Apenas algumas notas, sem nenhum compromisso.
terça-feira, 14 de julho de 2026
Análise de Causa.
segunda-feira, 13 de julho de 2026
Redação (Continuação) - COF: Aula 37
Ao longo da Aula 37 do Curso Online de Filosofia, Olavo de Carvalho observa
que a discussão sobre o ateísmo costuma permanecer excessivamente superficial,
tratando como homogêneo um fenômeno que, sob exame histórico e filosófico,
revela extraordinária diversidade. Em determinado momento, manifesta o desejo
de que alguém viesse a desenvolver esse tema de maneira mais ampla,
distinguindo as diferentes formas de descrença segundo suas origens, seus
pressupostos e suas consequências. Foi precisamente essa observação que serviu
de impulso para a elaboração das duas obras que acompanham este estudo.
Naturalmente, não se pretende afirmar que tal objetivo tenha sido plenamente
alcançado. Procurou-se apenas realizar, dentro das limitações próprias de
qualquer investigação, o exercício filosófico sugerido pelo professor:
abandonar a ideia simplificadora de um único ateísmo e reconstruir
historicamente a pluralidade das formas pelas quais a negação de Deus surgiu no
interior das diferentes tradições religiosas, filosóficas e culturais do
Ocidente. A intenção não foi produzir uma obra apologética nem um catálogo de
críticas à descrença, mas aplicar ao próprio ateísmo o método da história das
ideias e da religião comparada, examinando sua genealogia, suas estruturas internas
e seus desdobramentos antropológicos e civilizacionais.
A primeira obra concentrou-se na exposição dos fundamentos filosóficos
presentes na aula, desenvolvendo e ampliando seus argumentos. A segunda
procurou levar adiante a hipótese metodológica sugerida por Olavo, acompanhando
comparativamente os diversos ateísmos — protestante, católico, judaico,
islâmico, filosófico, ideológico e contemporâneo — para demonstrar que a
descrença não constitui um fenômeno uniforme, mas uma família de tradições
intelectuais distintas, cada uma marcada pela herança daquilo que nega e pela
construção de novos fundamentos para organizar a realidade.
Se essas páginas conseguirem aproximar o leitor daquele horizonte de
investigação indicado na aula, já terão cumprido sua finalidade. Não como
palavra definitiva sobre o tema, mas como tentativa de responder a um convite
filosófico: estudar o ateísmo com o mesmo rigor histórico, comparativo e
metafísico com que tradicionalmente se estudam as grandes religiões da
humanidade. Se esse objetivo foi alcançado, ainda que apenas em parte, caberá
ao leitor julgar. Quanto aos autores, resta apenas afirmar que procuraram fazer
o melhor que lhes foi possível diante da tarefa proposta.
J.a – Sophión.
Prólogo
Não Existe "o" Ateísmo
Poucas palavras parecem tão simples quanto "ateísmo". Em sua
acepção mais comum, ela designa apenas a negação da existência de Deus. Durante
muito tempo, essa definição pareceu suficiente para distinguir aqueles que
professavam alguma religião daqueles que recusavam qualquer crença religiosa.
Entretanto, basta observar atentamente a história para perceber que essa
simplicidade é apenas aparente. O homem nunca negou uma ideia abstrata de Deus.
Sempre negou um Deus determinado, compreendido segundo uma tradição igualmente
determinada. A negação nunca ocorre no vazio; ela nasce da relação concreta
entre uma inteligência e a imagem de Deus que lhe foi apresentada por sua
própria civilização.
Essa constatação modifica profundamente o problema. O ateísmo deixa de aparecer
como uma posição uniforme e passa a revelar uma extraordinária diversidade de
formas. O Deus negado por um protestante secularizado não é idêntico ao Deus
recusado por um judeu formado na tradição rabínica. Tampouco coincide com o
Deus abandonado por um antigo católico, por um filósofo aristotélico, por um
deísta iluminista ou por um intelectual educado no materialismo marxista. Em
todos esses casos existe efetivamente uma negação de Deus; entretanto, o objeto
dessa negação pertence a universos espirituais profundamente diferentes. A
palavra permanece a mesma, mas seu conteúdo modifica-se juntamente com a
tradição da qual nasceu.
A história das religiões ensina precisamente esse princípio. Nenhuma
religião pode ser compreendida isoladamente de sua cosmologia, de sua
antropologia, de sua moral e de sua linguagem simbólica. Alterando-se qualquer
um desses elementos, modifica-se inevitavelmente também a imagem de Deus que
essa tradição transmite. Consequentemente, modifica-se igualmente a natureza do
ateísmo que dela poderá surgir. A descrença não representa apenas a ausência da
fé; ela conserva, muitas vezes de maneira inconsciente, a forma intelectual da
religião que combate. O ateísmo continua dialogando com a tradição da qual
procura afastar-se, ainda quando imagina tê-la abandonado completamente.
