possuem mérito e competência.

Então enfraquece a administração do reino.

E as decisões passam a ser guiadas por paixões e interesses pessoais.

Assim, a corrupção alcança o centro da autoridade.

E quando isso ocorre juntamente com impostos excessivos, enfraquecimento militar e dissolução da asabiyyah, o Estado aproxima-se rapidamente da ruína.

Pois a essência do poder já desapareceu, ainda que permaneçam os símbolos externos do reino.

Capítulo

Que os exércitos, no início do Estado, são poucos em número e fortes em coragem; e no fim do Estado tornam-se numerosos e fracos.

Saiba que os fundadores dos Estados dependem, no início, da força da asabiyyah e da coragem natural.

Assim, seus exércitos são pequenos em quantidade, mas fortes em disposição para combate.

Pois cada homem luta defendendo sua honra, seus parentes e sua solidariedade grupal.

Então a disposição para a morte é grande entre eles.

Mas, quando o Estado se consolida e o luxo se espalha, os filhos do reino acostumam-se ao conforto.

Assim, enfraquece-se neles a coragem.

Então o governante aumenta o número dos soldados para compensar a perda da força interior.

E recorre a mercenários e auxiliares estrangeiros.

Portanto, os exércitos tornam-se numerosos em aparência, mas fracos em essência.

Porque muitos dentre eles lutam apenas pelo pagamento e não por solidariedade ou convicção.

Assim, quando enfrentam grupos possuidores de forte asabiyyah, frequentemente são derrotados apesar de sua quantidade.

E saiba que a coragem verdadeira não depende apenas do número de homens ou da abundância de armas.

Ao contrário, sua origem está na firmeza das almas e na união das intenções.

Por isso, pequenos grupos unidos frequentemente triunfam sobre grandes exércitos divididos.

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Capítulo

Que o comércio e os mercados prosperam mediante segurança e justiça.

Pois os comerciantes somente realizam viagens e investimentos quando possuem confiança na proteção de suas riquezas.

Assim, quando os caminhos são seguros e os governantes evitam injustiça, multiplicam-se os mercados e os negócios.

Então aumentam os lucros e as receitas do povo e do Estado.

Mas, quando os governantes espalham opressão, confiscam riquezas ou permitem insegurança nas estradas, os comerciantes escondem seus bens e abandonam viagens.

Então os mercados enfraquecem e as cidades empobrecem.

E saiba que o comércio depende fortemente da expectativa de lucro.

Assim, quando os impostos tornam-se excessivos, diminui o interesse pelas atividades comerciais.

Porque os ganhos deixam de compensar os riscos e os esforços.

Então as atividades econômicas reduzem-se gradualmente.

E quando os mercados enfraquecem, reduzem-se também as receitas tributárias do Estado.

Então os governantes aumentam novamente os impostos, imaginando compensar a diminuição da arrecadação.

Mas isso apenas intensifica a corrupção econômica.

Pois os comerciantes abandonam os negócios e os produtores reduzem suas atividades.

Assim, a prosperidade desaparece gradualmente.

E saiba que a segurança é um dos maiores fundamentos da civilização.

Pois os homens, quando temem pela própria vida ou pelos próprios bens, afastam-se das atividades produtivas.

Então a agricultura enfraquece, o comércio diminui e as cidades entram em decadência.

Por isso, os governantes justos preocupam-se com a proteção das estradas, dos mercados e das propriedades.

Porque sabem que a prosperidade do povo fortalece o reino.

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Capítulo

Que as artes refinadas aparecem somente após a consolidação da civilização.

Saiba que os homens, no início da civilização, ocupam-se apenas das necessidades indispensáveis da vida.

Assim, concentram-se em alimento, moradia, defesa e obtenção do sustento.

Mas, quando a civilização se fortalece e surgem abundância e conforto, as almas passam a desejar refinamento e beleza.

Então aparecem as artes relacionadas à ornamentação, à música, à arquitetura refinada, às vestimentas luxuosas e aos utensílios elaborados.

E essas artes aperfeiçoam-se progressivamente nas grandes cidades.

Pois a abundância de riqueza permite aos homens dedicar tempo às coisas além da necessidade.

E saiba que a perfeição das artes é sinal da perfeição da civilização.

Mas também é frequentemente sinal da aproximação da decadência.

Porque as nações, quando atingem o máximo refinamento, inclinam-se ao excesso de luxo e afastam-se da austeridade que sustentou seu poder no início.

Então enfraquecem gradualmente as qualidades da coragem e da resistência.

Assim, o refinamento extremo frequentemente acompanha o envelhecimento dos Estados.

Capítulo

Que a escrita e os registros administrativos surgem com o fortalecimento do reino e da civilização.

Saiba que os homens, no início da civilização e dos Estados, possuem poucas necessidades administrativas.

Pois as condições são simples e as relações limitadas.

Assim, não necessitam de muitos registros e documentos.

Mas, quando o reino se amplia e aumentam as receitas, os exércitos, os impostos e os negócios, torna-se indispensável registrar informações e organizar os assuntos do Estado.

Então surgem os escribas e os administradores.

E a arte da escrita desenvolve-se conforme o desenvolvimento da civilização.

Pois ela é uma das artes urbanas refinadas.

E saiba que a escrita é uma das características próprias da espécie humana.

Porque ela preserva conhecimentos, transmite ordens e conserva notícias das gerações passadas.

Assim, por meio dela, os saberes permanecem além da vida dos indivíduos.

E os Estados dependem fortemente dela para administração de receitas, despesas, correspondências e decretos.

Portanto, quando a civilização enfraquece e os Estados entram em decadência, deteriora-se também a qualidade da escrita e da administração.

Porque as artes seguem as condições gerais da civilização.

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Capítulo

Que as ciências florescem quando os governantes honram os estudiosos.

Pois os homens dedicam-se às ciências e aos conhecimentos quando encontram estima, proteção e sustento.

Assim, os governantes que valorizam os estudiosos contribuem para multiplicação das ciências.

Então surgem autores, professores e pesquisadores.

E os estudantes deslocam-se entre cidades e regiões em busca de aprendizado.

Assim, a civilização fortalece-se por meio do conhecimento.

Mas, quando os governantes desprezam as ciências ou perseguem os estudiosos, enfraquece-se o movimento intelectual.

Então as ciências entram em decadência gradualmente.

Porque os conhecimentos dependem da continuidade do ensino e da transmissão.

E saiba que as grandes civilizações são reconhecidas tanto pela força política quanto pela abundância das ciências e das artes.

Pois a ciência é uma das formas mais elevadas do refinamento civilizacional.

Capítulo

Que a educação das crianças influencia profundamente o caráter das nações.

Saiba que os hábitos adquiridos na infância tornam-se firmes na alma.

Pois a criança cresce segundo aquilo a que é acostumada desde o início.

Assim, quando é educada com severidade excessiva, medo contínuo e humilhação, acostuma-se à submissão e à incapacidade.

Então perde a coragem de agir livremente e passa a depender dos outros em suas decisões.

E frequentemente recorre à mentira, à dissimulação e à hipocrisia para escapar da opressão.

Porque a violência destrói a sinceridade natural das almas.

Ao contrário, quando a educação ocorre com equilíbrio, disciplina moderada e orientação adequada, desenvolvem-se coragem, iniciativa e firmeza de caráter.

E saiba que isso não se aplica apenas aos indivíduos, mas também aos povos.

Pois as nações submetidas durante longo tempo à tirania tornam-se semelhantes às crianças educadas na opressão.

Assim, enfraquecem nelas as qualidades da independência e da defesa.

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Capítulo

Que os homens seguem os costumes predominantes de seu tempo e de sua civilização.

Pois a alma humana inclina-se naturalmente à imitação daqueles com quem convive.

Assim, os hábitos, as vestimentas, as linguagens e os modos de agir espalham-se entre os homens pela convivência contínua.

E cada geração recebe da anterior muitos de seus costumes.

Então as tradições consolidam-se até parecerem naturais.

Mas, quando as condições da civilização mudam, transformam-se também os costumes dos homens.

Porque os hábitos dependem das condições da vida e dos modos de obtenção do sustento.

Assim, os habitantes do deserto possuem costumes diferentes dos habitantes das cidades.

E os habitantes das regiões frias diferem dos habitantes das regiões quentes.

Do mesmo modo, os povos pobres diferem dos povos ricos.

Pois as condições externas influenciam os estados interiores das almas.

E aquele que ignora isso não compreende corretamente as diferenças entre as nações e as gerações.

Capítulo

Que a diferença das regiões e dos climas influencia os corpos, os caracteres e as condições dos povos.

Saiba que as regiões habitadas da terra diferem conforme os climas, o calor, o frio e as condições do ar.

E essas diferenças produzem efeitos nos corpos e nas almas dos habitantes.

Assim, os povos das regiões quentes tendem à leveza, à rapidez de emoção e à inclinação para alegria e despreocupação.

Enquanto os povos das regiões frias tendem à reflexão, à perseverança e à contenção.

E os corpos também diferem conforme essas condições.

Pois a influência do clima afeta as cores, as formas e as disposições naturais.

Do mesmo modo, as condições de abundância ou escassez influenciam os caracteres.

Assim, os povos habituados à fome e à austeridade tornam-se mais resistentes e pacientes.

Enquanto os povos acostumados ao luxo e à abundância tornam-se mais frágeis e inclinados ao conforto.

E saiba que essas diferenças não significam superioridade absoluta de um povo sobre outro.

Ao contrário, cada condição produz qualidades adequadas ao modo de vida correspondente.

  •  

Capítulo

Que os povos mais simples e austeros estão mais próximos da coragem do que os povos entregues ao luxo.

Pois a coragem nasce da resistência às dificuldades e da familiaridade com perigos.

Assim, aqueles que vivem em condições duras acostumam-se à paciência, à vigilância e à defesa.

Enquanto os homens do luxo tornam-se dependentes da segurança proporcionada por outros.

Então perdem gradualmente as qualidades da coragem.

E frequentemente os povos simples triunfam sobre civilizações refinadas e poderosas.

Não porque possuam mais riqueza ou tecnologia, mas porque preservam força interior e solidariedade grupal.

Assim, a força verdadeira dos Estados não depende apenas da abundância material.

Ao contrário, depende principalmente da firmeza das almas e da união das intenções.

E quando essas qualidades desaparecem, a decadência já começou, ainda que permaneçam os sinais exteriores da prosperidade.

Capítulo

Que a autoridade governante necessita inevitavelmente de força para preservar o reino.

Saiba que o reino e a autoridade não se sustentam apenas por leis e ordens.

Ao contrário, necessitam de força pela qual os homens sejam compelidos à obediência.

Pois muitos dentre os homens seguem suas paixões e desejos.

Assim, se não houver poder que os impeça da agressão e da injustiça, espalhar-se-á a corrupção.

Portanto, o governante necessita de exércitos e auxiliares para proteção do reino.

Mas a força do exército depende da força da asabiyyah.

Pois os homens não se dispõem sinceramente à defesa senão por solidariedade e vínculo.

E quando a asabiyyah enfraquece, o governante recorre a mercenários e grupos estrangeiros.

Então o Estado perde parte de sua força natural.

Porque os auxiliares estrangeiros servem pelo pagamento e não por lealdade verdadeira.

Assim, o reino torna-se dependente de recursos financeiros contínuos para manutenção da autoridade.

E quando as receitas diminuem, enfraquece-se também a força militar.

Então aparecem sinais de decadência do Estado.

  •  

Capítulo

Que o excesso de centralização enfraquece os homens e destrói a iniciativa.

Pois quando todas as decisões dependem exclusivamente do governante e de seus representantes, os homens acostumam-se à passividade.

Então deixam de agir por iniciativa própria.

E isso enfraquece gradualmente a vitalidade da civilização.

Porque as sociedades fortes são aquelas em que existe participação ativa dos homens na proteção de suas condições e interesses.

Mas, quando tudo é transferido ao aparato do Estado, os homens tornam-se semelhantes aos dependentes incapazes de agir sem comando.

Assim, desaparece deles a energia da responsabilidade e da autonomia.

E frequentemente os governantes acreditam fortalecer o reino mediante controle excessivo.

Mas, na realidade, ampliam a fragilidade interna da sociedade.

Pois a autoridade exageradamente concentrada corrói a capacidade espontânea dos homens.

E quando o Estado enfraquece, já não existem entre o povo as qualidades necessárias para sustentá-lo.

Então o colapso torna-se mais rápido.

Capítulo

Que as nações conquistadoras adotam gradualmente os hábitos das civilizações que dominam.

Saiba que os grupos conquistadores, quando estabelecem domínio sobre grandes civilizações urbanas, passam gradualmente a adotar seus costumes e hábitos.

Pois os homens inclinam-se naturalmente às condições de conforto e refinamento quando estas lhes são apresentadas.

Assim, os conquistadores abandonam pouco a pouco a rudeza que lhes concedeu força no início.

Então passam a utilizar vestimentas luxuosas, construções refinadas e hábitos urbanos.

E seus filhos crescem já acostumados ao conforto e à abundância.

Assim, enfraquece-se neles a coragem e dissolve-se a asabiyyah original.

E frequentemente ocorre que o grupo conquistador, após algumas gerações, torna-se semelhante ao povo anteriormente dominado.

Então surge outro grupo mais rude e mais forte que o substitui.

E esta é uma das causas da alternância dos Estados entre as nações.

  •  

Capítulo

Que a abundância de riqueza no fim dos Estados frequentemente produz corrupção moral.

Pois os homens, quando mergulham excessivamente no luxo, passam a buscar prazeres e satisfações contínuas.

