quinta-feira, 28 de maio de 2026

DA NATUREZA DA MATÉRIADA NATUREZA DA MATÉRIA E DAS DIMENSÕES INDETERMINADAS.

   

DA NATUREZA DA MATÉRIA
DA NATUREZA DA MATÉRIA E DAS DIMENSÕES INDETERMINADAS
(De autenticidade duvidosa)
Capítulo 1: Que a matéria primeira não pode ser produzida no ser senão por criação, e que ela mesma é o primeiro sujeito na geração física.
Depois que se tratou dos princípios, restou considerar mais plenamente a natureza da matéria.
Deve-se saber, portanto, que a causalidade da criatura não se estende até a matéria, porque a ação da criatura sobre outro se funda em algo subjacente. Mas a matéria não tem algum sujeito do qual possa ser extraída pela ação, porque da matéria não há matéria.
Donde a geração não requer sujeito senão somente em potência. Isto, porém, é o único que permanece na geração, porque o sujeito necessariamente permanece com aquilo de que é sujeito.
Portanto, porque a geração não é movimento, mas mudança, como se diz no quinto da Física, sendo a geração o termo da ação física, isto é, da alteração, a qual, por causa da natureza do movimento, requer sempre sujeito existente em ato; a matéria, que é sujeito da geração, nunca é sem forma.
Por isso, um agente em cuja ação não é necessário preceder algum termo da ação, pode extrair algo da matéria sem alguma alteração, seja do nada, seja pressuposto algum movimento.
Com efeito, sua ação, como não é movimento nem termo do movimento, pode transmutar subitamente o ente somente em potência sem alguma alteração precedente: porque o tempo não é requerido para medir a ação da coisa natural senão por causa do movimento adjunto; donde não seria necessário que a matéria se unisse à forma por ação divina, à qual a forma unida fosse submetida, mas por ação física, que não atinge o ente em potência somente em si, mas em seu termo, onde o movimento cessa.
Do termo, portanto, da ação física pode-se tomar caminho para investigar a natureza da matéria, como faz o Filósofo no primeiro dos Físicos.
Capítulo 2: De que modo, pela mudança das formas, se chega ao conhecimento da matéria; e segundo qual razão a matéria é princípio de individuação.
Deve-se considerar, portanto, que o termo da ação física é duplo: a saber, primeiro e segundo.
O primeiro é a geração, que é termo da alteração física.
O segundo, porém, é a forma, que é o fim da geração, embora nem sempre pela força da geração seja introduzida a forma que é fim da geração, como é patente na alma humana, que não é introduzida por agente físico; donde o primeiro termo da ação física na geração humana é disposição suficiente para a introdução da alma, a qual pelo Filósofo é dita geração no segundo dos Físicos, porque o homem gera homem e o sol.
Propriamente, porém, há geração quando a forma é unida ao gerado pela natureza do gerante; o que se faz quando o princípio da ação não excede o modo de agir em nenhuma de suas forças, como é patente em todas as formas imersas na matéria.
Com efeito, tais formas não são princípio de agir segundo algo de si, como se algo de si não estivesse imerso na matéria, e algo estivesse imerso; mas totalmente são princípio da ação das coisas das quais são formas: por isso, pela força da ação faz-se algo semelhante em espécie no gênero de tais coisas.
Mas a alma do homem excede o modo de sua ação e geração, porque a alma do homem não é forma totalmente imersa na matéria; pois a potência generativa do homem não é toda a virtude da alma humana, mas uma parte dela, que não excede as condições da matéria.
E por isso, na geração do homem não se atinge o mesmo em espécie pela força da geração como nos outros: pois, por mais que a matéria seja disposta segundo a natureza para a alma humana, Deus, contudo, pode não criá-la.
Da geração, portanto, que é o primeiro termo da ação física, pode-se tomar qual seja a natureza da matéria.
Com efeito, como não se requer algum sujeito em ato na ação física senão por causa do movimento, como foi dito da alteração, e o sujeito deve permanecer em todo o movimento, segue-se necessariamente que, enquanto há algo da natureza da alteração e do movimento, o sujeito esteja em ato.
Quando, porém, o movimento da alteração falta, falta a atualidade do sujeito. Ora, isto está em seu termo, que é a geração.
Donde, na geração, necessariamente perecerá toda a atualidade do sujeito alterado.
Somente, portanto, o ente em potência permanece na geração. Ora, o ente em potência é somente a matéria. E por isso a matéria nua é sujeito da geração.
Como, porém, a matéria impede o conhecimento, e cada coisa não é conhecida senão segundo o que é em ato, como se diz no nono da Metafísica; por isso a matéria não é cognoscível senão em ordem à forma, como diz o Filósofo no primeiro dos Físicos.
Por isso, é necessário conhecer primeiro a forma e por ela investigar a natureza da matéria: a forma, com efeito, é termo da ação física, como foi dito.
Deve-se saber, porém, que há três gêneros de formas.
Com efeito, há uma forma que é o próprio seu ser, e não é recebida de algo anterior, nem comunicada a algo posterior: e tal forma é Deus. E por isso somente ele é infinito absolutamente.
Há outras formas que, embora não sejam recebidas na matéria, contudo não são o próprio seu ser, visto que nelas ocorre composição de essência e ser: e por isso, de uma parte são finitas, e de outra infinitas: são finitas, com efeito, segundo seu ser terminado superiormente por outro, mas não inferiormente, visto que não são recebidas em algum inferior. E esta é a doutrina do Comentador no Livro das Causas.
Há ainda outras formas que são finitas por todos os lados, as quais também têm o ser de outro, o que é comum a toda criatura, e, não obstante, são recebidas em alguma matéria.
Entre estas, contudo, há grande diferença: porque quanto menos são imersas na matéria, tanto menos são limitadas: e por isso a alma humana de algum modo é todas as coisas, como se diz no terceiro do De anima.
Com efeito, pelo fato de não estar imersa na matéria como as outras formas, permanece nela certa infinitude.
