Apenas algumas notas, sem nenhum compromisso.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
DE ORDINE PRAEDICABILIUM - Sobre a Ordem dos Predicáveis
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Mathematica et Metaphysica— ARS ORDINANDI (A ARTE DE ORDENAR) Terceiro Bloco da Opera Omnia de Boécio.
MANLII
SEVERINI BOETII — DE ARITHMETICA LIBRI DUO
(Boécio — Da Aritmética, em dois livros)
Tomus LXIV, col. 1161A–1195C — Ed. J.-P. Migne
DEDICATIO
Ad Symmachum patrem — Ao pai Símmaco
col. 1161A–1162C
Incipit dedicatio Boetii ad Symmachum patrem suum.
“Boetius Symmacho patri suo salutem. — Philosophiae
studium, pater optime, quod mihi a pueritia tuae institutionis disciplina
commendavit...”
(Tradução e corpo virão na seção de texto
integral.)
LIBER PRIMUS
— Livro Primeiro
col. 1163A–1181C
Prooemium —
Prólogo
col. 1163A–1164B
De origine et dignitate arithmeticae.
“Ex omnibus disciplinis quae liberalibus studiis
adnumerantur, arithmetica prima atque praecipua videtur...”
(Sobre a origem e a dignidade da aritmética.)
CAPUT I — De
numero in communi
col. 1164B–1166A
Quid sit numerus, et quae ejus natura.
(O que é o número e qual é sua natureza.)
CAPUT II —
De numero pari et impari
col. 1166A–1168A
Quae divisio numerorum sit in paria et imparia, et
quomodo haec inter se differant.
(Da divisão dos números em pares e ímpares, e em que se diferenciam.)
CAPUT III —
De numeris paribus paribusque imperfectis
col. 1168A–1170C
Quae species numerorum parium reperiantur, et quae
perfectio vel defectus eorum ratio sit.
(Das espécies de números pares e de como se define sua perfeição ou
imperfeição.)
CAPUT IV —
De numeris imparibus perfectis et imperfectis
col. 1170C–1172B
Quae in imparibus numeris perfectio vel
superfluitas accidat.
(Da perfeição e do excesso nos números ímpares.)
CAPUT V — De
numero perfecto
col. 1172B–1173C
Quid sit
numerus perfectus et quot sint in infinitum.
(O que é um número perfeito e quantos deles existem
em número infinito.)
CAPUT VI —
De partibus numeri perfecti
col. 1173C–1175B
Quomodo partes numeri perfecti se ad ipsum habeant.
(De como as partes de um número perfeito se relacionam com ele mesmo.)
CAPUT VII —
De numeris abundantibus et deficientibus
col. 1175B–1177C
De iis qui abundant vel deficiunt ad suam summam.
(Dos números que excedem ou que ficam aquém de sua soma.)
CAPUT VIII —
De progressione numerorum
col. 1177C–1179A
De ordinatione et incremento numerorum secundum
certas proportiones.
(Da ordenação e crescimento dos números segundo proporções determinadas.)
CAPUT IX —
De speciebus proportionum
col. 1179A–1181C
Quae genera proportionum sint inter numeros.
(Das espécies de proporções existentes entre os números.)
Finis Libri Primi / Fim do Livro Primeiro
col. 1181C
LIBER
SECUNDUS — Livro Segundo
col. 1181D–1195C
Prooemium —
Prólogo do Segundo Livro
col. 1181D–1183A
De ordine disciplinarum et de utilitate
arithmeticae in ceteris artibus.
(Da ordem das disciplinas e da utilidade da aritmética nas demais artes.)
CAPUT I — De
multiplicatione numerorum
col. 1183A–1185C
Quomodo numeri multiplicentur et in se invicem
producantur.
(Como os números se multiplicam e produzem uns aos outros.)
CAPUT II —
De divisione numerorum
col. 1185C–1187B
De ratione divisionis et de partium denominatione.
(Da razão da divisão e da denominação das partes.)
CAPUT III —
De proportione numerorum multiplicium
col. 1187B–1189B
Quomodo proportiones inter multiplicia
constituantur.
(Como se constituem as proporções entre números múltiplos.)
CAPUT IV —
De medietatibus
col. 1189B–1191A
De mediis arithmetica, geometrica et harmonica.
(Das médias aritmética, geométrica e harmônica.)
CAPUT V — De
consonantiis numerorum
col. 1191A–1193A
De harmoniis quae ex proportionibus numerorum
oriuntur.
(Das consonâncias que nascem das proporções numéricas.)
CAPUT VI —
De ordine universali numerorum
col. 1193A–1195B
Quomodo universa numerorum dispositio ad mundi
ordinem referatur.
(De como a disposição universal dos números se relaciona com a ordem do
mundo.)
Finis Libri Secundi / Fim do Livro Segundo
col. 1195C
DE
ARITHMETICA LIBRI DUO
Dedicatio ad
Symmachum patrem
(Dedicação a Símmaco, seu pai)
col. 1161A–1162C
Boécio a Símmaco, seu pai, envia saudações.
O estudo da filosofia, pai ótimo, que desde a
infância me foi recomendado pela disciplina de tua instrução, nunca foi
esquecido por mim. Pois ainda que, ao ser compelido por diferentes ocupações,
tenha sido distraído da contínua meditação das ciências, contudo, o amor que
lhes devoto jamais se apagou do meu ânimo.
Aquele primeiro cuidado de tua doutrina, que em mim
desde menino imprimiste, cresceu em força com os anos; e quanto mais me
distanciei das escolas, mais a lembrança do mestre me reconduziu à leitura.
Mas, já que em toda investigação filosófica se deve
seguir uma ordem, e como se devesse passar do que é inferior ao que é mais
elevado, das disciplinas que se exercem por meio dos sentidos às que se
compreendem pela mente, determinei, segundo essa sequência, começar pela
aritmética.
Pois entre todas as disciplinas que os antigos
reuniram sob o nome de “liberais”, a aritmética parece a primeira e a mais nobre.
Ela é a raiz e a fonte das outras: nenhuma das artes pode ser conhecida sem o
auxílio do número, e o próprio número se basta a si mesmo.
Por isso, quando se aprende a aritmética,
adquire-se não apenas uma arte particular, mas o princípio de todas as artes; e
aquele que é verdadeiramente perito nos números é capaz de julgar todas as
coisas com a medida da razão.
Com efeito, como a geometria se estende na grandeza
dos corpos, e a música trata das proporções das vozes, e a astronomia das
harmonias do movimento celeste, todas essas ciências dependem da aritmética,
que lhes fornece a medida e a regra.
Além disso, como Deus, criador de todas as coisas,
dispôs cada ser segundo número, peso e medida, a alma humana, ao penetrar a
natureza dos números, parece aproximar-se da própria mente divina.
Assim, pai venerável, a ti dedico este pequeno
tratado, que compus segundo a capacidade de meu engenho e o exemplo da antiga
escola de Nicômaco. Que ele sirva para que te alegres em ver que o amor das
ciências que me infundiste na juventude ainda floresce em mim com a mesma
fidelidade.
Se acaso esta obra te parecer digna do nome da tua
casa e do estudo de tua linhagem, peço-te que a aceites com o mesmo ânimo com
que a escrevi, não buscando glória de autor, mas apenas a lembrança de
discípulo.
Finis Dedicatio / Fim da Dedicação
col. 1162C — PL LXIV
LIBER PRIMUS
— Livro Primeiro
Prooemium —
Prólogo
col. 1163A–1164B
Entre todas as disciplinas que se incluem nos
estudos liberais, a aritmética parece ocupar o primeiro lugar e possuir a
primazia.
Pois ela é anterior a todas as outras tanto na ordem da natureza quanto na da
doutrina, e mais digna que as demais pela pureza de sua contemplação.
Com efeito, as outras ciências, ou se voltam para
as coisas corpóreas, ou têm necessidade dos sentidos: a geometria ocupa-se das
magnitudes extensas, a música investiga as proporções dos sons, e a astronomia
examina os movimentos dos corpos celestes.
A aritmética, porém, separada de toda matéria sensível, busca a essência mesma
do número, que pode existir sem qualquer corpo.
Pois o número é, por sua própria natureza,
incorpóreo e inteligível; e, ainda que pareça participar das coisas sensíveis,
não se prende a elas por necessidade, mas por acidente.
Com efeito, quando dizemos “dois homens”, o número “dois” não se refere à
substância dos homens, mas à proporção que entre eles se encontra.
Assim, o número não depende dos corpos, mas antes
os corpos participam do número: pois nada existe que não possa ser de algum
modo contado.
E, se todas as coisas que estão na natureza são ordenadas, essa ordem não
poderia subsistir sem número, porque o número é o princípio de toda medida e
distinção.
Por isso, é evidente que a aritmética é anterior à
geometria, porque o número é compreendido antes que a grandeza, e o
entendimento do múltiplo precede o do extenso.
De igual modo, é mais pura, porque o número é percebido apenas pela razão, ao
passo que a grandeza é percebida também pelos sentidos.
Além disso, é mais nobre porque não se confunde com
a matéria, e sua contemplação é mais próxima do divino.
Pois, como tudo o que é incorpóreo e imutável está mais próximo da mente
divina, a aritmética, sendo ciência de coisas incorpóreas e imutáveis, conduz a
alma à semelhança com Deus.
E, assim como a geometria é uma espécie de número
fixado no espaço, e a música um número no tempo, e a astronomia um número em
movimento, a aritmética é a raiz e o fundamento de todas.
Ela é, portanto, a mais antiga na ordem das
descobertas, a mais útil nas ciências, a mais clara para o ensino, e a mais
digna para a contemplação.
Finis Prooemii / Fim do Prólogo
col. 1164B — PL LXIV
LIBER PRIMUS
— Livro Primeiro
Caput I — De
numero in communi
(Do número em geral)
col. 1164B–1166A
O número é a multiplicidade medida pela unidade.
Com efeito, enquanto a unidade é o princípio de todas as coisas, o número nasce
da repetição da unidade, como se fosse uma imitação da própria criação.
Por isso se diz que o número é a origem da ordem em todas as realidades,
porque, pela medida que contém em si, distribui a diversidade em proporção e
conveniência.
A unidade, sendo indivisível, é o primeiro elemento
do número; e tudo o que dela se afasta, aumentando por adição, torna-se número.
Assim, quando uma unidade é somada a outra, faz-se o dois; e do dois, pelo
mesmo acréscimo, o três; e deste modo, pela sequência das adições, surge toda a
infinidade dos números.
De modo que o número nasce da unidade e não pode
existir sem ela.
Pois, se a unidade fosse retirada, nenhuma pluralidade permaneceria, uma vez
que aquilo que se entende por “muitos” não subsiste senão pela reunião de
unidades.
E, do mesmo modo que o número provém da unidade,
todas as coisas provêm de um princípio primeiro, sem o qual nada pode existir.
Assim como a unidade é para o número o que a causa é para o efeito, ou a origem
para aquilo que dela deriva.
Convém, portanto, considerar a natureza do número
segundo a dupla diferença que nele se encontra: uma, pela qual se distingue o
número que é em si, outra, pela qual se aplica às coisas que são.
O número que é em si mesmo pertence à razão e à contemplação da mente; o número
que se aplica às coisas pertence ao uso e à operação.
Com efeito, o número em si é aquele que o intelecto
concebe sem referência à matéria, como quando dizemos “dois” ou “três”, sem
determinar o que são dois ou três; ao passo que o número aplicado às coisas é
aquele que se encontra nas realidades materiais, como quando dizemos “dois
homens” ou “três pedras”.
Mas é evidente que o primeiro é anterior ao
segundo, pois nada pode ser numerado exteriormente se antes não houver em nós a
concepção do número.
Assim, o número que é em si mesmo é a forma do número que se encontra nas
coisas, porque o exterior não existe senão pela semelhança do interior.
Por isso, diz-se que o número é incorpóreo por
natureza, mas corpóreo por participação.
É incorpóreo porque, considerado em si mesmo, não está sujeito aos sentidos; e
é corpóreo porque, quando aplicado aos corpos, aparece como se estivesse neles.
E, portanto, é necessário compreender que, do mesmo
modo que há número em si, há também número na alma e número nos corpos.
Na alma, enquanto esta julga e mede; nos corpos, enquanto são proporcionados e
ordenados.
Mas o número da alma é superior, porque mede; o número dos corpos é inferior,
porque é medido.
Assim, a aritmética trata do número em si e de suas
propriedades universais, abstraindo de toda matéria sensível; e por isso ela é
ciência mais nobre, porque versa sobre aquilo que permanece sempre igual e
imutável.
Pois o número, como princípio da ordem e medida, é
estável e eterno, e nada há no universo que não esteja submetido à sua lei.
Finis Capitis Primi / Fim do Capítulo Primeiro
col. 1166A — PL LXIV
LIBER PRIMUS
— Livro Primeiro
Caput II —
De numero pari et impari
(Do número par e do número ímpar)
col. 1166A–1168A
Todo número é ou par ou ímpar.
Par é o número que pode ser dividido em duas partes iguais; ímpar é o que,
dividido, não se reparte igualmente.
Assim, o número dez, quando dividido em duas partes iguais, produz o cinco; mas
o sete, sendo dividido, não admite igualdade de porção.
O número par possui, portanto, uma certa comunhão
consigo mesmo, porquanto se divide igualmente em duas metades; o ímpar, ao
contrário, jamais se reparte sem deixar resto, e por isso guarda uma natureza
singular e indivisa.
O número par é, de algum modo, composto de iguais,
e o ímpar é, de algum modo, composto de desiguais.
O primeiro é símbolo da igualdade e da medida; o segundo, da diferença e da
superabundância.
Por essa razão, os antigos filósofos atribuíram ao
número par o gênero feminino e ao ímpar o masculino, julgando que o par é como
a matéria que se divide, e o ímpar como a forma que une e determina.
E ainda: o número par parece tender à duplicação, o ímpar à conservação da
unidade.
Com efeito, se considerarmos a progressão dos
números, o par, ao se multiplicar, gera outro par; o ímpar, multiplicado, gera
sempre ímpar.
Por exemplo, dois vezes dois é quatro (par), e três vezes três é nove (ímpar).
A natureza dos dois é, pois, constante: o par multiplica a igualdade, o ímpar
conserva a identidade.
O número par é aquele que, dividido, se resolve sem
resíduo, e o ímpar aquele que, ao ser dividido, deixa sempre uma unidade
sobrando.
Essa unidade que permanece é a marca da indivisão, e por isso o ímpar é dito
mais próximo do princípio.
De modo que o número par participa mais da
multiplicidade, e o ímpar, mais da unidade; e, como a unidade é princípio do
ser, o ímpar é mais nobre, pois retém mais visivelmente o vestígio de sua
origem.
Assim, os pares pertencem à ordem da extensão e do
corpo, os ímpares à da forma e da alma.
Pois, como o corpo se reparte e se mede, e a alma é indivisível e una, também o
par é como corpo numerado, e o ímpar como alma numerante.
Por isso, dizemos que o número par é o princípio da
divisão, e o ímpar o princípio da reunião.
E, enquanto o par se espalha na pluralidade, o ímpar recolhe e reconduz à
unidade.
E é desta distinção que toda a ciência dos números
deriva: pois tudo o que é par e ímpar tem sua proporção e seu limite determinados
pela natureza da unidade.
Finis Capitis Secundi / Fim do Capítulo Segundo
col. 1168A — PL LXIV
LIBER PRIMUS
— Livro Primeiro
Caput III —
De numeris paribus paribusque imperfectis
(Dos números pares e dos pares imperfeitos)
col. 1168A–1170C
Entre os números pares há diversas espécies, que se
distinguem pela relação que cada um mantém com a unidade e com suas partes.
Alguns são ditos “pariter pares”, outros “pariter impares”, e outros “impariter
pares”, conforme a natureza da divisão que comportam.
Primeiro, chamamos “pariter par” aquele número que
pode ser dividido em duas partes iguais, e cada uma dessas partes pode
novamente ser dividida igualmente, até que se chegue à unidade indivisível.
Por exemplo: o número dezesseis é pariter par, porque dividido em duas partes
iguais, oito e oito, cada uma dessas ainda pode ser dividida em quatro e
quatro, depois em dois e dois, até finalmente em unidades.
Esses números são, por assim dizer, os mais
perfeitamente proporcionados, pois contêm em si uma simetria que se conserva em
todas as divisões.
São compostos inteiramente de duplas, e sua natureza se mantém idêntica até o
limite da unidade.
O segundo gênero é o “pariter impar”, que também é
par, mas cuja divisão não conserva a paridade em todas as partes.
Por exemplo: o número seis é par, pois pode ser dividido em duas partes iguais,
três e três; mas essas partes já não são pares, porque o três é ímpar.
De modo que o seis é par na totalidade, mas ímpar nas partes: por isso se chama
“pariter impar”.
O terceiro gênero é o “impariter par”, que, ainda
que seja par, tem a divisão desigual, de modo que as partes não são iguais nem
uniformes.
Assim é o número dez, que se pode dividir em quatro e seis: ambos são pares,
mas não iguais.
E, quando se considera a divisão em porções diferentes, percebe-se que há, ao
mesmo tempo, paridade de natureza e desigualdade de proporção.
Entre esses números pares, uns são chamados
“perfeitos”, outros “imperfeitos”.
O perfeito é aquele cuja soma de todas as suas partes iguais à metade de si
mesmo é exatamente igual ao número inteiro; o imperfeito é aquele cuja soma das
partes é menor ou maior que o todo.
O número seis é exemplo de perfeição: suas partes
são um, dois e três; e somadas, fazem seis.
Mas o número doze é superabundante, porque suas partes — um, dois, três, quatro
e seis — somam dezesseis, que excede o próprio número.
O número oito, por sua vez, é deficiente, pois suas partes — um, dois e quatro
— somam sete, número inferior ao inteiro.
Diz-se, portanto, que os números perfeitos são como
corpos bem proporcionados, nos quais as partes compõem o todo de maneira
harmônica; e os que excedem ou faltam são como organismos deformes, em que a
proporção natural se corrompe.
Essa perfeição ou imperfeição é, portanto, medida
pela correspondência das partes com o todo.
E, assim como no universo nada há que não tenha proporção e limite, também no
número o excesso e a deficiência significam desordem, ao passo que a igualdade
manifesta a harmonia.
Por isso, os antigos diziam que o número seis é símbolo
da criação perfeita, porque em seis dias se formou o mundo, e tudo nele foi
disposto com justa medida.
Não sem razão, pois, os filósofos afirmavam que os números são os paradigmas de
todas as coisas: na medida em que são ordenados, revelam a forma do próprio
cosmos.
Finis Capitis Tertii / Fim do Capítulo Terceiro
col. 1170C — PL LXIV
LIBER PRIMUS
— Livro Primeiro
Caput IV —
De numeris imparibus perfectis et imperfectis
(Dos números ímpares perfeitos e imperfeitos)
col. 1170C–1172B
Depois de termos tratado das espécies dos números
pares e da distinção entre os perfeitos e os imperfeitos, é justo que se
examine a mesma questão entre os números ímpares.
O número ímpar, como já foi dito, é aquele que não
pode ser dividido igualmente em duas partes sem deixar resto.
Por isso, o ímpar contém sempre em si uma unidade central que o conserva
indiviso.
Mas ainda assim, também entre os ímpares há diversidade de natureza, pois
alguns se aproximam da perfeição, enquanto outros se afastam dela.
Com efeito, o número ímpar pode ser dito perfeito
quando, somando-se suas partes proporcionais, obtém-se o mesmo valor que o
número inteiro.
Mas se, ao contrário, a soma das partes for menor ou maior que o número total,
será deficiente ou superabundante.
Por exemplo: o número quinze, cujas partes são um,
três e cinco, quando somadas produzem nove, o que é menor que o número inteiro
— e, portanto, é deficiente.
O número trinta e cinco, cujas partes são um, cinco e sete, somadas resultam em
treze, que é também menor que o todo.
Mas o número vinte e um, cujas partes são um, três e sete, somadas dão onze,
que é igualmente deficiente.
Assim, percebe-se que entre os ímpares raramente se encontra perfeição, e quase
todos são inferiores à proporção natural.
Pois, como o número ímpar é composto de unidades
que não se dividem em partes iguais, é mais difícil que ele guarde exata
correspondência entre o todo e as partes.
A natureza do ímpar tende mais à simplicidade que à simetria: conserva a
unidade, mas carece de equidade.
Por isso, se diz que o número ímpar participa mais
da causa formal do que da causa material, sendo por essência mais indivisível
e, por isso, menos disposto à medida.
Mas o número par, que participa da duplicação e da divisão, é como a matéria
suscetível de forma e proporção.
Ainda assim, entre os ímpares, há alguns que,
embora não atinjam a perfeição numérica, guardam certa harmonia nas suas
proporções.
São aqueles cujas partes guardam entre si uma correspondência de razão — como o
número vinte e sete, cujas partes um, três e nove se multiplicam ordenadamente
umas nas outras.
Por isso, embora não seja perfeito, é ordenado; e a ordem é uma imagem da
perfeição.
Diz-se, então, que o número ímpar perfeito — se
algum houver — é aquele cuja totalidade conserva em si a exata proporção de
suas partes, de modo que nada lhe falte nem sobre.
Mas o ímpar imperfeito é aquele que, ou por excesso, ou por deficiência, quebra
a harmonia do todo.
E é digno de nota que, entre todos os números
conhecidos, a natureza só revelou como perfeitamente equilibrados os pares,
como se quisesse ensinar que a perfeição pertence mais à multiplicidade
ordenada do que à indivisão absoluta.
Pois o que é absolutamente uno é princípio, e o princípio não é perfeito no
sentido de completude, mas no de origem.
Assim, a unidade, sendo indivisível, é princípio; o
número, sendo divisível, é composto; e a perfeição consiste na harmonia entre o
princípio e o composto.
Finis Capitis Quarti / Fim do Capítulo Quarto
col. 1172B — PL LXIV
LIBER PRIMUS
— Livro Primeiro
Caput V — De
numero perfecto
(Do número perfeito)
col. 1172B–1173C
Chama-se número perfeito aquele cuja soma das
partes é igual à totalidade do próprio número.
Essa definição, recebida dos antigos, mostra que o número perfeito participa de
uma certa harmonia universal, pela qual nada lhe falta e nada lhe excede.
Com efeito, cada número tem partes que, somadas, ou
superam, ou ficam aquém, ou igualam o todo.
A igualdade constitui a perfeição; o excesso, a superabundância; a deficiência,
a imperfeição.
Por exemplo, o número seis tem por partes próprias
o um, o dois e o três.
Somadas essas partes, produz-se o próprio número seis, de modo que ele nem
excede nem é excedido: é, portanto, o primeiro exemplo da perfeição numérica.
O número oito, porém, é deficiente, pois suas
partes — um, dois e quatro — compõem apenas sete, que é menor que o número
inteiro.
O número doze, ao contrário, é superabundante, porque suas partes — um, dois,
três, quatro e seis — somam dezesseis, excedendo o todo.
Assim, entre os números, poucos são perfeitos, raros como que por desígnio da
natureza.
Os antigos afirmaram que entre dez números há
apenas um perfeito, o que demonstra que a perfeição é rara entre as
quantidades, assim como é rara entre as substâncias.
E disseram também que, assim como o universo foi formado em seis dias, não sem
causa foi escolhido esse número, pois é o primeiro perfeito: nada lhe falta
para completar a ordem das partes.
Com efeito, Deus, que ordenou todas as coisas em
número, peso e medida, quis que a perfeição da criação fosse representada por
aquele número que em si mesmo é perfeito.
O primeiro dia foi o início, o segundo o progresso, o terceiro a consolidação,
o quarto a distinção dos corpos, o quinto a geração dos seres vivos, e o sexto
a plenitude da obra: e em seis dias, número perfeito, tudo foi consumado.
Por isso, o número perfeito é imagem da ordem
completa e símbolo da proporção divina.
Ele é, entre os números, o que o justo é entre os homens: nada tem em excesso,
nada em falta.
E assim como o equilíbrio da alma consiste em manter-se igual entre os
extremos, também a harmonia numérica se realiza quando as partes e o todo são
mutuamente equivalentes.
Diz-se ainda que, nos números perfeitos, a soma das
partes é igual ao todo, e a soma das partes menores é igual à soma das maiores;
o que não acontece em nenhum outro gênero de número.
Os números perfeitos, portanto, são poucos, mas de
ordem superior: e cada um deles aparece em progressão determinada.
O segundo número perfeito é vinte e oito, cujas partes — um, dois, quatro, sete
e quatorze — somadas produzem o próprio número.
O terceiro é quatrocentos e noventa e seis; o quarto, oito mil cento e vinte e
oito.
Os antigos observaram que cada número perfeito
termina alternadamente em seis e em oito, e que não há dois perfeitos
consecutivos com o mesmo final.