Então tornam-se inclinados à extravagância, à competição em ostentação e ao desperdício.

E os governantes incentivam essas condições por meio de festas, construções grandiosas e distribuição de riquezas.

Assim, as almas afastam-se da austeridade e da disciplina.

E os filhos das famílias nobres crescem sem conhecer dificuldades ou responsabilidades.

Então tornam-se incapazes de sustentar as condições do reino herdado.

Além disso, a abundância excessiva desperta inveja, rivalidade e disputa por posições e riquezas.

Assim, espalham-se intrigas e divisões internas entre os membros do Estado.

E isso enfraquece ainda mais a coesão necessária para preservação do reino.

Pois a corrupção moral precede frequentemente a decadência política.

E quando os homens deixam de valorizar coragem, honra e responsabilidade, aproximam-se do enfraquecimento coletivo.

Capítulo

Que a civilização, quando alcança o extremo do refinamento, aproxima-se naturalmente da decadência.

Pois toda coisa que atinge o máximo de sua natureza começa a inclinar-se para o declínio.

Assim ocorre com os indivíduos, os Estados, as cidades e as civilizações.

Quando a civilização alcança o auge da abundância, das artes e do luxo, enfraquecem-se gradualmente as causas que produziram sua força no início.

Pois os homens passam da austeridade para o conforto, da coragem para a dependência, e da simplicidade para a extravagância.

Então desaparecem deles as qualidades da resistência e da disciplina.

E as gerações nascidas no luxo ignoram as dificuldades pelas quais passaram os fundadores do reino.

Assim, acreditam que a autoridade e a prosperidade existem naturalmente e continuarão para sempre.

Então negligenciam a preservação das causas que sustentam o Estado.

E quando os sinais da decadência aparecem, poucos os percebem no início.

Porque a civilização continua possuindo aparência de força, riqueza e organização.

Mas a essência interior já se enfraqueceu.

Assim, os homens observam os palácios, os exércitos e os mercados e imaginam que o reino permanece sólido.

Enquanto a asabiyyah, a coragem e a vitalidade já começaram a desaparecer.

E frequentemente o colapso torna-se visível apenas quando um grupo externo mais forte surge e encontra o Estado vazio de sua força original.

Então ocorre a queda rapidamente.

  •  

Capítulo

Que a memória das dificuldades desaparece nas gerações tardias dos Estados.

Pois os fundadores do reino conheceram pobreza, luta, medo e necessidade.

Assim, preservavam austeridade, vigilância e coragem.

Mas os filhos e descendentes crescem em meio ao conforto proporcionado pelas conquistas anteriores.

Então desconhecem as causas reais que produziram o poder do Estado.

E passam a considerar naturais o luxo, a segurança e a abundância.

Assim, afastam-se dos hábitos de disciplina e resistência.

E isso enfraquece gradualmente a capacidade do reino de defender-se e renovar sua força.

Assim, quando surgem perigos ou dificuldades, os descendentes do Estado mostram-se menos preparados para enfrentá-los.

Porque perderam os hábitos que fortaleciam seus predecessores.

E frequentemente procuram preservar o reino apenas por meio de riqueza, cerimônias e aparência de poder.

Mas isso não substitui a força interior produzida pela asabiyyah e pela coragem.

Assim, o Estado continua existindo exteriormente, enquanto suas bases já se encontram enfraquecidas.

  •  

Capítulo

Que os governantes, no fim dos Estados, tornam-se mais inclinados ao medo e à suspeita.

Pois o fundador do reino possui confiança em sua asabiyyah e em seus companheiros.

Assim, sente-se seguro quanto à preservação de sua autoridade.

Mas os governantes tardios, após o enfraquecimento da solidariedade grupal, começam a temer conspirações e disputas.

Então tornam-se desconfiados de todos ao redor.

E frequentemente eliminam antigos aliados e membros influentes do reino por receio de perda do poder.

Assim, enfraquecem ainda mais a coesão interna do Estado.

Além disso, cercam-se de guardas, auxiliares e sistemas de vigilância.

Porque já não confiam espontaneamente no povo nem nos membros de sua autoridade.

E o medo torna-se uma das características dominantes dos governantes decadentes.

Enquanto os fundadores do reino possuíam mais coragem e segurança interior.

E saiba que o excesso de medo no governante frequentemente conduz à tirania.

Pois ele passa a enxergar ameaça em toda independência e força existente na sociedade.

Então amplia punições, controles e opressões.

Assim, cresce o ódio do povo contra o Estado.

E isso acelera ainda mais sua decadência.

  •  

Capítulo

Que a opressão destrói a esperança e enfraquece a atividade humana.

Pois o homem somente trabalha e se esforça quando possui esperança de usufruir o resultado de seu trabalho.

Mas, quando acredita que aquilo que produz será tomado injustamente, perde o desejo de agir.

Então enfraquecem agricultura, comércio, artes e construções.

E os homens passam a buscar apenas o mínimo necessário para sobreviver.

Assim, diminui o povoamento e enfraquece o reino.

E saiba que a esperança é um dos maiores estímulos para a atividade humana.

Assim, quando os homens sentem segurança quanto às suas propriedades e ganhos, multiplicam seus esforços e empreendimentos.

Então prosperam os mercados, aumentam as construções e fortalece-se a civilização.

Mas, quando a injustiça e a opressão espalham-se, desaparece a confiança no futuro.

Então os homens escondem riquezas, abandonam negócios e afastam-se das atividades produtivas.

Assim, o Estado destrói com as próprias mãos as bases de sua prosperidade.

Pois a riqueza do reino não consiste apenas em ouro e prata armazenados.

Ao contrário, consiste principalmente na vitalidade do povoamento e na continuidade do trabalho humano.

E quando os homens deixam de produzir, enfraquecem inevitavelmente as receitas do Estado.

Então os governantes recorrem a novas formas de opressão para compensar as perdas.

Assim, amplia-se ainda mais a corrupção.

E frequentemente os governantes não percebem que a causa da redução das receitas está na própria injustiça que praticam.

Ao contrário, imaginam que o problema decorre apenas da insuficiência dos impostos.

Então aumentam ainda mais as cargas sobre os súditos.

E isso acelera o declínio da civilização.

  •  

Capítulo

Que a civilização depende da cooperação entre os homens.

Saiba que o homem sozinho é incapaz de satisfazer todas as necessidades de sua existência.

Pois necessita de alimento, vestimenta, moradia, proteção e instrumentos.

E nenhuma dessas coisas é obtida plenamente por um único indivíduo isolado.

Assim, tornou-se indispensável a cooperação entre os homens.

Então um cultiva a terra, outro fabrica ferramentas, outro constrói moradias e outro protege os caminhos.

E mediante divisão dos trabalhos completam-se as condições da vida humana.

Por isso, a civilização cresce conforme cresce a cooperação.

E quando os laços de solidariedade e confiança enfraquecem, enfraquece-se também a civilização.

Pois a sociedade humana depende da interdependência entre seus membros.

E saiba que os Estados fortes são aqueles que conseguem preservar simultaneamente:
a justiça,
a solidariedade,
a segurança,
e a disposição dos homens para cooperar.

Quando uma dessas bases se dissolve, começam os sinais da decadência.

Capítulo

Que a divisão dos trabalhos aumenta a produção e fortalece a civilização.

Saiba que os trabalhos humanos tornam-se mais perfeitos quando são divididos entre diferentes pessoas.

Pois cada indivíduo, ao dedicar-se continuamente a uma única atividade, aperfeiçoa sua habilidade nela.

Então aumenta a qualidade do trabalho e cresce a quantidade da produção.

Assim, mediante divisão dos trabalhos, obtém-se muito mais do que aquilo que os homens conseguiriam individualmente.

E esta é uma das causas do crescimento das cidades e da abundância das riquezas.

Pois nas grandes metrópoles existem numerosas profissões e artes especializadas.

Então cada grupo dedica-se a um tipo específico de atividade.

Assim, multiplicam-se os produtos, os lucros e os meios de subsistência.

Enquanto nas regiões pequenas e pouco povoadas os homens são obrigados a realizar muitas tarefas por si mesmos.

Então as artes permanecem simples e limitadas.

E saiba que a abundância da produção depende da abundância da cooperação.

Porque a força de muitos homens reunidos supera amplamente a capacidade de um único indivíduo.

Assim, a civilização desenvolve-se conforme cresce a especialização das atividades humanas.

Mas, quando a civilização entra em decadência, enfraquece-se também a perfeição das artes e profissões.

Porque as atividades refinadas dependem da abundância econômica e da estabilidade do povoamento.

Então muitas artes desaparecem gradualmente com a ruína das cidades e dos Estados.

  •  

Capítulo

Que a autoridade excessivamente severa destrói a coragem dos súditos.

Pois os homens submetidos continuamente ao medo e à punição tornam-se incapazes de agir com independência.

Então acostumam-se à obediência passiva e perdem a disposição para iniciativa.

E frequentemente recorrem à mentira e à dissimulação para proteger-se da opressão.

Assim, a tirania corrói o caráter dos homens.

E saiba que os povos educados sob excesso de severidade tornam-se mais frágeis diante dos perigos.

Porque a coragem depende da confiança da alma em sua própria capacidade de agir.

Mas o medo constante destrói essa confiança.

Então os homens tornam-se semelhantes àqueles que aguardam sempre comando e proteção externos.

E isso enfraquece profundamente a vitalidade da civilização.

E frequentemente os governantes imaginam que fortalecem o reino mediante aumento da severidade e das punições.

Mas, na realidade, produzem súditos incapazes de defender o Estado ou agir com coragem.

Pois o excesso de opressão destrói a energia interior dos homens.

Assim, quando surgem perigos externos, o povo enfraquecido pela tirania mostra-se incapaz de resistência firme.

Enquanto os povos acostumados à liberdade e à responsabilidade preservam maior força de caráter.

  •  

Capítulo

Que os impostos moderados fortalecem a prosperidade do reino.

Saiba que os governantes justos estabelecem impostos moderados e proporcionais às capacidades dos súditos.

Assim, os homens realizam suas atividades econômicas com entusiasmo e esperança de lucro.

Então aumentam agricultura, comércio, construções e artes.

E, com a multiplicação das atividades, crescem naturalmente as receitas do Estado.

Porque a prosperidade geral amplia a base de arrecadação.

Mas, quando os impostos tornam-se excessivos, os homens reduzem seus esforços e abandonam empreendimentos.

Então diminuem os mercados e enfraquecem os ganhos.

E as receitas do Estado começam a cair, apesar do aumento das taxas.

Assim, a moderação tributária produz frequentemente maiores receitas do que a opressão fiscal.

E isso porque a riqueza do Estado depende da vitalidade econômica da sociedade.

Quando os súditos prosperam, prospera também o reino.

Mas, quando os homens são esmagados por tributos e exigências, enfraquece-se toda a civilização.

  •  

Capítulo

Que os homens tendem a imitar os hábitos das classes dominantes.

Pois as almas humanas acreditam na perfeição daqueles que ocupam posição elevada e autoridade.

Assim, os homens procuram imitar governantes, nobres e grupos poderosos em suas vestimentas, hábitos e estilos de vida.

Então os costumes das elites espalham-se gradualmente por toda a sociedade.

E frequentemente os homens abandonam seus hábitos antigos para aproximar-se dos modos daqueles que consideram superiores.

Assim, as transformações culturais propagam-se por imitação social.

E saiba que isso ocorre especialmente quando o domínio político e psicológico das classes superiores torna-se forte.

Pois a submissão produz admiração e desejo de semelhança.

Então as nações vencidas passam a reproduzir os hábitos dos vencedores.

E isso ocorre não apenas nas vestimentas e aparências externas, mas também nas crenças, nos costumes e nas formas de pensamento.

Pois os homens imaginam que a superioridade dos dominadores decorre da perfeição de suas condições em geral.

Assim, esforçam-se para imitá-los em tudo aquilo que conseguem.

Mas frequentemente ignoram que a verdadeira causa da superioridade está na força da asabiyyah, da organização e da coragem, e não apenas nas aparências exteriores.

Então ocupam-se das formas externas e negligenciam os fundamentos reais da força.

  •  

Capítulo

Que os Estados mais duradouros são aqueles fundados sobre justiça e moderação.

Saiba que o reino baseado apenas na força pode permanecer por algum tempo, mas dificilmente alcança longa duração.

Pois a opressão gera ódio nas almas e enfraquece gradualmente a lealdade dos súditos.

Assim, o povo passa a desejar a queda do governante.

E frequentemente auxilia inimigos externos contra o próprio Estado devido ao peso da injustiça.

Mas, quando os governantes agem com justiça, preservam a confiança e a cooperação do povo.

Então fortalece-se a disposição para proteção do reino.

E a civilização cresce sob segurança e estabilidade.

Assim, a justiça prolonga naturalmente a duração dos Estados.

E saiba que a moderação é uma das maiores causas da estabilidade política.

Pois os excessos, seja em punições, impostos ou luxos, conduzem gradualmente à corrupção.

Enquanto o equilíbrio preserva as condições da civilização.

E os governantes sábios evitam tanto a severidade exagerada quanto a negligência excessiva.

Assim mantêm a ordem sem destruir a vitalidade do povo.

  •  

Capítulo

Que os povos acostumados à liberdade preservam mais fortemente a coragem.

Pois os homens que participam da defesa de suas condições e interesses desenvolvem senso de responsabilidade e confiança.

Então tornam-se mais preparados para resistência e ação.