Donde o intelecto se estende a mais coisas, o sentido, porém, a menos: nem por causa desta maior extensão ela se dispersa para muitas coisas, mas antes permanece mais unida na apreensão de muitos inteligíveis do que o sentido em poucos sensíveis; e isto é por causa da maior unidade do meio pelo qual ela conhece, que é mais uno do que o meio pelo qual se realiza o conhecimento sensível.
Por estas coisas, portanto, consta e é manifesto que as formas tomadas em si são unidas e não dispersas.
Quando, porém, são recebidas na matéria e nela imersas, padecem divisão em sua natureza.
E por isso, como a espécie segue a forma, nas formas separadas da matéria não há diferença de supostos nem multiplicidade na mesma espécie ou razão formal, mas cada suposto reúne unitamente em si toda a sua espécie.
Nas formas, porém, recebidas na matéria, uma espécie se encontra em muitos supostos; mas isto não provém da natureza da matéria tomada de qualquer modo, visto que a matéria é da natureza das espécies nas coisas materiais, mas isto é pela recepção da forma na matéria segundo o que ela é sujeito primeiro.
Com efeito, como o sujeito em alguma espécie ou alguma parte subjetiva seja substância primeira, que é dita indivíduo, aquilo que possui a razão de primeiro sujeito é causa da individuação e da divisão da espécie nos supostos.
Ora, o primeiro sujeito é aquilo que não pode ser recebido em outro.
E por isso as formas separadas, pelo próprio fato de não poderem ser recebidas em outro, têm razão de primeiro sujeito. E por isso se individuam por si mesmas.
E como nelas não há senão forma, há nelas forma segundo a razão de forma.
E por isso, como nelas o suposto e a forma sejam o mesmo, pelo qual se individuam por si mesmas enquanto possuem razão de primeiro sujeito; para a multiplicação dos supostos, multiplica-se nelas a forma segundo a razão de forma segundo si mesma, e não por outro, porque não são recebidas em outro.
Ora, toda tal multiplicação multiplica a espécie, e por isso nelas tantas são as espécies quantos são os indivíduos.
Nas outras formas, porém, onde há multiplicidade da forma pela recepção em outro que possui razão de primeiro sujeito, e não segundo a razão de forma, permanece a mesma espécie em diversos supostos.
Este recipiente, porém, é a matéria, não tomada de qualquer modo, como foi dito, visto que ela é do intelecto da espécie filosófica, mas segundo o que possui razão de primeiro sujeito; e sua designação é estar sob determinadas dimensões, que fazem o ser aqui e agora demonstrável ao sentido.
Para esta divisão, portanto, da forma, não se requer na matéria alguma dimensão indeterminada: pois a matéria é princípio de individuação enquanto é primeiro sujeito, como foi dito, e somente assim.
Com efeito, enquanto permanece algo ulteriormente receptível, não se encontra o último que por natureza não pode ser recebido em nada; se, porém, houver dimensões indeterminadas, necessariamente estarão na matéria como em sujeito.
Ora, a matéria com três dimensões não é primeiro sujeito, mas segundo si e em sua natureza: pelo qual modo não pertence à natureza da espécie, mas enquanto está na apreensão do intelecto, ao qual compete perceber a determinação ou intenção da espécie.
Portanto, quando a forma é recebida na matéria, circunscritas pelo intelecto todas as dimensões, faz-se algo existente no gênero da substância e tendo ultimamente a razão completa de indivíduo na substância.
Mas não se faz demonstrável aqui e agora sem dimensões determinadas e certas, as quais necessariamente deve possuir, pelo fato de a forma ser recebida na matéria: como é impossível que ela seja recebida na matéria sem que se constitua corpo de substância, sob cuja figura própria estão as mesmas dimensões.
E por isso se diz que a matéria sob determinadas dimensões é causa da individuação: não que as dimensões causem o indivíduo, visto que o acidente não causa seu sujeito; mas porque pelas dimensões certas demonstra-se o indivíduo aqui e agora, como por sinal próprio e inseparável do indivíduo.
Capítulo 4: Em que se expõe a opinião do Comentador acerca das dimensões indeterminadas, e se a reprova.
Do que foi dito, portanto, é patente que Averróis errou no livro Da substância do orbe ao colocar dimensões indeterminadas preexistindo na matéria, e isto necessariamente para a produção das formas substanciais.
Sua razão principal é acerca da divisão, porque, a saber, diversas formas não podem ser recebidas na mesma parte da matéria, nem a matéria possui parte e parte senão pela quantidade, nem a quantidade terminada pode ser entendida sem que tenha precedido forma substancial.
Por isso diz que o Filósofo colocou dimensões indeterminadas necessárias para a constituição das coisas naturais, e estas preexistirem na essência da matéria, as quais, com a chegada da forma substancial, são terminadas.
Diz, porém, que a essência da matéria não pode ser despojada destas dimensões; de outro modo, não se faria do corpo corpo e das dimensões dimensões, o que ele considera inconveniente.
Se, porém, há alguma forma que não é dividida pela recepção da matéria, como a forma do céu, não é necessário colocar tais dimensões.
E por isso diz que Avicena errou, porque não colocou tais dimensões, mas quis que o primeiro que existe na matéria fosse a forma substancial; e por isso muitos inconvenientes seguem-se das afirmações de Avicena, segundo o Comentador, porque assim a forma não seria dividida pela matéria, nem seria recebida na matéria senão uma única forma, e ela permaneceria nela perpetuamente.
Esta é a opinião de Averróis acerca das dimensões indeterminadas, contra o qual é necessário apresentar razões, para que se encontre o verdadeiro modo da geração das coisas; depois, porém, mostrar-se-á quão impossível e inconveniente é colocar dimensões indeterminadas: assim, com efeito, cremos poder cumprir nossa intenção.
Argumenta-se, portanto, assim.
As dimensões supraditas, que essencialmente são quantidades, ainda que não pertençam atualmente ao gênero da quantidade, ou são extraídas da potência da matéria sujeita a elas, ou não.
