Ela disse aquilo como quem reclama do mercado, do preço, do peso do cotidiano sobre os ombros. Mas a frase ficou suspensa no ar como algo maior do que parecia.
— Caras? — perguntei. — Talvez sejam mais do que caras. Talvez sejam valiosas.
Ela franziu a testa, sem entender exatamente onde eu queria chegar.
— Não digo só pelo dinheiro — continuei. — Veja bem: tudo aquilo que existe custou tempo de Deus. Não no sentido humano do termo, porque o Eterno não se desgasta como nós, mas no sentido de intenção, vontade, ordem. Nada surgiu por acidente bruto. Uma galinha não é apenas um amontoado de carne, penas e ossos caminhando pelo quintal. Ela é uma finalidade encarnada.
Ela ficou em silêncio.
— O homem olha para as coisas apenas pelo preço que paga nelas — disse eu —, mas raramente pelo preço metafísico de elas existirem. Deus permitiu a existência daquilo, sustentou aquilo no ser, deu forma, função, continuidade. Cada criatura carrega uma assinatura silenciosa da intenção divina.
— Então você está dizendo que tudo tem valor?
— Não apenas valor. Participação. Cada coisa participa da obra do Eterno segundo sua medida. A árvore oferece sombra. O rio oferece curso. O fogo aquece e destrói. A galinha alimenta, perpetua vida, sustenta famílias, atravessa séculos ao lado do homem. Há uma dignidade até nas coisas humildes quando vistas do alto.
Ela riu de leve.
— Nunca pensei que uma conversa sobre galinhas fosse parar nisso.
— Porque o homem moderno desaprendeu a enxergar profundidade nas coisas simples. Tudo virou objeto, utilidade imediata, etiqueta de mercado. Mas quando algo demanda ação de Deus para existir, deixa de ser banal. O simples fato de uma criatura persistir no ser já é um testemunho silencioso do sustento divino.
Olhei pela janela antes de concluir:
— Talvez as galinhas sejam caras mesmo. Não porque custem dinheiro. Mas porque aquilo que Deus toca jamais pode ser considerado barato.
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