Enquanto os povos submetidos continuamente à dependência e à tutela perdem gradualmente a disposição para iniciativa.

E passam a esperar que outros resolvam seus problemas e garantam sua proteção.

Assim, enfraquece-se a coragem coletiva.

E saiba que a liberdade moderada fortalece a vitalidade da civilização.

Porque produz homens habituados à responsabilidade e ao esforço.

Mas a liberdade excessiva, sem autoridade e ordem, conduz à desagregação.

Pois os homens necessitam de governo que impeça agressões mútuas e preserve a justiça.

Assim, a melhor condição é aquela em que existe equilíbrio entre autoridade e liberdade.

Porque a tirania destrói a coragem, e a ausência completa de autoridade destrói a ordem.

  •  

Capítulo

Que a riqueza excessiva produz dependência e enfraquecimento moral.

Saiba que os homens, quando mergulham profundamente na abundância e nos prazeres, tornam-se inclinados ao repouso e à satisfação imediata.

Então passam a evitar dificuldades e riscos.

E os filhos das famílias ricas crescem acostumados ao conforto e à proteção.

Assim, tornam-se menos preparados para suportar privações e enfrentar perigos.

E frequentemente acreditam que suas condições continuarão eternamente.

Então negligenciam disciplina, esforço e vigilância.

Mas a riqueza excessiva também desperta competição em ostentação e luxo.

Assim, os homens passam a medir valor pela aparência de riqueza e não pelas qualidades de caráter.

Então espalham-se inveja, rivalidade e busca exagerada por prestígio.

E isso corrói gradualmente a coesão moral da sociedade.

Pois as almas tornam-se dominadas por desejos materiais.

E quando o apego ao luxo domina os homens, enfraquecem-se as qualidades da coragem, da moderação e da responsabilidade.

Assim, a riqueza que inicialmente fortaleceu a civilização transforma-se, no excesso, em causa de decadência.

  •  

Capítulo

Que as grandes civilizações frequentemente ignoram os sinais iniciais de sua própria decadência.

Pois os sinais da ruína aparecem gradualmente e de forma dispersa.

Assim, os homens acostumados à prosperidade não percebem imediatamente o enfraquecimento interno do Estado.

Porque continuam vendo:
grandes construções,
mercados ativos,
exércitos numerosos,
e abundância de riquezas.

Então acreditam que o reino permanece sólido.

Mas a essência da força já começou a desaparecer.

Pois a asabiyyah enfraqueceu, a coragem diminuiu, a corrupção espalhou-se e os homens tornaram-se dependentes do luxo.

Assim, a decadência avança silenciosamente antes do colapso visível.

E frequentemente os homens somente percebem a gravidade da decadência quando já se tornou difícil revertê-la.

Pois as causas da ruína acumulam-se pouco a pouco durante longo período.

Então, quando aparece um perigo externo ou uma grande crise, revela-se a fragilidade escondida do Estado.

E aquilo que parecia sólido desmorona rapidamente.

Porque a força exterior já não possuía fundamento interior suficiente para sustentá-la.

  •  

Capítulo

Que os povos simples frequentemente possuem maior disposição para aceitação da verdade religiosa.

Pois os homens afastados do excesso de luxo e sofisticação permanecem mais próximos da disposição natural.

Assim, suas almas são menos ocupadas por distrações, prazeres e ambições exageradas.

Então mostram-se mais preparados para aceitar exortações religiosas e princípios morais.

Enquanto os habitantes das civilizações refinadas frequentemente tornam-se dominados pelo apego ao mundo e pelas competições do luxo.

Assim, endurecem-se suas almas diante das advertências espirituais.

E saiba que a rudeza da vida beduína preserva nos homens qualidades de simplicidade e humildade.

Enquanto o excesso de conforto frequentemente produz arrogância e negligência.

Por isso, muitos profetas e movimentos religiosos surgiram inicialmente entre povos simples e afastados do refinamento extremo das grandes cidades.

Porque as condições da simplicidade favorecem receptividade espiritual maior.

  •  

Capítulo

Que os Estados necessitam constantemente renovar sua força interior.

Pois o poder político não permanece estático.

Ao contrário, enfraquece-se naturalmente com o tempo devido à expansão do luxo, à dissolução da asabiyyah e ao crescimento da dependência.

Assim, se o Estado não renovar continuamente disciplina, justiça e solidariedade, aproxima-se inevitavelmente da decadência.

E a renovação da força não ocorre apenas mediante aumento de riqueza ou exércitos.

Ao contrário, depende principalmente da renovação das qualidades morais e coletivas que sustentam a civilização.

Pois a essência do reino encontra-se nas almas dos homens antes de encontrar-se nas construções e instituições.

E quando a corrupção alcança as almas, as estruturas exteriores tornam-se frágeis, ainda que aparentem força.

Assim, os Estados perecem primeiro interiormente e somente depois exteriormente.

Capítulo

Que a autoridade excessivamente prolongada produz enfraquecimento da vigilância política.

Pois os governantes, quando permanecem longo tempo no poder sem enfrentar ameaças sérias, acostumam-se à tranquilidade e à segurança.

Então diminuem prudência, vigilância e atenção aos perigos.

E os filhos dos governantes crescem sem experiência das dificuldades enfrentadas pelos fundadores do reino.

Assim, tornam-se inclinados ao repouso e à confiança excessiva na estabilidade do Estado.

Mas os perigos continuam surgindo continuamente no mundo.

E os grupos possuidores de forte asabiyyah observam atentamente as fraquezas dos reinos estabelecidos.

Então, quando percebem sinais de decadência, cobiçam o domínio.

E frequentemente os Estados decadentes não percebem imediatamente a gravidade dessas ameaças.

Porque estão ocupados com luxos, disputas internas e preservação das aparências do poder.

Assim, o relaxamento prolongado da vigilância política torna-se uma das causas ocultas da ruína dos Estados.

  •  

Capítulo

Que os governantes decadentes frequentemente confundem aparência de poder com força verdadeira.

Pois os reis do fim dos Estados observam:
a multiplicidade dos exércitos,
a grandeza das construções,
a abundância das riquezas,
e o número dos servidores.

Então imaginam que o reino permanece forte.

Mas frequentemente ignoram que a essência da força política está:
na coesão,
na coragem,
na lealdade,
e na disposição dos homens para defender o Estado.

Quando essas qualidades desaparecem, os símbolos exteriores já não conseguem preservar o reino.

Assim, um Estado pode aparentar grandeza exterior enquanto internamente encontra-se vazio de vitalidade.

E frequentemente o colapso torna-se repentino apenas porque a decadência interior permaneceu oculta durante longo tempo.

Pois os homens observam os sinais exteriores da prosperidade e deixam de perceber o enfraquecimento das causas profundas do poder.

  •  

Capítulo

Que a alternância dos Estados entre as nações é uma lei constante da civilização humana.

Saiba que nenhum reino permanece eternamente para um único povo ou grupo.

Pois os Estados surgem, fortalecem-se, envelhecem e desaparecem.

Então outro grupo assume o poder.

E isso ocorre devido às transformações naturais das condições humanas.

Pois a força produz domínio; o domínio produz luxo; o luxo produz enfraquecimento; e o enfraquecimento abre caminho para novos conquistadores.

Assim alternam-se os dias entre as nações.

E Deus concede o reino a quem deseja e o retira de quem deseja.

E saiba que os homens frequentemente imaginam que a permanência de um Estado depende apenas da abundância de riquezas e armas.

Mas a verdadeira permanência depende da continuidade das causas que produziram a força do reino em seu início.

Assim, quando desaparecem coragem, justiça, solidariedade e disciplina, a abundância material já não é suficiente para preservar a autoridade.

Então o Estado continua existindo apenas pela força do hábito e da aparência.

Até que surja grupo mais forte e mais unido que o substitua.

  •  

Capítulo

Que os governantes, quando exageram no luxo, afastam-se das condições do povo.

Pois os reis do início dos Estados vivem próximos de seus companheiros e compartilham com eles muitas condições da vida comum.

Assim, compreendem facilmente as dificuldades e necessidades do povo.

Mas, quando o luxo aumenta, os governantes cercam-se de palácios, guardas e cerimônias.

Então tornam-se separados da realidade da sociedade.

E passam a conhecer os assuntos do povo apenas por intermédio de servidores e auxiliares.

Assim, enfraquece-se a percepção verdadeira das condições do reino.

E frequentemente os auxiliares escondem problemas ou distorcem informações para agradar o governante.

Então aumentam erros administrativos e decisões injustas.

Além disso, a distância excessiva entre governantes e povo enfraquece os vínculos de lealdade natural.

Porque os homens sentem-se abandonados por aqueles que exercem autoridade sobre eles.

Assim, cresce gradualmente ressentimento contra o Estado.

  •  

Capítulo

Que a corrupção administrativa espalha-se mais facilmente no fim dos Estados.

Pois os fundadores do reino costumam possuir austeridade e vigilância quanto aos recursos públicos.

Porque conhecem o valor das riquezas obtidas mediante esforço e luta.

Mas os descendentes nascidos no luxo passam a considerar normais as abundâncias do Estado.

Então tornam-se menos cuidadosos na administração das receitas e despesas.

Além disso, a multiplicação de funcionários e auxiliares aumenta as oportunidades de exploração e corrupção.

Assim, muitos passam a utilizar posições públicas para enriquecimento pessoal.

E frequentemente o governante perde capacidade de controlar completamente seus administradores.

Então a corrupção alastra-se pelas instituições do reino.

E isso enfraquece ainda mais a confiança do povo no Estado.

Então os homens passam a acreditar que o Estado já não busca o bem comum, mas apenas os interesses daqueles que ocupam cargos e posições.

Assim, enfraquece-se a disposição para cooperação e lealdade.

E isso acelera a decadência política.

  •  

Capítulo

Que a prosperidade excessiva reduz a disposição dos homens para o sacrifício.

Pois os homens acostumados ao conforto tornam-se mais apegados à preservação de suas condições materiais.

Então passam a temer perdas, dificuldades e perigos.

E diminuem neles as qualidades da coragem e da disposição para enfrentar sofrimentos em defesa do reino.

Enquanto os fundadores dos Estados estavam habituados à privação e à dureza.

Assim, consideravam naturais o esforço e o risco.

Mas os descendentes educados no luxo procuram preservar conforto e segurança acima de tudo.

Então evitam guerras difíceis, sacrifícios prolongados e resistências perigosas.

E frequentemente preferem concessões e submissão a suportar grandes dificuldades.

Assim, enfraquece-se a capacidade coletiva de preservação do Estado diante de ameaças externas.

  •  

Capítulo

Que os povos dominados frequentemente internalizam a inferioridade.

Pois a submissão prolongada produz nas almas sensação de incapacidade e dependência.

Então os homens passam a acreditar que os dominadores possuem superioridade natural sobre eles.

Assim, diminuem confiança em suas próprias qualidades e tradições.

E frequentemente procuram imitar os vencedores em tudo:
na linguagem,
nas vestimentas,
nos costumes,
e nas formas de pensamento.

Porque acreditam que a causa da superioridade do vencedor encontra-se nessas aparências.

Mas raramente percebem que a verdadeira origem da força estava na asabiyyah e nas condições históricas do domínio.

Assim, a derrota política transforma-se gradualmente também em derrota psicológica.

E isso fortalece ainda mais o poder dos dominadores.

Pois o povo submetido passa a colaborar espontaneamente com os hábitos e valores daqueles que o governam.

  •  

Capítulo

Que os grandes impérios tornam-se mais difíceis de administrar conforme aumentam em extensão.

Pois a ampliação do reino exige aumento de exércitos, funcionários, tributos e sistemas administrativos.

Então crescem as despesas e multiplicam-se os centros de poder.

E torna-se mais difícil ao governante controlar completamente regiões distantes e numerosos auxiliares.

Assim, os governantes passam a depender de numerosos intermediários e representantes.

E frequentemente esses representantes buscam seus próprios interesses antes dos interesses do reino.

Então enfraquece-se gradualmente a unidade da autoridade.

Além disso, as regiões distantes tendem a desenvolver interesses e ambições próprias.

Assim, tornam-se mais difíceis de manter sob obediência contínua.

E quando o centro do reino enfraquece, multiplicam-se rebeliões e movimentos separatistas.

Porque a força necessária para preservar a unidade torna-se excessivamente grande.

Por isso, muitos grandes impérios desmoronam devido ao peso de sua própria expansão.

Pois aquilo que inicialmente representou força transforma-se, no excesso, em causa de fragilidade administrativa.

  •  

Capítulo

Que a autoridade política depende mais da aceitação coletiva do que da mera força física.

Saiba que nenhum governante consegue dominar sozinho grandes multidões apenas por força pessoal.

Ao contrário, o reino depende da aceitação da autoridade pelos homens.

E essa aceitação nasce da asabiyyah, da religião, da tradição ou da percepção de legitimidade.

Assim, quando os homens acreditam na legitimidade do governante, obedecem-lhe mais facilmente.

Mas, quando desaparece essa convicção interior, o governante necessita aumentar continuamente coerção e vigilância.

Então multiplicam-se punições, guardas e mecanismos de controle.

E isso frequentemente indica enfraquecimento da autoridade verdadeira.

Pois a força política mais estável é aquela sustentada por aceitação espontânea e solidariedade coletiva.

Enquanto o poder baseado apenas no medo torna-se frágil e instável.

Porque os homens obedecem exteriormente enquanto aguardam oportunidade de rebelião ou substituição do governante.

  •  

Capítulo

Que a religião fortalece os Estados ao unificar intenções e disciplinar as almas.