Se são extraídas da potência da matéria: portanto antes não estavam na matéria senão na potência da matéria, à maneira daquelas coisas que são extraídas da potência da matéria.
Logo, a matéria pode ser despojada de tais dimensões; o contrário do que ele diz.
E novamente, aquilo que é conduzido da potência da matéria é extraído pela transmutação da matéria.
Ora, não há transmutação na matéria senão passando da potência da matéria ao ato da forma substancial.
É necessário, portanto, que tais dimensões sigam a indução de alguma forma substancial na matéria.
Mas todas as dimensões que seguem a forma são terminadas, segundo ele mesmo.
Logo, não haverá dimensões indeterminadas extraídas da potência da matéria.
Se, porém, não são extraídas da potência da matéria, não haverá somente dois princípios na constituição das coisas naturais, a saber, matéria e forma, mas também um terceiro, a saber, as dimensões supraditas.
Com efeito, tudo aquilo que permanece e não é feito de algo, necessariamente é princípio, como se diz no primeiro dos Físicos.
E novamente, os acidentes têm alguns outros princípios além dos princípios da substância, a saber, as dimensões supraditas, o que o próprio Comentador sustenta para si, dizendo que as dimensões terminadas se fazem das indeterminadas.
Além disso, aquelas dimensões indeterminadas ou distinguem as partes da matéria umas das outras, ou não.
Se distinguem, como toda distinção provém de algum ato, a matéria teria partes distintas em ato e não por alguma forma substancial, o que é impossível, visto que a matéria não possui ser senão pela forma substancial.
Se, porém, não distinguem senão em potência, são colocadas inutilmente na matéria, porque na matéria nua há potência para a distinção das partes, a qual adquire pela forma introduzida, o que é compor-se de partes dimensionais.
Além disso, nas substâncias é anterior entender as essências das coisas do que seu ser, assim como o recipiente é naturalmente anterior ao recebido.
Mas como os acidentes não possuem ser em suas essências, mas pela recepção deles em seus sujeitos, nos quais possuem ser; naturalmente é anterior o ser que possuem em seus sujeitos do que a essência na consideração de seu gênero.
É impossível, portanto, entender as essências das dimensões na matéria sem o ser.
Ora, o ser é o primeiro de todos os atos.
Logo, sem ato não é possível entender dimensões na matéria.
Além disso, ou se faz um uno das dimensões indeterminadas e da matéria, ou não.
Se se faz um uno, ou por si, ou por acidente: não por si, porque então do sujeito e do acidente se faria um uno por si, o que é contra o Filósofo; se por acidente: como tudo o que é por acidente deve ser reduzido ao que é por si, portanto é necessário preexistirem algumas coisas das quais se faça um uno por si.
Isto, porém, não é senão o composto de matéria e forma substancial.
Necessariamente, portanto, a forma substancial preexiste a quaisquer dimensões.
Se não se faz um uno da matéria e de tais dimensões, então o ser do acidente será enumerado juntamente com aquilo em que está: o que é impossível, a não ser que fossem duas coisas distintas entre si.
Logo, não haverá dimensões indeterminadas na matéria antes da forma substancial.
Além disso, tudo o que pertence a algum gênero, ou está contido naquele gênero, como espécie ou gênero ou indivíduo, ou é redutível àquele gênero, assim como o princípio é reduzido ao gênero do principiado, e a privação ao gênero de seu hábito, e a parte ao gênero de seu todo.
Ora, as supraditas dimensões não estão no gênero da quantidade como espécie ou indivíduo, visto que toda espécie é denominada ou determinada em relação ao seu gênero, e o indivíduo em relação à espécie.
Nem estão no gênero da quantidade como o princípio está no gênero de seu principiado: pois o princípio das dimensões não é dimensão: a primeira dimensão, com efeito, é a linha, cujo princípio é o ponto, que carece de toda dimensão, visto que não possui parte e parte.
Portanto, como certos indivisíveis sejam próprios de todas as dimensões terminadas, é impossível colocar dimensões indeterminadas na matéria como princípios das dimensões terminadas.
Nem são redutíveis ao gênero da quantidade como privações, porque as privações não possuem essências; aquelas dimensões, porém, são ditas certas essências.
Nem são reduzidas como partes ao todo: pois o todo na quantidade possui partes determinadas por dimensões certas, as quantidades indeterminadas, porém, não são partes de alguma quantidade terminada.
Além disso, aquilo que possui essência pode ser definido ainda que não possua ser, porque a definição indica a essência da coisa.
Mas nos acidentes é impossível atribuir definição senão pelo sujeito no qual possuem ser, porque o ser deles não segue suas essências em seu gênero próprio.
É impossível, portanto, colocar essências de acidentes sem o ser de seu sujeito.
Ora, a matéria não possui ser sem forma.
É impossível, portanto, colocar dimensões na matéria sem forma substancial.
Além disso, o indeterminado remove a certeza da quantidade: mas em qualquer coisa natural é colocada uma certeza de quantidade, além da qual e aquém da qual não se estende a consideração física, segundo o Filósofo no segundo do De anima; donde o Filósofo tampouco fala da matéria quando se toma algo aquém da carne mínima, como é patente no primeiro dos Físicos, mas é somente metafísica, ou inteligível: porque, quando o Filósofo fala dela, toma-a em ordem à forma física, que é sempre terminada.
Portanto, nada acerca das dimensões indeterminadas pertence ao natural.
O próprio Comentador, contudo, diz que o Filósofo as encontrou, não considerando que o Filósofo estende sua consideração até a matemática como até um termo não de seu gênero: donde a dimensão indeterminada é excluída da consideração física, e não incluída nela.
Além disso, segundo o Filósofo no primeiro dos Físicos, se o homem é gerado, necessariamente o homem animal é gerado do não-animal-este, e não do não-animal simplesmente; mas se o animal fosse gerado simplesmente, necessariamente seria gerado do não-animal simplesmente.