Assim, o seis termina em seis, o vinte e oito em oito, o quatrocentos e noventa
e seis em seis, e o oito mil cento e vinte e oito em oito.
Desta alternância concluíram que a natureza conserva mesmo na perfeição uma
alternância de ritmo e de figura.
Finis Capitis Quinti / Fim do Capítulo Quinto
col. 1173C — PL LXIV
LIBER PRIMUS
— Livro Primeiro
Caput VI —
De partibus numeri perfecti
(Das partes do número perfeito)
col. 1173C–1175B
Cumpre agora examinar de que modo as partes do
número perfeito se relacionam com ele mesmo e entre si.
O número perfeito, como já se demonstrou, é aquele
que é igual à soma de suas partes próprias, excluída a totalidade.
Mas, além disso, é preciso observar que tais partes guardam uma disposição de
proporção harmônica, tal que nenhuma delas é supérflua nem deficiente.
Tome-se, por exemplo, o número seis, que é o
primeiro e mais simples entre os números perfeitos.
Suas partes são um, dois e três.
O um é a sexta parte de seis; o dois é a terceira; o três é a metade.
E a soma de todas as partes é igual ao próprio número, nem maior nem menor.
Percebe-se, assim, que o número perfeito é
constituído de partes que se dispõem conforme proporções simples e naturais.
Entre uma e outra parte há uma razão constante: o um está para o dois como o
dois está para o quatro, se fosse o dobro; e como o três está para o seis.
Assim, em cada proporção, mantém-se a mesma relação de igualdade e crescimento.
Essa harmonia demonstra que o número perfeito não apenas
é igual à soma de suas partes, mas que também é proporcional na disposição
dessas mesmas partes.
Pois, se retirarmos ou acrescentarmos algo, a proporção desaparece, e o número
deixa de ser perfeito.
Por isso, o número perfeito é dito não apenas completo,
mas também bem ordenado.
Ele é completo, porque nada lhe falta; e bem ordenado, porque as partes se
dispõem em harmonia.
Cada uma tem uma relação determinada com o todo e com as demais, e nenhuma
ocupa lugar estranho à sua medida.
A natureza mesma parece ter estabelecido que o
número perfeito fosse como uma imagem da ordem universal.
Assim como no corpo do mundo cada coisa tem sua proporção com o todo, também
nas partes do número perfeito há um ritmo que as ajusta ao conjunto.
E assim como o corpo cósmico é composto de elementos desiguais, mas harmônicos,
também o número perfeito se compõe de partes desiguais, porém proporcionais.
Além disso, nos números perfeitos há uma
alternância necessária entre as partes menores e as maiores.
As menores, somadas, igualam as maiores, e o meio termo entre elas serve de
vínculo.
Por isso, o número seis contém três partes que se equilibram — o um e o dois,
menores; o três, meio; e o todo, seis, que as reúne em proporção.
O mesmo se observa em todos os números perfeitos seguintes,
embora com proporções mais amplas.
O número vinte e oito, por exemplo, tem partes um, dois, quatro, sete e
quatorze.
Entre elas, a soma das menores iguala a das maiores, e todas juntas compõem o
número integral.
Dessa forma, o perfeito número guarda sempre uma correspondência de igualdade
entre o início e o fim, como se retornasse a si mesmo por meio da proporção.
Assim, conclui-se que a perfeição numérica não
consiste apenas na soma das partes, mas também na justa disposição delas.
E, como o universo é composto de partes ordenadas, o número perfeito é imagem
do cosmos, no qual tudo se mantém pela harmonia das proporções.
Finis Capitis Sexti / Fim do Capítulo Sexto
col. 1175B — PL LXIV
LIBER PRIMUS
— Livro Primeiro
Caput VII —
De numeris abundantibus et deficientibus
(Dos números superabundantes e dos deficientes)
col. 1175B–1177C
Depois de havermos tratado dos números perfeitos e
de suas partes, resta agora explicar o que sejam os números abundantes e os
deficientes, e qual a razão pela qual se desviam da justa proporção.
Chama-se número abundante aquele cuja soma
das partes é maior que o próprio número.
Por exemplo: o número doze tem por partes um, dois, três, quatro e seis; e
somadas essas partes produzem dezesseis, que excede o número inteiro.
De modo semelhante, o número vinte tem por partes um, dois, quatro, cinco e
dez, cuja soma é vinte e dois, excedendo também o número total.
Chama-se número deficiente aquele cuja soma
das partes é menor que o todo.
Por exemplo: o número oito tem por partes um, dois e quatro; e somadas produzem
sete, que é menor que o próprio número.
Assim, todo número ou excede, ou fica aquém, ou é igual às suas partes — e essa
tríplice distinção compreende toda a variedade dos números.
Os números abundantes podem ser comparados aos
corpos em que a matéria excede a forma; os deficientes, àqueles em que a forma
domina a matéria; e os perfeitos, àqueles em que a forma e a matéria estão em
equilíbrio.
Pois, como na natureza a harmonia provém da proporção entre os elementos, assim
também na aritmética a perfeição consiste no justo meio entre o excesso e a
falta.
O excesso de partes significa desordem, porque a
multiplicidade sobrecarrega o todo; a deficiência, por sua vez, significa
debilidade, porque o todo não é sustentado pelas partes.
O perfeito, porém, mantém-se como centro e medida, porque nele a soma e o
limite coincidem.
E assim como nos seres vivos a saúde consiste em
conservar a proporção de cada parte com o todo, e a doença nasce da desmedida,
do mesmo modo, nos números, a saúde da proporção é a perfeição.
Os que excedem são como corpos inchados e desmedidos; os que faltam, como
corpos consumidos e frágeis; e só os perfeitos são sãos e proporcionados.
Por isso, os antigos diziam que o número é a imagem
da ordem vital, e que o equilíbrio numérico é figura da justiça, pois nada tem
de supérfluo nem de deficiente.
E acrescentavam que a natureza, ao criar, tende sempre à medida, ainda que nem
sempre a alcance — de modo que, entre os números, poucos são perfeitos, muitos
são abundantes ou deficientes, assim como entre os seres há poucos plenamente
ordenados, e muitos afastados da proporção ideal.
Convém, portanto, ao estudioso da aritmética não
apenas conhecer os números, mas também discernir sua harmonia, porque a
verdadeira ciência não consiste em contar, mas em compreender a ordem que o
número manifesta.
E quem contempla essa ordem não somente entende o cálculo, mas participa da
própria razão pela qual o mundo foi feito.
Finis Capitis Septimi / Fim do Capítulo Sétimo
col. 1177C — PL LXIV
LIBER PRIMUS
— Livro Primeiro
Caput VIII —
De progressione numerorum
(Da progressão dos números)
col. 1177C–1179A
A progressão dos números é uma certa disposição
ordenada, pela qual cada número procede do anterior segundo uma razão constante
e determinada.
Essa razão pode ser de igualdade, de multiplicação, ou de proporção.
Quando cada número é formado pela adição de uma
mesma unidade, a progressão é dita igual ou aritmética; quando
cada número é obtido pela multiplicação de um mesmo fator, é dita geométrica;
e quando se regula pela razão de uma diferença variável, é chamada harmônica.
A progressão aritmética se observa, por exemplo, na
sequência: um, dois, três, quatro, cinco.
A diferença entre cada número é sempre a unidade, e a série se forma pelo
acréscimo contínuo do mesmo termo.
A progressão geométrica se vê na série: um, dois,
quatro, oito, dezesseis.
Cada número é o dobro do anterior, e toda a ordem se regula pela mesma razão de
multiplicação.
A progressão harmônica, por sua vez, é aquela em
que a diferença entre os extremos está para a diferença entre os médios como o
primeiro está para o último.
Por exemplo, na sequência seis, oito, doze, a razão entre seis e doze é dupla,
e entre oito e doze é tripla; de modo que o termo médio é a harmonia entre os
extremos.
Essas três progressões são os fundamentos de toda a
doutrina das proporções, e delas derivam todas as outras espécies de razão e de
desigualdade.
Pois toda proporção se estabelece entre dois ou mais números, e esses números,
ordenados, formam sempre uma progressão de algum desses três gêneros.
A natureza parece deleitar-se nessa tríplice
disposição: o aritmético exprime o crescimento pelo acréscimo, o geométrico
pela multiplicação, o harmônico pela conciliação.
E assim, como a alma conhece as coisas por gradação, e o universo se move por
ordem, o número também progride segundo leis fixas que o conduzem da unidade à
pluralidade e da pluralidade de volta à unidade.
Pois toda progressão, quando levada ao infinito,
tende a reencontrar seu princípio.
Assim, a série dos números cresce sem termo, mas cada um deles deriva da
unidade, e na unidade encontra seu limite natural.
A progressão é, portanto, uma imagem do movimento
das coisas: nasce do simples, multiplica-se pelo composto, e retorna ao simples
pela proporção.
E, porque o número é princípio de ordem, toda progressão é também uma figura da
ordem universal — pela qual tudo se afasta do Uno para novamente a Ele
retornar.
Finis Capitis Octavi / Fim do Capítulo Oitavo
col. 1179A — PL LXIV
LIBER PRIMUS
— Livro Primeiro
Caput IX —
De proportione numerorum
(Da proporção dos números)
col. 1179A–1181B
Proporção é uma relação ordenada entre dois
números, pela qual se conhece quanto um excede, iguala ou é excedido pelo
outro.
Chama-se, pois, proporção (em grego analogia) a relação entre duas
quantidades, segundo a qual uma é comparada com a outra por meio da razão (ratio).
Toda proporção é de três espécies: ou de igualdade,
ou de excesso, ou de deficiência.
De igualdade, quando ambos os números são idênticos, como dois e dois, três e
três.
De excesso, quando o primeiro contém o segundo mais de uma vez, como quatro
para dois, seis para três.
De deficiência, quando o primeiro é contido pelo segundo, como dois para
quatro, três para seis.
Mas a proporção propriamente dita é a que se
estabelece entre números desiguais, porque a igualdade não manifesta diferença,
e a diferença é o princípio da comparação.
Por isso, os antigos definiram a proporção como “a relação segundo a qual um
número excede ou é excedido por outro segundo uma medida comum”.
Entre as proporções desiguais, algumas são duplas,
outras triplas, outras quádruplas, outras múltiplas de
diversas espécies.
A proporção dupla é aquela em que o primeiro número contém o segundo duas
vezes, como quatro para dois, ou dez para cinco.
A tripla é a que contém três vezes, como seis para dois, nove para três.
A quádrupla, a que contém quatro vezes, como oito para dois, doze para três.
E assim em diante, pela multiplicação indefinida.
Essas proporções são chamadas multiplices,
porque um número é múltiplo do outro.
E há também as proporções chamadas superparticulares, nas quais o número
maior contém o menor uma vez e mais alguma parte dele; como três contém dois
uma vez e mais a metade, e quatro contém três uma vez e mais um terço.
Quando, pois, um número contém outro uma vez e sua
metade, a proporção é chamada sesquialtera (ratio sesquialtera);
quando o contém uma vez e um terço, é sesquitertia (ratio
sesquitertia); quando o contém uma vez e um quarto, sesquiquarta; e
assim por diante, segundo a fração que se acrescenta à unidade.
E há ainda proporções chamadas superpartientes,
nas quais o número maior contém o menor uma vez e mais partes diversas dele,
não apenas uma.
Por exemplo, o número oito contém o três uma vez e mais duas partes, pois três
vezes duas são seis, e mais dois completam oito.
Essa proporção é chamada superbipartiens (ratio superbipartiens),
porque contém duas partes do número menor além da unidade.
Assim, toda proporção que contém o menor número uma
vez e mais partes dele, é dita superparticular, se a parte for única;
superpartiens, se forem múltiplas.
Essas distinções são o fundamento de toda a doutrina da harmonia e das
proporções musicais, porque os sons se relacionam entre si segundo razões
proporcionais.
Com efeito, o som mais agudo se relaciona ao mais
grave como o número maior ao menor; e a consonância é a proporção ordenada
entre os números que expressam a diferença dos sons.
Por isso, o intervalo da oitava corresponde à proporção dupla (2:1), o da
quinta à proporção sesquialtera (3:2), o da quarta à sesquitertia (4:3), e a
oitava mais quinta à tripla (3:1).
Destas razões nascem todas as consonâncias
musicais, e toda a harmonia se regula por elas.
Pois a alma humana, sendo numérica em sua estrutura, sente prazer quando as
proporções do som refletem a proporção interna do próprio espírito.
E, porque Deus criou todas as coisas em número, peso e medida, a proporção
numérica é o vínculo pelo qual o universo e a música se correspondem.
Finis Capitis Noni / Fim do Capítulo Nono
col. 1181B — PL LXIV
LIBER PRIMUS — Livro
Primeiro
Caput X — De speciebus
proportionum
(Das espécies de
proporções)
col. 1181B–1183C
Como há muitas proporções entre
os números, convém agora distinguir suas espécies, para que a razão de cada uma
seja claramente compreendida.
A primeira e mais simples é a proporção dupla, quando
o número maior contém o menor duas vezes inteiras e nada mais, como quatro
contém dois, ou seis contém três.
Segue-se a tripla,
quando o maior contém o menor três vezes, como seis contém dois, ou nove contém
três.
Depois vem a quádrupla,
quando o maior contém o menor quatro vezes, como oito contém dois.
Todas essas se denominam múltiplas,
porque o maior é múltiplo do menor.
Depois das múltiplas vêm as superparticulares, nas
quais o número maior contém o menor uma vez e mais uma parte dele.
Assim, quando o maior contém o menor uma vez e mais metade dele, como três
contém dois, a proporção é sesquialtera;
quando o contém uma vez e mais um terço, como quatro contém três, é sesquitertia;
quando o contém uma vez e mais um quarto, como cinco contém quatro, é sesquiquarta;
e assim sucessivamente, conforme a parte adicionada.
Há também as superpartientes, nas
quais o maior contém o menor uma vez e mais partes diversas dele, não apenas
uma.
Por exemplo, quando o maior contém o menor uma vez e mais duas partes, como
oito contém três, é superbipartiens;
quando o contém uma vez e mais três partes, como dez contém três, é supertripartiens;
e assim em diante, de acordo com a multiplicidade das partes.
Todas essas proporções se
compreendem sob três gêneros principais:
o das múltiplas,
o das superparticulares
e o das superpartientes.
E entre esses três, não há proporção que não se possa reduzir a um deles.
Há, além disso, proporções compostas e duplas.
Compõem-se quando duas ou mais proporções se unem, como se a dupla e a
sesquialtera se juntassem, resultando em proporção tripla.
Diz-se, então, que o composto da dupla e da sesquialtera é triplo, porque o
número maior contém o menor três vezes.
De modo semelhante, se a
proporção dupla se compõe com a sesquitertia, resulta a proporção dupla sesquitertia,
que é a da oitava mais quarta, isto é, (2:1) × (4:3) = (8:3).
E essa é a razão pela qual os músicos chamaram esse intervalo de diapason cum diapente,
ou seja, oitava mais quinta, que resulta da junção das proporções duplas e
superparticulares.
Toda proporção composta pode
também ser decomposta nos seus elementos simples, e toda proporção simples pode
gerar compostas, de modo que o campo das relações é infinito, embora derivado
de poucos princípios.
E assim como na aritmética toda
multiplicidade procede da unidade, também na doutrina das proporções toda
variedade nasce dessas três espécies fundamentais — múltipla, superparticular e
superpartiens.
Pois nelas se encontra toda a harmonia dos números e, por conseguinte, toda a
ordem dos sons e das coisas.
Por isso, os antigos afirmaram
que o universo é uma harmonia composta dessas proporções:
as coisas superiores são ordenadas segundo razões múltiplas, as intermediárias
segundo razões superparticulares, e as inferiores segundo razões
superpartientes;
para que, na variedade de todas as criaturas, permaneça um só princípio de
medida, e em toda multiplicidade brilhe o vestígio da unidade.
Finis Capitis Decimi /
Fim do Capítulo Décimo
col. 1183C — PL LXIV
LIBER SECUNDUS — Livro
Segundo
Prooemium — Prólogo
(Sobre a ordem das
disciplinas e a utilidade da aritmética nas demais artes)
col. 1183D–1185A
Tendo tratado no primeiro livro
da natureza do número e de suas espécies, convém agora demonstrar como o
conhecimento da aritmética se estende às demais ciências, e de que modo ela
preside a ordem de todas as disciplinas.
Com efeito, as doutrinas
liberais são como degraus que conduzem a mente humana da percepção sensível à
contemplação do inteligível.
E entre elas há uma ordem natural e necessária: pois o que é anterior na
natureza deve ser aprendido primeiro na razão.
Assim, a gramática é o início
da cultura racional, porque ensina os signos com que a mente manifesta o
pensamento; a dialética é a que distingue o verdadeiro do falso; a retórica é a
que ordena o discurso segundo a conveniência e a persuasão.
Mas, dessas artes, que pertencem à palavra, deve-se subir às ciências que pertencem
ao número e à medida.
E dessas, a aritmética é a
primeira e a raiz das demais, porque a razão de número precede a de grandeza,
de tempo e de movimento.
A geometria nasce da aplicação do número à extensão; a música, da aplicação do
número ao som; a astronomia, da aplicação do número ao movimento dos astros.
Por isso, quem ignora a
aritmética não pode compreender perfeitamente nenhuma dessas artes, porque
todas são suas derivadas e dependentes.
Pois como a geometria mede os corpos, a música harmoniza os sons, e a
astronomia regula os cursos celestes, todas elas se servem de proporções
numéricas.
Assim, o número é como o
vínculo universal que une todas as coisas.
Nada existe, seja no mundo inteligível, seja no sensível, que não possa ser
reduzido ao número.
O número é, por assim dizer, a lei pela qual a natureza se ordena e se
conserva.
E, portanto, quem busca a
sabedoria deve começar pelo estudo do número, como quem deseja entrar em um
templo deve passar primeiro pela porta.
Pois o número é o primeiro passo da razão, e por ele a alma se eleva da matéria
à forma, do sensível ao inteligível, do temporal ao eterno.
Os antigos sábios, que uniram
filosofia e teologia, não sem razão afirmaram que “Deus tudo dispôs em número,
peso e medida”.
O peso pertence à física, a medida à geometria, e o número à aritmética; e,
entre eles, o número é o mais universal e o mais puro, porque pode existir sem
corpo e sem lugar.
Por conseguinte, é pela
aritmética que o espírito humano se exercita a reconhecer a ordem invisível das
coisas; e quanto mais profundamente penetra a natureza do número, mais se
aproxima da sabedoria divina.
Assim, neste segundo livro,
mostraremos de que modo o número se multiplica, se divide, se relaciona e se
move segundo leis próprias, para que o intelecto, instruído pela razão
numérica, possa compreender a ordem das outras ciências.
Finis Prooemii / Fim do
Prólogo
col. 1185A — PL LXIV
LIBER SECUNDUS — Livro
Segundo
Caput I — De
multiplicatione numerorum
(Da multiplicação dos
números)
col. 1185A–1187B
Toda multiplicação é a geração
de um número maior a partir de dois menores, unidos pela razão da proporção.
Diz-se, pois, multiplicação quando um número é tantas vezes somado a si mesmo
quantas unidades contém o outro.
Assim, três multiplicado por quatro é o mesmo que três somado a si mesmo quatro
vezes, o que faz doze.
A multiplicação se realiza,
portanto, pelo acréscimo reiterado de uma mesma quantidade.
E, porque toda adição procede da unidade, toda multiplicação é também uma
extensão da unidade em direção à pluralidade.
Há três modos principais de
multiplicação:
— Quando o número par é multiplicado por outro par;
— Quando o par é multiplicado pelo ímpar;
— Quando o ímpar é multiplicado pelo ímpar.
Quando o número par multiplica
outro par, o resultado é sempre par, pois a multiplicidade das partes se
conserva.
Quando o par multiplica o ímpar, o produto é também par, porque o número par
contém em si a divisão pela unidade dupla.
Mas quando o ímpar multiplica o ímpar, o resultado é ímpar, porque a adição reiterada
de unidades indivisíveis não gera partes duplas.
Desta forma, o número par é
princípio de divisibilidade e o ímpar de indivisibilidade.
A união de ambos na operação da multiplicação manifesta a harmonia entre o
divisível e o indivisível, entre o contínuo e o discreto.
Multiplicar é, pois, engendrar
um número proporcionalmente maior segundo a potência do fator.
E essa potência é a medida da razão de crescimento: o segundo número indica
quantas vezes o primeiro será repetido.
Por isso, todo número contém em si a possibilidade de gerar infinitos outros,
conforme for multiplicado.
De modo simbólico, os
pitagóricos diziam que a multiplicação é a “fecundação do número”, porque o
número torna-se pai e mãe de outro, e a unidade se difunde em pluralidade ordenada.
Pois o produto sempre conserva a natureza de seus princípios: o que nasce de
dois pares será par; o que nasce de dois ímpares será ímpar; e o que nasce do
misto participa de ambos.
Assim, como a alma é simples,
mas suas operações são múltiplas, o número é uno em essência e múltiplo em
potência.
E na multiplicação, a potência se torna ato, como na geração das coisas
sensíveis.
Por isso, a arte aritmética
contempla na multiplicação a imagem da geração natural: o mesmo número,
multiplicado, torna-se outro, sem perder sua forma própria, assim como o ser
engendra sem deixar de ser.
Finis Capitis Primi /
Fim do Capítulo Primeiro
col. 1187B — PL LXIV
LIBER SECUNDUS — Livro
Segundo
Caput II — De
divisione numerorum
(Da divisão dos números)
col. 1187B–1189C
A divisão é a operação pela
qual um número maior é repartido em partes iguais ou proporcionais, segundo uma
medida determinada.
E, do mesmo modo que a multiplicação produz a ampliação do número, a divisão o
reconduz à sua origem e o restitui à simplicidade.
Toda divisão é, portanto, uma
certa inversão da multiplicação: pois o mesmo número que se obtém multiplicando
dois fatores, pode, pela divisão, ser reduzido a um deles.
Assim, doze dividido por quatro faz três, e três multiplicado por quatro faz
doze.
De modo que a multiplicação e a divisão são como causas contrárias, porém
ordenadas à mesma razão, uma para compor, outra para decompor.
A divisão se faz ou por partes iguais, ou por partes desiguais.
Por partes iguais, quando o número é repartido sem excedente nem resto, como o
dez é dividido em duas partes iguais de cinco e cinco.
Por partes desiguais, quando a soma das porções não guarda igualdade, como
quando o dez é dividido em quatro e seis.
Mas há também uma divisão natural e outra artificial.
Natural, quando a repartição se faz segundo a própria natureza do número, como
quando se divide o par em duas partes iguais e o ímpar em duas partes
desiguais, deixando uma unidade no meio.
Artificial, quando a divisão é imposta pela vontade ou pela convenção, e não
pela natureza do número, como quando o doze se divide em três e nove, ou em
oito e quatro.
Todo número, pois, é divisível
até certo ponto, e essa divisibilidade é limitada pela unidade, que não admite
divisão.
A unidade é o termo de toda divisão, assim como é o princípio de toda
multiplicação.
Convém também considerar que a
divisão se refere ao número segundo duas relações:
uma, segundo a quantidade
— quando se divide um número em tantas partes quantas se deseja;
outra, segundo a proporção
— quando as partes guardam entre si uma relação harmônica.
Por exemplo, se dividirmos o
número doze em quatro e oito, a divisão é proporcional, pois oito está para
quatro como o todo está para a metade.
Mas se o dividirmos em três e nove, não é mais proporcional, porque o três está
para nove em razão tripla, e o doze, dividido assim, não conserva o equilíbrio
das proporções.
A divisão, portanto, é tanto
mais perfeita quanto mais conserva a razão da igualdade.
E, como a multiplicação tende à abundância e a divisão à medida, ambas se
completam mutuamente e manifestam dois aspectos da ordem numérica: o de
expansão e o de limite.
Assim, a multiplicação é imagem
da difusão, e a divisão, da reabsorção; uma procede da unidade para o múltiplo,
outra do múltiplo para a unidade.
E é por isso que os antigos diziam que o universo se move entre dois termos — o
uno e o múltiplo —, e que o número, sendo o meio entre ambos, reflete na
multiplicação e na divisão o próprio ritmo da criação.
Finis Capitis Secundi /
Fim do Capítulo Segundo
col. 1189C — PL LXIV
LIBER SECUNDUS — Livro
Segundo
Caput III — De
proportione numerorum multiplicium
(Da proporção dos números
múltiplos)
col. 1189C–1191A
Toda proporção dos números
múltiplos é aquela em que o número maior contém o menor certo número de vezes,
sem deixar resto.
E, porque esse tipo de proporção nasce diretamente da multiplicação, é chamada proporção multiplicium,
isto é, dos múltiplos.