Pois a convocação religiosa reúne os homens em torno de finalidade comum superior aos interesses individuais.

Assim, reduz rivalidades internas e fortalece solidariedade.

E os homens tornam-se mais dispostos ao sacrifício quando acreditam lutar por verdade transcendente.

Então aumenta a coragem e fortalece-se a obediência.

Por isso, os Estados fundados sobre religião frequentemente alcançam expansão maior que aqueles sustentados apenas por ambição política.

Porque a religião organiza não apenas os corpos, mas também as almas.

E quando a dimensão espiritual enfraquece completamente, crescem disputas egoístas e divisões internas.

Assim, dissolve-se gradualmente a coesão necessária à preservação do reino.

Capítulo

Que os homens acostumados ao conforto tornam-se mais dependentes da proteção do Estado.

Pois o luxo produz apego à segurança e ao repouso.

Então os homens evitam riscos e responsabilidades difíceis.

E passam a transferir continuamente ao Estado tarefas que antes realizavam por si mesmos.

Assim, aumenta a dependência em relação à autoridade governante.

E isso enfraquece gradualmente a iniciativa individual e coletiva.

Porque os homens deixam de confiar em suas próprias capacidades.

Então tornam-se semelhantes àqueles que aguardam continuamente direção e proteção externas.

E saiba que os povos excessivamente dependentes tornam-se frágeis quando o Estado enfraquece.

Pois perderam os hábitos de autonomia, defesa e responsabilidade.

Assim, a vitalidade da civilização diminui progressivamente.

  •  

Capítulo

Que os governantes frequentemente ampliam o aparato estatal no fim dos Estados.

Pois os reis decadentes, ao perceberem enfraquecimento da autoridade natural, procuram compensá-lo mediante aumento da administração, da vigilância e da força coercitiva.

Então multiplicam funcionários, guardas, cobradores de impostos e auxiliares.

E criam novos mecanismos de controle sobre a sociedade.

Mas isso aumenta enormemente as despesas do reino.

Assim, tornam-se necessários mais impostos e mais exploração dos súditos.

E o peso do aparato estatal recai continuamente sobre a atividade produtiva da sociedade.

Então enfraquecem comércio, agricultura e artes.

Além disso, a multiplicação do aparato administrativo frequentemente aumenta corrupção e competição por cargos.

Porque muitos procuram funções públicas apenas para obter riqueza e influência.

Assim, o Estado torna-se pesado e oneroso para o povoamento.

E aquilo que deveria proteger a civilização transforma-se gradualmente em carga sobre ela.

  •  

Capítulo

Que as gerações nascidas no luxo desconhecem as causas reais do poder herdado.

Pois os descendentes dos fundadores do reino crescem já em meio à abundância e à estabilidade.

Então acreditam que essas condições existem naturalmente.

E não compreendem plenamente os esforços, os sacrifícios e a austeridade que permitiram a construção do Estado.

Assim, passam a valorizar apenas os frutos da prosperidade e não as causas que a produziram.

Então negligenciam disciplina, vigilância e coragem.

E frequentemente consideram desagradáveis ou desnecessárias as qualidades que sustentaram o reino no início.

Assim, enfraquece-se gradualmente a capacidade do Estado de preservar a si mesmo.

E quando surgem dificuldades graves ou ameaças externas, mostram-se menos preparados para enfrentá-las.

Porque foram educados em condições de conforto e segurança.

Assim, procuram preservar os prazeres da vida antes de preservar a força do Estado.

E frequentemente recorrem a mercenários e grupos estrangeiros para defesa do reino.

Mas esses grupos não possuem lealdade verdadeira à dinastia.

Então a autoridade torna-se artificial e dependente de pagamentos contínuos.

E isso acelera ainda mais a decadência.

  •  

Capítulo

Que os Estados, quando envelhecem, tornam-se inclinados ao excesso de formalidades e cerimônias.

Pois os governantes do início dos reinos vivem de forma mais simples e próxima de seus companheiros.

Mas, quando o reino se fortalece e o luxo cresce, multiplicam-se protocolos, símbolos e aparências de majestade.

Então tornam-se numerosas as cerimônias, os títulos, as vestimentas luxuosas e as barreiras entre o governante e o povo.

E isso ocorre porque os reis procuram compensar pela aparência aquilo que perderam em autoridade natural e força interior.

Assim, quanto mais o Estado enfraquece internamente, mais frequentemente aumenta a necessidade de exibir grandeza exterior.

E os homens simples impressionam-se com essas aparências.

Mas aqueles que compreendem a natureza dos Estados percebem que o excesso de formalidade frequentemente acompanha o envelhecimento político.

Porque os fundadores do reino dependiam mais de coragem e solidariedade do que de espetáculo e ostentação.

  •  

Capítulo

Que a decadência moral precede frequentemente a decadência militar e política.

Pois os homens, quando abandonam disciplina, responsabilidade e moderação, enfraquecem gradualmente a capacidade de sustentar a civilização.

Então tornam-se dominados por desejos imediatos, rivalidades e busca de prazeres.

E as qualidades necessárias à preservação do reino desaparecem pouco a pouco.

Assim, antes que o Estado seja derrotado exteriormente, já ocorreu enfraquecimento interior nas almas.

E isso manifesta-se:
na corrupção,
na perda da coragem,
na dissolução da solidariedade,
e no abandono do senso de dever coletivo.

Então os exércitos tornam-se frágeis, a administração torna-se corrupta e os governantes tornam-se incapazes de liderança firme.

Assim, a decadência política é frequentemente consequência da decadência moral anterior.

Capítulo

Que os homens tornam-se semelhantes às condições em que vivem.

Pois as almas humanas recebem influência contínua dos hábitos, costumes e formas de vida predominantes.

Assim, aqueles que vivem em meio à guerra e às dificuldades tornam-se mais inclinados à coragem e à resistência.

Enquanto aqueles que vivem continuamente em conforto e tranquilidade tornam-se inclinados ao repouso e à dependência.

E isso ocorre porque os hábitos repetidos transformam-se em qualidades firmes da alma.

Portanto, as condições da civilização moldam os caracteres dos homens.

E as gerações nascidas em determinada condição frequentemente acreditam que ela é natural e permanente.

Assim, os filhos do luxo estranham a austeridade, e os filhos da austeridade desprezam excessos de refinamento.

E saiba que os hábitos possuem enorme poder sobre as almas.

Porque a repetição contínua transforma comportamentos adquiridos em disposições naturais aparentes.

  •  

Capítulo

Que os povos excessivamente submetidos tornam-se inclinados à imitação e à dependência.

Pois a submissão prolongada enfraquece a confiança dos homens em si mesmos.

Então passam a acreditar que toda superioridade pertence aos dominadores.

Assim, abandonam gradualmente suas próprias tradições, modos de pensar e costumes.

E esforçam-se para reproduzir os hábitos daqueles que os governam.

Porque imaginam que a força dos vencedores decorre dessas aparências exteriores.

Então ocorre transformação psicológica profunda nos povos dominados.

E frequentemente a derrota política converte-se em admiração cultural pelos dominadores.

Assim, os vencidos tornam-se colaboradores espontâneos da influência dos vencedores.

E isso fortalece ainda mais o domínio político e social.

  •  

Capítulo

Que o excesso de riqueza e conforto reduz a disposição para trabalhos difíceis.

Pois os homens acostumados ao luxo procuram continuamente preservar comodidade e prazer.

Então evitam atividades cansativas e perigosas.

E passam a depender do trabalho de outros para manutenção de suas condições.

Assim, as profissões mais duras tornam-se desprezadas entre as classes refinadas.

Enquanto os povos simples e austeros preservam maior disposição para suportar dificuldades.

Por isso, frequentemente os conquistadores surgem dentre grupos habituados à rudeza e não dentre povos entregues ao luxo extremo.

E saiba que as profissões difíceis e os trabalhos pesados são mais frequentemente realizados por aqueles que permanecem próximos das condições simples da vida.

Porque a abundância excessiva enfraquece a disposição para esforço corporal e resistência.

Assim, quando as classes dominantes mergulham profundamente no luxo, tornam-se dependentes do trabalho de outros povos e grupos.

E isso aumenta ainda mais sua fragilidade.

  •  

Capítulo

Que os Estados envelhecidos tornam-se mais inclinados à injustiça financeira.

Pois os governantes do fim dos reinos enfrentam aumento contínuo de despesas devido ao luxo, à multiplicação de servidores e à necessidade de sustentar grandes aparatos administrativos e militares.

Então procuram novas formas de obtenção de receitas.

E frequentemente recorrem à apropriação de riquezas privadas, monopólios e interferência direta nas atividades econômicas.

Assim, o Estado passa a competir com comerciantes e produtores.

E isso reduz ainda mais a atividade econômica.

Porque os homens perdem segurança quanto à preservação de seus bens e lucros.

Então escondem riquezas e diminuem investimentos.

Assim, enfraquecem-se mercados, agricultura e comércio.

E o próprio Estado torna-se responsável pela destruição gradual das fontes de sua arrecadação.

Pois a injustiça financeira corrói a confiança necessária à prosperidade da civilização.

  •  

Capítulo

Que os povos conquistadores tornam-se mais frágeis após longa permanência no poder.

Pois os grupos que conquistam reinos inicialmente possuem forte asabiyyah, coragem e disposição para suportar dificuldades.

Mas, após estabelecerem domínio e habituarem-se ao luxo das cidades conquistadas, começam gradualmente a perder essas qualidades.

Então seus descendentes crescem afastados das condições que produziram a força original do grupo.

Assim, desaparecem pouco a pouco austeridade, vigilância e solidariedade intensa.

E o grupo conquistador transforma-se em elite refinada semelhante àquelas que anteriormente derrotou.

Então surge novo povo mais rude e mais unido que o substitui.

E esta alternância repete-se continuamente na história das civilizações.

Pois a força que produz o domínio contém em si mesma causas que, com o tempo, conduzem ao enfraquecimento.

Capítulo

Que a abundância de formalidades no governo é sinal de afastamento da simplicidade original do Estado.

Pois os fundadores dos reinos vivem geralmente em condições próximas da rudeza e da simplicidade.

Assim, suas relações com os companheiros e súditos são diretas e pouco carregadas de protocolos.

Mas, quando o reino se fortalece e o luxo se amplia, multiplicam-se cerimônias, títulos e formalidades.

Então o governante passa a ser separado do povo por barreiras, guardas e regras de acesso.

E isso ocorre porque a autoridade natural fundada na asabiyyah enfraqueceu.

Assim, procura-se compensar por meio de símbolos exteriores aquilo que foi perdido interiormente.

Então aumentam:
as vestimentas majestosas,
os palácios,
as procissões,
e as demonstrações públicas de grandeza.

Mas essas aparências não restauram a força original do Estado.

Ao contrário, frequentemente ocultam decadência já avançada.

Pois os fundadores do reino necessitavam menos de espetáculo e mais de coragem e solidariedade.

  •  

Capítulo

Que a corrupção dos costumes espalha-se gradualmente com o excesso de luxo.

Pois os homens, quando ultrapassam os limites da moderação nos prazeres, tornam-se inclinados à busca contínua de satisfação.

Então multiplicam-se extravagâncias em alimentação, vestimentas, construções e diversões.

E os homens passam a competir em ostentação e aparência de riqueza.

Assim, enfraquece-se o senso de disciplina e responsabilidade.

Além disso, os filhos educados no excesso tornam-se menos preparados para suportar dificuldades.

Então desaparecem pouco a pouco as qualidades que sustentaram a força do Estado em seu início.

E saiba que a corrupção moral não surge subitamente.

Ao contrário, desenvolve-se gradualmente através dos hábitos cotidianos da civilização.

Assim, os homens acostumam-se progressivamente a condições que antes considerariam excessivas.

Até que o luxo extremo passe a parecer natural.

E quando isso acontece, aproxima-se o enfraquecimento coletivo.

  •  

Capítulo

Que os homens frequentemente confundem estabilidade prolongada com permanência eterna.

Pois as gerações nascidas durante períodos de prosperidade imaginam que as condições existentes continuarão indefinidamente.

Então tornam-se negligentes quanto às causas da preservação do reino.

E acreditam que riqueza, segurança e autoridade existem naturalmente.

Assim, deixam de valorizar austeridade, vigilância e coragem.

Mas toda civilização está sujeita à transformação e à decadência.

E os Estados envelhecem inevitavelmente quando desaparecem as qualidades que lhes deram origem.

Assim, quando surgem sinais de enfraquecimento, muitos homens recusam-se a reconhecê-los.

Porque estão acostumados à continuidade da prosperidade.

Então interpretam os problemas como acontecimentos passageiros e não como sintomas de decadência estrutural.

E frequentemente continuam aumentando luxos, gastos e disputas internas enquanto as bases do Estado já se deterioram.

Assim, o colapso surpreende aqueles que confundiram longa duração com eternidade.

  •  

Capítulo

Que a força dos Estados encontra-se primeiramente nas almas antes de encontrar-se nas armas.

Pois os exércitos, as fortalezas e as riquezas somente produzem poder verdadeiro quando existe disposição interior para utilizá-los com coragem e firmeza.

Assim, pequenos grupos possuidores de forte asabiyyah frequentemente triunfam sobre grandes reinos ricos e numerosos.

Porque a verdadeira força nasce:
da solidariedade,
da coragem,
da disposição para sacrifício,
e da união das intenções.

Enquanto os Estados decadentes possuem muitas vezes abundância de armas e soldados, mas carecem de firmeza interior.

Então seus exércitos tornam-se frágeis diante de grupos mais unidos e determinados.