E esta é razão suficiente para mostrar que as coisas foram produzidas por Deus do nada, como sendo causa do ente absolutamente, o qual necessariamente será do não-ente simplesmente.
Isto, porém, é o nada.
Como, portanto, as dimensões simplesmente sejam dimensões terminadas e perfeitas, necessariamente serão de não-dimensões simplesmente.
Isto, porém, é nada antes das dimensões, e isto o próprio Comentador considera inconveniente.
Além disso, o princípio de todas as dimensões é o ponto: donde na definição da linha, que é a primeira dimensão, coloca-se o ponto: pois a linha é aquilo cujos extremos são dois pontos, como diz Euclides.
É impossível, porém, colocar alguma coisa e não o princípio da coisa.
É impossível, portanto, colocar linha sem ponto.
Ora, o ponto, assim como é princípio da linha, assim é seu termo, como é patente pela definição da linha.
É impossível, portanto, colocar dimensão indeterminada, visto que nenhuma pode existir sem ponto.
Ora, o ponto não é indeterminado, visto que ele é termo das outras dimensões.
Logo, o indeterminado não existe nem pode existir.
Além disso, como a dimensão indeterminada se faz terminada pela introdução da forma, a própria dimensão indeterminada ou está na matéria como em sujeito, ou no composto.
Mas não pode ser colocada na matéria, visto que nada é mais imediato à matéria do que a forma substancial: nem novamente esta dimensão seria medida do próprio composto, mas somente da matéria; pois a quantidade somente é medida de seu sujeito; e isto é falso.
Nem estará no próprio composto, porque, como terminado e indeterminado não variem a essência das dimensões, o mesmo acidente mudaria por essência de sujeito para sujeito: pois uma coisa é o próprio composto, e outra a matéria nua.
Do que foi dito, portanto, é manifesto que colocar dimensões indeterminadas na matéria, e fazê-las preceder toda forma substancial, é impossível, a não ser somente pelo intelecto, como colocam os matemáticos.
Mas sobre isto haverá discurso posteriormente.
Capítulo 5: De que modo as coisas naturais são geradas por geração física da matéria; e do modo da constituição da coisa.
Agora, porém, resta considerar o modo da constituição da coisa.
Onde primeiro deve-se atentar que nada é totalmente comum à forma e à privação senão a matéria nua, porque o termo da ação física, a saber, a geração, atinge a essência nua da matéria, porque a geração não é movimento, como foi dito; a alteração, porém, não atinge a essência nua da matéria, visto que nenhum acidente existe além de seu sujeito.
Ora, o sujeito da alteração é ente em ato possuindo diversas partes, porque a alteração é movimento, que requer diversidade de partes.
Nós, com efeito, falamos daquela alteração que sempre rejeita algo da coisa alterada; pois o termo de tal alteração é a geração.
É impossível, porém, que a matéria possua diversas partes segundo si, porque a diversidade das partes é propriamente do composto constituído de partes diversas, donde a matéria, assim como está em potência para a forma, cuja aquisição é a geração do composto constituído de partes, assim está em potência para a diversidade das partes do próprio composto gerado dela.
Pois da matéria não é gerada a forma por si, segundo o Filósofo, porque aquilo do qual algo é gerado por si é parte dele.
Ora, a matéria não é parte da forma, mas do próprio composto: por isso o composto é gerado por si, como se diz no sétimo da Metafísica.
O composto, porém, é dito aquilo que possui diversas partes.
Donde a diversidade das partes não é da matéria, nem da forma, mas do composto.
O ser composto, porém, nada mais é do que a matéria ser transmutada para a forma para a qual estava em potência.
Do que é manifesto que a matéria não está em potência para partes terminadas e distintas por outra coisa senão por aquilo pelo qual está em potência para a forma, cuja indução é a geração do composto de partes, como foi dito.
E por isto ulteriormente é manifesto que nenhuma potência deve ser colocada da parte da matéria, senão aquela que é aperfeiçoada pela forma substancial, visto que a matéria e sua forma pertencem ao mesmo gênero.
A potência, porém, na qual são colocadas as supraditas dimensões, não é informada pela forma substancial, visto que não pertence ao mesmo gênero da substância.
É impossível, portanto, colocar alguma outra potência da parte da matéria em relação à forma substancial, e em relação às diversas partes do próprio composto gerado pela indução da forma na matéria.
E por isso é manifesto o erro de Averróis, que colocou dimensões indeterminadas na matéria como certa potência para dimensões terminadas, outra potência da matéria em relação à forma substancial: e acerca disto já se falou suficientemente acima.
Portanto, quando alguma forma substancial aperfeiçoa a matéria, assim como a potência da matéria é reduzida pela forma ao ato, assim pelo mesmo ser ela é mudada para a distinção e terminação das partes do composto todo: pois na forma substancial não há somente força aperfeiçoadora da matéria, mas também distintiva do todo pelas partes.
E a isto é necessário corresponder da parte da matéria uma potência que diga respeito tanto à sua perfeição pela forma, quanto também à diversidade das partes consequentes.
Para evidência disto deve-se considerar que, se toda a matéria dos ativos e passivos é considerada, encontra-se sua potência em certa latitude, que nada mais é do que a amplitude de sua proporção a todas as formas que podem simultaneamente existir nela.
Pois, se fosse possível que ela toda fosse despojada e desnuda de toda forma que agora possui, é certo que nenhuma diversidade se encontraria nela em alguma distância de partes, visto que a quantidade não pode existir na matéria sem forma substancial, como foi dito; mas nem por isso algo pereceria da potência de receptibilidade das formas que podem ser extraídas dela, donde simultaneamente dela seriam extraídas todas as formas que agora se encontram em especial, por agente suficiente.
Se, porém, alguma matéria particular, por exemplo do fogo ou do ar, fosse despojada de sua forma, é manifesto que nela não permaneceria tão ampla potência para as formas extraíveis dela, como se encontra na matéria em sua universalidade; donde nem tantas formas sensíveis, nem tão grande quantidade delas seriam extraídas por qualquer agente, somente pela sua potência transmutada ao ato.