É precisamente por isso que esta obra não tratará do ateísmo como categoria
única. Falar em "o ateísmo", no singular, frequentemente produz mais
confusão do que esclarecimento. Existem ateísmos religiosos, filosóficos,
científicos, políticos, psicológicos e culturais. Alguns nascem da crítica à
metafísica; outros da rejeição de determinadas instituições religiosas; outros
ainda surgem como consequência de revoluções intelectuais, transformações
sociais ou experiências pessoais profundamente marcantes. Em muitos casos, dois
ateus compartilham apenas a palavra que os identifica, enquanto divergem
radicalmente acerca da natureza humana, da moral, da história, da ciência e até
mesmo daquilo que entendem por Deus.
Essa diversidade não constitui simples curiosidade acadêmica. Ela explica
por que diferentes formas de ateísmo produziram consequências históricas
igualmente diferentes. Certas correntes deram origem a sistemas filosóficos de
extraordinária sofisticação; outras transformaram-se em programas políticos
revolucionários; algumas limitaram-se ao campo da investigação científica;
outras desenvolveram autênticas cosmovisões capazes de reorganizar inteiramente
a compreensão do homem, da sociedade e da cultura. A negação de Deus nunca
permanece restrita ao domínio religioso. Toda concepção acerca do fundamento
último da realidade acaba irradiando consequências para a ética, para a
política, para a educação, para a economia e para a própria definição da pessoa
humana.
Entretanto, seria igualmente equivocado imaginar que esta obra pretende
julgar essas tradições apenas a partir de critérios confessionais. Nosso
propósito será outro. Utilizaremos o método da religião comparada, da história
das ideias e da filosofia para reconstruir a lógica interna de cada modalidade
de ateísmo. Antes de perguntar se determinada posição é verdadeira ou falsa,
procuraremos compreender como ela nasceu, qual imagem de Deus rejeita, quais
princípios conserva da tradição que combate e quais consequências
antropológicas decorrem naturalmente de sua estrutura. Toda crítica séria
exige, antes de tudo, compreensão. Nenhuma posição intelectual pode ser
legitimamente avaliada antes de ser apresentada em sua forma mais forte e mais
coerente.
Essa exigência metodológica possui ainda outra razão. Uma das maiores
dificuldades da filosofia contemporânea consiste na tendência de reduzir
posições complexas a caricaturas facilmente refutáveis. O debate torna-se então
uma disputa entre simplificações. O religioso combate um ateísmo que raramente
corresponde ao pensamento real de seus interlocutores; o ateu critica uma
religião igualmente reduzida a seus aspectos mais superficiais. Ambos terminam
discutindo imagens produzidas por suas próprias interpretações, enquanto
permanecem distantes das tradições efetivamente existentes. A religião
comparada oferece precisamente um antídoto contra essa deformação, porque
obriga a inteligência a reconstruir cuidadosamente o horizonte interno de cada
concepção antes de formular qualquer juízo.
Ao longo destas páginas veremos que toda negação pressupõe uma afirmação
anterior. Não existe crítica sem objeto, nem ruptura sem tradição. O ateísmo,
longe de representar um fenômeno absolutamente novo ou independente, constitui
parte da própria história religiosa da humanidade. Ele dialoga continuamente
com aquilo que nega, herda categorias da tradição que combate, conserva
problemas formulados por ela e, muitas vezes, substitui antigos fundamentos por
novos absolutos que passam a desempenhar funções surpreendentemente
semelhantes. Compreender essa continuidade será uma das tarefas centrais desta
investigação.
Talvez, ao final da obra, descubramos que a pergunta decisiva nunca foi
simplesmente se Deus existe ou não. Antes disso, será necessário perguntar:
qual Deus está sendo afirmado? Qual Deus está sendo negado? Somente depois de
responder cuidadosamente a essas questões será possível compreender por que a
palavra "ateísmo" designa fenômenos tão diversos e por que a história
intelectual do Ocidente conheceu não um único ateísmo, mas uma multiplicidade
de ateísmos, cada qual refletindo, como num espelho invertido, a tradição
espiritual da qual nasceu.