E saiba que a coragem coletiva não pode ser comprada apenas com riquezas.

Pois os homens lutam verdadeiramente quando sentem pertencimento e finalidade comum.

Assim, a essência do poder político permanece ligada às condições morais e espirituais das sociedades.

  •  

Capítulo

Que a abundância de riqueza frequentemente aumenta desigualdades e tensões sociais.

Pois, quando o luxo se amplia nas cidades, concentram-se riquezas nas mãos das elites e dos grupos próximos do poder.

Então surgem diferenças excessivas entre as condições dos homens.

E aqueles que permanecem pobres observam continuamente ostentação e abundância ao redor.

Assim, aumentam inveja, ressentimento e rivalidade social.

Além disso, os governantes frequentemente favorecem grupos específicos mediante privilégios e concessões.

Então enfraquece-se o senso de justiça coletiva.

E os homens passam a acreditar que riqueza e posição dependem mais da proximidade ao poder do que do mérito ou do trabalho.

Assim, cresce a corrupção moral e política.

E saiba que as desigualdades extremas enfraquecem a solidariedade necessária à preservação da civilização.

Porque os homens deixam de sentir pertencimento comum.

Então multiplicam-se divisões internas e disputas entre grupos da sociedade.

Capítulo

Que a civilização enfraquece quando desaparece o senso de responsabilidade coletiva.

Pois os Estados fortes surgem quando os homens sentem participação comum na preservação do reino e da sociedade.

Assim, cada grupo contribui para defesa, produção e continuidade da civilização.

Mas, quando o luxo e a dependência aumentam, os homens passam a preocupar-se principalmente com interesses individuais.

Então enfraquece-se a disposição para sacrifício coletivo.

E cada grupo procura obter vantagens particulares mesmo que isso prejudique o conjunto da sociedade.

Assim, multiplicam-se divisões internas e desaparece gradualmente o espírito de solidariedade.

E saiba que a coesão moral é uma das bases invisíveis do poder político.

Pois nenhum Estado permanece forte quando os homens deixam de sentir pertencimento comum.

Então o reino transforma-se em mera estrutura exterior sustentada por coerção e interesse material.

E isso torna sua duração limitada.

  •  

Capítulo

Que a autoridade baseada apenas no medo torna-se instável.

Pois o medo pode compelir os homens à obediência exterior durante certo tempo.

Mas não produz lealdade verdadeira nem disposição sincera para defesa do Estado.

Assim, os povos submetidos exclusivamente por terror obedecem enquanto não encontram oportunidade de resistência ou fuga.

E quando surge crise grave, desaparece rapidamente a obediência fundada apenas na coerção.

Porque os homens não possuem vínculo interior com o reino.

Ao contrário, frequentemente desejam secretamente sua queda.

Mas os Estados sustentados por justiça, legitimidade e solidariedade preservam apoio mais duradouro.

Pois os homens defendem espontaneamente aquilo que consideram legítimo e benéfico.

Assim, a força política mais estável é aquela que une autoridade e aceitação interior.

  •  

Capítulo

Que o excesso de dependência de mercenários enfraquece os Estados.

Pois os fundadores dos reinos baseiam sua força em homens ligados pela asabiyyah.

Assim, existe lealdade natural e disposição para sacrifício.

Mas os governantes decadentes recorrem crescentemente a soldados pagos e grupos estrangeiros.

Porque os filhos do Estado perderam coragem e disciplina.

Então os mercenários tornam-se fundamento principal do exército.

Mas esses homens lutam principalmente por riqueza e benefício.

Assim, sua lealdade depende da continuidade dos pagamentos e vantagens.

E quando surgem dificuldades financeiras ou oportunidades melhores, abandonam facilmente o governante.

Portanto, os Estados excessivamente dependentes de mercenários tornam-se frágeis diante de crises prolongadas.

E saiba que os mercenários raramente possuem vínculo verdadeiro com a população e com a continuidade da civilização.

Assim, preocupam-se mais com seus próprios interesses do que com preservação do reino.

E isso aumenta ainda mais a instabilidade política.

  •  

Capítulo

Que os Estados decadentes tornam-se excessivamente dependentes de arrecadação fiscal.

Pois os governantes do início dos reinos sustentam-se principalmente mediante simplicidade das despesas e força da asabiyyah.

Mas, quando o luxo cresce e multiplica-se o aparato estatal, tornam-se necessárias receitas cada vez maiores.

Então o Estado passa a depender intensamente da cobrança contínua de impostos.

E frequentemente amplia tributos sobre todas as atividades econômicas:
comércio,
agricultura,
artesanato,
e transportes.

Assim, os homens sentem-se constantemente pressionados pela autoridade fiscal.

E a atividade produtiva enfraquece gradualmente.

Porque os produtores perdem esperança de usufruir plenamente o resultado de seus esforços.

Então diminuem investimentos, construções e negócios.

E o próprio Estado torna-se causa do empobrecimento da sociedade da qual depende.

Assim, aumenta continuamente o círculo de decadência econômica e política.

  •  

Capítulo

Que a multiplicação de luxos cria necessidades artificiais entre os homens.

Pois os homens, quando vivem inicialmente em simplicidade, contentam-se com poucas coisas necessárias à vida.

Mas, quando o refinamento da civilização cresce, surgem novos hábitos de consumo e prazer.

Então aquilo que antes era considerado luxo transforma-se gradualmente em necessidade aparente.

E os homens passam a acreditar que não conseguem viver sem abundância de objetos, confortos e diversões.

Assim, aumentam continuamente despesas individuais e coletivas.

E muitos esforçam-se excessivamente apenas para manter aparências de riqueza e posição social.

Então cresce competição por ostentação.

E as almas tornam-se mais ocupadas por desejos materiais do que por virtudes e responsabilidades.

Assim, o excesso de refinamento modifica profundamente os caracteres humanos.

E frequentemente enfraquece simplicidade, coragem e moderação.

Capítulo

Que os homens acostumados à ostentação tornam-se mais dependentes da opinião dos outros.

Pois aqueles que vivem em simplicidade preocupam-se principalmente com aquilo que é necessário à vida.

Mas os homens mergulhados no luxo passam a buscar reconhecimento, prestígio e admiração pública.

Então suas ações tornam-se orientadas pela aparência diante dos outros homens.

E multiplicam-se competições em vestimentas, construções, banquetes e demonstrações de riqueza.

Assim, as almas tornam-se dependentes da aprovação social.

E frequentemente os homens sacrificam prudência e moderação para preservar imagem de grandeza.

Então aumentam desperdícios e dívidas.

E o desejo de ostentação espalha-se gradualmente por toda a sociedade.

Assim, mesmo aqueles de recursos limitados procuram imitar hábitos das elites.

E isso amplia ainda mais pressão econômica e moral sobre os homens.

Pois passam a viver segundo aparências e não segundo necessidades reais.

  •  

Capítulo

Que os Estados excessivamente ricos tornam-se vulneráveis à corrupção interna.

Pois a abundância de riquezas amplia oportunidades de disputa por cargos, influência e privilégios.

Então muitos homens passam a buscar proximidade do poder não para servir ao reino, mas para obter benefícios pessoais.

Assim, multiplicam-se intrigas, rivalidades e alianças oportunistas.

E frequentemente os governantes distribuem cargos e riquezas para garantir lealdade temporária.

Mas isso enfraquece mérito, disciplina e justiça administrativa.

Então pessoas incapazes alcançam posições importantes apenas por favoritismo.

E os homens competentes afastam-se ou tornam-se desanimados.

Assim, deteriora-se gradualmente a qualidade da administração do Estado.

E saiba que a corrupção interna destrói silenciosamente as bases do reino antes do aparecimento do colapso visível.

Pois as estruturas exteriores podem permanecer intactas durante longo tempo enquanto a confiança, a lealdade e a responsabilidade desaparecem interiormente.

  •  

Capítulo

Que as civilizações refinadas frequentemente desprezam povos simples antes de serem conquistadas por eles.

Pois os habitantes das grandes cidades acostumam-se a considerar bárbaros e inferiores os povos beduínos e austeros.

Porque observam apenas ausência de refinamento, artes e luxos entre eles.

Mas frequentemente ignoram que esses povos preservam coragem, resistência e forte asabiyyah.

Assim, subestimam perigos vindos das regiões periféricas e dos grupos simples.

Então, quando esses grupos se fortalecem e encontram o Estado enfraquecido pelo luxo, conseguem derrotá-lo apesar da inferioridade material inicial.

E isso se repete muitas vezes na história das civilizações.

Capítulo

Que os homens frequentemente percebem tarde demais a perda da força interior do Estado.

Pois enquanto permanecem:
as riquezas,
os palácios,
os exércitos,
e os símbolos exteriores do poder,
os homens acreditam que o reino continua forte.

Então ignoram sinais de corrupção moral, dissolução da asabiyyah e enfraquecimento da coragem coletiva.

Mas a essência do poder já começou a desaparecer.

Assim, quando ocorre grande crise ou invasão externa, revela-se subitamente a fragilidade escondida.

E aquilo que parecia império sólido desmorona rapidamente.

Porque a estrutura exterior já não possuía fundamento interior suficiente.

E frequentemente os homens ficam admirados com a velocidade da queda.

Mas aqueles que compreendem a natureza dos Estados percebem que a ruína começou muito antes do colapso visível.

  •  

Capítulo

Que o excesso de conforto reduz gradualmente a disposição para virtudes difíceis.

Pois as virtudes ligadas à coragem, à paciência e à resistência fortalecem-se mediante enfrentamento de dificuldades.

Mas os homens acostumados continuamente ao prazer e à facilidade tornam-se inclinados a evitar tudo aquilo que exige esforço ou sacrifício.

Então enfraquecem disciplina, firmeza e autocontrole.

E as almas passam a buscar satisfação imediata acima de deveres e responsabilidades.

Assim, modifica-se progressivamente o caráter coletivo da sociedade.

E aquilo que antes era considerado fraqueza torna-se aceito como comportamento normal.

Enquanto qualidades de austeridade passam a parecer desagradáveis ou excessivas.

Então a civilização perde lentamente capacidade de suportar crises e sofrimentos.

Porque os homens deixam de estar preparados interiormente para tempos difíceis.

  •  

Capítulo

Que os Estados poderosos frequentemente tornam-se vítimas da própria complexidade.

Pois a expansão do reino produz aumento contínuo de:
leis,
impostos,
instituições,
funcionários,
e sistemas administrativos.

Então a estrutura política torna-se extremamente complexa e pesada.

E o governante depende cada vez mais de numerosos intermediários para administração do Estado.

Assim, torna-se difícil preservar simplicidade, clareza e unidade de direção.

Além disso, a multiplicidade de instituições amplia possibilidades de corrupção, conflitos internos e desperdício.

Então o reino passa a consumir enorme quantidade de recursos apenas para sustentar sua própria estrutura.

E isso enfraquece gradualmente vitalidade econômica e política da civilização.

E saiba que os Estados simples em sua origem possuem maior capacidade de adaptação e rapidez nas decisões.

Porque dependem de menos mecanismos e menos intermediários.

Mas os Estados excessivamente complexos tornam-se lentos e pesados.

Então muitas vezes não conseguem responder adequadamente a crises repentinas.

E essa rigidez aumenta ainda mais sua vulnerabilidade diante de grupos mais simples e mais ágeis.

  •  

Capítulo

Que os homens submetidos continuamente ao luxo tornam-se mais temerosos da morte e da perda.

Pois aqueles acostumados à dureza da vida consideram naturais sofrimento, risco e privação.

Assim, mostram-se mais preparados para enfrentar perigos.

Mas os homens educados no conforto tornam-se intensamente apegados às condições agradáveis que possuem.

Então passam a temer profundamente tudo aquilo que ameaça segurança e prazer.

E isso reduz disposição para guerras difíceis, resistência prolongada e sacrifício coletivo.

Assim, os povos refinados frequentemente preferem preservar conforto imediato mesmo ao custo de submissão futura.

Enquanto os povos austeros aceitam mais facilmente sofrimento temporário em busca de domínio e independência.

E saiba que a coragem depende menos da força física do que da disposição interior para suportar perdas e perigos.

  •  

Capítulo

Que a multiplicação de desejos torna os homens mais difíceis de satisfazer.

Pois os homens simples contentam-se facilmente com poucas necessidades.

Mas, quando o luxo se espalha, surgem continuamente novos desejos e expectativas.

Então aquilo que antes trazia satisfação passa a parecer insuficiente.

E os homens tornam-se mais inquietos e insatisfeitos apesar da abundância material.

Assim, cresce busca incessante por novos prazeres e refinamentos.

E as almas perdem tranquilidade e moderação.

Além disso, a competição social intensifica-se, porque cada grupo procura superar os outros em riqueza e aparência.

Então aumentam inveja, rivalidade e ressentimento.

E frequentemente os homens tornam-se escravos de desejos criados pela própria civilização refinada.

Assim, aquilo que parecia sinal de prosperidade transforma-se também em causa de ansiedade e corrupção moral.

Capítulo

Que as civilizações refinadas frequentemente produzem homens especializados, mas menos completos.

Pois a divisão avançada dos trabalhos faz com que cada homem dedique-se continuamente a atividade muito específica.

Então aperfeiçoa-se grande habilidade técnica em determinadas artes e profissões.

Mas frequentemente diminui a capacidade geral dos homens de agir em múltiplas situações.

Assim, os habitantes das civilizações muito refinadas tornam-se dependentes uns dos outros em grau elevado.

E poucos conseguem satisfazer sozinhos necessidades essenciais da vida.