É patente, portanto, que diversas formas podem ser simultaneamente recebidas na matéria, como são as quatro formas elementares e as diversas formas dos mistos, pela amplitude da proporção da matéria às suas formas, e não por alguma diversidade preexistente na matéria por alguma quantidade.
Donde, para a recepção de diversas formas não é necessário preexistir na matéria alguma diversidade de partes, mas é necessário que ela siga depois; e isto porque a indução de diversas formas é a geração de diversos compostos possuindo partes e formas diversas, como foi dito.
Precede, contudo, necessariamente na matéria a proporção de capacidade, a qual não podemos conhecer senão segundo vemos nela simultaneamente muitas formas, como em toda a matéria, ou somente uma, como na matéria de alguma coisa particular.
Donde colocar qualquer partição da parte da matéria, como necessária para a indução simultânea de diversas formas, e fazê-la preexistir, segue a imaginação que coloca as formas como dadas de fora; as quais, como possuem em si diversidade por sua natureza, parece seguir-se que a matéria possua diversidade de partes pela natureza da quantidade para receber diversas formas, visto que não podem ser recebidas numa única parte.
Mas como as formas não são extraídas de fora, mas são extraídas da potência da matéria por sua transmutação, segundo o Filósofo; e a matéria é aquilo que está em potência para as formas substanciais que são seus atos; é impossível colocar nela qualquer partição antes da forma substancial, visto que a indução da forma é geração do composto, ao qual somente compete possuir partes por si; a matéria, porém, e a forma não possuem partes por si, mas somente por acidente: donde não é dividida senão por acidente, a saber, pela divisão do todo.
Do que é manifesto que, antes que o composto fosse constituído, nenhuma partibilidade existia da parte da matéria, visto que isto não lhe compete senão por acidente.
Do que foi dito, portanto, é manifesto que a razão do Comentador não obriga a colocar dimensões indeterminadas necessariamente preexistindo na matéria para a indução de diversas formas substanciais, visto que outra coisa pode ser razão suficiente, como foi dito.
Foi enganado, porém, pela consideração da matéria particular, à cuja semelhança falou de toda a matéria.
Vemos, com efeito, que na matéria na coisa particular encontra-se um duplo todo, a saber, o todo da essência e o todo da quantidade, e este todo não é devido à matéria senão por acidente: e semelhantemente ocorre com a forma da coisa particular.
A matéria, porém, segundo a totalidade de sua essência, está em qualquer parte da coisa, mas não segundo a totalidade da quantidade: e semelhantemente ocorre com a forma da coisa particular: pois toda a forma do fogo segundo a totalidade de sua essência está em qualquer parte de sua matéria, visto que toda a definição do fogo convém a qualquer de suas partes, mas não considerando o todo de sua quantidade.
Entre as formas particulares, contudo, deve-se saber que a alma humana não é quanta segundo si nem por acidente.
Por este modo, portanto, Averróis julgou que a própria matéria em sua universalidade estivesse, segundo o todo de sua essência, em qualquer coisa particular, que é parte do todo gerado da matéria.
E por isso colocou nela quantidade segundo si toda, para que pela quantidade fosse diversificada por acidente, e não fosse toda segundo a totalidade da quantidade em qualquer coisa particular, na qual, contudo, estaria toda segundo a totalidade da essência.
Mas como da matéria não se deve falar senão em ordem à sua forma, segundo o Filósofo, é manifesto não ser semelhante acerca da forma no universal e no particular; pois a forma no universal é tudo aquilo que pode ser extraído na matéria ou da potência da matéria.
É manifesta, portanto, a diferença, porque a forma particular toda segundo sua essência está em qualquer parte da matéria, e a matéria semelhantemente sob qualquer parte da forma, como foi dito; a forma, porém, no universal, mesmo segundo a totalidade da essência, não está em qualquer parte da matéria, de outro modo na matéria que está sob a forma do ar estaria a essência da forma do fogo, e de todos os outros que são gerados da matéria; donde necessariamente, por causa da proporção da matéria à forma, toda a matéria em comum segundo o todo de sua essência não estará sob a forma de uma daquelas coisas que são geradas da matéria.
Esta totalidade, portanto, da matéria é a própria proporção da capacidade de sua essência à forma, e não alguma diversidade introduzida por alguma quantidade.
Pois assim como a forma consiste em certa amplitude de essência, na qual se compreende tudo aquilo que pode ser extraído da matéria; assim segundo a própria razão da matéria dos corruptíveis encontra-se amplitude correspondente à sua capacidade, como foi dito: de outro modo, de qualquer matéria em qualquer coisa particular poderia ser gerado todo o que é gerado de toda a matéria: o que manifestamente é falso, visto que do mínimo que pode existir no fogo nenhuma outra forma pode ser extraída.
Capítulo 6: O que são as dimensões indeterminadas segundo a verdade.
Agora, portanto, resta mostrar de que modo é possível colocar dimensões, e de que modo podem ser ditas indeterminadas.
Para evidência disto deve-se saber que alguns as colocaram de outro modo e mais razoavelmente que Averróis.
Disseram, com efeito, que a forma do segundo gênero, a saber, do corpo, sobrevindo à matéria, dá à matéria certo ser incompleto ordenável ao ser atualmente completo, que sobrevém à matéria por uma outra forma mais perfeita.
Por esta forma incompleta, portanto, dizem existir na coisa três dimensões indeterminadas, que depois são terminadas pela chegada de outra forma mais perfeita.
E por isso estes disseram mais razoavelmente do que Averróis, porque não colocaram a matéria nua como sujeito de algumas dimensões, mas o composto de matéria e forma substancial.
Mas estes novamente erraram, porque é impossível colocar muitas formas substanciais ordenáveis entre si na matéria, porque a matéria está em potência para as formas que são extraídas dela.
Se, portanto, houvesse muitas formas substanciais ordenáveis entre si na matéria, a forma mais completa ou seria extraída da potência da matéria nua, ou da potência do composto todo de matéria e tal forma incompleta.