Capítulo I
Artigo I — A Negação Também Possui História
Quando se observa a história das ideias sob uma perspectiva suficientemente
ampla, torna-se evidente que nenhuma delas surge de maneira absolutamente
espontânea. Todo pensamento nasce em diálogo com pensamentos anteriores, seja
para desenvolvê-los, seja para corrigi-los, seja para combatê-los. A
inteligência humana não cria seu universo conceitual a partir do nada. Ela
herda uma linguagem, uma tradição, um conjunto de problemas e determinadas
formas de compreender a realidade. Mesmo quando pretende romper completamente
com esse legado, continua utilizando categorias recebidas daquilo que deseja
abandonar. A história do pensamento é, antes de tudo, a história dessas
continuidades invisíveis.
Essa observação aplica-se de maneira particularmente rigorosa ao fenômeno do
ateísmo. Frequentemente imagina-se que a descrença representa simplesmente a
ausência da religião, como se bastasse retirar Deus de determinada visão de
mundo para que todo o restante permanecesse inalterado. Entretanto, a realidade
histórica mostra exatamente o contrário. A retirada de Deus modifica toda a
arquitetura intelectual de uma civilização. Alteram-se simultaneamente a
compreensão da natureza humana, da moral, da liberdade, da autoridade, da
história e da própria finalidade da existência. O ateísmo jamais consiste apenas
numa proposição negativa. Ele reorganiza silenciosamente toda a estrutura pela
qual o homem interpreta a realidade.
Essa reorganização, contudo, nunca ocorre no vazio. Cada sociedade transmite
aos seus membros determinada imagem de Deus antes mesmo que eles adquiram
condições de aceitá-la ou rejeitá-la conscientemente. A criança aprende,
juntamente com a língua de seu povo, uma determinada maneira de compreender o
sagrado, a criação, a providência, o bem e o mal. Ainda que posteriormente
abandone completamente essa tradição, sua inteligência continuará dialogando
com categorias recebidas durante a formação. A negação conservará
inevitavelmente a marca daquilo que foi anteriormente afirmado.
Esse fenômeno pode ser observado em praticamente todas as grandes civilizações.
O mundo greco-romano conheceu formas de impiedade muito diferentes daquelas
surgidas posteriormente no interior do cristianismo. A crítica religiosa
desenvolvida em determinados setores do judaísmo não coincide com aquela
produzida no ambiente protestante europeu. O secularismo francês possui raízes
distintas do materialismo soviético. Mesmo quando utilizam argumentos
semelhantes, esses movimentos partem de imagens de Deus profundamente
diferentes e, por consequência, chegam a concepções igualmente diversas acerca
do homem e da sociedade.
A religião comparada oferece um instrumento privilegiado para compreender
essa diversidade. Em vez de perguntar apenas quais doutrinas são professadas
por determinada tradição, ela investiga também a estrutura simbólica que
organiza sua visão do mundo. Cada religião apresenta uma cosmologia, uma
antropologia, uma moral e uma determinada concepção da história. Deus nunca
aparece isoladamente. Sua compreensão depende da posição que ocupa dentro dessa
arquitetura espiritual. Modificando-se essa arquitetura, modifica-se igualmente
o significado atribuído ao próprio Deus.
Essa relação explica por que a mesma palavra pode esconder conteúdos
radicalmente distintos. Quando um judeu afirma Deus, um cristão afirma Deus e um
muçulmano afirma Deus, existe certamente uma referência comum ao Criador
transcendente. Contudo, cada tradição organiza essa referência segundo
categorias próprias, desenvolvidas ao longo de séculos de reflexão teológica,
litúrgica e filosófica. Consequentemente, quando um membro de cada uma dessas
tradições abandona sua religião, o objeto de sua negação não será exatamente o
mesmo. O vocabulário permanece semelhante; a realidade intelectual que lhe
corresponde é diferente.
Esse princípio possui enorme importância metodológica. Muitas discussões
acerca do ateísmo fracassam porque partem da falsa suposição de que todos os
interlocutores estão discutindo o mesmo conceito de Deus. Um filósofo pode
rejeitar o Primeiro Motor aristotélico; outro combate a providência pessoal do
cristianismo; um terceiro dirige sua crítica contra determinada representação
psicológica da divindade recebida durante a infância. Exteriormente todos se
declaram ateus. Filosoficamente, porém, negam objetos intelectuais distintos.
Ignorar essa diferença significa transformar um problema extremamente complexo
numa simplificação incapaz de explicar a realidade histórica.
A própria evolução do pensamento ocidental confirma essa multiplicidade. O
deísmo iluminista não surgiu negando imediatamente toda transcendência.