Enquanto os povos mais simples preservam habilidades mais amplas ligadas à sobrevivência, defesa e autonomia.

Então as sociedades altamente refinadas tornam-se mais vulneráveis à interrupção da ordem geral.

Porque dependem profundamente da continuidade da organização complexa da civilização.

E quando ocorrem crises graves, guerras ou colapsos administrativos, muitos homens mostram-se incapazes de adaptar-se rapidamente.

Assim, a especialização extrema fortalece a civilização em tempos de estabilidade, mas pode aumentar fragilidade em tempos de desordem.

  •  

Capítulo

Que os homens frequentemente confundem riqueza acumulada com força permanente.

Pois os Estados poderosos acumulam:
ouro,
prata,
mercadorias,
construções,
e abundância material.

Então os homens imaginam que essas riquezas garantem permanência eterna do reino.

Mas a riqueza somente permanece útil enquanto existe civilização capaz de protegê-la e administrá-la.

Assim, quando desaparecem coragem, solidariedade e disciplina, as riquezas tornam-se incapazes de salvar o Estado.

E frequentemente servem apenas como prêmio para conquistadores mais fortes.

Pois os tesouros acumulados pelos povos refinados atraem grupos austeros e guerreiros.

Então aquilo que antes representava sinal de poder transforma-se em motivo adicional para invasão e conquista.

E saiba que as riquezas dependem da força política mais do que a força política depende das riquezas.

Porque sem autoridade legítima e coesão coletiva, os recursos materiais dispersam-se rapidamente.

  •  

Capítulo

Que o excesso de confiança no passado enfraquece a capacidade de renovação.

Pois as civilizações antigas e gloriosas frequentemente tornam-se orgulhosas de suas conquistas anteriores.

Então passam a acreditar que superioridade passada garante superioridade futura.

E isso reduz disposição para vigilância, adaptação e reforma.

Assim, os homens apegam-se excessivamente às formas herdadas, mesmo quando as condições do mundo já mudaram.

Então o Estado torna-se rígido e incapaz de responder adequadamente às transformações históricas.

E frequentemente grupos novos, mais flexíveis e mais disciplinados, superam civilizações antigas excessivamente confiantes em sua própria tradição de poder.

Capítulo

Que os Estados envelhecidos tornam-se menos capazes de produzir homens excepcionais.

Pois os fundadores dos reinos surgem geralmente em tempos de dificuldade, luta e transformação.

Assim, desenvolvem coragem, prudência, liderança e disposição para suportar grandes responsabilidades.

Mas, quando o reino se estabiliza excessivamente e o luxo domina a civilização, os homens passam a buscar mais conforto do que grandeza.

Então diminuem as condições que produzem personalidades fortes e disciplinadas.

E muitos preferem segurança e prazer à honra e ao sacrifício.

Assim, torna-se raro o surgimento de líderes verdadeiramente vigorosos.

Enquanto em épocas de crise e austeridade aparecem homens capazes de suportar riscos e realizar grandes feitos.

E saiba que as condições da civilização influenciam profundamente a formação dos caracteres humanos.

Porque as almas moldam-se segundo aquilo que enfrentam continuamente.

  •  

Capítulo

Que os povos simples frequentemente preservam mais fortemente o senso de pertencimento coletivo.

Pois os homens que vivem em condições austeras dependem intensamente uns dos outros para sobrevivência e defesa.

Assim, fortalecem-se solidariedade, auxílio mútuo e disposição para proteção comum.

Enquanto os habitantes das grandes civilizações refinadas tornam-se mais individualizados e preocupados com interesses privados.

Então enfraquece-se gradualmente o vínculo coletivo.

E os homens passam a sentir-se menos responsáveis pelo destino comum da sociedade.

Assim, a asabiyyah dissolve-se pouco a pouco.

E quando desaparece o senso de pertencimento coletivo, torna-se difícil preservar unidade política duradoura.

Porque os homens deixam de enxergar o reino como extensão de si mesmos.

Então o Estado depende cada vez mais de coerção, impostos e administração artificial para manter-se.

  •  

Capítulo

Que os homens habituados ao conforto tornam-se menos tolerantes às dificuldades inevitáveis da vida.

Pois aqueles que cresceram em meio à abundância e segurança esperam continuidade permanente dessas condições.

Então reagem com grande inquietação diante de perdas, crises ou privações moderadas.

Enquanto os povos acostumados à austeridade suportam adversidades com maior firmeza.

E isso ocorre porque a alma adapta-se às condições em que vive.

Assim, o excesso de conforto reduz capacidade de resistência psicológica.

Então pequenas dificuldades passam a parecer grandes sofrimentos.

E frequentemente as sociedades refinadas mostram-se mais frágeis interiormente apesar de sua riqueza exterior.

Capítulo

Que os Estados decadentes tornam-se excessivamente preocupados com preservação de aparências.

Pois quando a força interior do reino enfraquece, os governantes procuram manter sinais exteriores de majestade e poder.

Então aumentam cerimônias, títulos, procissões e demonstrações públicas de autoridade.

E esforçam-se para impressionar o povo pela grandiosidade das formas exteriores.

Mas frequentemente essas aparências ocultam fragilidade crescente da estrutura política.

Pois a verdadeira força do Estado encontra-se:
na coragem dos homens,
na justiça,
na solidariedade,
e na disposição para defesa comum.

Quando essas qualidades desaparecem, os símbolos exteriores tornam-se insuficientes para preservar o reino.

Assim, os Estados envelhecidos frequentemente dedicam mais energia à manutenção da imagem do poder do que à renovação de suas causas reais.

E isso acelera ainda mais a decadência.

  •  

Capítulo

Que os homens submetidos continuamente ao prazer tornam-se mais frágeis diante do sofrimento.

Pois a alma acostumada ao conforto perde gradualmente capacidade de suportar dor, privação e incerteza.

Então os homens procuram evitar qualquer condição difícil.

E passam a desejar segurança permanente e satisfação imediata.

Assim, enfraquece-se a disposição para coragem e perseverança.

Enquanto aqueles habituados à austeridade preservam maior resistência física e psicológica.

E saiba que as dificuldades moderadas fortalecem os homens quando enfrentadas continuamente.

Porque produzem disciplina, paciência e capacidade de adaptação.

Mas o excesso de conforto enfraquece essas qualidades.

Assim, as civilizações muito refinadas frequentemente tornam-se incapazes de suportar crises prolongadas.

  •  

Capítulo

Que a continuidade da civilização depende da preservação simultânea de força e justiça.

Pois a força sem justiça produz opressão e ódio.

Enquanto a justiça sem força torna-se incapaz de proteger a ordem e impedir agressões.

Assim, os Estados duradouros combinam:
autoridade,
justiça,
disciplina,
e solidariedade coletiva.

Então os homens sentem simultaneamente respeito e confiança em relação ao reino.

E isso fortalece estabilidade política e disposição para cooperação.

Mas, quando desaparece equilíbrio entre força e justiça, começam sinais de enfraquecimento.

Então multiplicam-se rebeliões, rivalidades e divisões internas.

E o Estado perde gradualmente legitimidade e capacidade de preservação.

E saiba que os homens obedecem mais facilmente à autoridade quando acreditam que ela protege justiça e ordem comum.

Mas, quando enxergam apenas exploração e benefício dos governantes, enfraquece-se lealdade interior.

Então a coerção precisa aumentar continuamente.

E isso é sinal de decadência política.

  •  

Capítulo

Que a abundância de prazeres enfraquece gradualmente a disposição para virtudes elevadas.

Pois os homens acostumados à satisfação contínua tornam-se menos inclinados ao autocontrole e à disciplina.

Então procuram evitar tudo aquilo que exige paciência, sacrifício ou renúncia.

E as almas passam a buscar principalmente:
diversão,
comodidade,
e prazer imediato.

Assim, enfraquecem virtudes ligadas à perseverança, coragem e responsabilidade.

E saiba que as civilizações fortes exigem homens capazes de suportar dificuldades em benefício do bem comum.

Mas, quando o apego aos prazeres domina a sociedade, os homens tornam-se mais preocupados com satisfação individual do que com preservação coletiva.

Então dissolve-se gradualmente a força moral necessária ao reino.

  •  

Capítulo

Que as sociedades excessivamente refinadas tornam-se mais vulneráveis a choques inesperados.

Pois os povos simples e austeros estão habituados a lidar continuamente com escassez, riscos e instabilidade.

Assim, desenvolvem maior capacidade de adaptação diante de crises.

Enquanto as civilizações muito refinadas dependem profundamente da estabilidade de sistemas complexos:
mercados,
administração,
transportes,
e divisão avançada dos trabalhos.

Então qualquer ruptura significativa produz desordem ampla.

Porque muitos homens perderam capacidade de agir independentemente das estruturas da civilização.

Assim, aquilo que representa força em tempos de estabilidade transforma-se em fragilidade em tempos de crise.

E frequentemente pequenos choques produzem consequências enormes em sociedades excessivamente dependentes da complexidade.

  •  

Capítulo

Que a alternância entre austeridade e luxo repete-se continuamente nas civilizações.

Pois os povos austeros conquistam reinos mediante coragem, disciplina e forte asabiyyah.

Então estabelecem domínio e alcançam abundância.

Mas a abundância produz refinamento e luxo.

Assim, enfraquecem gradualmente as qualidades que permitiram a conquista inicial.

Então surge novo grupo mais simples e mais forte que substitui o reino decadente.

E esta alternância repete-se continuamente ao longo da história humana.

Pois as condições da civilização transformam inevitavelmente os caracteres dos homens.

Assim, nenhuma civilização permanece eternamente na mesma condição.

Porque os próprios fatores que produzem força e prosperidade transformam-se gradualmente em causas de enfraquecimento.

E Deus alterna os dias entre os homens e as nações.

  •  

Capítulo

Que os homens frequentemente recusam reconhecer decadência enquanto ainda existe abundância material.

Pois os habitantes das civilizações prósperas observam:
mercados cheios,
grandes construções,
riquezas abundantes,
e conforto generalizado.

Então acreditam que a sociedade permanece forte e estável.

Mas frequentemente ignoram:
o enfraquecimento da coragem,
a dissolução da solidariedade,
o crescimento da dependência,
e a corrupção moral.

Assim, confundem prosperidade material momentânea com vitalidade duradoura da civilização.

E quando surgem crises profundas, descobrem que as bases interiores do reino já estavam deterioradas há muito tempo.

Então ocorre espanto diante da rapidez do declínio.

Mas aqueles que observam as causas profundas compreendem que a ruína começou muito antes das manifestações exteriores.

  •  

Capítulo

Que a força moral das sociedades é mais difícil de restaurar do que as riquezas materiais.

Pois riquezas podem ser acumuladas novamente mediante trabalho e organização.

Construções podem ser reconstruídas.

Exércitos podem ser recrutados.

Mas a coragem, a solidariedade e a disposição para sacrifício coletivo exigem longo tempo para formação.

Porque dependem dos hábitos, da educação e das condições morais das gerações.

Assim, quando uma civilização perde profundamente suas virtudes fundamentais, torna-se difícil restaurá-las rapidamente.

E frequentemente os governantes procuram solucionar decadência apenas mediante aumento de recursos materiais e aparato estatal.

Mas isso não recompõe automaticamente força interior das almas.

Pois a essência do poder político e civilizacional encontra-se primeiramente nos homens e em seus caracteres.

  •  

Capítulo

Que as civilizações excessivamente dependentes do luxo tornam-se frágeis diante da escassez.

Pois os homens acostumados à abundância organizam toda sua vida segundo continuidade do conforto.

Então qualquer redução significativa de riqueza ou estabilidade produz grande desordem.

Porque muitos já não sabem viver em condições simples.

Assim, os hábitos do luxo transformam-se em forma de dependência coletiva.

E quando surgem crises econômicas, guerras ou interrupções do comércio, os homens mostram-se incapazes de adaptar-se rapidamente à austeridade.

Então aumentam medo, desordem e conflito social.

Enquanto os povos habituados à simplicidade suportam mais facilmente períodos de escassez.

Assim, o excesso de dependência do conforto enfraquece resistência coletiva diante das mudanças inevitáveis do mundo.

  •  

Capítulo

Que os homens frequentemente tornam-se prisioneiros dos hábitos criados pela própria civilização.

Pois os costumes repetidos continuamente moldam desejos, expectativas e formas de pensar.

Então aquilo que começou como conveniência transforma-se gradualmente em necessidade psicológica.

E os homens passam a sentir dificuldade em imaginar modos diferentes de vida.

Assim, as civilizações refinadas criam padrões de existência dos quais os próprios homens tornam-se dependentes.

E frequentemente defendem tais hábitos mesmo quando eles contribuem para enfraquecimento da sociedade.

Porque as almas acostumam-se às condições predominantes e resistem à mudança.

Então torna-se difícil restaurar austeridade e disciplina após longa expansão do luxo.

  •  

Capítulo

Que o excesso de centralização torna os Estados mais vulneráveis a falhas do centro político.

Pois os reinos simples distribuem naturalmente responsabilidades entre grupos e comunidades locais.

Assim, parte da vitalidade da sociedade permanece independente do governante central.

Mas, quando o Estado concentra excessivamente autoridade, administração e recursos em um único centro, toda a civilização torna-se dependente da estabilidade desse núcleo.

Então qualquer enfraquecimento da autoridade central produz efeitos amplos em todas as regiões.

E os homens acostumam-se a esperar continuamente direção superior para resolução de problemas.

Assim, reduz-se capacidade espontânea de organização local e responsabilidade coletiva.