Mas não é extraída da potência do composto todo de matéria e tal forma: porque, como foi dito, o termo da ação física, a saber, a geração, atinge a essência nua da matéria.
Como, portanto, a forma, que é termo da ação, seja somente daquele sujeito que é atingido pela geração simplesmente, é impossível que tal forma completa seja extraída da potência de tal composto de matéria e forma incompleta.
Donde é necessário que aqueles que colocam muitas formas ordenadas entre si destruam a geração simplesmente, e consequentemente é necessário colocar todas as formas, exceto uma, a saber, a primeira, como acidentes.
Se, porém, a forma posterior é extraída da potência da matéria nua, toda forma substancial informa somente aquela potência da qual é extraída, logo a forma que dizem posterior não será perfeição de tal composto, mas somente da matéria nua; e assim não haverá ordem nas formas substanciais coexistentes na mesma matéria, e isto mesmo é dito no sétimo da Metafísica.
Deve-se saber, portanto, que todas as dimensões são acidentes que seguem a matéria em ordem à forma que a matéria por natureza é apta primeiro a receber; esta, porém, é a forma do corpo, porque é necessário que toda matéria esteja contida sob a forma do corpo.
O que não deve ser entendido como se houvesse uma única forma criada ou incriada do corpo, pela qual a matéria primeira fosse primeiro informada: porque segundo o Comentador a matéria primeira possui primeiro aptidão para as formas elementares, e depois para as formas dos mistos.
Do que é manifesto que a mesma é a forma do corpo simples e a forma do elemento e do corpo misto: mas é necessário primeiro que por estas formas seja constituído o gênero do corpo, depois o das espécies perfeitas.
A matéria, com efeito, em sua quididade é totalmente indivisível: pois removida a quantidade, a substância permanece indivisível, como se diz no primeiro dos Físicos.
Mas da corporeidade, à qual seguem as dimensões da quantidade em ato, segue-se a divisão da matéria, pela qual a matéria é colocada sob diversos lugares; e segundo isto adquirem-se nela diversas formas.
Pois a ordem no lugar dos corpos mostra sua nobreza; assim como o fogo está acima do ar.
Esta aquisição de formas, porém, não mostra ordem de tempo, mas de natureza.
É patente, portanto, que as dimensões indeterminadas não tiram origem de qualquer grau que a forma do fogo produz no fogo, mas somente do primeiro.
Não obstante, o fogo segundo o todo é sujeito das dimensões, segundo o todo também é medido, e o mesmo necessariamente se encontra nas formas dos corpos mistos.
Mas deve-se considerar que nos corpos mistos algumas formas são tiradas da potência da matéria, outras não, como as almas dos homens, que de nenhum modo padecem divisão, visto que não são dimensionadas nem por si nem por acidente.
Com efeito, as formas que de nenhum modo são extraídas da potência da matéria, de nenhum modo recebem divisão, mesmo existindo na matéria.
Donde as almas humanas terminam de outro modo a ordem da matéria às dimensões do que as formas que são extraídas da matéria.
Pois, como os acidentes inseparáveis se originam dos princípios da coisa, na própria coisa constituída em ato os acidentes estarão como em sujeito.
Se, porém, a forma da coisa for extraída da própria matéria, à qual seguem as dimensões, a própria forma será, não sempre mas na maioria das vezes, dimensionada e divisível por acidente; como ocorre na pedra e na madeira, nas quais as dimensões sempre retornam sobre a forma das próprias coisas.
Se, porém, a forma não for extraída da matéria, as dimensões não retornam sobre a forma; e por isso a alma do homem é totalmente indivisível.
É patente, portanto, que a alma do homem não termina a ordem da matéria à forma adquirindo dimensões em ato senão de outro modo apenas, a saber, constituindo-as em ato; e isto é neste homem, no qual elas estão como acidentes no sujeito.
A ordem, porém, da matéria em adquirir dimensões não retornando sobre a forma, termina-se somente pela forma que é extraída dela.
Nem por isso a alma humana pode menos do que outra forma: porque isto acontece àquela forma enquanto foi extraída da matéria; o que não pertence à razão da forma enquanto forma: de outro modo toda forma seria extraída da matéria, o que é falso.
Tudo aquilo que uma forma mais imperfeita pode enquanto forma, a alma humana pode, e mais.
Porque, portanto, a dimensionalidade da forma exprime potência e não ato, é possível colocar a ordem da matéria a tal forma terminando-se em potência, e as dimensões em potência seguirem a ordem da matéria à própria forma.
E porque dimensão diz forma próxima do ato, ou do próprio ser, que é adquirido pela dimensão, por isso as dimensões seguem a matéria em ordem à forma que está na máxima proximidade ao ato, que é o ser.
Nem por isso haverá diversas essências das dimensões na mesma coisa, porque uma e a mesma coisa pode simultaneamente estar em ato em uma ordem, e em potência em outra ordem.
Capítulo 7: De que modo as dimensões podem ser ditas indeterminadas, e de que modo as mesmas permanecem no gerado e no corrupto.
Por estas coisas, portanto, facilmente se sabe de que modo as dimensões podem ser ditas indeterminadas.
Pois assim como as essências das coisas são terminadas por seus seres, que são nas coisas o que há de mais formal; antes, porém, que sejam ditas, não são consideradas em ato, nem terminadas; assim as supraditas dimensões são indeterminadas antes que sejam ditas existir em ato.
E embora estejam em ato no homem como em sujeito, no qual possuem razão de medir, o que lhes é próprio, quando possuem ser em ato; contudo possuem ser em potência, e não estão em ato naquilo do qual dependem segundo a origem, como em sujeito, e como retornando sobre as formas de ambos os modos antes que ele próprio exista em ato, nem o medem, porque nada possui medida própria que ainda não possui ser próprio.
Quando, porém, o homem se corrompe, sucede uma forma dando novo ser, e esta era a forma em ordem à qual as próprias dimensões seguiam, como retornando à matéria ou à forma.