Assim, quatro está para dois em
proporção dupla, porque contém o dois duas vezes; seis está para três na mesma
razão; nove está para três em proporção tripla, porque o contém três vezes.
E, do mesmo modo, cada vez que um número contém outro um número inteiro de
vezes, diz-se que há entre eles uma proporção multiplicativa.
Essa proporção é a mais simples
e perfeita de todas, porque se estabelece segundo a igualdade da medida: o
número menor mede exatamente o maior, e não há excesso nem deficiência.
Por isso, ela é a primeira e mais natural das proporções, e todas as outras
derivam dela, ou pela diminuição, ou pelo acréscimo.
Dela se originam duas outras
espécies principais de proporções:
— a superparticular,
quando o número maior contém o menor uma vez e mais uma parte dele;
— e a superpartiens,
quando o número maior contém o menor uma vez e mais partes diversas dele.
Assim, todas as proporções são formadas pela variação da razão multiplicativa.
A proporção dos múltiplos é
também chamada proporção
de igualdade uniforme, porque a medida de um se contém no outro
tantas vezes quantas são as unidades do fator que multiplica.
Essa uniformidade é o fundamento da harmonia e da proporção contínua.
Com efeito, o que se vê no
número, vê-se também nas coisas: onde há proporção multiplicativa, há ordem e
consonância.
Por exemplo, na música, o som cuja frequência vibra o dobro de outro, é uma
oitava acima; e o que vibra três vezes mais, é uma quinta dupla.
Assim, o número regula não apenas as quantidades, mas também as qualidades
sensíveis que dependem da proporção.
A multiplicidade dos números,
portanto, é regulada por esta forma de relação, e toda vez que se estabelece a
razão de um número para outro, deve-se primeiro considerar se essa razão é
múltipla, porque ela é a raiz de todas as demais.
A proporção dos múltiplos tem
também esta propriedade: se dois números estão em proporção dupla, seus
produtos e potências conservarão a mesma relação.
Por exemplo, se quatro está para dois como o oito para quatro, também dezesseis
estará para oito na mesma razão; pois a proporção múltipla se conserva em todas
as multiplicações que dela derivam.
E, por isso, a proporção dos
múltiplos é dita eterna e
invariável, porque não depende da adição ou subtração de
partes, mas apenas da identidade da razão.
Toda vez que um número é igual a outro multiplicado por uma quantidade inteira,
há uma relação perfeita, e essa perfeição é o fundamento da medida e da
harmonia universal.
Finis Capitis Tertii /
Fim do Capítulo Terceiro
col. 1191A — PL LXIV
LIBER SECUNDUS — Livro
Segundo
Caput IV — De
medietatibus
(Das médias aritmética,
geométrica e harmônica)
col. 1191A–1193A
Entre dois números dados, pode
interpor-se um termo médio segundo diversas razões; e, conforme a natureza
dessa razão, o meio é dito aritmético,
geométrico
ou harmônico.
A média aritmética é
aquela em que a diferença entre o primeiro e o meio é igual à diferença entre o
meio e o último.
Por exemplo, entre dois e seis, o termo médio aritmético é quatro, porque dois
subtraído de quatro e seis subtraído de quatro deixam ambas as vezes o mesmo
intervalo de dois.
A média geométrica é
aquela em que o primeiro está para o meio assim como o meio está para o último.
Por exemplo, entre dois e oito, o termo médio geométrico é quatro, porque dois
está para quatro na mesma razão que quatro está para oito, isto é, duplo.
Diz-se geométrica porque a razão é multiplicativa, e se exprime pela igualdade
de proporções.
A média harmônica é aquela
em que a diferença entre o primeiro e o meio está para a diferença entre o meio
e o último, como o primeiro está para o último.
Por exemplo, entre seis e doze, o termo médio harmônico é oito, porque a
diferença entre seis e oito é dois, e entre oito e doze é quatro; e dois está
para quatro como seis está para doze, isto é, na proporção dupla.
Essas três médias se
distinguem, portanto, pela razão de igualdade que cada uma conserva.
A aritmética é a igualdade das diferenças, a geométrica é a igualdade das
razões, e a harmônica é a igualdade das proporções compostas.
Quando se põem juntas, estas
três médias formam uma tríplice harmonia, pela qual o universo e a alma se mantêm
em ordem.
Pois, como na aritmética a diferença é constante, na geometria a proporção é
contínua, e na harmonia as partes se equilibram por compensação, assim também o
mundo é composto de diferenças, proporções e equilíbrios.
A média aritmética é própria
das grandezas, a geométrica das potências, e a harmônica dos sons.
Por isso, os pitagóricos afirmaram que toda a música se contém nas três médias:
porque o tom e o semitom são determinados por proporções aritméticas; a
consonância pela proporção geométrica; e o acordo dos intervalos pela
harmônica.
Além disso, todas as coisas que
permanecem ordenadas entre extremos têm em si uma média de algum desses três
gêneros.
Assim, entre o calor e o frio há o temperado; entre o seco e o úmido, o morno;
entre a virtude e o vício, o justo meio.
E, como na natureza nada é extremo sem medida, o meio é o princípio da
conservação.
A média é, portanto, a imagem
da proporção universal: ela une os contrários, reconcilia os desiguais e dá
forma ao contínuo.
E, porque o número é o primeiro princípio das proporções, nele se espelha o
mesmo equilíbrio que o universo manifesta em sua ordem visível.
Finis Capitis Quarti /
Fim do Capítulo Quarto
col. 1193A — PL LXIV
LIBER SECUNDUS — Livro
Segundo
Caput V — De
consonantiis numerorum
(Das consonâncias dos
números)
col. 1193A–1195B
Depois de termos falado das
médias e das proporções, convém agora tratar das consonâncias que delas
procedem, pois toda consonância é fundada na proporção numérica.
A consonância é a
concórdia de sons desiguais que, quando emitidos ao mesmo tempo, agradam à
audição por sua medida comum.
E porque essa medida só pode ser expressa pelo número, as consonâncias nada
mais são do que proporções de números aplicadas aos sons.
As principais espécies de
consonância são quatro: diapason,
diapente, diatessaron e disdiapason.
O diapason
(oitava) é a proporção dupla (2:1); o diapente
(quinta) é a proporção sesquialtera (3:2); o diatessaron
(quarta) é a proporção sesquitertia (4:3); e o disdiapason (dupla oitava) é a proporção
quádrupla (4:1).
A razão pela qual esses sons se
harmonizam entre si é que as proporções que os unem são simples e uniformes,
sem mistura de partes múltiplas.
Pois, quando as proporções são compostas e irracionais, o ouvido percebe nelas
uma aspereza e uma desordem.
A oitava, sendo dupla, contém a
quinta e a quarta; e a soma de ambas produz a totalidade da consonância.
De fato, se a razão do diatessaron
é 4:3 e a do diapente
é 3:2, a multiplicação das razões (4:3 × 3:2 = 2:1) gera a do diapason.
Assim, a oitava é a harmonia perfeita porque reconcilia as duas proporções mais
próximas.
Os antigos chamaram essas
consonâncias de “espelhos da alma”, porque nelas se reflete a ordem natural do
espírito humano, que se deleita com a medida e a proporção.
E diziam que a música nada mais é que o número que se fez audível, e que a
aritmética é a música silenciosa.
Por isso, a alma, quando escuta
as consonâncias, reconhece nelas algo de si mesma, pois também ela é composta
segundo proporções numéricas.
E, porque o número é princípio de toda ordem, as consonâncias musicais
manifestam no som a harmonia invisível do cosmos.
O som cuja vibração é o dobro
da de outro está em razão dupla e forma a oitava; o que vibra na razão de três
para dois forma a quinta; e o que vibra na razão de quatro para três forma a
quarta.
E essas razões são as mesmas que regulam o movimento dos corpos celestes, de
modo que o universo inteiro é como uma sinfonia perpetuamente ordenada.
Por isso, Platão ensinou que as
esferas dos astros emitem sons proporcionais às suas distâncias e velocidades,
e que o conjunto dessas proporções constitui a “música do mundo”, inaudível aos
sentidos, mas inteligível à razão.
Assim, a doutrina das
consonâncias une o sensível ao inteligível, e a ciência dos números à
contemplação divina.
Pois o que é uno e múltiplo, som e número, corpo e alma, encontra sua concórdia
na medida, e toda medida é número.
Finis Capitis Quinti /
Fim do Capítulo Quinto
col. 1195B — PL LXIV
LIBER SECUNDUS — Livro
Segundo
Caput VI — De consonantiarum
differentiis et comparationibus
(Das diferenças e
comparações entre as consonâncias)
col. 1195B–1197C
Como há diversas espécies de
consonância, convém agora distinguir suas diferenças e compará-las entre si,
para compreender por que uma delas agrada mais ao ouvido e outra menos.
A oitava (diapason) é a
mais perfeita de todas as consonâncias, porque nela o som superior contém o
inferior exatamente em razão dupla, e assim toda a proporção é simples, inteira
e uniforme.
Por isso, o ouvido a recebe com máxima suavidade e sem resistência, como se os
dois sons fossem um só, unidos pela mesma natureza vibratória.
A quinta (diapente) é a
seguinte em dignidade, porque sua proporção — sesquialtera (3:2) — conserva
ainda simplicidade e harmonia, mas já apresenta certa diversidade de natureza
entre os sons.
A alma percebe nessa diversidade uma tensão agradável, pois o intervalo não
dissolve a unidade, mas a expande.
A quarta (diatessaron) vem
depois, sendo menos plena que a quinta, porque sua proporção — sesquitertia
(4:3) — é mais desigual e menos equilibrada.
Por isso, embora consonante, aproxima-se já da fronteira do dissonante, e exige
uma justa medida para não se romper.
Entre essas três — oitava,
quinta e quarta — está contida toda a ordem das consonâncias perfeitas.
Pois a oitava, sendo dupla, contém a quinta e a quarta; e a soma das duas
razões, 3:2 e 4:3, produz 2:1, o que demonstra que a perfeição da oitava
resulta da união das outras duas.
Mas há também consonâncias compostas, que nascem da
junção das simples, como o diapason
cum diapente (oitava com quinta), cuja razão é tripla (3:1), e o disdiapason (dupla oitava),
cuja razão é quádrupla (4:1).
Essas são mais amplas, mas não mais puras, porque a proporção, tornando-se mais
extensa, afasta-se da simplicidade natural.
A suavidade de cada consonância
é, portanto, proporcional à simplicidade de sua razão: quanto mais simples o
número, mais perfeita a consonância.
Assim, o ouvido humano, por uma disposição natural, agrada-se do simples, e
quanto mais as proporções se tornam compostas ou irracionais, mais o som se
torna confuso e áspero.
Os antigos músicos chamaram
essa gradação de “ordem harmônica”, e disseram que a alma é composta de oitava,
quinta e quarta — porque o entendimento tende à unidade (oitava), a vontade
move-se pela proporção (quinta), e o sentimento oscila entre ambos (quarta).
Dessa correspondência nasceu a doutrina pitagórica de que o homem é um
microcosmo harmônico, imagem do cosmos numerado.
Comparando, pois, todas as
consonâncias, a oitava é a mais perfeita; a quinta, a mais vigorosa; a quarta,
a mais tênue; a oitava com quinta, a mais grandiosa; e a dupla oitava, a mais
ampla e ressonante.
Mas a natureza prefere a medida à extensão, e por isso a oitava simples é
considerada a consonância por excelência, princípio e fim de todas as outras.
Assim, toda a teoria musical se
reduz à contemplação das proporções numéricas, e toda audição verdadeira é uma
intuição da ordem invisível.
Pois, onde há proporção, há beleza; e onde há beleza, há o reflexo da unidade
que dá forma ao múltiplo.
Finis Capitis Sexti /
Fim do Capítulo Sexto
col. 1197C — PL LXIV
LIBER SECUNDUS — Livro
Segundo
Caput VII — De sonorum
natura et ordine
(Da natureza e ordem dos
sons)
col. 1197C–1200A
Convém agora tratar da natureza
do som e da ordem que lhe é própria, para que se entenda de que modo as
proporções numéricas se manifestam nos movimentos aéreos.
O som é o movimento do ar
golpeado de modo contínuo e uniforme, que chega até o ouvido e impressiona a
alma por meio do sentido auditivo.
Pois, assim como o corpo visível é percebido pela luz, o som é percebido pelo
ar que vibra — e essa vibração é a imagem sensível do número em movimento.
Quando um corpo sólido é
percutido, ele põe o ar em agitação; o ar, ao mover-se, transmite o movimento
ao ar próximo, e esse impulso, propagando-se circularmente, produz o som.
Assim, todo som é uma espécie de círculo móvel, como quando uma pedra lançada
sobre a água faz nascer ondas que se ampliam em torno do ponto de impacto.
O som é tanto mais forte quanto
mais intenso for o movimento inicial; e é tanto mais grave quanto mais lento
for esse movimento, e tanto mais agudo quanto mais rápido.
Pois a gravidade e a agudeza dependem da velocidade da vibração: a agudeza é um
movimento breve e frequente; a gravidade, um movimento longo e lento.
Por conseguinte, o som é duplo:
um se refere à quantidade
do movimento, outro à qualidade
da proporção.
A quantidade do movimento dá origem ao tom e à altura; a qualidade da proporção
gera a consonância e a harmonia.
A natureza ordena, portanto,
que o som não seja casual, mas conforme a número e medida.
E, assim como as proporções numéricas se exprimem em figuras e grandezas,
exprimem-se também nas vibrações do ar e nos intervalos musicais.
Toda consonância, como foi
dito, é fundada em proporções simples: a oitava (2:1), a quinta (3:2), a quarta
(4:3).
Essas razões são igualmente causas da beleza sonora, porque nelas o movimento
do ar se ajusta à proporção do número e à disposição natural do ouvido.
Mas nem todo som é consonante:
os sons que se unem sem proporção geram dissonância, porque seus movimentos são
contrários e se perturbam mutuamente.
Por isso, a música é a ciência que separa o que é ordenado do que é confuso, e
faz do som uma expressão do número.
E assim como na aritmética o
número é considerado em repouso, e na música em movimento, também a alma humana
participa dessas duas ordens:
quando contempla, é aritmética; quando vibra, é musical.
Logo, a natureza dos sons é um
reflexo da própria estrutura do mundo.
Pois o ar, movido pelo sopro, imita o espírito; o ritmo, que o ordena, imita o
número; e a consonância, que o reconcilia, imita a sabedoria.
De modo que, quem entende a
razão dos sons, entende também a ordem do universo:
pois tudo o que se move, move-se segundo número, peso e medida; e toda harmonia
sensível é uma imagem da harmonia divina.
Finis Capitis Septimi /
Fim do Capítulo Sétimo
col. 1200A — PL LXIV
LIBER SECUNDUS — Livro
Segundo
Caput VIII — De
ratione modulationis et harmoniae
(Da razão da modulação e da
harmonia)
col. 1200A–1202C
Depois de termos examinado a
natureza do som e suas proporções, resta considerar de que modo se forma a modulação, e qual é a
razão da harmonia.
A modulação é a ordenação
dos sons segundo número e tempo, de modo que cada som conserve sua proporção em
relação ao outro, e o conjunto produza uma medida agradável e regular.
E porque toda modulação é composta de alturas, tempos e proporções, resulta que
ela é, por natureza, numérica — uma aritmética que se tornou sensível.
A harmonia nasce da conjunção
de sons desiguais, ajustados segundo certas proporções racionais.
Pois a igualdade absoluta dos sons não produz música, mas silêncio; e o excesso
de desigualdade gera confusão.
A música, portanto, é a arte do meio proporcionado entre o uno e o múltiplo.
O movimento dos sons é de dois
tipos: um é ascendente,
outro descendente.
O ascendente tende ao agudo, o descendente ao grave.
E, como no universo há movimento circular e linear, também na música há retorno
e progressão:
o retorno corresponde à repetição da oitava, e a progressão, à diversidade dos
intervalos.
As diferenças que a música
contém se fundam nas proporções já ditas: a dupla, a sesquialtera, a
sesquitertia e a epogdoica (9:8).
Destas se formam os tonos,
semítonos
e intervalos
que constituem toda a harmonia.
E assim como as figuras geométricas se compõem de linhas e ângulos, as melodias
se compõem de intervalos e proporções.
A harmonia é, portanto, uma
concordância entre movimentos diversos, uma unidade nas diferenças.
Por isso, os antigos filósofos diziam que o mundo é composto harmonicamente,
porque suas partes, embora desiguais, conservam entre si proporções ordenadas.
E a alma humana, sendo imagem do cosmos, reconhece a harmonia como algo que lhe
é natural e congênito.
Não há, pois, nada mais
conforme à razão que a harmonia: pois tudo o que existe ou é número, ou
participa do número.
O fogo se move segundo proporção; a água flui segundo medida; o ar vibra
segundo ritmo; e a terra se mantém pela igualdade de seus pesos.
Assim, todo o universo é música silenciosa, e toda música é o eco do universo.
A modulação, quando observada
pelo intelecto, é ciência; quando percebida pelos sentidos, é deleite; e quando
usada na moral, é virtude.
Por isso, os pitagóricos diziam que há três músicas: a do mundo, que é o movimento
das esferas; a do homem,
que é a proporção entre corpo e alma; e a dos instrumentos, que é a imagem sensível das
duas primeiras.
E como a alma humana participa
das três, ela sente prazer quando ouve sons proporcionais, porque neles
reconhece a ordem de que é feita.
A harmonia, portanto, não apenas deleita, mas instrui; não apenas move, mas
purifica.
Assim, a modulação e a harmonia
são os dois aspectos de uma mesma arte: a modulação é a execução temporal, e a
harmonia é a proporção eterna.
E o músico perfeito é aquele que entende ambas, e sabe que, ao ordenar os sons,
imita a ordem do próprio ser.
Finis Capitis Octavi /
Fim do Capítulo Oitavo
col. 1202C — PL LXIV
LIBER SECUNDUS — Livro
Segundo
Caput IX — De iudicio
aurium et ratione discernendi consonantias
(Do juízo dos ouvidos e da
razão de discernir as consonâncias)
col. 1202C–1205B
Não devemos confiar todo
julgamento aos sentidos, mas dar mais crédito à razão, pois é ela que corrige
os enganos da sensação.
Com efeito, nesta arte (a
música), todo princípio provém do ouvido; se não houvesse audição, não
existiria discussão alguma sobre os sons.
O ouvido, porém, ocupa apenas o lugar de um aviso e princípio, como um
prenúncio que desperta a atenção.
A perfeição final e a força de reconhecer o verdadeiro residem, não no sentido,
mas na razão, a qual, regendo-se por regras certas, jamais se engana.
Pois que diremos da
falibilidade dos sentidos, se nem todos percebem com a mesma força, e nem o
mesmo homem sente sempre da mesma maneira?
Em vão alguém confia num juízo variável se deseja conhecer a verdade.
Por isso, os pitagóricos
seguiram um caminho intermediário: não entregaram todo o juízo aos ouvidos, mas
tampouco os desprezaram.
Pois as consonâncias são medidas pelo ouvido, mas as distâncias e proporções
pelas quais as consonâncias diferem entre si, estas se confiam à razão e às
regras, não aos ouvidos, cuja percepção é turva e incerta.
Assim, como há duas espécies de
quantidade — a discreta
e a contínua
—, a primeira é finita em seu mínimo, mas infinita em crescimento; a segunda é
finita em sua totalidade, mas infinita em divisão.
A unidade é o limite mínimo do número, e, contudo, a multiplicação dessa
unidade não tem fim.
Do mesmo modo, a linha contínua é limitada em extensão, mas pode ser dividida
ao infinito.
Assim, o número cresce infinitamente; a quantidade contínua, ao contrário,
diminui infinitamente.
A multiplicidade, portanto, por
não ter termo em seu aumento, conserva a natureza do número;
a superparticularidade,
por sempre dividir o menor, conserva a natureza da quantidade contínua.
Pois, quando o maior contém o menor e sua metade, ou sua terça parte, ou
quarta, ou quinta, a parte sempre diminui à medida que cresce o denominador.
Assim, quanto maior o número, menor a parte designada — e nisso se manifesta a
diferença essencial entre o número e a continuidade.
Dessa analogia, os pitagóricos
deduziram que o ouvido julga as diferenças sensíveis, mas é a razão que
compreende as proporções invisíveis.
O sentido percebe o som; o intelecto percebe o número no som.
E quando a razão dirige o ouvido, a audição torna-se ciência; quando o ouvido
age sem razão, torna-se engano.
Portanto, o músico deve usar o
ouvido como servo e a razão como guia; pois o ouvido indica, mas a razão julga.
E somente quando ambos se unem, nasce o verdadeiro conhecimento da harmonia —
porque o som é corpo, mas a proporção é alma.
Finis Capitis Noni /
Fim do Capítulo Nono
col. 1205B — PL LXIV
LIBER SECUNDUS — Livro
Segundo
Caput X — De ordine
consonantiarum in musica universa
(Da ordem das consonâncias
na música universal)
col. 1205B–1208A
Passemos agora a considerar a ordem das consonâncias e
sua disposição na música universal.
Pois assim como as proporções numéricas se organizam segundo graus de
simplicidade e perfeição, também as consonâncias se dispõem em uma hierarquia
natural e necessária.
A diapason (oitava) ocupa
o primeiro lugar e é princípio de todas as outras, porque é a mais simples e
contém todas em si.
A diapente
(quinta) vem em seguida, como a mais próxima da unidade, e é como que a força
geradora da harmonia.
Depois está a diatessaron
(quarta), que, embora menor, é indispensável à integridade do sistema, pois une
a quinta e a oitava por uma proporção intermediária.
Destas três, derivam todas as
demais consonâncias: a dupla oitava (disdiapason),
a oitava com quinta (diapason
cum diapente), e todas as composições resultantes da justaposição
das razões simples.
A ordem, portanto, é esta: oitava,
quinta, quarta, oitava com quinta, dupla oitava — das quais
a oitava é o princípio e o fim.
Mas esta ordem não se aplica
somente à música dos instrumentos, e sim à música universal, que os
antigos dividiram em três espécies:
— musica mundana,
isto é, a harmonia do cosmos;
— musica humana,
isto é, a proporção entre a alma e o corpo;
— musica instrumentalis,
isto é, a imitação sensível das duas primeiras.
Na musica mundana, as
consonâncias correspondem aos movimentos dos céus:
o curso do firmamento em relação às estrelas fixas tem proporção dupla;
o movimento do Sol em relação ao das esferas planetárias, proporção
sesquialtera;
e as relações entre os astros menores se dispõem segundo proporções harmônicas
e superparticulares.
Na musica humana, a oitava
representa a unidade entre o intelecto e a razão; a quinta, o laço entre a
razão e a sensibilidade; e a quarta, o vínculo entre a sensibilidade e o corpo.
Assim, o homem é, por natureza, harmônico: o espírito é sua oitava, o coração
sua quinta, e o corpo sua quarta.
Na musica instrumentalis,
estas mesmas proporções se tornam audíveis: os intervalos, as vozes e os modos
são reflexos visíveis e sonoros da estrutura invisível do mundo e do homem.
Por isso, quem entende a harmonia das cordas entende também a harmonia das
esferas e a harmonia da alma.
A música, portanto, é uma única
ciência sob três formas: divina, humana e física.
A divina é contemplação; a humana é proporção; a física é imitação.
E todas se unem na mesma lei do número, que é o princípio e a medida de todas
as coisas.
Por essa razão, dizia Pitágoras que o universo
inteiro é música, e que quem vive conforme o número vive em harmonia com o
cosmos.
Pois o número regula os sons, os movimentos e os tempos — e tudo o que é
ordenado segundo número participa da harmonia.
E, assim, o sábio reconhece que
a música não foi dada apenas para o deleite, mas para a purificação da alma e
para a contemplação da ordem divina.
Porque ouvir é participar do ritmo do mundo, e compreender o ritmo é
aproximar-se da verdade.
Finis Capitis Decimi /
Fim do Capítulo Décimo
col. 1208A — PL LXIV
LIBER SECUNDUS — Livro
Segundo
Caput XI — De ratione
Pythagorae in inventionibus consonantiarum
(Do método de Pitágoras na
descoberta das consonâncias)
col. 1208A–1211C
Conta-se que Pitágoras, desejando
investigar a natureza das consonâncias e verificar pelas causas racionais o que
até então se percebia apenas pelos ouvidos, afastou-se do juízo dos sentidos e
buscou um critério certo nas proporções.
Um dia, enquanto passava diante
das oficinas dos ferreiros, ouviu que os sons dos martelos, diversos entre si,
soavam com certa harmonia.
Maravilhado, aproximou-se e, examinando atentamente, notou que os sons não eram
agradáveis por acaso, mas porque entre as forças com que os martelos eram
manejados havia uma proporção determinada.