E quando o centro político entra em crise, muitas partes da sociedade mostram-se incapazes de agir autonomamente.

Então o colapso espalha-se rapidamente por todo o reino.

  •  

Capítulo

Que a continuidade da civilização exige equilíbrio entre refinamento e força interior.

Pois as artes, as ciências e os refinamentos da vida representam perfeições importantes da civilização humana.

Mas, quando o refinamento ultrapassa certos limites, começa a corroer coragem, disciplina e solidariedade.

Assim, a civilização necessita preservar simultaneamente:
prosperidade,
justiça,
força moral,
e capacidade de resistência.

Porque o excesso em qualquer direção conduz desequilíbrio.

Então os Estados mais duradouros são aqueles que conseguem combinar abundância com preservação das qualidades que sustentam a força coletiva.

E saiba que os povos que conseguem preservar coragem e disciplina juntamente com prosperidade possuem maior capacidade de prolongar estabilidade política.

Porque não abandonam completamente as qualidades que produziram sua força inicial.

  •  

Capítulo

Que os homens acostumados à submissão prolongada tornam-se menos capazes de iniciativa política.

Pois a dependência contínua da autoridade enfraquece gradualmente confiança dos homens em sua própria capacidade de agir.

Então passam a esperar decisões e soluções vindas sempre de cima.

E evitam assumir responsabilidades coletivas espontaneamente.

Assim, desaparece pouco a pouco participação ativa na preservação da sociedade.

E os homens tornam-se mais inclinados à passividade e à obediência automática.

Enquanto os povos habituados à autonomia preservam maior energia política e senso de responsabilidade comum.

E saiba que a vitalidade das civilizações depende também da capacidade dos homens de agir por si mesmos quando necessário.

Porque sociedades compostas apenas por indivíduos dependentes tornam-se frágeis diante de crises inesperadas.

  •  

Capítulo

Que a corrupção das elites acelera a corrupção geral da sociedade.

Pois os homens tendem naturalmente a imitar aqueles que ocupam posições elevadas e prestigiosas.

Assim, quando governantes e elites preservam moderação, justiça e disciplina, essas qualidades espalham-se mais facilmente pelo povo.

Mas, quando as elites entregam-se ao luxo excessivo, à corrupção e à busca desenfreada de prazeres, os demais homens procuram imitá-las.

Então os vícios tornam-se socialmente aceitos e difundem-se gradualmente por toda a civilização.

E aquilo que antes era considerado desonroso passa a parecer normal.

Assim, a decadência moral das classes superiores frequentemente precede e acelera decadência coletiva do reino.

Porque os costumes das elites possuem grande influência sobre comportamento geral da sociedade.

  •  

Capítulo

Que os povos fortes preservam memória viva das dificuldades que originaram sua força.

Pois as gerações fundadoras dos Estados lembram constantemente:
as lutas,
os perigos,
as privações,
e os sacrifícios necessários para obtenção do domínio.

Assim, mantêm vigilância, austeridade e disposição para defesa.

Mas os descendentes nascidos em abundância esquecem gradualmente essas dificuldades.

Então passam a considerar naturais segurança e prosperidade.

E isso enfraquece lentamente consciência das condições necessárias para preservação do reino.

Assim, quando surgem tempos difíceis, as gerações tardias mostram-se menos preparadas para suportá-los.

Porque perderam memória viva das causas que sustentaram a força da civilização.

E saiba que a lembrança constante das dificuldades anteriores fortalece prudência e disciplina entre os homens.

Enquanto o esquecimento completo da fragilidade humana conduz frequentemente à arrogância e à negligência.

  •  

Capítulo

Que os Estados decadentes tornam-se mais inclinados a conflitos internos.

Pois quando enfraquece a asabiyyah comum, aumentam rivalidades entre grupos, famílias e facções.

Então cada grupo procura ampliar seus próprios interesses e posições dentro do reino.

E a unidade política dissolve-se gradualmente.

Assim, governantes passam grande parte de sua energia tentando controlar disputas internas em vez de fortalecer o Estado diante de ameaças externas.

E frequentemente recorrem à distribuição de favores e riquezas para comprar lealdades temporárias.

Mas isso amplia ainda mais corrupção e competição por privilégios.

Então enfraquece-se continuamente a coesão necessária à preservação do reino.

E saiba que os conflitos internos consomem força política e moral da civilização.

Porque os homens passam a enxergar adversários entre seus próprios compatriotas.

Então diminui disposição para cooperação coletiva e defesa comum.

  •  

Capítulo

Que a estabilidade excessivamente longa pode produzir ilusão de invulnerabilidade.

Pois as gerações que vivem durante longos períodos de segurança e prosperidade acostumam-se à continuidade dessas condições.

Então imaginam que o reino tornou-se naturalmente permanente.

E deixam de considerar seriamente possibilidade de decadência ou conquista.

Assim, diminuem vigilância, prudência e preparação para crises.

Enquanto povos mais simples e mais ameaçados permanecem continuamente atentos aos perigos.

E saiba que muitas civilizações foram surpreendidas não porque lhes faltassem riquezas ou recursos, mas porque perderam capacidade de imaginar própria fragilidade.

Então ignoraram sinais claros de enfraquecimento até que já fosse tarde demais.

  •  

Capítulo

Que a renovação moral é condição necessária para prolongamento dos Estados.

Pois as riquezas e instituições somente permanecem úteis quando sustentadas por homens disciplinados e responsáveis.

Assim, toda civilização necessita continuamente renovar:
a justiça,
a coragem,
a solidariedade,
e o senso de dever coletivo.

Porque essas qualidades enfraquecem naturalmente com expansão do luxo e da comodidade.

Então os Estados que abandonam completamente renovação moral aproximam-se inevitavelmente da decadência.

E frequentemente nenhuma reforma material consegue salvar reino cuja força interior já desapareceu.

Capítulo

Que as civilizações fortes preservam equilíbrio entre tradição e adaptação.

Pois os povos necessitam de continuidade de costumes, leis e princípios para manter unidade e estabilidade.

Mas também necessitam adaptar-se às mudanças das condições históricas e políticas.

Assim, os Estados sábios preservam fundamentos essenciais enquanto ajustam práticas secundárias conforme necessidade.

Enquanto as civilizações excessivamente rígidas tornam-se incapazes de responder adequadamente às transformações do mundo.

E aquelas que abandonam completamente tradições e fundamentos perdem coesão e identidade.

Portanto, a permanência política exige equilíbrio entre conservação e renovação.

E saiba que os povos que conseguem adaptar-se sem destruir própria unidade possuem maior capacidade de prolongar sua força.

  •  

Capítulo

Que a abundância material não garante superioridade moral.

Pois os homens frequentemente confundem riqueza, refinamento e luxo com perfeição verdadeira.

Então imaginam que as civilizações mais abundantes são necessariamente superiores em todos os aspectos.

Mas a abundância pode coexistir com:
corrupção,
fraqueza,
covardia,
e decadência moral.

Enquanto povos simples e pobres podem preservar:
coragem,
disciplina,
solidariedade,
e firmeza de caráter.

Assim, a verdadeira força das sociedades não depende apenas daquilo que possuem materialmente.

Ao contrário, depende principalmente das qualidades interiores dos homens.

E frequentemente civilizações poderosas exteriormente tornam-se frágeis porque perderam virtudes fundamentais.

Então acabam derrotadas por grupos menos refinados, porém mais fortes interiormente.

  •  

Capítulo

Que os homens acostumados ao excesso de proteção tornam-se menos preparados para liberdade e responsabilidade.

Pois aqueles que vivem continuamente sob tutela e direção constantes deixam de exercitar iniciativa própria.

Então acostumam-se a depender de autoridades para solução de dificuldades e tomada de decisões.

Assim, enfraquece-se gradualmente capacidade de agir autonomamente.

E os homens tornam-se mais passivos diante dos acontecimentos.

Enquanto os povos habituados à responsabilidade preservam maior disposição para iniciativa e defesa de seus interesses.

E saiba que a liberdade exige homens capazes de suportar consequências de suas próprias ações.

Mas os excessivamente dependentes frequentemente preferem segurança à autonomia.

Assim, tornam-se inclinados à submissão em troca de proteção e conforto.

Capítulo

Que os Estados excessivamente dependentes de coerção demonstram enfraquecimento da legitimidade.

Pois os reinos fortes em seu início sustentam-se principalmente pela solidariedade, pela aceitação coletiva e pela convicção de legitimidade.

Assim, os homens obedecem não apenas por medo, mas também por reconhecimento da autoridade.

Mas, quando enfraquecem justiça e asabiyyah, o governante passa a depender cada vez mais de vigilância, punições e aparato coercitivo.

Então multiplicam-se guardas, controles e demonstrações de força.

E isso indica que a obediência espontânea diminuiu.

Assim, o aumento contínuo da coerção frequentemente revela decadência interior da autoridade política.

Porque os homens obedecem exteriormente enquanto interiormente afastam-se do reino.

E quando surge oportunidade favorável, muitos abandonam rapidamente lealdade aparente.

  •  

Capítulo

Que os homens acostumados à facilidade tornam-se mais impacientes diante das dificuldades.

Pois aqueles que cresceram em abundância e conforto esperam satisfação rápida de seus desejos.

Então possuem menor tolerância para demora, esforço prolongado e sofrimento.

Enquanto os povos habituados à austeridade desenvolvem paciência e resistência maiores.

E saiba que a paciência é uma das qualidades necessárias para preservação dos Estados em tempos difíceis.

Porque crises prolongadas exigem homens capazes de suportar perdas e privações sem desagregação completa.

Mas as civilizações excessivamente refinadas frequentemente mostram-se menos capazes de perseverança diante de grandes adversidades.

Assim, pequenas dificuldades produzem nelas inquietação e desordem desproporcionais.

  •  

Capítulo

Que o excesso de luxo frequentemente transforma virtudes em objetos de desprezo.

Pois nas civilizações austeras são valorizadas:
coragem,
disciplina,
moderação,
e resistência.

Mas, quando o refinamento extremo se espalha, os homens passam a considerar essas qualidades como sinais de rudeza ou atraso.

Então exaltam:
comodidade,
sofisticação,
prazer,
e ostentação.

Assim, modifica-se gradualmente a escala moral da sociedade.

E aquilo que antes sustentava força coletiva passa a ser desprezado pelas elites refinadas.

Então enfraquecem fundamentos invisíveis da civilização.

Porque os homens deixam de admirar qualidades necessárias à preservação do reino.

E saiba que as civilizações não perdem força apenas pela pobreza ou pela derrota militar.

Ao contrário, frequentemente começam a enfraquecer quando deixam de valorizar as virtudes que lhes deram origem.

Então permanece riqueza exterior enquanto desaparece força interior.

  •  

Capítulo

Que os homens frequentemente tornam-se incapazes de perceber a própria dependência.

Pois os hábitos adquiridos gradualmente parecem naturais àqueles que vivem sob eles.

Assim, os povos acostumados ao conforto, à centralização e à proteção constante deixam de perceber quanto perderam em autonomia e capacidade de ação.

E passam a considerar impossível viver de outro modo.

Então defendem espontaneamente condições que contribuem para enfraquecimento de sua própria vitalidade.

Porque as almas habituam-se à dependência como se ela fosse estado natural da civilização.

Enquanto os povos mais simples preservam maior consciência da necessidade de coragem, responsabilidade e esforço contínuo.

E saiba que a dependência excessiva enfraquece lentamente as qualidades necessárias à preservação da liberdade e do reino.

  •  

Capítulo

Que as grandes civilizações frequentemente caem mais por decomposição interna do que por força externa.

Pois os grupos conquistadores raramente triunfam apenas pela superioridade material.

Ao contrário, geralmente encontram reinos já enfraquecidos interiormente por:
corrupção,
luxo,
divisões,
e dissolução da asabiyyah.

Assim, a força exterior apenas acelera colapso cujas causas profundas já estavam presentes.

E frequentemente pequenos grupos conseguem derrotar grandes impérios porque estes perderam coragem e coesão.

Então os exércitos tornam-se numerosos em aparência, mas frágeis em disposição.

E os homens deixam de sentir vontade verdadeira de defender o Estado.

Assim, o reino cai rapidamente apesar da grandeza exterior que ainda aparentava possuir.

  •  

Capítulo

Que os Estados necessitam continuamente preservar vínculo entre governantes e povo.

Pois os fundadores dos reinos costumam compartilhar dificuldades e perigos com seus companheiros e súditos.

Assim, existe sentimento comum de participação no destino do Estado.

Mas, quando o luxo e as formalidades aumentam, os governantes afastam-se progressivamente da vida do povo.

Então multiplicam-se barreiras físicas, sociais e psicológicas entre autoridade e sociedade.

E os homens passam a sentir que o reino pertence apenas às elites e não mais ao conjunto da civilização.

Assim, enfraquece-se lealdade espontânea ao Estado.

E isso reduz disposição para sacrifício coletivo em momentos de crise.

Capítulo

Que os homens defendem mais intensamente aquilo que sentem pertencer-lhes.

Pois a disposição para sacrifício nasce do vínculo interior entre o homem e aquilo que ele considera parte de si mesmo.

Assim, os povos que sentem pertencimento verdadeiro ao reino mostram-se mais preparados para protegê-lo.

Enquanto os homens que percebem o Estado como entidade distante e separada defendem-no apenas por obrigação ou interesse momentâneo.

Então a força política torna-se superficial e instável.

E saiba que a solidariedade coletiva fortalece-se quando existe participação comum nas dificuldades, nos benefícios e nas responsabilidades da civilização.