Donde as mesmas dimensões são no vivo e no morto segundo a essência, porque a mesma ordem permanece na matéria e para a mesma forma, mas segundo o ser em ato não permanecem senão em certa igualdade; e o mesmo ocorre com os outros acidentes que seguem a mistura dos elementos, como o branco e o negro, que não permanecem no morto quanto ao próprio ser em ato senão certa semelhança deles.
As essências, porém, de acidentes deste tipo não são removidas de outro modo senão destruída a própria origem à qual aderem imovelmente, e são contraídas ao ser em ato juntamente com a matéria que seguem na ordem supradita para a forma pela qual o homem é homem.
E por isso estes acidentes não migram abandonando seu sujeito, porque aquilo que receberam do sujeito, a saber, o ser em ato, corrompe-se na corrupção do sujeito; e por isso em relação ao ser em ato do sujeito posterior, do qual também possuem ordem ou origem, as dimensões eram indeterminadas no vivo, terminam-se, porém, quando adquirem o ser em ato de tal sujeito, do qual dependem segundo a raiz, donde são sua própria medida também no homem morto.
Do que foi dito, portanto, é manifesto ser necessário colocar a essência de alguma forma no homem sem ser, por cuja natureza as ditas dimensões permanecem do modo supradito; acerca do que se tratará nos seguintes.
É manifesto também, permanecendo o mesmo sujeito, permanecerem as mesmas dimensões, e, corrompido ele, serem reduzidas à mesma matéria, da qual novamente não podem ser extraídas numericamente as mesmas pela natureza: donde, se pela natureza fossem extraídas as mesmas em espécie, não seriam aptas para ser levadas ao ser em ato da mesma alma; se, contudo, por milagre são extraídas as mesmas numericamente, serão aptas a receber o mesmo ato da alma.
Do que é patente que o mesmo homem numericamente ressurgirá e não outro, visto que todos os seus princípios retornam entre si os mesmos numericamente.
Pois a alma humana permanece simplesmente a mesma numericamente após a morte com plenitude de suas virtudes para aperfeiçoar a matéria em todo o grau em que antes a aperfeiçoou.
Também a matéria permanece a mesma numericamente, visto que ela é incorruptível.
É também necessário que as mesmas dimensões permaneçam na matéria, embora somente em potência; de outro modo o agente físico produziria numericamente as mesmas, o que é falso.
Permanecem, portanto, na potência da matéria as mesmas numericamente em relação ao agente divino, porque de outro modo não haveria o mesmo indivíduo numericamente, visto que as dimensões contribuem para a individuação, como foi dito acima; e por isso da mesma matéria e das mesmas dimensões, com a mesma alma, ressurgirá o mesmo homem numericamente e não outro.
Capítulo 8: De que modo no homem há muitas formas segundo a essência, mas somente uma segundo o ser.
Agora resta mostrar de que modo é possível colocar a essência de alguma forma no homem, de tal modo que não se siga dela o ser substancial: isto, com efeito, supusemos acima.
Para evidência disto, portanto, deve-se considerar que é próprio da substância existir simplesmente, donde a geração que termina na forma, ou no ser da substância, é geração simplesmente; próprio, porém, por acidente, é existir segundo algo, assim como a geração da coisa sob forma acidental é geração segundo algo.
O ser simplesmente, porém, é ser absoluto não dependente do ser de outro como inerente a ele, embora todas as coisas dependam de Deus como da causa primeira.
Assim, porém, algo contém a razão perfeita de existir segundo o que a perfeita razão de existir se encontra nele, como na substância, como se diz no sexto da Metafísica.
Para participar deste ser absoluto aproximam-se as partes da substância, pelo qual são atraídas ao gênero de seu todo.
O ser do acidente, porém, é dependente à maneira do inerente: donde os acidentes não são atraídos ao gênero daquilo ao qual inerem.
Do que é patente a diferença entre o ser da parte de algum todo e o ser do acidente.
O ser absoluto de algum todo, porém, algumas vezes é efeito próprio de Deus, a saber, quando a coisa toda segundo todos os seus princípios é conduzida do nada ao ser perfeito: como ocorreu na primeira produção das coisas, na qual a causalidade de Deus estendia-se até a própria matéria; outras vezes, porém, o ser é efeito da criatura, a saber, quando o agente físico age supondo um sujeito, não produzindo tudo aquilo que pertence ao ser da coisa, mas somente a forma, transmutando a matéria para tal ou tal forma: pois a ação da criatura não se estende à matéria, como foi dito acima.
Nisto, com efeito, convém o agente divino com o agente físico, porque ambos terminam sua ação no ser absoluto, que é o último da transmutação ou da emanação simples; embora na emanação simples não haja antes e depois, senão somente segundo o intelecto.
Portanto, como tal ser absoluto seja o termo de ambas as ações, como foi dito: e não pertença à matéria existir como sujeito, o que é ser absoluto, nem tampouco à forma material, visto que ela não é aquilo que possui ser, embora seja aquilo pelo qual algo é; e nenhuma das duas ações termina na matéria ou na forma material, mas no ser do composto, ao qual pertence por si e absolutamente subsistir: pois pertence ao seu intelecto possuir ser, o que não pertence à razão e ao intelecto da essência.
Em tal composto, com efeito, há necessariamente dupla composição, a saber, do suposto e da essência, que na coisa material diferem necessariamente, visto que o indivíduo nos materiais acrescenta muitas coisas acima da natureza da espécie, a qual compreende somente a essência; e por isso outra é a composição da coisa toda e de seu ser.
Nas coisas imateriais criadas, porém, encontra-se somente a outra composição, a saber, da coisa e do ser.
Nelas, portanto, a essência não é aquilo que possui ser por algo que realmente difira dela, visto que a mesma coisa é a essência e a coisa que é significada como possuindo ser; por isso a essência nelas não é como princípio somente pelo qual algo é dito existir, mas como possuindo ser absoluto não inerente.