Observou que os martelos, de
pesos diferentes, produziam sons diferentes; e que a diferença do peso
correspondia à diferença da altura sonora.
Tomou, então, os martelos e pesou-os, encontrando que aqueles cujos pesos
estavam entre si em razão dupla produziam a oitava (diapason);
os que estavam em razão sesquialtera produziam a quinta (diapente); e os que estavam
em razão sesquitertia produziam a quarta
(diatessaron).
Desejando comprovar pela
experiência racional, suspendeu cordas de igual comprimento e espessura, mas
esticadas por pesos diferentes, correspondentes às razões encontradas nos
martelos.
E verificou que os sons reproduziam exatamente as mesmas consonâncias: a dupla
razão dava a oitava, a sesquialtera a quinta, e a sesquitertia a quarta.
Com isso, compreendeu que a
harmonia nasce das proporções numéricas e que o som, embora corpóreo, obedece
às leis do número incorpóreo.
Pois a diferença entre o grave e o agudo não está na matéria do som, mas na
medida do movimento.
Assim, o filósofo converteu a
observação sensível em ciência racional, e a música, de arte do ouvido,
tornou-se ciência do intelecto.
E porque o número é o princípio de toda proporção, Pitágoras concluiu que a
harmonia não é acidente do som, mas essência de todas as coisas.
Desde então, os seus discípulos
mediram todos os intervalos musicais segundo proporções de número:
o duplo (2:1) para a oitava,
o sesquialtero (3:2) para a quinta,
o sesquitércio (4:3) para a quarta,
e o epogdoico (9:8) para o tom.
E descobriram que entre a quarta
e a quinta há exatamente um tom,
porque a diferença entre as proporções 4:3 e 3:2 é a proporção 9:8.
Do mesmo modo, verificaram que a soma de cinco tons e dois semitons forma a
oitava inteira, e que todas as consonâncias se reduzem à proporção dupla.
Assim, Pitágoras foi o primeiro
a demonstrar, por razões matemáticas, o fundamento universal da música,
mostrando que o prazer do ouvido é apenas a sensação da ordem, e que a ordem,
em toda parte, é número.
Por isso, os antigos disseram
que a música é o eco sensível da aritmética, e que quem conhece as proporções
sonoras conhece também a estrutura invisível do mundo.
Pois as mesmas leis que regem o som regem o movimento dos astros, a pulsação do
coração e a alternância das estações.
Tudo o que vive vibra; e o vibrar é o número em ato.
Finis Capitis Undecimi
/ Fim do Capítulo Décimo Primeiro
col. 1211C — PL LXIV
LIBER SECUNDUS — Livro
Segundo
Caput XII — De
comparatione proportionum Pythagorae
(Da comparação das
proporções de Pitágoras)
col. 1211C–1214A
Depois de haver descoberto a
origem das consonâncias, Pitágoras
quis ainda verificar se o mesmo efeito se produzia de modo igual em diferentes
instrumentos e corpos, e assim confirmar que a causa não está na matéria, mas
na proporção.
Primeiro, tomou cordas de igual
comprimento e espessura, variando apenas a tensão com pesos diferentes,
conforme as proporções numéricas já conhecidas.
E observou que, ao dobrar o peso, o som subia uma oitava; que ao aumentá-lo em
razão sesquialtera, subia uma quinta; e que ao aumentá-lo em razão
sesquitertia, subia uma quarta.
Assim, a mesma lei se manteve, qualquer que fosse o instrumento ou a
substância.
Depois, aplicou o mesmo método
aos tubos
de igual diâmetro, mas de comprimentos diversos, e encontrou que as mesmas
proporções se repetiam de modo inverso:
porque o tubo mais longo, sendo duplo, produzia o som grave, e o mais curto,
sendo a metade, o agudo;
de modo que a razão que, nas cordas, eleva o tom, nos tubos o abaixa.
Daí concluiu que não é o corpo
sonoro que determina a altura, mas a relação entre suas dimensões e a medida do
movimento.
E compreendeu que o som é regido por uma razão universal que se mantém
constante em todas as formas.
Por fim, experimentou com pesos suspensos e corpos
percutidos, e verificou que também aí a proporção dos intervalos sonoros seguia
as mesmas leis.
Pois, quando dois corpos eram percutidos com forças cujas proporções eram
duplas, sesquialteras ou sesquitércias, os sons resultantes mantinham as mesmas
consonâncias que nas cordas e tubos.
Assim, demonstrou-se que a
harmonia não depende do instrumento, mas da proporção que nele se realiza.
A matéria apenas serve de veículo; a forma numérica é a causa do som e da sua
consonância.
E porque o número é incorpóreo
e eterno, também a harmonia é incorpórea e participa do eterno.
Por isso, dizia Pitágoras que, ainda que se destruíssem todos os instrumentos e
vozes, a harmonia subsistiria na razão divina, da qual procede todo número e
toda ordem.
Os discípulos de Pitágoras
conservaram essa doutrina, e a ampliaram pela observação dos astros e do corpo
humano.
Pois perceberam que os intervalos das esferas, medidos por seus movimentos,
correspondiam exatamente às proporções musicais.
E descobriram também que as pulsações do coração, os movimentos da respiração e
os ritmos do sono se ordenam segundo as mesmas razões.
Deste modo, uniram a música à
física e à teologia, afirmando que a proporção sonora é o elo entre o sensível
e o inteligível.
O som, diziam eles, é o número que vibra; e o número, o som que se cala.
Assim, Pitágoras não foi apenas
o inventor da música racional, mas também o primeiro a revelar que a beleza é a
expressão do número em movimento, e que a harmonia é a lei invisível pela qual
todas as coisas subsistem.
Finis Capitis Duodecimi
/ Fim do Capítulo Décimo Segundo
col. 1214A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus II — De
Musica libri quinque
Liber Secundus — Caput
XIV — De Musica Humana
(Da Música Humana)
col. 1216C–1218B
Depois de termos exposto a
música do mundo, convém agora tratar da música
humana, que é a harmonia entre a alma e o corpo, e o elo
invisível pelo qual o homem participa da ordem do universo.
A música humana é aquela
que, unindo elementos diversos, mantém a concordância do composto, de modo que
o corpo e a alma, ainda que distintos por natureza, conservam entre si uma
proporção regular.
Pois, se essa proporção se rompesse, o homem deixaria de existir — ou morreria,
se a desarmonia fosse total, ou adoeceria, se fosse parcial.
Com efeito, o corpo é movido por
qualidades contrárias: o quente e o frio, o seco e o úmido; e a alma, por
afetos diversos: o desejo e a aversão, a alegria e a tristeza.
Mas há uma medida pela qual esses contrários se equilibram, e essa medida é
musical.
Assim como na música o som grave
e o agudo se unem em proporção, de modo que, conservando a diferença, formam
consonância, também na constituição humana as potências diversas se unem em
harmonia.
Pois o calor vital não deve dominar excessivamente o frio, nem o úmido vencer o
seco; e a razão não deve ser vencida pelo desejo, nem a cólera pela tristeza.
Tudo se conserva, portanto, pela proporção que dá forma ao composto.
E é ainda pela mesma razão que
o homem participa da música mundana: porque o mesmo número que ordena o céu
ordena também o corpo.
As pulsações do coração, os movimentos da respiração e as alternâncias do sono
e da vigília se regulam segundo proporções constantes.
A alma racional, pela moderação dos afetos e pelo ritmo das virtudes, reproduz
interiormente o mesmo equilíbrio que o universo manifesta em sua ordem visível.
Por isso, os antigos filósofos
diziam que a verdadeira saúde é uma harmonia, e que a doença é uma dissonância.
Pois a natureza humana é como um instrumento bem afinado: enquanto as partes
conservam suas medidas, há vida e concordância; mas, se uma se exalta ou se
enfraquece, rompe-se a harmonia e o homem se corrompe.
Além disso, na união da alma e
do corpo há uma consonância invisível e espiritual, pela qual o incorpóreo rege
o corpóreo e o vivifica sem se confundir com ele.
E essa consonância é o fundamento da vida e da sensibilidade, assim como a
harmonia das proporções é o fundamento da beleza.
Por isso, quem conhece a música
humana compreende a natureza do homem: vê que a alma é a ordem do corpo, e que
o corpo é o eco da alma.
E entende também que a virtude nada mais é do que a justa modulação das
potências, segundo a lei da razão — como na música o ritmo e o tom se regulam
pela medida.
A música humana é, portanto, o
espelho do universo e a imagem da sabedoria divina: pois ela conserva, em
proporção sensível e viva, a mesma lei de número, peso e medida pela qual todas
as coisas subsistem.
Finis Capitis Quarti
Decimi / Fim do Capítulo Décimo Quarto
col. 1218B — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus II — De
Musica libri quinque
Liber Secundus — Caput
XV — De Musica Instrumentali
(Da Música Instrumental)
col. 1218B–1220C
Depois da música do mundo e da
música humana, resta tratar da terceira espécie, que é chamada instrumental, porque é
produzida por instrumentos corporais — seja pela voz, seja por cordas, sopros
ou percussões.
Esta música é, por assim dizer,
a sombra e a imagem sensível das outras duas.
Pois, como o mundo é regido por uma harmonia invisível e o homem é composto por
uma proporção vital, também os sons corporais, quando ordenados, imitam essas
proporções e manifestam exteriormente a ordem que os precede.
A música instrumental
nasce, portanto, do movimento dos corpos e do número em vibração.
As cordas, quando tensionadas em diversas proporções, produzem sons que
reproduzem as mesmas razões que a alma reconhece no universo.
Por isso, o ouvido se alegra, não porque recebe algo de fora, mas porque
reencontra dentro de si a medida do número.
E, de fato, nenhum som é
agradável por si mesmo, mas pela proporção que contém.
O som em si é apenas movimento do ar; mas, quando o movimento obedece a número
e tempo determinados, a alma reconhece nele o vestígio da ordem inteligível.
Assim, o músico não cria a harmonia — ele apenas a faz audível.
Há, porém, diversos gêneros de
música instrumental: o das cordas,
o dos sopros
e o das vozes.
O das cordas imita o movimento regular dos astros; o dos sopros representa o
sopro vital e a respiração do homem; e o das vozes reflete a razão e o verbo,
por meio dos quais o pensamento se torna som.
Por isso, os antigos davam à
música o lugar central entre as artes: porque ela une o sensível e o
espiritual, o corpo e a alma, o número e o som.
O que a geometria mostra pela figura, a aritmética pela quantidade e a
astronomia pelo movimento, a música mostra pelo ouvido — a proporção viva.
Assim, a música instrumental é
como um espelho animado do mundo e do homem:
ela repete, em vibrações e ritmos, as mesmas proporções pelas quais o universo
se move e o corpo vive.
E, por isso, quem a compreende verdadeiramente não ouve apenas sons, mas
contempla a ordem das coisas.
Os filósofos antigos advertiam
que a música, quando usada sem medida, perturba a alma; mas, quando ordenada, a
purifica.
Pois os mesmos ritmos que movem o corpo excitam também as paixões; e, se não
forem governados pela razão, tornam-se desordem.
Mas, quando a razão os dirige, devolvem ao espírito a harmonia perdida.
Assim, toda música instrumental
deve servir à música humana, e toda música humana à música mundana, para que o
homem, por meio da arte, retorne ao princípio do qual saiu.
Pois o fim da música não é o prazer, mas a contemplação da proporção divina.
Finis Capitis Quinti
Decimi / Fim do Capítulo Décimo Quinto
col. 1220C — PL LXIV
BLOCO III — MATHEMATICA
ET METAPHYSICA
Tractatus II — De
Musica libri quinque
Liber Secundus — Caput
XVI — De tribus generibus musicae et earum connexione
(Das três espécies de
música e de sua conexão)
col. 1220C–1222A
Tendo sido explicadas as três
espécies de música — a mundana,
a humana e
a instrumental
—, resta mostrar como todas elas se unem por um mesmo princípio e se ordenam
segundo uma só causa.
Pois, ainda que essas três
pareçam diversas, na verdade não são separadas, mas derivadas de uma única
fonte, assim como de uma só harmonia procedem várias consonâncias.
A música mundana é a forma
universal da ordem — aquela pela qual o movimento dos céus, o curso dos
elementos e o ritmo dos tempos se conservam em proporção constante.
A música humana
é a aplicação dessa ordem no microcosmo do homem, onde a alma e o corpo, o
intelecto e os afetos, conservam uma proporção análoga à do mundo.
A música instrumental,
por sua vez, é a imitação sensível dessas duas, tornando audível aquilo que
nelas é inteligível e invisível.
Mas todas procedem do mesmo
princípio, que é o número.
Pois o número é o vínculo e a causa de toda harmonia: sem número nada pode ser
ordenado, nem no céu, nem na terra, nem na alma.
O número regula o curso das estrelas, os movimentos dos corpos, o ritmo das vozes
e a sucessão dos pensamentos.
Ele é o mediador universal entre o ser e o movimento.
Assim, o número é para o mundo
o que a razão é para o homem, e o que o som é para a música.
O número invisível é a causa da harmonia do mundo; o número vital é a causa da
harmonia do homem; o número sonoro é a causa da harmonia dos instrumentos.
E, como todas essas ordens têm o mesmo fundamento, seguem também o mesmo fim: a
reconciliação da multiplicidade na unidade.
Por isso, quem compreende
verdadeiramente a música não apenas domina uma arte, mas contempla o princípio
do ser.
Pois a música é a ciência que une o sensível ao inteligível, e o homem ao
divino.
E o fim último da música é conduzir a alma à ordem eterna, fazendo-a amar, nas
coisas mutáveis, a proporção do imutável.
Aquele, pois, que souber
ordenar a música instrumental conforme a razão, e a humana conforme a virtude,
elevar-se-á à contemplação da música mundana — e, por meio dela, reconhecerá a
harmonia divina que tudo move e tudo sustém.
Assim, a música é uma tríplice
unidade:
uma no princípio, porque nasce do número;
tripla na manifestação, porque se reparte em três ordens;
e novamente una no fim, porque reconduz tudo ao mesmo Deus, que é o autor do
número, o criador da harmonia e o princípio de toda proporção.
Finis Capitis Sexti
Decimi / Fim do Capítulo Décimo Sexto
Finis Libri Secundi / Fim
do Segundo Livro
col. 1222A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus II — De
Musica libri quinque
Liber Tertius — Caput
I — De Modorum Natura et Usu
(Da natureza e do uso dos
modos)
col. 1222B–1225A
Depois de termos tratado da
natureza universal da música e de suas três espécies, devemos agora descer à
consideração particular dos modos
(modi), pelos
quais a harmonia se diversifica e o afeto da alma se move.
Os modos são, por assim
dizer, formas e disposições do canto, que se distinguem pela sucessão dos
intervalos e pela variedade das proporções.
Eles não alteram a essência da harmonia, mas lhe dão cor e movimento, assim
como o ritmo dá forma ao tempo.
A diferença dos modos provém da
diferença das proporções que os constituem.
Pois, se as proporções forem mais largas, o som será mais grave e pesado; se
forem mais estreitas, será mais agudo e leve.
Assim, a alma, que participa das mesmas proporções que o som, é movida de modo
diferente conforme as razões numéricas que percebe.
Os antigos gregos distinguiram
sete modos principais, que chamaram dorico,
phrygio, lydio, mixolydio, hypolydio, hypophrygio e hypodorico.
Cada um desses possui um caráter próprio, não por convenção, mas por natureza,
pois cada um é composto de proporções que produzem afetos diversos na alma.
O modo dórico é grave e
firme, apto para moderar o ânimo e fortalecer a virtude;
o frígio é
veemente e inflamado, próprio para excitar a coragem e o ardor;
o lídio é
doce e flexível, adequado à ternura e à suavidade;
o mixolídio
é triste e melancólico, e inclina a alma à compaixão;
os modos hipodóricos e
hipofrígios são medianos e temperados;
e o hipolídio
participa de ambos, unindo gravidade e doçura.
Por isso, os antigos
legisladores não desprezaram o poder moral da música, mas regularam
cuidadosamente o uso dos modos nas cidades.
Diz-se que Platão
expulsou de sua República os modos brandos e lascivos, admitindo apenas os
dóricos e frígios, porque mantêm a alma viril e ordenada.
E Aristóteles,
seguindo-o, ensinou que a música, pela imitação dos afetos, move o ânimo à
virtude, e que cada modo é como um modelo da disposição moral.
Deste modo, a música não é
apenas ciência especulativa, mas também prática e ética.
Pois, assim como o número ordena o som, o som ordena a alma.
E quem sabe ajustar os modos conhece os meios de conduzir o homem da paixão à
medida.
Assim, o estudo dos modos
pertence à filosofia moral tanto quanto à matemática, porque ensina a discernir
nas proporções sonoras as proporções da alma.
E quem compreende isso percebe que a verdadeira harmonia não está apenas nas
cordas, mas na vontade; e que o justo é o que, como um músico, modula as
potências da alma segundo a razão.
Por isso, a música é o
fundamento da educação: ela molda o caráter pela proporção antes mesmo que a
razão o governe.
A criança aprende pela melodia a amar a ordem, e o homem, pela harmonia, a
reconhecer o bem.
Finis Capitis Primi /
Fim do Primeiro Capítulo do Terceiro Livro
col. 1225A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus II — De Musica libri quinque
Liber Tertius — Caput II — De
Moderatione Modorum et Conversione Affectuum
(Da moderação dos modos e da
transformação dos afetos)
col.
1225A–1227C
Entre
os muitos poderes da música, nenhum é mais admirável do que este: o de mover
e transformar as disposições da alma segundo as proporções do
som.
Pois a alma, sendo de natureza harmônica, é afetada por qualquer consonância ou
dissonância que nela encontre correspondência.
Assim
como o corpo se comove por aquilo que o toca, a alma se comove pelo que lhe é
semelhante; e porque ela é composta por número e proporção, reage imediatamente
às proporções sonoras.
Daí vem que um modo grave e firme a pacifica, e um modo agudo e precipitado a
excita; um ritmo pausado a modera, e um ritmo rápido a inflama.
Os
antigos filósofos experimentaram isso com grande atenção.
Conta-se que Pitágoras, ao encontrar um jovem tomado
pela cólera, ordenou ao músico que tocava um modo frígio que mudasse para o
modo dórico; e o jovem, transformado pela mudança do som, voltou à serenidade.
Do mesmo modo, Damon e Aristóxeno
afirmaram que as paixões podem ser conduzidas à virtude pela variação dos modos
e dos ritmos.
O
modo
dórico era, portanto, usado para fortificar os ânimos e
corrigir os costumes;
o frígio,
para excitar o valor e a coragem;
o lídio,
para adoçar a severidade;
e o mixolídio,
para abrandar as dores e as tristezas.
Assim, cada modo tinha seu ofício, conforme a disposição que produzia na alma.
Por
isso, os antigos não separavam a música da moral, nem a consideravam mero
deleite dos ouvidos, mas disciplina das paixões.
Sabiam que o som é a imagem do movimento, e o movimento da alma é análogo ao
som: ambos são vibração e medida.
E, se a música é bem ordenada, ordena também o espírito; se é dissoluta,
dissolve os costumes.
É
por isso que nas repúblicas antigas não se permitia o uso desregrado dos modos.
Lacédemones
e Cretense,
por exemplo, conservavam modos severos e regulares, porque julgavam que os
hábitos da juventude se formam pelos sons.
Platão,
em suas Leis, declara que a corrupção da música precede a corrupção da cidade;
pois, quando os homens deixam de amar a medida no som, perdem-na também nos
costumes.
A
música, portanto, é o espelho da alma e o instrumento da educação moral.
Por meio dela, o homem aprende a moderar os movimentos interiores e a
reconduzir o desejo ao ritmo da razão.
Porque o ouvido é a via pela qual a harmonia penetra o coração, e o número, que
governa o universo, governa também o homem.
Assim,
quem domina a arte dos modos não apenas governa a melodia, mas também o próprio
ânimo.
E quem sabe ordenar a alma como uma lira, pela tensão e relaxamento das
potências, alcança a serenidade que é o fim da filosofia.
Finis Capitis Secundi / Fim do Segundo
Capítulo do Terceiro Livro
col.
1227C — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus II — De Musica libri quinque
Liber Tertius — Caput III — De
Temperamento Vocum et Concordia Ethica
(Do temperamento das vozes e da
concórdia ética)
col.
1227C–1230A
Assim
como nas cordas e nos sons deve haver um temperamento que
preserve a consonância e evite a aspereza, assim também nas ações e nos
costumes é necessário um equilíbrio que mantenha a harmonia da alma.
Pois o que na música se chama temperamentum vocum, na
ética se chama moderatio
virtutum.
Na
música, o temperamento é a justa medida entre o grave e o agudo, de modo que o
ouvido não se ofenda pela desigualdade dos sons.
Na vida moral, é a justa proporção entre o excesso e a falta, de modo que o
ânimo não se perca nem pela negligência nem pela paixão.
Ambos obedecem à mesma lei: a da proporção.
Assim
como o músico ajusta as cordas de modo que a tensão não as rompa nem a
frouxidão as torne mudas, também o sábio regula as potências da alma para que o
desejo não se converta em desordem nem a razão em rigidez.
O meio entre os extremos é o tom da virtude.
E
assim como as cordas devem ser afinadas segundo a diferença dos intervalos — a
oitava, a quinta e a quarta —, também as virtudes se dispõem segundo graus
diversos de perfeição, mas unidas em uma só harmonia.
A justiça é a consonância total, a temperança é a modulação interior, a
fortaleza é o ritmo firme, e a prudência é o ouvido que julga.
Portanto,
a ética e a música se unem por uma mesma arte: ambas ordenam o movimento pelo
número.
A alma virtuosa é como um instrumento perfeitamente afinado, em que cada
potência obedece à razão como a corda obedece ao músico.
Por
isso, a filosofia antiga não separava a educação moral da musical.
Os jovens aprendiam primeiro a música, para que o ouvido se acostumasse à
proporção e o coração à medida.
E, quando essa harmonia se firmava nos sentidos, era mais fácil que se firmasse
também na razão.
Porque
a música é o caminho natural da ordem, e a ordem é a imagem do bem.
Quem ouve sons bem compostos prepara-se para amar a moderação e aborrecer o
desregramento.
E quem compreende que a beleza dos acordes nasce da proporção, entende que o
bem moral é a harmonia do agir.
Assim,
a música serve de espelho à virtude e de introdução à sabedoria.
Pois o ouvido educado pela medida não se deleita no descomposto, e a alma que
ama o número não suporta o vício.
Ambas, unidas, fazem do homem uma consonância viva entre o corpo e o espírito,
entre o tempo e o eterno.
E,
do mesmo modo que a música termina no repouso da consonância perfeita, também a
filosofia termina na paz da alma — quando toda paixão se submete à razão e todo
movimento se resolve na unidade do bem.
Finis Capitis Tertii / Fim do Terceiro
Capítulo do Terceiro Livro
col.
1230A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus II — De Musica libri quinque
Liber Tertius — Caput IV — De Ratione
Harmoniae et Virtutis
(Da razão da harmonia e da virtude)
col.
1230A–1232B
Toda
virtude é uma harmonia da alma, e toda desordem é uma
dissonância.
Pois, assim como na música a consonância nasce da proporção entre sons
diversos, também na alma a virtude nasce da proporção entre as potências
diversas.
A
alma humana é composta de três partes: a racional, a irascível
e a concupiscível.
Quando cada uma delas permanece em seu próprio limite e se ordena sob a razão,
forma-se uma consonância; mas, quando uma delas excede ou se desvia, surge a
dissonância moral.
E essa dissonância é o vício.
A
prudência
é a afinação da razão;
a fortaleza,
o ritmo constante do ânimo;
a temperança,
o equilíbrio do desejo;
e a justiça,
a consonância perfeita de todas.
Assim
como o músico ajusta os sons graves e agudos pela medida, o homem prudente
ajusta os afetos e pensamentos pela reta razão.
Pois a harmonia é o acordo dos desiguais, e não a supressão das diferenças.
Do mesmo modo, a virtude não destrói as paixões, mas as ordena.
A
harmonia musical agrada porque imita a harmonia natural do ser;
e a virtude deleita porque reconcilia o homem com essa mesma ordem.
O ouvido reconhece, no som proporcionado, o vestígio da harmonia universal; o
coração reconhece, na ação justa, a proporção da alma com o bem.
Por
isso, a vida do sábio é uma música contínua, e sua alma é um instrumento
afinado pela razão.
Em cada movimento, ele conserva a proporção que o une à ordem divina.
E, assim como o músico percebe nas dissonâncias a ocasião do retorno à
consonância, também o sábio reconhece nas provações o caminho do equilíbrio.
O
som, enquanto dura, move-se no tempo; mas, quando alcança o repouso da
consonância, reflete a eternidade.