Mas, quando crescem desigualdades excessivas e afastamento entre governantes e povo, enfraquece-se sentimento de unidade.

Assim, os homens passam a preocupar-se apenas com interesses particulares.

E diminui disposição para defesa do bem comum.

  •  

Capítulo

Que a decadência das civilizações ocorre gradualmente antes de tornar-se visível.

Pois os sinais iniciais da ruína frequentemente aparecem nas almas e nos costumes antes de aparecerem nas instituições e construções.

Assim, os homens continuam vendo prosperidade exterior e acreditam que o reino permanece forte.

Enquanto interiormente:
enfraquece coragem,
cresce dependência,
espalha-se corrupção,
e dissolve-se solidariedade.

Então a decadência avança silenciosamente durante longo período.

E somente quando ocorre grande crise os homens percebem dimensão real do enfraquecimento.

Porque as estruturas exteriores conseguem permanecer de pé mesmo após perda da vitalidade interior.

Assim, muitos impérios aparentaram grandeza até pouco antes de seu colapso.

E aqueles que observavam apenas riquezas e exércitos não compreenderam causas profundas da ruína.

  •  

Capítulo

Que a preservação das civilizações exige constante renovação das virtudes coletivas.

Pois coragem, disciplina, justiça e solidariedade enfraquecem naturalmente com expansão prolongada do conforto e do luxo.

Assim, toda sociedade necessita continuamente educar novas gerações para responsabilidade e resistência.

Porque os homens não conservam espontaneamente qualidades difíceis sem esforço contínuo.

E quando as civilizações abandonam formação moral e disciplina coletiva, aproximam-se gradualmente da decadência.

Então mesmo abundância material e poder militar tornam-se insuficientes para preservação do reino.

Pois a essência da força política encontra-se nas almas dos homens antes de encontrar-se nas instituições exteriores.

E saiba que os Estados que conseguem prolongar duração são aqueles que preservam equilíbrio entre:
força e justiça,
prosperidade e disciplina,
autoridade e participação coletiva.

Porque o excesso em qualquer direção conduz enfraquecimento gradual da civilização.

  •  

Capítulo

Que os homens frequentemente acreditam que decadência significa apenas pobreza material.

Mas a verdadeira decadência começa antes:
quando enfraquecem virtudes,
quando dissolve-se solidariedade,
quando desaparece disposição para sacrifício,
e quando os homens tornam-se excessivamente dependentes do conforto.

Assim, uma civilização pode possuir abundância de riquezas e ainda assim aproximar-se da ruína.

Porque riqueza exterior não substitui força interior.

E saiba que muitos povos permaneceram poderosos materialmente mesmo após terem perdido coragem e vitalidade.

Então bastou choque relativamente pequeno para revelar fragilidade escondida.

  •  

Capítulo

Que as civilizações mais fortes são aquelas capazes de unir refinamento e vigor.

Pois a perfeição da civilização não consiste apenas em luxo ou abundância.

Ao contrário, consiste em preservar:
ciências,
artes,
justiça,
prosperidade,
e refinamento,
sem destruir coragem, disciplina e solidariedade.

Assim, os Estados mais equilibrados conseguem prolongar força política por período maior.

Enquanto aqueles que se entregam completamente ao luxo acabam corroendo fundamentos de sua própria permanência.

E saiba que a dificuldade maior não está em conquistar o reino, mas em preservá-lo sem perder as qualidades que tornaram possível sua conquista.

Porque o sucesso produz continuamente tentações de conforto, arrogância e excesso.

Então toda civilização carrega dentro de si causas potenciais de sua própria decadência.

  •  

Capítulo

Conclusão sobre a natureza da civilização humana.

Saiba que a sociedade humana é necessária à existência da espécie.

E que os homens dependem inevitavelmente de cooperação para preservação da vida.

Assim surgem:
os povos,
os Estados,
as cidades,
as artes,
e as ciências.

Mas as condições da civilização transformam continuamente os caracteres humanos.

Então alternam-se:
austeridade e luxo,
força e fraqueza,
ascensão e decadência.

E nenhum Estado permanece eternamente em uma única condição.

Porque Deus alterna os dias entre os homens e faz sucederem-se as gerações e os reinos.

Assim, os povos fortes tornam-se fracos quando mergulham excessivamente no luxo.

E os povos fracos tornam-se fortes quando preservam coragem, solidariedade e disposição para suportar dificuldades.

Então alternam-se os Estados e sucedem-se as civilizações.

E esta é uma das leis mais constantes da sociedade humana.

  •  

Capítulo

Que os homens mais sábios são aqueles que observam as causas ocultas dos acontecimentos e não apenas suas aparências exteriores.

Pois a maioria dos homens observa:
riquezas,
exércitos,
palácios,
e símbolos de autoridade,
e imagina que nisso consiste a força verdadeira dos reinos.

Mas o investigador das condições da civilização compreende que essas coisas são apenas manifestações exteriores.

Enquanto as causas profundas encontram-se:
na asabiyyah,
na justiça,
na coragem,
na disciplina,
e nas condições morais das sociedades.

Assim, um reino pode aparentar grandeza enquanto já se encontra interiormente enfraquecido.

E outro pode parecer pequeno e simples enquanto preserva força suficiente para ascender ao domínio.

Por isso, aquele que deseja compreender história e política deve investigar as naturezas ocultas das sociedades e não limitar-se às aparências dos acontecimentos.

  •  

Capítulo

Que a continuidade da autoridade depende da preservação da legitimidade interior.

Pois os homens obedecem mais firmemente àquilo que consideram legítimo e justo.

Assim, quando o governante preserva:
justiça,
moderação,
e proteção do povo,
fortalece-se disposição espontânea para obediência e cooperação.

Mas, quando espalham-se injustiça, corrupção e exploração, enfraquece-se legitimidade do reino.

Então os homens obedecem apenas por medo ou necessidade.

E isso torna a autoridade frágil diante de crises.

Porque o medo sozinho não sustenta continuamente os Estados.

Enquanto a aceitação interior produz estabilidade mais duradoura.

  •  

Capítulo

Que as civilizações excessivamente refinadas frequentemente tornam-se incapazes de retorno voluntário à austeridade.

Pois os homens habituados durante longo tempo ao conforto e à abundância passam a considerar intoleráveis condições simples da vida.

Então resistem a qualquer tentativa de redução de luxos, privilégios e prazeres.

Mesmo quando a preservação do Estado exige disciplina e contenção.

Assim, torna-se difícil restaurar qualidades austeras após longa expansão do refinamento.

E frequentemente as civilizações permanecem avançando em direção ao excesso até que crises externas imponham mudanças violentas.

Então os homens preferem frequentemente preservar prazeres imediatos mesmo ao custo do enfraquecimento gradual da civilização.

E isso acelera aproximação da decadência.

  •  

Capítulo

Que os Estados necessitam continuamente equilibrar expansão e capacidade de sustentação.

Pois o crescimento excessivo do reino amplia:
despesas,
necessidades administrativas,
dependência militar,
e complexidade política.

Então torna-se mais difícil preservar unidade e estabilidade.

E muitos governantes buscam expansão contínua acreditando que aumento territorial significa necessariamente fortalecimento permanente.

Mas frequentemente a ampliação exagerada ultrapassa capacidade real de administração e sustentação do Estado.

Assim, aquilo que inicialmente representa força transforma-se gradualmente em peso.

E saiba que os reinos mais estáveis são aqueles que mantêm proporção equilibrada entre:
recursos,
território,
população,
e capacidade administrativa.

Porque a desmedida produz fragilidade oculta.

  •  

Capítulo

Que os homens raramente reconhecem plenamente as causas profundas de sua própria prosperidade.

Pois as gerações nascidas durante períodos de abundância costumam atribuir prosperidade apenas:
à riqueza acumulada,
à tecnologia,
ou às instituições visíveis.

Então esquecem virtudes e condições morais que permitiram surgimento e preservação da civilização.

Assim, deixam de valorizar:
disciplina,
solidariedade,
coragem,
e disposição para sacrifício coletivo.

Mas essas qualidades frequentemente constituem fundamento invisível da prosperidade material.

E quando desaparecem, começa lentamente enfraquecimento do reino.

Mesmo que ainda permaneçam abundância e conforto exteriores.

  •  

Capítulo

Que os povos fortes são aqueles capazes de suportar dificuldades sem dissolução interior.

Pois crises, guerras e escassez atingem inevitavelmente todas as civilizações.

Mas os povos diferem profundamente na maneira como respondem a essas dificuldades.

Assim, aqueles que preservam:
coesão,
disciplina,
e coragem,
conseguem suportar sofrimentos temporários sem destruição completa da sociedade.

Enquanto os povos excessivamente dependentes do conforto entram rapidamente em desordem diante de perdas moderadas.

Porque perderam capacidade de resistência psicológica e moral.

E saiba que a verdadeira força das civilizações revela-se mais claramente nos tempos de dificuldade do que nos períodos de abundância.

Capítulo

Que os homens frequentemente tornam-se mais frágeis interiormente à medida que aumentam refinamento exterior.

Pois as civilizações avançadas produzem grande perfeição em:
artes,
construções,
ciências,
e formas de conforto.

Mas, ao mesmo tempo, podem reduzir gradualmente capacidade de resistência das almas.

Então os homens tornam-se mais sensíveis:
à dor,
à perda,
à incerteza,
e às dificuldades inevitáveis da existência.

Enquanto os povos acostumados à austeridade preservam maior firmeza diante das mudanças do destino.

E saiba que a abundância material não fortalece necessariamente coragem e caráter.

Ao contrário, quando não acompanhada de disciplina e moderação, pode produzir dependência e fragilidade.

Assim, civilizações altamente refinadas frequentemente aparentam grandeza exterior enquanto interiormente tornam-se vulneráveis.

  •  

Capítulo

Que a preservação da civilização exige renovação contínua da educação moral.

Pois as virtudes necessárias à continuidade do reino não permanecem espontaneamente nas gerações.

Assim, toda sociedade necessita educar continuamente:
coragem,
justiça,
disciplina,
responsabilidade,
e disposição para cooperação coletiva.

Porque os homens inclinam-se naturalmente ao conforto e à busca de prazeres imediatos.

Então, sem formação moral constante, enfraquecem-se qualidades necessárias à preservação da ordem e da força política.

E saiba que a decadência frequentemente começa quando as sociedades passam a valorizar apenas riqueza e prazer, negligenciando formação do caráter.

Assim, os homens tornam-se incapazes de sustentar civilização que herdaram.

  •  

Capítulo

Que os Estados sobrevivem enquanto preservam equilíbrio entre autoridade e vitalidade social.

Pois o excesso de autoridade destrói iniciativa e coragem dos homens.

Enquanto a ausência de autoridade dissolve ordem e unidade política.

Assim, os reinos mais duradouros são aqueles que conseguem preservar:
força suficiente para proteger justiça,
e liberdade suficiente para manter vitalidade da sociedade.

Então os homens cooperam espontaneamente sem perder completamente capacidade de agir por si mesmos.

E isso fortalece simultaneamente estabilidade política e energia coletiva.

Mas, quando desaparece esse equilíbrio, aproxima-se enfraquecimento gradual do reino.

Porque tanto a tirania quanto a desordem corroem fundamentos da civilização.

Capítulo

Que a verdadeira força política depende da união entre ordem exterior e força interior.

Pois os Estados não se sustentam apenas:
por exércitos,
leis,
ou riquezas.

Ao contrário, dependem principalmente da condição das almas dos homens.

Assim, quando existe:
justiça,
solidariedade,
disciplina,
e disposição para defesa comum,
fortalece-se naturalmente o reino.

Então os homens cooperam espontaneamente para preservação da civilização.

Mas, quando espalham-se:
corrupção,
luxo excessivo,
dependência,
e egoísmo,
enfraquece-se gradualmente a base interior do poder político.

Assim, mesmo grandes impérios tornam-se vulneráveis.

Porque as estruturas exteriores não conseguem sustentar-se indefinidamente sem vitalidade moral e coletiva.

E saiba que as causas profundas da ascensão e da decadência dos Estados encontram-se principalmente nas transformações dos caracteres humanos.

Pois os homens constroem civilizações conforme suas qualidades interiores.

E também as destroem quando essas qualidades desaparecem.

  •  

Capítulo final

Conclusão da introdução acerca da natureza dos Estados e das civilizações.

Saiba que a civilização humana alterna continuamente entre:
força e fraqueza,
austeridade e luxo,
ascensão e decadência.

Pois os povos austeros conquistam reinos mediante coragem e solidariedade.

Então estabelecem abundância e refinamento.

Mas o refinamento excessivo dissolve gradualmente as qualidades que produziram a força inicial.

Assim, surge novo povo mais simples e mais forte que substitui o reino decadente.

E esta alternância repete-se continuamente na história das nações.

Porque Deus fez dos dias sucessão entre os homens, e dos Estados ciclos de ascensão e desaparecimento.

Portanto, aquele que deseja compreender verdadeiramente a história deve investigar:
as naturezas da civilização,
as condições das sociedades,
e as causas ocultas dos acontecimentos,
e não limitar-se apenas à aparência das notícias transmitidas.

Pois a essência da história encontra-se na compreensão das causas e não apenas na narração dos fatos.

E Deus é o mais sábio acerca da verdade das coisas e do destino das nações.

Louvor a Deus, Senhor dos mundos.

E que Deus abençoe nosso senhor Muḥammad, sua família e seus companheiros, e lhes conceda paz abundantemente.

E Deus é mais sábio.

 

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