Nas substâncias compostas e materiais, porém, nas quais a essência realmente difere do suposto, a essência não possui ser senão pelo suposto, ao qual pertence existir simplesmente e absolutamente: donde a essência nelas não é como possuindo ser, mas como reduzida ao ser por algum suposto individual, ao qual pertence possuir ser absoluto, ao qual termina a ação do produtor.
Como, portanto, a forma material seja tal que dela não se segue algum suposto ou indivíduo, ao qual pertença possuir ser absoluto ao qual termine a ação do produtor, como foi dito; será possível colocar alguma forma substancial sem ser, assim como é possível colocar aquilo que é princípio sem relação de princípio e sem principiado.
Nas coisas imateriais, porém, isto não se encontra, visto que nelas não há essência que não seja suposto: donde, posta a essência nelas, necessariamente põe-se o ser, que é o suposto.
Para a constituição, porém, do suposto material ou indivíduo, requer-se quantidade terminada, a qual, onde quer que esteja, necessariamente haverá tal indivíduo, visto que ela é sinal próprio e inseparável do indivíduo, como foi dito acima.
Todas as formas elementares, porém, requerem quantidades terminadas e diversas entre si: donde, onde quer que esteja forma elementar, necessariamente haverá suposto, ao qual pertence possuir ser completo e quantidade terminada: donde as formas elementares não podem simultaneamente existir em suas essências numa mesma coisa: como é patente no Livro Da geração e corrupção.
Nas coisas mistas, porém, nas quais a forma não é extraída da matéria da quantidade, ela não segue a matéria em ordem a tal forma, embora possua por ela ser em ato na coisa, como foi dito: visto que a quantidade sempre responde àquele princípio, ou retorna ao princípio do qual tomou origem.
A alma do homem, porém, não é quanta nem por si nem por acidente, como foi dito.
Donde não repugna colocar em tal coisa a essência da forma da qual dependa a quantidade segundo a origem, seja com ser que se comporte em relação àquela forma como princípio ao principiado.
Donde à essência de tal forma não convém a razão de ato, assim como tampouco à matéria, visto que o ser é ato comum e primeiro não somente das matérias, mas também das formas; donde sem ser a forma não é dita ato.
Somente a natureza do próprio ser simplesmente, que se encontra na substância, impede que duas formas substanciais estejam simultaneamente na mesma matéria, porque o ser da substância é ser simplesmente: donde aquilo que sobrevém a tal ser é necessariamente acidente.
Também o ser da substância comporta-se como a unidade da coisa, porque uno e ente se convertem: donde uma coisa não pode possuir dois seres substanciais, a não ser que perca sua unidade; donde na coisa composta de substância e acidente não há unidade senão segundo algo.
Nada, portanto, de contraditório sustentaremos, se colocarmos numa coisa algumas formas, às quais, contudo, não se siga o ser simplesmente.
Pois somente pela natureza do próprio ser simplesmente, que se encontra na substância, é simplesmente impedida a pluralidade das formas substanciais da mesma coisa.
Donde é certo, e demonstrado pelo Filósofo, que é impossível colocar muitos seres substanciais numa mesma coisa, mas somente a forma à qual o ser segue é colocada na própria coisa; as outras, porém, não são enumeradas com ela.
De que modo, porém, isto pode ser entendido, deve ser diligentemente considerado no progresso das coisas.
Deve-se saber, portanto, que a matéria está em potência para todas as formas que podem ser extraídas dela, donde quanto mais simultaneamente se aproxima delas, tanto mais sua potência é aperfeiçoada.
E por isso nos elementos a matéria é minimamente perfeita, porque é aperfeiçoada simultaneamente somente por uma única forma de um único elemento: e se às vezes a virtude da forma de outro elemento lhe está presente, isto não ocorre à maneira do permanente, mas à maneira do alterante, como é patente quando o calor do fogo age no ar para a indução da forma do fogo.
Nos corpos mistos, porém, a matéria é mais perfeita: ali, com efeito, juntamente com a única forma do misto que dá o ser, estão todas as formas dos elementos, contudo em virtude e não em essência, porque qualquer delas requer quantidade devida e terminada, como foi dito: donde, como um seja o suposto do misto e um o ser, uma é sua forma.
Os supostos mistos, porém, alguns são animados, e principalmente o homem, cuja forma não é produzida da matéria disposta pela qualidade do misto; donde é conveniente que nos animados existam essências de algumas formas sem ser: isto, com efeito, é aquilo pelo qual os animados podem transcender simplesmente os mistos, a saber, aperfeiçoando sua matéria na aquisição simultânea de muitas formas.
Assim como vemos que de um modo se faz o simples a partir dos mistos e de outro modo a partir da matéria primeira, na qual nada existe do ato da forma a ser extraída antes que seja feita, assim como no ar nada existe da forma da taça antes que a taça seja feita, e semelhantemente na madeira nada existe do leito antes que seja feito.
Assim, com efeito, comporta-se a matéria primeira em relação às coisas que dela são feitas, como se comporta a prata em relação à estátua e a madeira em relação ao leito, como se diz no primeiro dos Físicos.
Nos mistos, porém, permanecem as formas dos miscíveis segundo a virtude, segundo o Filósofo.
A virtude, porém, pertence ao ato.
E por isso no misto há aquilo pelo qual se age para a geração de outro dos miscíveis, segundo o que a virtude de um dos miscíveis vence a proporção na qual se conserva a forma do misto; donde, corrompido o misto, gera-se corpo simples: nesta transmutação, com efeito, faz-se a desnudação de todas as coisas que pertenciam ao misto, e nada permanece senão somente a matéria primeira.
Mas na geração do próprio misto não se faz desnudação dos simples até a matéria primeira: de outro modo as virtudes dos simples não permaneceriam no misto. Agora, porém, permanecem.
Donde não há corrupção simplesmente, pela qual se faz geração do composto, visto que os elementos não se corrompem totalmente, como se diz no primeiro dos Meteorológicos, porque daquelas coisas é a mistura das quais é a separação; pois não se misturam senão aquelas que são aptas a existir por si.

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