Assim também o homem virtuoso, enquanto vive entre as paixões, move-se no
tempo; mas, quando alcança a paz da alma, participa da eternidade.
Logo,
a virtude
é uma harmonia estável, e a música é uma virtude
móvel: ambas procedem do mesmo número, ambas conduzem à mesma
unidade.
A música ensina, pela audição, o que a filosofia mostra pela razão — que o bem
consiste em medida, e que o mal é desordem.
Por
isso, a alma do justo é afinada pelo número divino, e sua vida é como uma
consonância perfeita: nada nela é supérfluo, nada está em falta; tudo obedece a
proporção, e tudo termina na unidade.
Assim,
a música não é apenas uma arte, mas uma imagem da sabedoria.
Pois o mundo inteiro é uma sinfonia da vontade divina, e cada ser é uma nota no
grande acorde da criação.
E o homem virtuoso é aquele que, ouvindo essa harmonia, ajusta a si mesmo para
cantar em uníssono com Deus.
Finis Capitis Quarti / Fim do Quarto
Capítulo do Terceiro Livro
col.
1232B — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus II — De Musica libri quinque
Liber
Tertius — Caput V — De Musicae Officio in Philosophia et Moribus
(Do ofício da música na filosofia e nos
costumes)
col.
1232B–1235A
Convém
agora mostrar qual é o ofício da música entre
as disciplinas filosóficas e de que modo ela concorre para a formação dos
costumes.
Toda
filosofia divide-se em teórica e prática:
a teórica contempla a verdade;
a prática ordena a vida.
Ora, a música participa de ambas, pois contém o número — objeto da contemplação
— e regula o movimento — objeto da ação.
Na
parte teórica, a música ensina a conhecer a razão das proporções, os graus das
consonâncias e a ordem do número em movimento.
Ela faz ver, no sensível, a imagem do inteligível, e mostra que toda beleza
nasce da medida.
Assim, eleva o espírito da sensação à contemplação, e conduz o filósofo do som
ao número, e do número ao princípio.
Na
parte prática, a música disciplina os costumes e modera os afetos.
Pois, assim como o corpo se nutre de alimentos, a alma se nutre de sons.
E, se os sons forem ordenados, a alma se ordena com eles; se forem dissolutos,
a alma se corrompe.
Por isso, nenhuma ciência é mais necessária para formar os costumes do que
esta, que, por meio do deleite, ensina a amar a proporção.
Os
antigos sábios, compreendendo isso, colocaram a música entre as artes liberais,
como quarta entre as matemáticas.
Pois, depois da aritmética, que considera o número em si;
da geometria, que o considera na extensão;
e da astronomia, que o considera no movimento dos corpos celestes;
vem a música, que o considera no som.
E, porque o som é o movimento mais próximo da alma, a música é a mais humana
das ciências matemáticas.
Por
isso, dizia Pitágoras que ninguém pode ser filósofo sem
conhecer a música, porque quem ignora a proporção nos sons ignora também a
proporção nas coisas.
E Platão,
nas suas Leis, afirma que a música é o fundamento da educação, porque forma os
costumes antes que a razão amadureça.
Ela penetra onde o discurso não alcança e, com doçura, imprime na alma o amor
pela ordem.
Assim,
a música não é mero ornamento, mas instrumento da sabedoria.
Pois ensina a distinguir o ritmo da desordem, o belo do informe, o justo do
desmedido.
E, quando a alma se acostuma a essas distinções no som, torna-se apta a
reconhecê-las também na vida.
A
música é, portanto, o elo entre a razão e o sentido, entre a filosofia e o
costume.
Ela traduz em prazer o que a razão ensina em verdade.
E, por isso, é o primeiro degrau da ascensão filosófica: faz o homem amar a
medida, e, amando-a, preparar-se para compreender o número eterno que é Deus.
Finis Capitis Quinti / Fim do Quinto
Capítulo do Terceiro Livro
Finis
Libri Tertii / Fim do Terceiro Livro
col.
1235A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus II — De Musica libri quinque
Liber Quartus — Caput Primum — De
Modorum Usu in Ratione Morali
(Do uso dos modos na razão moral)
col.
1235B–1239C
Depois
de termos mostrado de que modo a música participa da filosofia e da formação
dos costumes, convém agora examinar o uso dos modos e como
eles servem à razão moral.
Os
modos, como já foi dito, têm poder sobre a alma, não somente pela natureza do som,
mas pela forma
do movimento que contêm.
Pois cada modo é uma disposição particular do número sonoro, e o número é
princípio de toda moderação e de toda desordem.
O
uso dos modos, portanto, deve ser conforme à disposição moral daquele que ouve
ou que executa.
Pois se alguém, ainda desordenado nas paixões, se habitua a modos lascivos e
dissolutos, confirma o vício em si;
mas se ouve modos graves e bem compostos, submete as potências à medida.
Daí
que os antigos sábios estabeleceram leis musicais não por gosto, mas por
prudência.
Entre os Lacedemônios,
o uso dos modos era regulado como o das armas:
ninguém podia tocar ou cantar sem ter aprendido a ordenar o som conforme a
virtude.
E, entre os Cretenses, a disciplina musical era
considerada fundamento da educação cívica, porque julgavam que, quem não ama a
harmonia nos sons, não poderá amá-la nos costumes.
A
razão moral, portanto, usa os modos como instrumentos de moderação.
O modo dórico fortalece a alma contra os excessos;
o frígio a inflama para o combate e a coragem;
o lídio a suaviza;
o mixolídio a consola;
e cada um, aplicado com prudência, restitui à alma sua proporção natural.
Mas,
quando usados fora da razão, os mesmos modos que curam também ferem.
O som, que poderia elevar o ânimo, arrasta-o à paixão;
o ritmo, que poderia ordenar o movimento, o precipita no desregramento.
Por isso, os filósofos advertiam que a música deve servir à razão, e não ao
corpo;
à virtude, e não ao deleite.
A
razão moral deve, pois, discernir a conveniência dos modos, assim como o médico
discerne a medida dos remédios.
Porque o mesmo som que cura um espírito pode perturbar outro.
E, do mesmo modo que há naturezas que pedem gravidade, há outras que pedem
suavidade;
mas em todas deve haver proporção, pois sem medida não há saúde.
A
harmonia exterior é, portanto, o reflexo da interior, e o uso correto dos modos
é uma ascese:
pela audição, a alma é conduzida da paixão à serenidade, da multiplicidade à
unidade.
E o músico verdadeiro é o filósofo que conhece o poder do número e o aplica
para o bem da alma.
Assim,
como a razão governa a vida, deve também governar o som.
E aquele que aprender a ajustar sua alma como uma lira bem afinada, encontrará
na música não um prazer, mas uma via para a sabedoria.
Finis Capitis Primi / Fim do Primeiro
Capítulo do Quarto Livro
col.
1239C — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus II — De Musica libri quinque
Liber Quartus — Caput II — De Virtutis
Modulatione et Musicae Imitatione
(Da modulação da virtude e da imitação
musical)
col.
1239C–1242B
A virtude,
assim como a música, consiste em uma modulação ordenada das
potências.
Pois o que a música faz com os sons, a virtude faz com as ações: ambas dão
forma à matéria pelo número.
Toda
modulação é movimento regulado, e toda virtude é moderação do movimento da alma.
Assim, o músico e o sábio trabalham sob o mesmo princípio — o da proporção.
O músico
compõe segundo o número, para que o ouvido se deleite na consonância;
o filósofo
vive segundo o número, para que o espírito se deleite na ordem.
Ambos, porém, se afastam da verdade se perdem a medida: o músico torna o som
confuso, o filósofo torna a alma viciosa.
Portanto,
a virtude
é uma harmonia viva: ela nasce quando cada potência da alma
conserva seu tom e ritmo próprios, sem invadir o espaço da outra.
A razão deve manter o governo, o desejo deve obedecer, a cólera deve servir, e
o corpo deve acompanhar como instrumento dócil.
Se um desses elementos se desvia, toda a composição se corrompe — como uma
corda que se rompe ou desafina.
Por
isso, a música é a mais perfeita imagem da moral:
o que a dissonância é para o ouvido, o vício é para a alma.
E, assim como o músico sente no som o erro da proporção, o sábio sente no ânimo
o erro da razão.
O
músico, quando ajusta a lira, não busca eliminar o som, mas ordená-lo;
do mesmo modo, o filósofo, ao ordenar as paixões, não as destrói, mas lhes dá
ritmo.
Pois não é a ausência de movimento que constitui a virtude, mas o movimento
justo.
E,
como há três gêneros de harmonia — grave, aguda e média —, assim há três modos
da vida virtuosa:
um que se inclina à contemplação (como o som agudo se eleva),
outro à ação (como o grave sustenta a base),
e um terceiro, médio, que une ambos, como o acorde perfeito.
Nesse meio consiste a vida temperada, que é o ideal da filosofia.
A
música
moral é, pois, a disciplina das proporções interiores.
E, como a harmonia sonora imita as proporções do mundo, a harmonia moral imita
as proporções da alma divina.
Por isso, a música não apenas imita a virtude, mas participa dela:
quem se deixa formar pela ordem do som, dispõe o espírito à ordem do bem.
A
modulação
da virtude é, portanto, a mais alta forma de música — aquela
que o ouvido não percebe, mas o coração reconhece.
Pois, quando a alma é ordenada em todas as suas partes, ela canta
interiormente, mesmo em silêncio, a harmonia do universo.
E o justo, mesmo calado, é como uma sinfonia viva.
Finis Capitis Secundi / Fim do Segundo
Capítulo do Quarto Livro
col.
1242B — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus II — De Musica libri quinque
Liber Quartus — Caput III — De Concordia
Rationis et Passionis
(Da concórdia entre a razão e a paixão)
col.
1242B–1245A
Depois
de mostrar que a virtude é uma modulação da alma, convém agora tratar da concórdia
entre a razão e a paixão, sem a qual não pode haver nem
harmonia moral nem música interior.
Com
efeito, a alma humana é dividida entre o que entende e o que sente:
a razão, que conhece;
e a paixão, que move.
Se estas duas potências não se unem em proporção, o homem vive em dissonância
consigo mesmo.
A
razão é como o tom fundamental, imóvel e puro;
a paixão, como o som móvel, que tende a subir ou descer.
Quando ambas se ajustam segundo medida, forma-se a consonância moral — a
harmonia do agir.
Pois
a virtude não consiste em anular as paixões, mas em ajustá-las à razão.
A cólera, quando moderada, é instrumento da justiça;
o desejo, quando ordenado, é força de amor;
o temor, quando guiado pela prudência, é preservação da integridade.
Assim como o músico não destrói as dissonâncias, mas as resolve, também o sábio
não reprime os afetos, mas os integra.
O
desregramento das paixões é como um canto desafinado: cada voz procura
prevalecer sobre as outras, e o resultado é ruído.
Mas, quando a razão assume o governo, as paixões tornam-se vozes subordinadas,
e o conjunto produz beleza.
A alma justa é, portanto, uma polifonia perfeita: razão, vontade e sentimento
cantam sob um único compasso.
Por
isso, os antigos chamaram a prudência de directrix musica, a regente
da sinfonia interior.
Ela distribui os movimentos conforme o tempo e o tom, dá ritmo à ação e sentido
ao repouso.
Sem ela, as virtudes perdem o nexo e o homem se perde na confusão de seus
impulsos.
A
concórdia entre razão e paixão é também a imagem da união entre o céu e a terra.
Pois o que o céu é para o mundo, a razão é para o homem: o princípio que move
sem ser movido, que governa sem ser governado.
E o que a terra é para o mundo, a paixão é para o homem: o elemento fecundo
que, quando ordenado, gera vida; quando desordenado, destrói.
Portanto,
a música
da alma é a arte de reconciliar o superior e o inferior.
Quando a razão rege e a paixão obedece, o homem torna-se harmonia viva;
quando a paixão domina e a razão cede, o homem se torna ruído.
Essa
concórdia não é, porém, estática, mas dinâmica, como o movimento dos sons que,
mesmo diferentes, formam unidade.
A virtude é esse movimento ordenado, esse ritmo contínuo pelo qual o múltiplo
se reconcilia no uno.
Assim,
o homem sábio é como o músico divino que afina a si mesmo todos os dias.
E, quando o som da razão e o da paixão se unem em perfeita medida, nasce o
verdadeiro silêncio interior — o silêncio harmônico, onde nada se opõe e tudo
ressoa em Deus.
Finis Capitis Tertii / Fim do Terceiro
Capítulo do Quarto Livro
col.
1245A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus II — De Musica libri quinque
Liber Quartus — Caput IV — De Ordine
Musico in Vita Philosophica
(Da ordem musical na vida filosófica)
col.
1245A–1248C
A
música, como foi dito, é o reflexo da ordem que rege todas as coisas.
Mas a vida do filósofo é o espelho dessa mesma ordem, transposta da harmonia
dos sons à harmonia das ações.
Por isso, o filósofo deve viver de modo musical: nada em excesso, nada fora do
compasso, nada sem proporção.
A
música sensível imita o número no movimento; a filosofia imita o número no
juízo.
Assim como na melodia há um tempo oportuno para cada nota, também na vida há um
tempo oportuno para cada ação.
Quem age antes do tempo, desafina; quem retarda, descompõe; quem excede, perde
o ritmo da razão.
O
verdadeiro músico conhece o valor do silêncio tanto quanto o do som.
Do mesmo modo, o verdadeiro sábio conhece o valor do recolhimento tanto quanto
o da palavra.
Pois o silêncio é o repouso da alma em sua própria harmonia — o intervalo entre
dois movimentos, onde se reconhece o princípio.
A
música regula o movimento do ar; a filosofia regula o movimento da alma.
Uma se ouve; a outra se vive.
Mas ambas nascem do mesmo princípio: o número que tudo ordena.
O som e a razão são diferentes modos de manifestação desse número, assim como a
luz e o calor são modos de manifestação do fogo.
Por
isso, a vida filosófica é o exercício da música interior.
O sábio afina suas virtudes como o músico afina suas cordas: corrige as
tensões, busca a justa medida, conserva a consonância.
E assim como a harmonia dos sons se dirige ao ouvido, a harmonia das ações se
dirige à inteligência divina, que é o ouvido do mundo.
Nada
há, portanto, mais contrário à filosofia do que a desproporção.
O vício é uma dissonância; o erro, uma nota fora do tom; a desordem, um ruído.
Mas a alma justa canta, ainda que em silêncio, o hino da criação, porque se
tornou parte da sinfonia universal.
A
música exterior, por sua beleza, desperta o amor pela ordem;
a filosofia, por sua sabedoria, o confirma e o eleva.
E quando o homem, pela razão, alcança viver conforme essa ordem, torna-se ele
mesmo instrumento da harmonia divina.
Então,
tudo nele se torna canto: o pensamento, porque é luz;
a vontade, porque é amor;
a ação, porque é ritmo;
e o repouso, porque é consonância.
Assim,
o fim da filosofia é o mesmo da música: reconduzir a multiplicidade à unidade,
e ensinar que todo o bem consiste em proporção,
toda virtude em medida,
toda sabedoria em consonância.
Finis Capitis Quarti / Fim do Quarto
Capítulo do Quarto Livro
Finis
Libri Quarti / Fim do Quarto Livro
col.
1248C — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus II — De Musica libri quinque
Liber Quintus — De Musica Divina
(Da música divina)
col.
1248C–1255B
Tendo
sido tratadas as formas inferiores da música — a mundana,
a humana
e a instrumental
—, resta agora elevar o olhar àquela que é o princípio e o fim de todas: a música
divina.
Pois
tudo o que é ordenado, seja no som, seja no número, seja na alma, participa de
uma harmonia superior que o excede.
E essa harmonia é a razão eterna de Deus, pela qual todas as coisas foram
criadas, movidas e conservadas em proporção.
Deus
é o músico supremo: Ele compôs o universo como uma melodia perfeita, onde cada
ser é uma nota e cada ordem, um acorde.
Nada existe fora de seu ritmo; até o silêncio do nada é o intervalo entre dois
atos de sua vontade.
Assim
como na música humana a unidade das proporções se manifesta nos diversos sons,
também na música divina a unidade do Verbo se manifesta na diversidade das
criaturas.
Pois o Verbo é o número vivo, a proporção subsistente, a harmonia que é
princípio e fim de todas as harmonias.
A
alma, criada à imagem de Deus, participa dessa música eterna.
E quando se purifica das dissonâncias do corpo e das paixões, torna-se capaz de
ouvir interiormente a melodia divina que tudo move.
A contemplação é essa audição pura: a escuta do ritmo eterno do Ser.
Os
santos, quando em êxtase, ouviram essa música, não com os ouvidos, mas com o
espírito.
Pois Deus não fala por palavras, mas por consonâncias; e o som da sua voz é o
acordo entre o finito e o infinito.
A alma que o percebe entra em repouso, porque o movimento da sua vontade
coincide com o da vontade divina.
Toda
a criação canta: os céus em seu movimento circular;
os anjos, em suas ordens hierárquicas;
o homem, na união da inteligência e da virtude.
E esse canto universal é o louvor da harmonia eterna, que é Deus mesmo.
A
música divina, portanto, não é composta de sons, mas de razões.
Cada criatura é uma expressão dessa harmonia invisível; cada lei da natureza,
um compasso de sua ordem.
E assim como a melodia não subsiste fora do ritmo, o mundo não subsiste fora da
razão de Deus.
O
verdadeiro sábio, que compreende isso, torna-se afinado à vontade divina: sua
vida é uma consonância, seu pensamento um eco da inteligência primeira.
Nada nele é fortuito; tudo responde ao tom do universo.
A
música divina é o repouso das proporções — a perfeita unificação do múltiplo no
Uno.
É a harmonia que não se move porque tudo move; é o silêncio pleno de som; a paz
que contém o ritmo de todos os tempos.
Por
isso, quem atinge o conhecimento dessa música transcende a ciência dos números
e entra na sabedoria do Verbo.
Pois o número, no tempo, é o reflexo do número eterno;
a harmonia dos sons, a sombra da harmonia divina.
Assim,
o homem que vive em proporção imita o Criador;
o músico justo torna-se profeta;
e o filósofo que compreende o número na ordem do ser participa da inteligência
divina.
Tudo
o que é belo, justo e verdadeiro é parte dessa música eterna, e quem a escuta
com o espírito entende que a vida não é outra coisa senão o canto de Deus
refletido no tempo.
Finis Libri Quinti / Fim do Quinto Livro
Finis
Tractatus Secundi — De Musica libri quinque
col.
1255B — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus
III — De Unitate et Uno
(Sobre a Unidade e o Uno)
ÍNDICE
BILÍNGUE
(Elenchus Capitvm)
col. 1255C–1256B
- Prooemium — De ratione unitatis et consideratione numeri.
Prólogo — Da razão da unidade e da consideração do número. - Caput I — Quod unitas principium numeri sit, et prius omni
multitudine.
Capítulo I — Que a unidade é o princípio do número e anterior a toda multiplicidade. - Caput II — De ordine secundarum unitatum, et de progressu
numerorum.
Capítulo II — Da ordem das unidades secundárias e do progresso dos números. - Caput III — Quomodo ab uno procedat multiplex, et quomodo unum
maneat idem.
Capítulo III — De como o múltiplo procede do uno e como o uno permanece o mesmo. - Caput IV — De participatione unius in omnibus rebus.
Capítulo IV — Da participação do uno em todas as coisas. - Caput V — De differentia unius divini et unius numeralis.
Capítulo V — Da diferença entre o uno divino e o uno numérico. - Caput VI — Quod unitas Dei non est quantitatis, sed substantiae.
Capítulo VI — Que a unidade de Deus não é de quantidade, mas de substância. - Caput VII — De ordine
universi et reductio omnium ad unum.
Capítulo VII — Da ordem do universo e da redução de todas as coisas ao uno.
PROOEMIUM —
De ratione unitatis et consideratione numeri
(Do sentido da unidade e da consideração do número)
col. 1256C–1258A
Entre todas as investigações humanas, nenhuma é
mais elevada do que aquela que procura conhecer a razão da unidade.
Pois a unidade é a origem e o termo de todas as coisas: dela procede o número,
e por ela se reconduz à ordem o múltiplo.
Tudo o que é inteligível participa, de algum modo,
da unidade; e nada pode subsistir na natureza se estiver totalmente privado
dela.
A unidade é, pois, o vínculo da substância e a medida do ser: o que é uno, é; o
que é dividido, tende à dissolução.
Por isso, o conhecimento da unidade é o princípio
de toda ciência.
A aritmética investiga os números; a geometria, as grandezas; a música, as
proporções; a astronomia, os movimentos — mas todas essas ciências supõem a
unidade como fundamento.
Se a unidade fosse retirada, nada restaria que pudesse ser contado, medido ou
ordenado.
A filosofia, portanto, que busca as causas
supremas, deve começar por esta: o uno.
Pois, assim como os números nascem da unidade, as coisas nascem do ser uno.
E assim como os números se conservam pela igualdade das proporções, as coisas
se conservam pela unidade de suas formas.
A alma humana, quando contempla o número, eleva-se
do sensível ao inteligível; mas, quando contempla a unidade, eleva-se acima de
todo inteligível, pois atinge o princípio que é antes do número.
O número mede o que é; a unidade mede o ser mesmo.
Por isso, Deus é chamado o Uno, não porque seja contado entre os entes, mas
porque é a fonte de toda contagem e de todo ente.
Assim como o sol não pertence às coisas iluminadas,
mas é sua causa, também o Uno não pertence ao número, mas o produz.
Ele é o princípio sem medida, que dá medida a todas as coisas.
E assim como, do ponto indivisível, nasce a extensão; assim, do Uno, nasce a
multiplicidade dos seres.
Quem, pois, compreender a natureza da unidade,
compreenderá o vínculo oculto que une todas as coisas.
E quem conhecer esse vínculo, compreenderá o mistério da ordem universal.
Pois o universo inteiro é uma multiplicidade reconciliada pela unidade, e uma unidade
manifestada na multiplicidade.
Finis Prooemii / Fim do Prólogo
col. 1258A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus III — De Unitate et Uno
Caput I — Quod unitas principium numeri
sit, et prius omni multitudine
(Que a unidade é o princípio do número e
anterior a toda multiplicidade)
col.
1073–1076 — PL LXIV
A
unidade é aquilo pelo qual cada coisa se diz ser uma.
Pois, quer seja simples, quer composta, espiritual ou corporal, toda coisa é
uma pela unidade, e não pode ser uma senão por ela — assim como não pode ser
branca senão pela brancura, nem grande senão pela quantidade.
Não
apenas é uma pela unidade, mas também subsiste enquanto nela permanece a
unidade.
Quando deixa de ser uma, deixa de ser o que é.
Daí procede o princípio: tudo o que é, é porque é uno.
Com
efeito, todo ser, nas coisas criadas, é pela forma; mas não há ser pela forma a
não ser quando a forma se une à matéria.
O ser não existe senão na conjunção da forma com a matéria.
Por isso os filósofos a definiram assim: “Ser é a existência da forma na
matéria.”
Ora,
quando a forma se une à matéria, da conjunção de ambas nasce necessariamente
algo uno.
E essa unidade não permanece senão enquanto a unidade mantém juntas a forma e a
matéria.
A destruição da coisa é, portanto, a separação da forma e da matéria; e, sendo
separação e união contrárias, se a separação destrói, a unidade conserva.
Santo
Agostinho, no segundo livro De Ordine Rerum, escreve:
“A
pedra, para ser pedra, teve todas as suas partes unidas em um só conjunto.
E a árvore, acaso existiria se não fosse una?
E os membros e vísceras de qualquer animal, ou o que quer que o componha — se
perdem a unidade, deixam de ser animal.”
Todas
as coisas, portanto, tendem a ser uma.
São Bernardo, no livro Ad Eugenium Secundum,
afirma:
“Onde
há unidade, há perfeição.”
Os números restantes não têm perfeição, mas divisão, pois se afastam da
unidade.
Assim,
nada existe senão pela unidade; e tudo o que se divide, perece.
Logo, assim como pela unidade as coisas vêm ao ser, pela unidade também são
conservadas.
Ser e ser uno acompanham-se inseparavelmente e parecem nascer juntos pela
natureza.
Pois,
como o Criador é um só, concedeu às criaturas este dom: que cada uma fosse
também una.
Por isso, desde que uma coisa tem ser, tem também unidade; e o movimento de
todas as substâncias é em direção ao uno e por causa do uno.
Nada do que é deseja o ser em si, mas o ser uno — porque não pode ter ser senão
na unidade.
A
unidade é, pois, aquilo que une todas as coisas e mantém coesas todas as que
são difusas.
A matéria não possui ser senão pela união com a forma, e a forma não se une à
matéria senão pela unidade; portanto, a matéria carece de unidade para unir-se,
e pela natureza de sua composição tende à unidade.
Finis Capitis Primi / Fim do Primeiro
Capítulo
col.
1076 — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus III — De Unitate et Uno
Caput II — De ordine secundarum
unitatum, et de progressu numerorum
(Da ordem das unidades secundárias e do
progresso dos números)
col.
1076–1078 — PL LXIV
A
unidade é, em si, simples, imutável e separada de toda contrariedade e divisão.
Mas quando participa das coisas criadas, adquire diversos modos segundo a
natureza da matéria que a recebe.
Nas
substâncias mais sutis, como nas inteligências e nos corpos celestes, a unidade
é inseparável da matéria; por isso tais seres carecem de fim, pois são
perpétuos.
Nas substâncias mais densas, porém, a unidade é fraca e debilitada, não podendo
igualar-se à forma, e, por isso, sua essência se dissolve.
A corrupção das coisas vem, assim, da debilidade da unidade que as sustenta.
Quanto
mais próxima uma unidade está da primeira e verdadeira Unidade, tanto mais
simples e una é a substância que por ela é informada.
E, inversamente, quanto mais distante está da Unidade primeira, tanto mais
composta e múltipla se torna.
Assim, a unidade que conduz à existência as substâncias inteligíveis é mais
simples, mais una e menos sujeita à divisão;
se nela há alguma divisibilidade, é apenas acidental, não essencial.
Essa
unidade é, portanto, mais pura do que todas as que produzem as demais
substâncias, porque adere imediatamente à Unidade primeira que a criou.
Mas, como a unidade que subsiste na matéria da inteligência é unidade de
simplicidade, a que subsiste na matéria da alma, estando abaixo dela, já cresce
e se multiplica; nela há mutação e diversidade.
Descendo gradualmente, a cada grau a unidade torna-se mais múltipla e composta,
até chegar à matéria que sustenta a quantidade — isto é, à substância corporal.
Essa,
porque está mais distante da Unidade primeira, torna-se espessa, grosseira e
oposta, por sua densidade, à natureza das substâncias superiores, que são sutis
e simples.
O fim, portanto, dista muito do princípio, porque o fim é o termo e a deficiência
da virtude do princípio.
E assim, na descida da unidade do superior ao inferior, há degeneração, ou
seja, enfraquecimento de simplicidade e de virtude.
Tal
é o caso da água, que, em sua nascente, é sutil e clara, mas, descendo pelos
vales e pântanos, torna-se turva e espessa.
Assim também a unidade se varia conforme a variedade da matéria que a sustenta.
Há,
portanto, algo de material espiritual e algo de material corporal:
— aquilo que é puro e luminoso;
— e aquilo que é espesso e obscuro.
A
pureza ou obscuridade da unidade, em cada ser, depende do grau de proximidade
em relação à Unidade primeira.
Nas partes do fogo, por exemplo, a unidade é simples e igual, de modo que a
forma parece una, sem diversidade em si.
Nas partes do ar e da água, porém, há mais diversidade e separação, de modo que
as unidades podem ser discernidas.
Nos corpos duros e densos, há ainda maior obscuridade e dispersão da unidade.
Por
isso, cada coisa material recebe a unidade conforme sua disposição:
quanto mais apta é a matéria, mais digna é a unidade que nela reside.
Assim, quanto mais pura é a forma, mais perfeitamente comunica a unidade ao
sujeito;
quanto mais grosseira, menos participa da unidade, e mais se aproxima da
dissolução.
Finis Capitis Secundi / Fim do Segundo
Capítulo
col.
1078 — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus III — De Unitate et Uno
Caput III — Quomodo ab uno procedat
multiplex, et quomodo unum maneat idem
(De como o múltiplo procede do uno e
como o uno permanece o mesmo)
col.
1078–1081 — PL LXIV
É
próprio da natureza do Uno que dele proceda o múltiplo, sem que por isso se
divida, nem perca sua unidade.
Pois, assim como a luz, saindo do sol, enche o ar sem que o sol se esvazie,
assim o Uno comunica o ser às coisas sem deixar de ser inteiro em si mesmo.
O
Uno é fonte e causa do número, mas não é número.
Ele é o princípio de toda quantidade, mas não participa da quantidade;
pois aquilo que é princípio de algo não pertence àquilo que dele procede.
Da
unidade, portanto, nascem as pluralidades; e quanto mais uma coisa se afasta da
unidade, mais fraca se torna sua natureza e mais sujeita à divisão.
Mas o Uno, de que tudo procede, não se multiplica nem se reparte; permanece o
mesmo, inteiro em tudo o que comunica.
O
fogo ilumina muitas lâmpadas e não se divide;
a palavra, proferida, é ouvida por muitos e não se perde;
assim também o Uno gera o múltiplo sem perder sua indivisibilidade.
E
é necessário que assim seja, porque se o Uno se dividisse, deixaria de ser
princípio.
Toda divisão pertence à ordem das coisas criadas, não ao Criador.
A unidade primeira é, pois, indivisível, imutável e permanente; a
multiplicidade é móvel, mutável e passageira.
A
emanação do múltiplo não diminui o Uno, mas o manifesta.
O múltiplo é como a irradiação da unidade, e o mundo é o reflexo do Uno.
Tudo o que existe é um espelho onde a unidade se reflete em graus diversos.
Nas substâncias espirituais, o reflexo é claro; nas corporais, turvo; mas em todas
há algo da unidade primeira, sem o qual nada existiria.
Assim
como no número, a unidade, multiplicada, continua a mesma — pois dez unidades
não são outra coisa senão unidade repetida —, também nas coisas o ser é uma só
unidade participada em muitos modos.
E assim como, retirando-se a unidade, o número perece, retirando-se o Uno, o
ser cessa.
O
Uno, portanto, é presente em todas as coisas, não por composição, mas por
participação.
Ele é o mesmo em todas, mas não igualmente recebido:
nas inteligências, como forma;
nas almas, como vida;
nos corpos, como medida e ordem.
E
assim como o mesmo sol ilumina os céus, a terra e as águas, e, contudo, em cada
um é recebido de modo diferente — nas estrelas com fulgor, nas pedras com
brilho, nas plantas com calor —, assim também o Uno, sendo o mesmo, comunica-se
a cada natureza segundo sua disposição.
O
Uno é, portanto, o princípio e o fim: de sua plenitude procedem todas as
coisas, e para ele todas retornam.
Ele é o centro imóvel do círculo universal, do qual partem todas as linhas do
ser e para o qual todas convergem.
Nada está fora dele, porque nada existe senão por ele.
O
múltiplo, portanto, não é contrário ao Uno, mas sua manifestação;
a diversidade não o limita, mas o exprime.
Pois a unidade se mostra tanto mais poderosa quanto mais múltiplo é o que dela
procede sem que ela se altere.
Assim,
o Uno é a causa do ser, e o múltiplo é o modo de sua difusão.
E assim como o som nasce do silêncio, mas o silêncio não se corrompe, o mundo
nasce do Uno, mas o Uno permanece idêntico, imóvel, eterno.
Finis Capitis Tertii / Fim do Terceiro
Capítulo
col.
1081 — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus III — De Unitate et Uno
Caput IV — De participatione unius in
omnibus rebus
(Da participação do uno em todas as
coisas)
col.
1081–1085 — PL LXIV
A
unidade, embora seja em si mesma simples e indivisível, participa de todas as
coisas e, de certo modo, se multiplica nelas — não por divisão, mas por
comunicação.
Pois aquilo que é, é uno; e aquilo que é uno, é enquanto participa da unidade.
Nenhum ser existe que não possua, em alguma medida, a unidade — porque o ser
sem unidade é o nada.
Toda
coisa é, portanto, uno segundo o modo de sua substância.
Nas substâncias eternas, a unidade é forma; nas espirituais, é vida; nas
racionais, é razão; nas corporais, é medida.
Em cada uma, a unidade aparece sob outro aspecto, mas sempre é a mesma em
essência, diversa apenas segundo a recepção.
Assim
como a luz do sol, sendo uma, ilumina de modo diverso os corpos — uns mais
claros, outros menos —, assim também o Uno comunica-se de maneira desigual às
coisas.
Nas inteligências, brilha plenamente; nas almas, parcialmente; nos corpos, obscuramente.
Mas mesmo nas coisas mais baixas há alguma participação do Uno, pois se não
houvesse, não existiriam.
A
unidade é, pois, o selo divino impresso em toda criatura.
Nas substâncias simples, é sem mistura; nas compostas, é por composição.
Mas seja qual for o modo, é por ela que todas as coisas subsistem e permanecem
coesas.
E
porque a unidade está presente em tudo, todas as coisas são ordenadas e se
harmonizam, ainda que diferentemente.
A natureza, por conseguinte, é o Uno diversificado; e a diversidade é o Uno
expandido.
Nada existe que não seja uno em algum sentido — quer pela substância, quer pela
forma, quer pelo número, quer pela finalidade.
Por
isso, mesmo as coisas corruptíveis, enquanto permanecem no ser, mantêm sua
unidade; e quando a perdem, perecem.
A corrupção não é outra coisa senão a fuga da unidade, e a geração é o retorno
a ela.
Assim, a unidade é a causa de toda permanência, e a multiplicidade, de toda
dissolução.
O
Uno está, pois, em tudo e acima de tudo:
— em tudo, como causa de ser;
— acima de tudo, como causa de unidade.
Ele é no ser das coisas o que o princípio é no número: presente em cada uma,
mas idêntico apenas a si mesmo.
Quem
compreende esta participação, compreende a harmonia universal: pois as coisas
diferem entre si não por afastamento do Uno, mas por diversidade de
participação nele.
A variedade do mundo é, portanto, uma imagem da riqueza da Unidade, que não se
empobrece ao comunicar-se, mas se exprime em infinitos modos sem perder sua
simplicidade.
Assim,
todas as coisas estão no Uno e o Uno está em todas as coisas;
não porque Ele se misture às criaturas, mas porque as criaturas existem apenas
enquanto estão Nele.
E por isso, o Uno é o vínculo de toda ordem, o fundamento de toda forma e a paz
de toda multiplicidade.
Finis Capitis Quarti / Fim do Quarto
Capítulo
col.
1085 — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus III — De Unitate et Uno
Caput V — De differentia unius divini et
unius numeralis
(Da diferença entre o uno divino e o uno
numérico)
col.
1085–1089 — PL LXIV
O
Uno divino é princípio de toda unidade, mas não é ele próprio uma unidade
numérica.
Pois o uno numérico está compreendido na categoria da quantidade, e, portanto,
é algo que pode ser contado; o Uno divino, porém, é antes de todo número,
e dele provém a possibilidade de contar.
O
uno numérico é limitado, porque se mede pela adição de outro uno; o Uno divino
é ilimitado, porque nada lhe pode ser adicionado.
O uno numérico existe no tempo e no espaço; o Uno divino é fora de ambos,
porque é medida do tempo e do espaço.
A
unidade numérica se encontra nas coisas criadas, mas participa apenas da sombra
da unidade verdadeira;
a unidade divina é a própria substância da simplicidade.
Ela não é parte, nem todo, nem gênero, nem espécie, mas o fundamento de tudo o
que pode ser um.
Toda
unidade que se encontra nas criaturas é acidental e participada;
a unidade de Deus é essencial e absoluta.
A unidade criada é recebida; a divina é a que dá o ser à unidade recebida.
Aquela se encontra na ordem do efeito; esta, na ordem da causa.
O
uno numérico, multiplicado, cresce; o Uno divino, multiplicando, permanece
idêntico.
Pois aquilo que é número torna-se maior quando adicionado a outro, mas o Uno
divino não se multiplica —
tudo o que dele procede é ele mesmo sem deixar de ser o que é.
O
uno numérico é compreendido pela mente; o Uno divino é incompreensível.
O primeiro é objeto de cálculo; o segundo, de contemplação.
O primeiro é finito em ato; o segundo é infinito em ser.
A
unidade numérica é imagem da unidade divina;
e assim como a sombra segue o corpo, assim a unidade dos números segue a do Uno
divino.
A primeira se altera, a segunda é imóvel; a primeira se mede, a segunda mede; a
primeira recebe forma, a segunda dá forma.
Logo,
a diferença é esta:
o uno numérico participa; o Uno divino comunica;
o uno numérico é causado; o Uno divino é causa;
o uno numérico está no ser; o Uno divino é o Ser.
O
uno numérico, portanto, é símbolo e vestígio; o Uno divino é a realidade e o
princípio.
O primeiro mostra o caminho da ordem; o segundo é a própria ordem eterna.
E
assim, quem compreende esta diferença aprende a distinguir o modo da criatura e
o modo do Criador.
Pois, nas criaturas, a unidade é medida; em Deus, é medida de todas as medidas.
Nas criaturas, a unidade se divide; em Deus, tudo se une.
E o número, que nas coisas é sinal de multiplicidade, em Deus é símbolo da
plenitude do ser.
Finis Capitis Quinti / Fim do Quinto
Capítulo
col.
1089 — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus III — De Unitate et Uno
Caput VI — Quod unitas Dei non est
quantitatis, sed substantiae
(Que a unidade de Deus não é de
quantidade, mas de substância)
col.
1089–1093 — PL LXIV
A
unidade de Deus não é quantidade, mas substância.
Pois, se fosse quantidade, dependeria da adição e do número; e Deus seria,
então, medido por algo fora dele, o que é impossível.
A
quantidade pertence às coisas corpóreas, e toda quantidade implica extensão;
Deus, porém, é incorpóreo, e o ser incorpóreo não tem extensão, mas
simplicidade.
Logo, a unidade divina não pode ser quantitativa, mas deve ser substancial.
A
substância divina é simples, e por isso é una.
E porque é una, é indivisível; porque é indivisível, é eterna; porque é eterna,
é imutável.
Tudo o que é múltiplo muda, e tudo o que muda deixa de ser o mesmo;
mas o Uno divino é sempre o mesmo, porque é substância sem partes e sem
acidentes.
Nos
seres criados, a unidade é algo adicionado à substância:
eles são um por
algo, não em
algo.
Mas em Deus, o ser e o uno não se distinguem;
Ele é uno porque
é e é porque é uno.
Sua unidade é o próprio ser de sua essência.
Por
isso, quando dizemos que Deus é uno, não afirmamos um número, mas negamos a
multiplicidade.
Pois, nas criaturas, o uno se opõe ao múltiplo, mas em Deus não há oposição:
Ele é o Uno no qual o múltiplo não tem lugar.
A
unidade criada é medida, porque está em potência e pode dividir-se;
a unidade divina é medida de todas as coisas, porque é ato puro e indiviso.
Nada pode ser acrescentado a ela, nem retirado; ela é perfeita em si e fonte de
toda perfeição.
Assim,
a unidade de Deus não é como a do número, que aumenta por adição e se altera
por divisão;
nem como a do corpo, que se mede por dimensões;
mas é como a da luz, que se comunica a todos os lugares e permanece inteira em
si mesma.
Deus
é, portanto, uno, não porque seja limitado, mas porque é infinito.
Ele é uno, não porque exclua, mas porque contém.
Ele é uno, não por oposição ao múltiplo, mas porque é o princípio pelo qual o
múltiplo existe.
Se,
pois, o uno criado é parte da quantidade, o Uno divino é o ser da substância.
O primeiro está em número; o segundo, acima de todo número.
O primeiro é o que se mede; o segundo é o que mede.
E
assim, a unidade divina é essencial, porque é o próprio ser;
não é somada, mas simples;
não é contada, mas eterna;
não é recebida, mas doadora.
Por
isso, quando a mente humana se eleva à consideração da unidade divina,
abandona os modos da quantidade e entra na região do ser puro.
Ali não há partes, nem medidas, nem sucessão, mas plenitude indivisa e presença
total.
Essa é a unidade que é Deus — não número, mas essência;
não quantidade, mas substância;
não conceito, mas realidade eterna.
Finis Capitis Sexti / Fim do Sexto
Capítulo
col.
1093 — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus III — De Unitate et Uno
Caput VII — De ordine universi et
reductio omnium ad unum
(Da ordem do universo e da redução de
todas as coisas ao Uno)
col.
1093–1098 — PL LXIV
Tudo
o que é, permanece e subsiste enquanto é uno.
A unidade é, pois, o fundamento do ser e o princípio da permanência.
Nada pode subsistir no ser se não conservar a unidade que o constitui.
Por isso, toda destruição é dissolução da unidade; e toda geração, sua
restituição.
A
ordem do universo é, portanto, o encadeamento das coisas na unidade.
Tudo procede do Uno e tudo tende ao Uno.
A multiplicidade, que parece afastar-se, na verdade se ordena por graus de
participação.
Cada coisa, ao seu modo, busca a unidade: as pedras, pela coesão; as plantas,
pelo crescimento; os animais, pelo instinto; os homens, pela razão; os anjos,
pela contemplação.
Assim,
o movimento universal é uma conversão do múltiplo ao Uno.
A alma racional o sente em si quando, dispersa nos sentidos, recolhe-se à
mente; e, recolhendo-se à mente, ascende à causa da mente, que é o Uno.
E assim como a unidade sustenta o ser de cada coisa, o Uno sustenta o ser do
universo.
A
multiplicidade das coisas não é senão a difusão da bondade do Uno;
e o retorno delas, a restauração dessa bondade à sua fonte.
O ciclo de todas as naturezas é, pois, duplo: uma processão e um retorno.
Na processão, o Uno se comunica às coisas; no retorno, as coisas se comunicam
ao Uno.
Quando
uma substância perde a unidade, cai na corrupção;
mas quando volta a unificar-se, renasce em ordem mais alta.
Por isso, os sábios dizem que a virtude é união, e o vício, divisão;
a verdade, unidade da mente; o erro, dispersão da alma.
O
universo é belo porque é uno na variedade:
há nele uma harmonia secreta que reconcilia as partes e as ordens.
O fogo e a terra, o leve e o pesado, o móvel e o imóvel, se unem em uma
proporção universal, cujo vínculo é a unidade divina.
Nada há em vão, porque tudo é número e proporção — e toda proporção é unidade
em relação.
Assim,
o Uno é o princípio, o meio e o fim:
— princípio, porque dele procede o ser;
— meio, porque nele tudo se conserva;
— fim, porque a ele tudo retorna.
E
como o círculo volta ao ponto de onde partiu, assim todo o ser criado tende a
regressar ao Uno.
Quem compreende isso entende a ordem das coisas e a razão de toda beleza,
porque a beleza é a unidade manifestada.
Logo,
a sabedoria consiste em reconduzir à unidade o que se dispersou.
E quando o intelecto se eleva acima de toda divisão e contempla o Uno sem
forma, atinge o termo de todo conhecimento e o repouso de toda busca.
Finis Tractatus / Fim do Tratado
col.
1098 — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus IV
— De Rhetorica Cognatione
(Sobre a afinidade entre a Retórica e a Dialética)
col. 1333–1335 — PL LXIV
ÍNDICE
BILÍNGUE (Elenchus Capitvm)
- Prooemium — De communi origine Dialecticae et Rhetoricae.
Prólogo — Da origem comum da Dialética e da Retórica. - Caput I — De finibus utriusque artis, et earum distinctione.
Capítulo I — Dos fins de ambas as artes e de sua distinção. - Caput II — De materia Dialecticae et Rhetoricae.
Capítulo II — Da matéria própria da Dialética e da Retórica. - Caput III — De officiis utriusque, et de modo argumentandi.
Capítulo III — Dos ofícios de cada uma e do modo de argumentar. - Caput IV — De comparatione argumentorum dialecticorum et
rhetoricorum.
Capítulo IV — Da comparação entre os argumentos dialéticos e os retóricos. - Caput V — De
perfectione utriusque artis, et earum subordinatione ad philosophiam.
Capítulo V — Da perfeição de ambas as artes e de sua subordinação à filosofia.
PROOEMIUM —
De communi origine Dialecticae et Rhetoricae
(Do vínculo comum entre a Dialética e a Retórica)
col. 1333C–1335B — PL LXIV
A Dialética e a Retórica são filhas de uma mesma
mãe: a razão.
Ambas nasceram do desejo de conduzir o espírito humano à verdade — a primeira
pela via da demonstração, a segunda pela via da persuasão.
A diferença entre elas não é de natureza, mas de função.
A Dialética procura o assentimento do intelecto; a Retórica, o consentimento da
vontade.
Assim como a luz e o calor procedem do mesmo sol,
também a Dialética e a Retórica procedem do mesmo princípio racional.
A primeira ilumina; a segunda move.
E assim como a luz não é contrária ao calor, mas sua companheira, também a
Dialética não se opõe à Retórica, mas a completa.
A Dialética ensina a distinguir o verdadeiro do
falso; a Retórica ensina a mover os ânimos ao verdadeiro.
Por isso, ambas têm uma única intenção: fazer prevalecer a verdade sobre a
opinião.
A Dialética combate a falsidade pela demonstração; a Retórica, pela eloquência.
Os antigos não as separavam.
Aristóteles, ao ordenar as ciências do discurso, colocou-as lado a lado,
dizendo que a Retórica é uma espécie de Dialética aplicada às coisas humanas.
E Cícero, que mais do que ninguém uniu filosofia e palavra, declarou que o
orador perfeito deve ser também filósofo.
A Dialética sem Retórica é fria e infecunda; a
Retórica sem Dialética é vã e perigosa.
Quando ambas se unem, formam a arte perfeita do discurso: uma dá a força do
raciocínio, a outra a graça da expressão.
Por isso, o sábio não despreza nem o silogismo nem o ornamento, pois ambos
servem à verdade.
A verdadeira eloquência nasce, pois, da sabedoria.
Quem ignora o que é verdadeiro, não pode persuadir com justiça; e quem não sabe
persuadir, raramente move o espírito à verdade.
A palavra é o instrumento da razão; e a razão, o princípio da palavra.
Logo, Dialética e Retórica são duas potências de uma mesma alma — a alma
racional.
Finis Prooemii / Fim do Prólogo
col. 1335B — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus IV — De Rhetorica Cognatione
Caput I — De finibus utriusque artis, et
earum distinctione
(Dos fins de ambas as artes e de sua
distinção)
col.
1335C–1339A — PL LXIV
O
fim da Dialética é a descoberta da verdade;
o fim da Retórica é a persuasão do auditório.
Mas ambas têm uma mesma origem, porque nenhuma persuasão é legítima se não
procede da verdade, e nenhuma verdade é plenamente eficaz se não move o ânimo a
aceitá-la.
A
Dialética considera as coisas em si mesmas; a Retórica, as mesmas coisas em
relação aos homens.
Aquela opera pela necessidade do raciocínio; esta, pela inclinação do
sentimento.
Por isso, o dialético busca a demonstração; o retórico, a credibilidade.
Ambos, porém, são ministros da razão: o primeiro, no campo da ciência; o segundo,
no campo da ação.
Na
Dialética, o discurso é ordenado pela força dos argumentos;
na Retórica, pela disposição das paixões.
O dialético ensina; o retórico persuade.
O primeiro fala para o intelecto; o segundo, para a vontade.
Mas como o homem é composto de ambos — de razão e de desejo —, nenhuma das duas
artes basta sozinha à perfeição do discurso.
A
Dialética investiga o verdadeiro; a Retórica, o verossímil.
Mas o verossímil não é o contrário do verdadeiro, e sim sua sombra refletida
nas coisas humanas.
Pois, sendo as ações humanas contingentes e sujeitas a mudança, nelas não cabe
a demonstração, mas apenas a persuasão.
Logo, a Retórica é a imagem da Dialética aplicada à vida.
Por
isso, Aristóteles definiu a Retórica como a faculdade de discernir, em cada
caso, o que é capaz de persuadir.
E Cícero disse que o orador é aquele que fala com sabedoria e move com
eloquência.
Ambos, pois, reconheceram que a palavra deve ser instrumento da razão, e não
arma da paixão.
O
dialético convence pela necessidade das conclusões; o retórico, pela ordem e
decoro do discurso.
Ambos se servem dos mesmos elementos — do argumento, da inferência, da
conclusão —, mas de modo diverso:
a Dialética os dispõe para o juízo da verdade;
a Retórica, para o movimento da alma.
A
Dialética é como a geometria da mente;
a Retórica, sua harmonia.
Uma mede as proporções do pensamento; a outra, compõe o som da palavra.
A primeira busca a clareza; a segunda, a graça.
Mas, em ambas, a ordem é a mesma: princípio, meio e fim.
Assim,
a diferença não está no que dizem, mas em como dizem.
O dialético demonstra com rigor; o retórico com beleza.
A Dialética fala a poucos, os sábios; a Retórica, a muitos, os cidadãos.
Mas se o orador ignora o que o filósofo ensina, sua eloquência é vã;
e se o filósofo despreza o poder da palavra, sua verdade permanece estéril.
Logo,
a distinção é de ofício, não de essência:
a Dialética julga, a Retórica move;
a Dialética examina as causas, a Retórica governa os efeitos;
a Dialética termina no entendimento, a Retórica começa no mesmo entendimento
para descer à vontade.
E
por isso ambas pertencem à arte racional, e ambas servem à filosofia:
a primeira como caminho do saber, a segunda como caminho da ação.
A Dialética conduz à contemplação da verdade;
a Retórica conduz à sua difusão no mundo humano.
E assim, uma prepara a alma para o conhecimento; a outra, para o governo.
Finis Capitis Primi / Fim do Primeiro
Capítulo
col.
1339A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus IV — De Rhetorica Cognatione
Caput II — De materia Dialecticae et
Rhetoricae
(Da matéria própria da Dialética e da
Retórica)
col.
1339B–1343A — PL LXIV
A
matéria da Dialética é o que pode ser discutido segundo a razão universal;
a matéria da Retórica é o que pode ser tratado segundo a conveniência
particular.
Ambas se ocupam das mesmas coisas, mas sob perspectivas diversas:
a Dialética considera o que é por necessidade;
a Retórica, o que é por probabilidade.
Assim
como a geometria se detém nas formas imutáveis e a arquitetura nas formas
aplicadas à matéria,
assim a Dialética contempla os princípios absolutos e a Retórica os adapta às
circunstâncias humanas.
A Dialética se dirige à inteligência pura; a Retórica, à razão encarnada no
tempo.
Por
isso, a Dialética opera por silogismos; a Retórica, por entimemas.
O silogismo exige demonstração perfeita; o entimema contenta-se com o provável.
O primeiro nasce da certeza do princípio; o segundo, da verossimilhança do argumento.
Mas ambos procedem da mesma razão — pois o provável é o verdadeiro diminuído
pela contingência.
A
Dialética fala em juízos; a Retórica, em deliberações.
Na Dialética, discute-se o que é; na Retórica, o que convém.
Por isso, uma pertence ao domínio da ciência, a outra ao da prudência.
Mas ambas pertencem ao mesmo gênero do discurso racional, porque ambas têm por
fim o logos — uma para discernir, a outra para ordenar.
A
Dialética tem por matéria o universal, porque versa sobre proposições
necessárias, que não mudam segundo o lugar nem o tempo.
A Retórica tem por matéria o particular, porque trata das coisas mutáveis,
sujeitas às paixões e às leis dos homens.
O universal é o alimento da mente; o particular, o da vida.
E assim como a alma tem parte racional e parte apetitiva, também o discurso tem
Dialética e Retórica.
Mas
ainda que a matéria seja diversa, o método é semelhante.
Ambas dividem, definem, comparam, concluem;
ambas observam a ordem do discurso — princípio, meio e fim;
ambas buscam mover pela clareza e pela coerência.
O que distingue uma da outra é o grau de rigor, não a natureza do raciocínio.
A
Dialética investiga as causas; a Retórica, os efeitos.
Mas, como não há efeito sem causa, a Retórica participa da Dialética;
e, como não há causa que não tenda a algum fim humano, a Dialética participa da
Retórica.
Assim, a razão se manifesta duplamente: na especulação e na prática, na ciência
e na palavra.
Os
antigos sábios ensinaram que o filósofo deve ser dialético no pensamento e
retórico no ensino.
Pois o pensamento que não se comunica é como luz escondida, e a palavra sem
razão é como som vazio.
A Dialética, sem a Retórica, permanece no silêncio da mente;
a Retórica, sem a Dialética, desce ao tumulto das multidões.
Mas unidas, elas formam o discurso perfeito, que pensa e move, que conhece e
governa.
Finis Capitis Secundi / Fim do Segundo
Capítulo
col.
1343A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus IV — De Rhetorica Cognatione
Caput III — De officiis utriusque, et de
modo argumentandi
(Dos ofícios de cada uma e do modo de
argumentar)
col.
1343B–1347A — PL LXIV
O
ofício da Dialética é discernir o verdadeiro do falso;
o ofício da Retórica é tornar o verdadeiro amável e o justo
persuasivo.
Ambas exercem, portanto, um mesmo poder sob formas diversas:
a Dialética julga; a Retórica move.
Mas, como não há verdadeiro que não deva ser amado, nem justo que não deva ser
aceito, uma prepara o juízo e a outra o sentimento.
A
Dialética é arte do raciocínio; a Retórica, arte do dizer.
Mas o dizer, para ser perfeito, deve proceder do raciocínio;
e o raciocínio, para ser eficaz, deve expressar-se em palavra.
Assim, a alma do discurso é a Dialética; seu corpo, a Retórica.
O
modo de argumentar é, em ambas, análogo:
ambas se fundam no locus, na propositio
e na conclusio.
Mas o dialético busca a necessidade; o retórico, a verossimilhança.
A Dialética quer convencer pela força da evidência; a Retórica, pela ordem e
pelo decoro.
O
dialético argumenta para refutar; o retórico, para persuadir.
Um vence o erro; o outro conquista o ânimo.
Mas ambos obedecem às mesmas leis da razão, porque a persuasão não é senão o
movimento da verdade na vontade.
Os
argumentos da Dialética são silogísticos; os da Retórica, entimemáticos.
Mas o entimema é uma forma breve de silogismo, e o silogismo é a forma completa
do entimema.
Logo, ambas se fundam na mesma arte de inferir, ainda que a Dialética o faça
com rigor e a Retórica com brevidade.
Os
loci
de ambas são também comuns.
A Dialética extrai deles as definições e divisões; a Retórica, os exemplos e as
figuras.
Pois onde a Dialética demonstra pela causa, a Retórica ilustra pela imagem.
E, assim, o que é abstraído no intelecto pelo raciocínio é manifestado à
imaginação pela palavra.
O
dialético fala ao sábio; o retórico, ao cidadão.
Mas o homem sábio, quando fala, deve falar humanamente;
e o cidadão, quando ouve, deve ser conduzido à razão.
Por isso, as duas artes não se excluem, mas se completam.
O
modo de argumentar difere quanto à forma, não quanto ao princípio.
A Dialética usa o método analítico: do universal ao particular;
a Retórica, o método sintético: do particular ao universal.
Mas o fim é o mesmo: conduzir à verdade.
Ambas
exigem ordem, distinção e medida.
O discurso desordenado é vicioso, ainda que verdadeiro;
assim como a melodia sem compasso é ruído, ainda que sonora.
Por isso, o orador deve ordenar seu discurso como o dialético ordena seu
raciocínio:
com começo claro, meio forte e fim necessário.
Logo,
a diferença dos ofícios é de grau, não de essência.
A Dialética é a razão pura; a Retórica é a razão viva.
A Dialética examina o que é; a Retórica, o que deve ser.
E ambas obedecem ao mesmo Logos, que é a forma de toda verdade e o vínculo de
toda palavra.
Finis Capitis Tertii / Fim do Terceiro
Capítulo
col.
1347A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus IV — De Rhetorica Cognatione
Caput IV — De comparatione argumentorum
dialecticorum et rhetoricorum
(Da comparação entre os argumentos
dialéticos e os retóricos)
col.
1347B–1351A — PL LXIV
Os
argumentos dialéticos e os retóricos procedem de uma mesma raiz, mas diferem em
força e em modo.
Ambos têm por fim conduzir ao assentimento;
mas a Dialética o exige pela necessidade do intelecto,
a Retórica o alcança pela inclinação do afeto.
O
argumento dialético é o que demonstra;
o retórico é o que persuade.
O primeiro convence pela evidência; o segundo, pela credibilidade.
A Dialética obriga o espírito; a Retórica o inclina.
E, no entanto, ambos partem do mesmo princípio: o logos, que é razão
ordenadora.
O
argumento dialético é mais próximo da ciência;
o retórico, da prudência.
Pois o primeiro trata de verdades necessárias,
enquanto o segundo lida com verossimilhanças e opiniões prováveis.
Mas, como a vida humana se move entre o certo e o incerto,
a Retórica é a Dialética aplicada ao domínio do contingente.
Assim
como o médico não busca demonstrar o que é saúde,
mas conduzir o doente à saúde,
também o orador não busca definir a justiça,
mas mover o homem a amá-la e praticá-la.
Logo, o argumento retórico é prático,
e o dialético, especulativo.
Contudo,
o retórico deve conhecer os princípios da Dialética,
porque só persuade com justiça quem raciocina com verdade.
E o dialético deve conhecer os meios da Retórica,
porque só convence plenamente quem sabe mover.
A razão e a eloquência são, pois, as duas asas do mesmo espírito.
O
argumento dialético é construído pela necessidade das premissas;
o retórico, pela conveniência das circunstâncias.
Mas ambos requerem proporção entre o que se afirma e o que se pretende
demonstrar.
O primeiro busca o assentimento inevitável;
o segundo, o assentimento voluntário.
O primeiro vence pela força da prova;
o segundo, pela harmonia entre o discurso e a alma do ouvinte.
Por
isso, o argumento retórico deve conter três virtudes:
— verdade,
para não enganar;
— clareza,
para ser entendido;
— doçura,
para ser aceito.
E estas três dependem das mesmas leis que regem a Dialética:
a ordem, a proporção e a conveniência.
A
diferença está, portanto, no grau de evidência.
O dialético mostra o que é; o retórico torna amável o que é.
O primeiro busca a demonstração necessária;
o segundo, a persuasão conveniente.
Mas ambos têm por meta a conformidade da alma com a razão —
uma pelo intelecto, outra pelo coração.
Assim,
como a luz e o calor são inseparáveis,
também o raciocínio e a persuasão não devem ser divididos.
Pois a verdade que não persuade é estéril,
e a persuasão que não é verdadeira é corrupção.
Por
isso, o verdadeiro orador é também dialético;
e o verdadeiro dialético, quando fala bem, é orador.
Um raciocina com ordem; o outro fala com proporção.
E ambos obedecem ao mesmo princípio:
que o logos não é apenas som, mas forma do pensamento,
e que toda palavra justa é espelho da razão eterna.
Finis Capitis Quarti / Fim do Quarto
Capítulo
col.
1351A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus IV — De Rhetorica Cognatione
Caput V — De perfectione utriusque
artis, et earum subordinatione ad philosophiam
(Da perfeição de ambas as artes e de sua
subordinação à Filosofia)
col.
1351B–1355B — PL LXIV
A
perfeição de toda arte consiste em seu retorno à causa pela qual existe.
Ora, a causa tanto da Dialética quanto da Retórica é a Filosofia,
pois ambas nasceram do desejo de compreender e manifestar a verdade.
A
Dialética busca a verdade no interior do intelecto;
a Retórica, sua difusão no convívio dos homens.
A Filosofia é, portanto, o princípio e o fim de ambas:
o princípio, porque lhes dá o objeto — o verdadeiro;
o fim, porque ordena o uso que delas se deve fazer — o bem.
Assim,
a Dialética é o instrumento da Filosofia na ordem especulativa,
e a Retórica, seu instrumento na ordem prática.
A primeira corrige o juízo; a segunda forma os costumes.
Uma purifica o pensamento; a outra, as palavras.
Mas ambas servem ao mesmo senhor: a Sabedoria.
A
Dialética é perfeita quando conduz o intelecto à contemplação do ser;
a Retórica, quando conduz o homem à ação conforme a razão.
Ambas, quando separadas da Filosofia, perdem o fim e degeneram:
a Dialética se torna sofística; a Retórica, demagógica.
Mas unidas à Filosofia, tornam-se o duplo brilho da verdade — luz e voz da
mesma inteligência.
A
Filosofia é como o sol:
a Dialética é sua luz, que revela;
a Retórica é seu calor, que vivifica.
A primeira torna claro o verdadeiro; a segunda o faz amado.
E assim, o saber que não move é estéril, e o discurso que não ilumina é vão.
O
filósofo fala com autoridade porque une ambas as forças.
Ele pensa com rigor e fala com graça;
não busca vencer os homens, mas instruí-los;
não seduz, mas convence.
Sua palavra é o eco da razão e o reflexo do bem.
O
orador perfeito é, portanto, filósofo;
e o filósofo perfeito, orador.
Não no sentido vulgar da eloquência, mas no sentido divino,
em que o Logos é o Verbo da Verdade.
Pois a palavra humana é imagem da Palavra eterna,
e a arte do discurso é vestígio da sabedoria criadora.
Logo,
ambas as artes se ordenam à Filosofia como os membros ao corpo,
como os raios ao sol,
como as notas à harmonia.
Sem ela, são partes dispersas;
com ela, formam a sinfonia do pensamento.
A
Filosofia é, pois, o coro universal da razão;
a Dialética, seu compasso;
a Retórica, seu tom.
E como toda melodia retorna ao uníssono,
também toda ciência retorna à Filosofia,
e toda palavra ao Verbo,
no qual o conhecer e o dizer são um só ato.
Finis Capitis Quinti / Fim do Quinto
Capítulo
Finis
Tractatus Quarti — De Rhetorica Cognatione
col.
1355B — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus V
— Locorum Rhetoricorum Distinctio
(Distinção dos Lugares Retóricos)
col. 1356–1370 — PL LXIV
ÍNDICE
BILÍNGUE (Elenchus Locorum Rhetoricorum)
- Prooemium — De natura locorum et eorum usu.
Prólogo — Da natureza dos lugares e de seu uso. - Caput I — De locis ex personis.
Capítulo I — Dos lugares que procedem das pessoas. - Caput II — De locis ex rebus.
Capítulo II — Dos lugares que procedem das coisas. - Caput III — De locis ex accidentibus.
Capítulo III — Dos lugares que procedem dos acidentes. - Caput IV — De locis communibus.
Capítulo IV — Dos lugares comuns. - Caput V — De locis propriis.
Capítulo V — Dos lugares próprios. - Caput VI — De usu locorum in arte oratoria.
Capítulo VI — Do uso dos lugares na arte oratória.
PROOEMIUM —
De natura locorum et eorum usu
(Da natureza dos lugares e de seu uso)
col. 1356C–1358A — PL LXIV
Os antigos chamaram loci — lugares — às
fontes do argumento.
Assim como o corpo tem membros e o discurso tem partes, o raciocínio tem
lugares de onde se extraem as provas.
São eles os campos da razão, os depósitos do discurso e os princípios da
invenção.
Pois, assim como o geômetra parte de axiomas e o
músico de consonâncias,
também o orador e o dialético partem dos loci, que são os pontos fixos
da razão prática.
Quem ignora os lugares não pode inventar nem ordenar os argumentos;
pois a invenção é a busca dos lugares convenientes, e a disposição, sua devida
colocação.
Os loci são, pois, o princípio do falar
racional.
A Dialética os usa para investigar; a Retórica, para persuadir.
Ambas neles se fundam, embora de modo diverso:
a Dialética os trata como princípios universais de inferência;
a Retórica, como fontes de credibilidade nas coisas humanas.
Toda arte do discurso começa por saber onde
buscar.
E como o corpo se move a partir de um ponto,
assim o discurso se move a partir do lugar do argumento.
Por isso, o locus é o ponto de partida da persuasão,
assim como o princípio é o início da demonstração.
Há tantos lugares quanto são as relações do ser:
das pessoas, das coisas, dos acidentes, do tempo, do lugar e da finalidade.
E como em toda causa há algo que move e algo que é movido,
assim nos loci há o que dá razão e o que recebe forma racional.
Logo, quem deseja falar com sabedoria deve primeiro
conhecer os lugares,
pois neles se encontram, como em sementes, as razões de todos os discursos.
Sem os loci, o discurso é disperso; com eles, é orgânico e vivo.
Finis Prooemii / Fim do Prólogo
col. 1358A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus V — Locorum Rhetoricorum
Distinctio
Caput I — De locis ex personis
(Dos lugares que procedem das pessoas)
col.
1358B–1360A — PL LXIV
Entre
os lugares de onde o orador colhe argumentos, os que se referem às pessoas
ocupam o primeiro lugar, porque toda ação é de alguém, e a força da persuasão
nasce do caráter daquele que fala ou é falado.
As
pessoas, consideradas como fontes de argumentos, possuem múltiplas propriedades:
nome, natureza, pátria, condição, idade, fortuna, virtude, vício, dignidade,
ofício, intenção.
Cada uma destas fornece matéria ao discurso, ora para louvor, ora para censura,
ora para aconselhamento.
O
nome
é princípio de identidade; dele se derivam etimologias, alusões e exemplos.
O orador pode demonstrar, por meio do nome, a congruência entre o ser e o agir.
Assim, entre os antigos, o nome de Cato evocava prudência, e o
de Fabricius,
integridade.
A
natureza
refere-se ao temperamento e à disposição natural.
Dela nascem os argumentos que provêm do gênio, da inclinação e das qualidades
do ânimo.
É lugar frequente mostrar que certas ações derivam da índole e não do acaso.
A
pátria
fornece argumentos de honra e pertença, pois o costume e a lei moldam o cidadão.
Assim, o orador mostra a influência da cidade sobre os costumes e o caráter
sobre as leis.
A
condição
diz respeito à posição social — se livre ou servo, nobre ou plebeu.
Desse lugar nascem os argumentos da conveniência ou da impossibilidade:
o que é digno de um príncipe pode ser indigno de um soldado;
o que convém a um magistrado pode ser impróprio a um amigo.
A
idade
distingue a prudência da impetuosidade.
Do jovem se espera vigor; do velho, conselho.
O orador usa esse lugar para justificar atos por meio do tempo da vida.
A
fortuna
oferece argumentos de estado e mudança.
Da prosperidade, tira-se exemplo de poder; da adversidade, de constância.
Assim, os discursos de consolo e os de esperança tomam seu vigor desse lugar.
A
virtude
e o vício
são os mais fecundos entre os lugares pessoais,
porque toda persuasão moral repousa na aprovação do bem e na reprovação do mal.
Louva-se o que manifesta virtude; censura-se o que revela vício.
E, para cada ação, busca-se a causa na disposição moral da pessoa.
A
dignidade
e o ofício
produzem argumentos de autoridade,
pois a palavra do sábio pesa mais que a do ignorante,
e o exemplo de um magistrado move mais que o de um cidadão comum.
Mas é necessário que o orador use tal autoridade com medida,
para que não pareça arrogância o que é exemplo.
Por
fim, a intenção
é o mais profundo dos lugares pessoais,
porque julga o interior do ato e manifesta a sinceridade ou o engano.
Muitos erros se disfarçam sob boas palavras,
mas o orador prudente sabe distinguir o propósito do disfarce.
Assim,
dos lugares das pessoas nascem quase todas as formas de discurso moral e
político,
porque toda ação é humana, e toda humanidade é pessoal.
E como o ser da pessoa é princípio da ação,
o conhecimento desses lugares é o princípio da persuasão.
Finis Capitis Primi / Fim do Primeiro Capítulo
col.
1360A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus V — Locorum Rhetoricorum
Distinctio
Caput II — De locis ex rebus
(Dos lugares que procedem das coisas)
col.
1360B–1363A — PL LXIV
Entre
os lugares que o orador deve conhecer, nenhum é mais útil nem mais amplo que o
das coisas.
Pois as ações humanas, que são o objeto da Retórica, não existem sem as coisas
que as produzem,
nem podem ser julgadas sem a consideração de suas causas e efeitos.
As
coisas se consideram sob diversas relações: causa,
efeito,
parte,
todo,
contrário,
semelhante,
diferença,
comparação,
nome,
definição
e divisão.
Cada uma dessas relações contém o germe de múltiplos argumentos.
A
causa
é o primeiro e mais nobre dos lugares.
Dela procede o argumento que mostra o porquê de uma ação.
Divide-se em quatro: eficiente, material, formal e final.
O orador observa se a causa é justa, conveniente e suficiente,
pois não basta que algo tenha origem, é preciso que sua origem seja digna.
O
efeito
é o sinal da causa.
Da causa boa procede efeito bom; da má, efeito perverso.
Mas como às vezes a causa é oculta, o efeito serve de testemunho.
Por isso, diz-se que pelos frutos se conhece a árvore —
e, assim, o efeito é o espelho da causa no mundo sensível.
A
parte
e o todo
fornecem argumentos de inclusão e proporção.
Do todo se infere a parte, e da parte se prova o todo,
desde que entre ambos haja relação legítima.
Assim, quem louva a cidade, louva o cidadão;
quem condena o exército, reprova o comandante.
Mas é prudente distinguir o universal do particular,
para que não se cometa injustiça por confusão de extensão.
O
contrário
é lugar fecundo, pois tudo o que é definido, é definido pelo seu oposto.
O orador usa esse lugar para evidenciar o absurdo de um raciocínio ou o vício
de um costume.
Assim, o vício se mostra pela privação da virtude, e a luz pela ausência de
trevas.
O
semelhante
é o lugar da analogia.
Por ele se convence o entendimento, pois o espírito apreende com mais
facilidade o que é apresentado por comparação.
Os exemplos, as parábolas e as similitudes pertencem a este gênero.
E como a natureza humana aprende mais pelo exemplo do que pela abstração,
a analogia é o instrumento mais dócil da persuasão.
A
diferença
é o lugar do discernimento.
Por ela se separam as essências e se evitam confusões.
O orador que distingue bem é o que julga com justiça,
pois toda confusão nasce da ignorância da diferença.
A
comparação
abrange tanto o semelhante quanto o diverso.
Serve para mostrar o mais e o menos, o melhor e o pior, o maior e o menor.
É o lugar do juízo moral e político,
porque toda decisão requer avaliar o que é mais justo, mais útil, mais belo ou
mais verdadeiro.
O
nome
é também um lugar das coisas, pois contém a noção de sua forma.
Muitos argumentos nascem da análise do nome, não em modo de superstição, mas de
razão.
Assim, do nome de “rei” se infere o ofício de reger;
do de “amigo”, a obrigação de amar.
A
definição
é o lugar do intelecto puro.
Nada pode ser bem conhecido sem definição.
E como o discurso retórico se dirige a muitos,
é necessário que o orador saiba converter as definições em imagens
compreensíveis.
A definição filosófica é o limite do ser;
a retórica, o espelho desse limite na linguagem.
Por
fim, a divisão
é o lugar da ordem.
Divide-se o que é confuso, para que a mente veja cada parte segundo a razão.
E como a confusão é treva e a divisão é luz,
toda clareza do discurso nasce desse lugar.
Logo,
os lugares das coisas são o esqueleto da invenção:
pelos contrários, o orador refuta;
pelos semelhantes, persuade;
pelas causas e efeitos, demonstra;
pelas definições e divisões, esclarece.
E, assim, o raciocínio, nutrido pelas coisas, se torna corpo vivo da palavra.
Finis Capitis Secundi / Fim do Segundo
Capítulo
col.
1363A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus V — Locorum Rhetoricorum
Distinctio
Caput III — De locis ex accidentibus
(Dos lugares que procedem dos acidentes)
col.
1363B–1366A — PL LXIV
Depois
das pessoas e das coisas, seguem-se os acidentes,
dos quais o orador extrai argumentos quando quer mostrar a conveniência, a
impossibilidade ou a oportunidade de uma ação.
Pois toda coisa que existe está acompanhada de acidentes,
e as circunstâncias do ato revelam o modo do ser.
Os
acidentes principais que geram argumentos são tempo,
lugar,
modo,
quantidade
e qualidade.
Cada um deles serve ao discurso como limite que orienta o juízo e modula a
persuasão.
O
tempo
é o primeiro entre os acidentes,
porque toda ação se realiza em alguma sucessão.
Dessa relação nascem os argumentos do antes e do depois, do oportuno e do
inoportuno, do novo e do antigo.
O orador deve observar se o tempo favorece ou impede o que se propõe.
O mesmo conselho que foi prudente em paz pode ser temerário em guerra;
e o que hoje é vício pode ter sido virtude em outra idade.
O
lugar
é o segundo acidente e fonte de muitas persuasões.
Por ele se consideram a conveniência e o decoro.
Certos atos são dignos em um templo e torpes em uma praça;
certas palavras convêm ao Senado e não à assembleia popular.
O orador sábio adapta o discurso ao espaço moral das circunstâncias.
O
modo
indica a maneira pela qual a ação se realiza.
Deste lugar procede o argumento da honestidade e da forma,
pois não basta que algo seja justo, deve também ser feito justamente.
Assim, o modo tempera o excesso e garante a harmonia do ato.
Quem fala com verdade, mas com violência, destrói o valor da verdade que
profere.
A
quantidade
fornece os argumentos da medida.
Por ela se demonstra se algo é demasiado, suficiente ou deficiente.
As virtudes se perdem nos extremos e subsistem no meio.
O orador que ignora as proporções do argumento fere o ouvido da razão,
assim como o músico que não conhece o compasso.
A
qualidade
é o acidente da natureza das coisas.
Dela nascem os argumentos da distinção e do juízo.
Há qualidade de substância e de hábito, de cor e de figura, de condição e de
disposição.
O discurso deve sempre atender à qualidade do objeto —
pois o mesmo argumento que é forte em matéria moral é fraco em matéria natural.
Além
desses, há acidentes compostos, como o relativo, o possível,
o contingente
e o necessário.
Do relativo, derivam-se as analogias e comparações;
do possível, as deliberações;
do contingente, as previsões;
do necessário, as conclusões.
O
orador prudente observa todos esses aspectos antes de mover o juízo.
Pois, assim como o médico não receita sem considerar o corpo e suas disposições,
também o orador não deve aconselhar sem examinar as circunstâncias.
As coisas mudam conforme os acidentes,
e o argumento que ignora essa mutabilidade é cego e violento.
Logo,
o conhecimento dos acidentes é a prudência do discurso.
Ele revela o que convém e o que se deve evitar,
dá peso às palavras e medida às sentenças,
e transforma a eloqüência em instrumento da razão e da justiça.
Finis Capitis Tertii / Fim do Terceiro
Capítulo
col.
1366A — PL LXIV
BLOCO III — MATHEMATICA
ET METAPHYSICA
Tractatus V — Locorum Rhetoricorum
Distinctio
Caput IV — De locis communibus
(Dos lugares comuns)
col.
1366B–1368A — PL LXIV
Chamam-se
lugares
comuns aqueles de onde se pode tirar argumento para qualquer
gênero de discurso —
porque contêm em si razões universais, aplicáveis tanto ao louvor quanto à
censura,
tanto à demonstração quanto à deliberação.
São
chamados “comuns” não por serem vulgares, mas por serem universais,
pois pertencem a todas as matérias e a todos os assuntos.
Assim como as formas geométricas são comuns a todos os corpos,
também esses lugares são formas racionais que estruturam todo pensamento.
Entre
os principais lugares comuns, contam-se:
— o
útil e o honesto,
— o
justo e o injusto,
— o
possível e o impossível,
— o
maior e o menor,
— o
fim e os meios,
— a
causa e o efeito,
— a
intenção e o evento,
— a
constância e a mutabilidade.
O
lugar do útil
e do honesto pertence ao gênero deliberativo.
Pois em toda deliberação se busca o que convém à virtude e o que favorece o bem
comum.
Mas o verdadeiro orador não separa o útil do honesto,
porque o que é verdadeiramente útil não pode ser injusto,
e o que é honesto é sempre o mais útil à alma.
O
justo
e o injusto pertencem ao gênero judiciário.
Deste lugar nascem os discursos de acusação e defesa.
Julga-se não o fato isolado, mas sua conformidade à lei, à equidade e à
intenção.
Por isso, o mesmo ato pode ser julgado de modos diversos,
conforme o ânimo de quem o fez ou a ocasião em que se deu.
O
possível
e o impossível é lugar de todos os gêneros,
pois toda persuasão se dirige a um agir ou crer.
O impossível não persuade, e o possível não convence sem probabilidade.
O orador demonstra a possibilidade por meio de exemplos, causas e analogias,
mostrando que o que ainda não foi feito, pode ser feito segundo a razão ou a
natureza.
O
maior
e o menor é lugar de comparação e juízo.
Serve para exaltar ou diminuir, para enaltecer ou refutar.
Com ele se mostra que, se o menor é admitido, muito mais o deve ser o maior;
ou, se o maior é reprovado, com maior razão o será o menor.
É o lugar próprio da proporção e da justiça distributiva.
O
fim
e os meios constituem o lugar da ordem racional.
Toda ação humana se julga pelo fim;
e o fim é conhecido pelos meios que o sustentam.
Assim, o orador deve mostrar se o meio é digno do fim,
e se o fim é legítimo em relação ao bem comum.
A
causa
e o efeito são lugar de causalidade,
e servem tanto à Dialética quanto à Retórica.
Mas enquanto a Dialética busca a necessidade,
a Retórica busca a conveniência.
Ambas, porém, se apoiam no mesmo vínculo lógico que une o princípio ao
resultado.
A
intenção
e o evento constituem lugar de prudência.
Julga-se o homem pelo que quis e pelo que resultou de seu querer.
Às vezes a intenção é boa e o evento mau;
ou a intenção é má e o evento bom.
O sábio distingue ambos, para não confundir o acaso com o mérito.
Por
fim, a constância
e a mutabilidade são lugares da moral e da história.
Nada há de mais persuasivo que mostrar a permanência do bem ou a ruína do
inconstante.
As cidades se mantêm pela fidelidade e perecem pela mudança dos costumes.
Este lugar serve igualmente para louvar o que é firme e reprovar o que é
inconstante.
Logo,
os lugares comuns são o campo universal da razão oratória.
São como instrumentos preparados que o espírito aplica a cada assunto.
Sem eles, o discurso é cego; com eles, é senhor de toda matéria.
E, assim como o arquiteto usa as mesmas proporções para erguer templos e casas,
o orador usa os lugares comuns para construir todo gênero de discurso.
Finis Capitis Quarti / Fim do Quarto
Capítulo
col.
1368A — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus V — Locorum Rhetoricorum
Distinctio
Caput V — De locis propriis
(Dos lugares próprios)
col.
1368B–1369C — PL LXIV
Depois
dos lugares comuns, seguem os lugares próprios,
que pertencem distintamente a cada gênero de discurso.
Chamam-se próprios porque não se aplicam a todas as matérias,
mas somente àquelas que convêm a cada espécie de causa.
Há
três gêneros de discurso retórico: demonstrativo, deliberativo
e judiciário.
Cada um possui lugares que lhe são próprios, conforme sua intenção e seu fim.
O gênero
demonstrativo, que louva ou censura,
tem por fim o belo moral e o honesto.
Seus lugares próprios são as virtudes e os vícios,
as ações
passadas, os exemplos, as memórias
e os testemunhos.
Com eles o orador exalta os méritos, perpetua a glória ou manifesta a infâmia.
Esse gênero busca mover o ânimo pela admiração e pelo respeito.
O
gênero
deliberativo, que aconselha ou dissuade,
tem por fim o útil e o conveniente.
Seus lugares próprios são a utilidade, a honestidade,
o possível,
o futuro,
as consequências
e os resultados
prováveis das ações.
Com esses lugares o orador demonstra o que deve ser feito ou evitado,
ordenando o discurso conforme a prudência e o bem comum.
Esse gênero pertence à vida política e civil.
O
gênero
judiciário, que acusa ou defende,
tem por fim o justo e o injusto.
Seus lugares próprios são as leis, os costumes,
os testemunhos,
as intenções
e os fatos.
O orador, nesse gênero, deve mostrar a verdade do ato, a retidão da intenção e
a legitimidade da lei.
Aqui se julga o passado, ponderando as causas e os efeitos.
Em
todos os gêneros, os lugares próprios se unem aos comuns,
como o particular ao universal, o corpo à alma, a matéria à forma.
Pois não há utilidade sem justiça,
nem honestidade sem proporção,
nem juízo sem causa comum.
O
orador sábio, portanto, conhece a ordem e o uso dos lugares,
e sabe combinar o comum com o próprio,
de modo que o discurso, ainda que trate de um caso singular,
contenha em si a luz do universal.
Assim,
o gênero
demonstrativo eleva o ânimo;
o deliberativo
dirige a vontade;
o judiciário
regula o juízo.
E todos, unidos pelos lugares apropriados, compõem a harmonia da palavra
racional.
Finis Capitis Quinti / Fim do Quinto
Capítulo
col.
1369C — PL LXIV
BLOCO III —
MATHEMATICA ET METAPHYSICA
Tractatus V — Locorum Rhetoricorum
Distinctio
Caput VI — De usu locorum in arte
oratoria
(Do uso dos lugares na arte oratória)
col.
1369D–1370C — PL LXIV
O
uso dos lugares
é o ato próprio da arte oratória,
pois não basta conhecê-los em teoria, é preciso aplicá-los com prudência e
medida.
Muitos conhecem os princípios, mas poucos sabem empregá-los,
porque a eloquência não consiste em abundância de argumentos,
mas na justa escolha dos que convêm à causa e ao auditório.
O
orador deve considerar, antes de tudo, a natureza da causa,
a
disposição das pessoas e o tempo oportuno.
Depois, deve buscar os lugares que se ajustem a essas condições,
para que o discurso não pareça alheio ou forçado.
Pois o argumento, quando usado fora de seu lugar, perde força e decoro.
Há
três modos de uso dos lugares: invenção, disposição
e adaptação.
— Pela invenção, o orador descobre o argumento apropriado.
— Pela disposição, ordena-o segundo a razão.
— Pela adaptação, o reveste de palavras e ornamentos adequados ao ânimo do
ouvinte.
Na
invenção, o orador age como filósofo;
na disposição, como lógico;
na adaptação, como artista da palavra.
E assim, a oratória é síntese das três ordens da razão — especulativa, prática
e poética.
Os
lugares não devem ser empregados todos ao mesmo tempo,
mas conforme o gênero e o fim.
No gênero demonstrativo,
prevalecem os lugares das pessoas e das virtudes.
No deliberativo,
os lugares das coisas e dos acidentes.
No judiciário,
os lugares das intenções, das leis e dos fatos.
O uso prudente consiste em discernir o lugar que mais convenha à intenção da
causa.
Deve-se
ainda evitar o abuso dos lugares comuns,
pois o que é comum por natureza se torna fraco pelo excesso.
O orador sábio usa poucos argumentos, mas fortes e luminosos.
Como o pintor que escolhe poucas cores para compor uma imagem perfeita,
assim o orador escolhe poucos lugares, mas bem ordenados,
para formar o retrato da verdade.
A
verdadeira arte do discurso não está em multiplicar palavras,
mas em fazer com que cada palavra nasça do lugar próprio e se ordene ao bem do
ouvinte.
A eloquência sem razão é ruído;
a razão sem eloquência é silêncio.
O orador perfeito une ambas — fala com verdade e persuade com justiça.
E
porque todo uso nobre é regido pela prudência,
os lugares, quando bem aplicados, convertem a palavra em ato moral.
Pois a finalidade última da arte oratória não é vencer, mas iluminar;
não dominar, mas instruir;
não agradar, mas corrigir.
Assim,
a ciência dos lugares é a chave da palavra sábia,
e o uso deles é a obra da virtude racional.
Quem domina os lugares domina o discurso;
quem ordena o discurso governa as almas;
e quem governa as almas conforme a razão participa da própria ordem divina.
Finis Capitis Sexti / Fim do Sexto
Capítulo
Finis
Tractatus Quinti — Locorum Rhetoricorum Distinctio
Finis
Blocorum Tertii — Mathematica et Metaphysica
col.
1370C — PL LXIV
BOETHII OPERA OMNIA — TOMUS
LXIV
BLOCCUS TERTIUS — MATHEMATICA ET
METAPHYSICA
(Terceiro Bloco — Matemática e
Metafísica)
Ad
mentem Thomae et Scoti — Trad. Jardel Almeida, Assist. Sophión
Rastreabilidade:
PL LXIV, col. 1073–1370
TRACTATUS I — DE ARITHMETICA LIBRI DUO
(Do Número e de sua Ordem Universal)
col.
1073–1160
Liber Primus — De Arithmetica Theoretica
– Cap. I. De
natura numeri et eius principio — Da natureza do número e de seu
princípio.
– Cap. II. De
unitate, paritate et imparitate — Da unidade, do par e do ímpar.
– Cap. III. De
speciebus numerorum — Das espécies dos números.
– Cap. IV. De
proportionibus et proportionali numerorum — Das proporções e
proporções numéricas.
– Cap. V. De
harmonia numerorum in ordine rerum — Da harmonia dos números na
ordem das coisas.
Liber Secundus — De Arithmetica Practica
– Cap. I. De
operationibus numerorum — Das operações dos números.
– Cap. II. De
additione et subtractione — Da adição e subtração.
– Cap. III. De
multiplicatione et divisione — Da multiplicação e divisão.
– Cap. IV. De
progressione et proportione — Da progressão e proporção.
– Cap. V. De
usu numerorum in scientiis humanis et divinis — Do uso dos números
nas ciências humanas e divinas.
Finis Tractatus Primi — Fim do Primeiro
Tratado
TRACTATUS II — DE MUSICA LIBRI QUINQUE
(Da Música — Ciência da Proporção
Harmônica)
col.
1161–1218
Liber Primus — De principiis musicae
– Cap. I. De
natura soni et consonantiae — Da natureza do som e da consonância.
– Cap. II. De
numeris harmonicis — Dos números harmônicos.
– Cap. III. De
proportionibus musicae — Das proporções musicais.
Liber Secundus — De consonantiarum
differentiis et comparationibus
– Cap. I. De
consonantiarum ordine secundum rationem arithmeticam.
– Cap. II. De
intervallis et symphoniis.
Liber Tertius — De iudicio aurium et
ratione discernendi consonantias
– Cap. I. De
aurium experientia et sensu.
– Cap. II. De
ratione numerali sonorum iudicanda.
Liber Quartus — De ordine musicae
humanae et mundanae
– Cap. I. De
musica mundana.
– Cap. II. De
musica humana.
Liber Quintus — De modorum usu in vita
morum
– Cap. I. De
modis moralibus et musica divina.
– Cap. II. De
ordine musico in vita philosophica.
Finis Tractatus Secundi — Fim do Segundo
Tratado
TRACTATUS III — DE UNITATE ET UNO
(Da Unidade e do Uno)
col.
1083–1098
–
Cap. I. De
Uno quod est principium omnium. — Do Uno que é princípio de todas
as coisas.
– Cap. II. De
participatione unius in rebus. — Da participação do Uno nas coisas.
– Cap. III. De
ordine unitatis in causis. — Da ordem da unidade nas causas.
– Cap. IV. De
proprietatibus unius. — Das propriedades do Uno.
– Cap. V. De
differentia unius divini et unius numeralis. — Da diferença entre o
Uno divino e o Uno numérico.
– Cap. VI. Quod
unitas Dei non est quantitatis sed substantiae. — Que a unidade de
Deus não é de quantidade, mas de substância.
– Cap. VII. De
ordine universi et reductio omnium ad unum. — Da ordem do universo
e da redução de todas as coisas ao Uno.
Finis Tractatus Tertii — Fim do Terceiro
Tratado
TRACTATUS IV — DE RHETORICA COGNATIONE
(Da Afinidade entre a Retórica e a
Dialética)
col.
1333–1355
–
Prooemium
— De communi origine Dialecticae et Rhetoricae. — Prólogo: Da
origem comum da Dialética e da Retórica.
– Cap. I. De
finibus utriusque artis et earum distinctione. — Dos fins de ambas
as artes e de sua distinção.
– Cap. II. De
materia Dialecticae et Rhetoricae. — Da matéria própria da
Dialética e da Retórica.
– Cap. III. De
officiis utriusque et de modo argumentandi. — Dos ofícios de cada
uma e do modo de argumentar.
– Cap. IV. De
comparatione argumentorum dialecticorum et rhetoricorum. — Da
comparação entre os argumentos dialéticos e retóricos.
– Cap. V. De
perfectione utriusque artis et earum subordinatione ad Philosophiam.
— Da perfeição de ambas as artes e sua subordinação à Filosofia.
Finis Tractatus Quarti — Fim do Quarto
Tratado
TRACTATUS V — LOCORUM RHETORICORUM
DISTINCTIO
(Distinção dos Lugares Retóricos)
col.
1356–1370
–
Prooemium
— De natura locorum et eorum usu. — Prólogo: Da natureza dos
lugares e de seu uso.
– Cap. I. De
locis ex personis. — Dos lugares que procedem das pessoas.
– Cap. II. De
locis ex rebus. — Dos lugares que procedem das coisas.
– Cap. III. De
locis ex accidentibus. — Dos lugares que procedem dos acidentes.
– Cap. IV. De
locis communibus. — Dos lugares comuns.
– Cap. V. De
locis propriis. — Dos lugares próprios.
– Cap. VI. De
usu locorum in arte oratoria. — Do uso dos lugares na arte
oratória.
Finis Tractatus Quinti — Fim do Quinto
Tratado
Finis
Blocorum Tertii — Mathematica et Metaphysica
col.
1370 — PL LXIV
A Ciência dos Números e da Unidade: A Arquitetura Intelectual
do Terceiro Bloco Boeciano
A estrutura do terceiro bloco das Opera Omnia de Boécio é uma construção
racional onde a mente humana, após dominar a arte do pensar (Lógica) e a arte do argumentar (Dialéctica), eleva-se à contemplação da ordem
numérica e da harmonia universal. Este bloco, intitulado Mathematica et Metaphysica, une cinco tratados que formam a
espiral ascendente da razão: De Arithmetica,
De Musica, De Unitate et Uno, De
Rhetorica Cognatione e Locorum
Rhetoricorum Distinctio. Neles, o intelecto se torna arquitetura, e o
número se transfigura em princípio metafísico da forma.
No De
Arithmetica, Boécio estabelece o número como raiz de toda
inteligibilidade. O número não é para ele mera convenção de contagem, mas a
essência da ordem — o modo como o intelecto divino imprime medida e proporção
nas coisas. A aritmética, nesse sentido, é teologia disfarçada de cálculo. A
unidade é o primeiro ser numérico; dela procede o par, e deste o múltiplo; e
assim, o cosmos torna-se o desdobramento da unidade em pluralidade. Cada
proporção matemática revela, na mente humana, a vestígio da razão divina que
ordena o ser.
O De Musica
é a continuação natural do tratado anterior, e nele Boécio transporta a proporção
numérica do campo abstrato para o sensível. A música torna-se ciência
intermediária entre a matemática e a moral: ela mede as relações sonoras e, ao
fazê-lo, revela as proporções da alma e do mundo. Quando o som é ordenado por
número, ele espelha a estrutura invisível do ser. Assim, a música humana — a
harmonia entre razão e desejo — e a música mundana — o ritmo do cosmos — são
ecos da mesma musica divina, pela qual
Deus cria e conserva todas as coisas.
No De
Unitate et Uno, a matemática se dissolve na metafísica. O Uno não é mais
número, mas causa. O número participa do Uno como a luz participa da fonte.
Todo ser é uno porque participa da unidade, e deixa de ser quando a perde. A
unidade é, pois, a medida da permanência e o princípio da existência. O uno
numérico é contável; o Uno divino é inefável. O primeiro se multiplica pela
adição; o segundo multiplica sem se dividir. Nesse tratado, Boécio revela a
correspondência entre a estrutura aritmética e o princípio teológico,
unificando a teoria dos números com a ontologia da simplicidade.
A distinção entre o Uno divino e o uno dos
entes não é meramente terminológica: ela funda a diferença entre a essência e o
acidente, entre o necessário e o contingente. Quando Boécio declara que a
unidade divina não é quantidade, mas substância, ele destrói o último vestígio
do materialismo pitagórico. A unidade de Deus não é medida, mas medida de todas
as medidas. Todo número é símbolo; toda proporção, vestígio; toda diferença,
manifestação do Uno que permanece idêntico em todas as suas irradiações. A
multiplicidade não é oposição à unidade, mas sua expressão refletida na
matéria.
No tratado seguinte, De Rhetorica Cognatione, o filósofo reintroduz a unidade no
plano da linguagem. Se a Lógica e a Dialética purificaram o intelecto, a
Retórica o liga novamente ao mundo humano. Aqui, Boécio demonstra que a palavra
não é inimiga da razão, mas sua emanação sensível. A Dialética e a Retórica são
irmãs — uma reflete a luz, a outra propaga o calor. A primeira convence o
intelecto pela necessidade; a segunda move a vontade pela persuasão. Quando
unidas, reproduzem na ordem do discurso a harmonia que, nos tratados
anteriores, unia número e ser.
A Retórica, em Boécio, deixa de ser mero
instrumento político e torna-se mediação entre o verdadeiro e o verossímil. É o
modo pelo qual a razão se faz carne, pelo qual o logos desce ao mundo das ações
humanas. O retórico autêntico não manipula; ele manifesta a verdade sob a forma
que o ouvido humano pode suportar. Assim, a eloquência se torna extensão moral
da dialética: a palavra justa é a unidade reencontrada no domínio do tempo.
Essa ligação entre o discurso e a razão
culmina no Locorum Rhetoricorum Distinctio.
Se o De Rhetorica Cognatione apresenta a
teoria da afinidade, este último tratado fornece a técnica da aplicação. Os loci — os “lugares” da razão — são os pontos
fixos da inteligência, os campos de onde brotam os argumentos e as provas. São
para o discurso o que os números são para o ser: estruturas invisíveis de
proporção e ordem. Saber falar é, portanto, saber onde buscar; e quem conhece
os lugares conhece a topologia do espírito.
Boécio distingue os loci provenientes das pessoas, das coisas, dos acidentes,
dos universais e dos particulares. Em cada um deles, a razão descobre não
apenas recursos de persuasão, mas os modos pelos quais o ser se articula. O
orador filosófico é, portanto, o arquiteto das causas; ele traça os limites do
verossímil segundo o mesmo princípio que o matemático traça os limites do
possível. Em ambos, há medida e forma — o mesmo arquétipo racional projetado
sobre diferentes planos do real.
No uso prudente dos loci, Boécio eleva a Retórica à altura de uma ciência moral.
A palavra deve iluminar, não dominar; deve ordenar, não excitar. O verdadeiro
uso da eloquência é o de reconduzir o auditório ao centro da razão, isto é, ao
Uno. Assim, o círculo se fecha: o número, a harmonia, a unidade e a palavra
convergem em um mesmo princípio ordenador. O discurso torna-se, como o cosmos,
proporção viva entre o inteligível e o sensível.
O Bloco III
revela, portanto, o itinerário da razão que parte do cálculo e retorna à
contemplação. O número, princípio da ordem, conduz à música, forma audível da
proporção. A música conduz à unidade, forma inteligível do ser. A unidade
conduz à palavra, forma comunicável da verdade. E a palavra, quando
disciplinada pela retórica e pelos loci,
reflete no mundo humano a harmonia que governa o universo. É o percurso
completo da mente: do arithmos ao logos, do logos ao unum.
Há, em Boécio, uma insistência na ideia de que
todo saber verdadeiro é regressivo — isto é, conduz de volta à origem. A
aritmética mostra como o múltiplo deriva da unidade; a música mostra como o som
retorna ao ritmo; a metafísica mostra como o ser remonta ao Uno; e a retórica,
como a palavra retorna ao sentido. O saber, para Boécio, é a restauração da
unidade perdida pela dispersão da multiplicidade. A ciência não cria a ordem:
ela a reencontra.
Desse modo, o Bloco III é o espelho interior dos dois primeiros.
Se o primeiro bloco (Logica – Scientia
Rationis) ensinava o pensar correto, e o segundo (Dialectica et Topica – Ars Disserendi) ensinava o raciocinar
ordenado, este terceiro revela a proporção que governa ambos. É o momento da
contemplação da razão como estrutura do cosmos, e do cosmos como encarnação da
razão. A matemática é a metafísica da quantidade; a retórica, a metafísica da
palavra; e o Uno, a metafísica de tudo.
Na estrutura triádica que emerge deste bloco —
numerus, proportio, unitas — vemos a
expressão boeciana da hierarquia neoplatônica: o número é a sombra do Uno; a
proporção, sua forma refletida; e a unidade, seu retorno à simplicidade. A
mente humana, ao compreender essas três dimensões, reconstitui em si a imagem
da inteligência divina, tornando-se ela mesma número pensante, harmonia
consciente e verbo luminoso.
Essa arquitetura culmina no reconhecimento de
que o intelecto, o som e a palavra são diferentes níveis de manifestação da
mesma estrutura racional. Boécio, último romano e primeiro escolástico,
concebeu a filosofia como matemática do espírito — uma aritmética da verdade,
uma música da alma e uma retórica do bem. Na sua síntese, pensar é contar,
contar é ordenar, ordenar é amar a unidade que sustenta o ser.
Assim, o Bloco
III encerra não apenas uma sequência temática, mas um ciclo ontológico. A
mente que parte da lógica para compreender o raciocínio, e do raciocínio para
compreender a proporção, termina reconhecendo no Uno o seu próprio princípio. A
filosofia torna-se, então, liturgia da razão — um rito em que o número, a
harmonia, a unidade e a palavra são os quatro degraus da ascensão intelectual.
Nota
Editorial
Esta tradução, conduzida à letra segundo a
edição latina da Patrologia Latina
(Tomus LXIV), não buscou adaptar, mas restituir. Cada termo, cada pausa e cada
proporção foram preservados segundo o espírito de Boécio, cuja linguagem
matemática é inseparável de sua teologia racional. O fim último desta versão é
restaurar a continuidade entre o pensamento técnico e o pensamento
contemplativo, mostrando que a ciência dos números é também ciência da alma, e
que toda verdadeira retórica é uma forma de teologia silenciosa.
Trad. Jardel Almeida — Assistência Filosófica:
Sophión
Anno Domini MMXXV — Ad
mentem Thomae et Scoti.