Procurou inicialmente conservar um Criador racional enquanto rejeitava
milagres, revelação e autoridade eclesiástica. Somente mais tarde determinadas
correntes concluíram que, eliminado o Deus providente, o próprio Criador tornava-se
desnecessário. O materialismo do século XIX herdou inúmeras categorias do
racionalismo anterior, assim como o existencialismo ateu herdou problemas
formulados pela tradição cristã. Cada etapa nasceu da anterior, conservando
parte de sua linguagem e transformando outra parte. O ateísmo revela, assim,
uma genealogia tão rica quanto aquela das próprias religiões.
Essa continuidade permite compreender um fenômeno frequentemente ignorado.
Muitas ideias aparentemente modernas possuem raízes religiosas profundas.
Conceitos como progresso universal, emancipação da humanidade, redenção
histórica ou esperança num futuro definitivo frequentemente preservam
estruturas herdadas da tradição religiosa mesmo quando Deus deixa de ocupar
explicitamente seu lugar. Em diversas ocasiões, aquilo que desaparece não é a
estrutura da expectativa, mas apenas seu fundamento transcendente. O absoluto
muda de nome. A função espiritual permanece surpreendentemente semelhante.
Chega-se, então, a uma conclusão decisiva para o restante desta obra. O
ateísmo não deve ser estudado apenas como ausência de fé, mas como fenômeno
histórico pertencente à própria história das religiões e das civilizações. Sua
diversidade decorre precisamente da diversidade das imagens de Deus que procura
negar. Compreender essa genealogia significa abandonar definitivamente a ilusão
de que existe uma única forma de descrença. Existem, na verdade, múltiplos
ateísmos, cada qual refletindo, de maneira inversa, a tradição espiritual que
lhe deu origem. É sobre essa pluralidade que se desenvolverá toda a
investigação dos capítulos seguintes.
Capítulo I
Artigo II — O Deus que se Nega
A afirmação de que existem diversos ateísmos conduz inevitavelmente a uma
pergunta anterior e mais fundamental: por que a negação de Deus assume formas
tão diferentes? A resposta encontra-se menos na descrença propriamente dita do
que na variedade das imagens de Deus produzidas pelas diferentes civilizações.
Antes de negar, o homem precisa saber o que está negando. A inteligência jamais
combate um conceito absolutamente vazio. Toda negação possui um objeto
determinado, e esse objeto foi previamente construído pela tradição religiosa,
filosófica e cultural na qual o indivíduo foi formado. O ateísmo, portanto, não
pode ser compreendido sem uma investigação acerca da própria ideia de Deus que
lhe serve de referência.
Essa observação parece evidente, mas durante muito tempo permaneceu
obscurecida pelo hábito de tratar todas as religiões como se falassem
exatamente da mesma realidade utilizando apenas linguagens diferentes. A
religião comparada demonstrou que essa simplificação impede a compreensão tanto
das religiões quanto de suas negações. Embora diversas tradições utilizem a
palavra "Deus", a posição ocupada por esse conceito dentro de cada
sistema espiritual varia profundamente. Em alguns casos, Deus aparece sobretudo
como Legislador; em outros, como Criador; em outros ainda, como Inteligência
suprema, Bem absoluto, Fundamento do ser, Luz, Logos ou Amor. Essas diferenças
não constituem meras variações terminológicas. Elas organizam maneiras
distintas de compreender o universo inteiro.
Pode-se compreender essa questão observando o papel desempenhado por Deus na
estrutura de cada tradição. No judaísmo, a ideia de Deus está inseparavelmente
ligada à Aliança, à história de Israel e à revelação da Lei. No cristianismo, o
mesmo Deus é compreendido à luz da Encarnação, da Redenção e da participação do
homem na vida divina. No islamismo, a ênfase desloca-se para a soberania
absoluta de Deus e para a submissão da criatura à Sua vontade. Nenhuma dessas
perspectivas elimina as demais, mas cada uma delas organiza de maneira própria
a relação entre Deus, o homem e o mundo. Consequentemente, também a ruptura com
essas tradições produzirá formas diferentes de descrença.
O mesmo fenômeno ocorre quando se passa da religião para a filosofia. O Deus
de Aristóteles não ocupa exatamente a mesma posição que o Deus de Santo
Agostinho ou de Santo Tomás de Aquino. O Primeiro Motor Imóvel constitui o
fundamento último da inteligibilidade do movimento e da ordem do cosmos. Em
Santo Agostinho, Deus manifesta-se igualmente como Verdade interior que ilumina
a inteligência humana. Em Santo Tomás, a reflexão alcança formulação ainda mais
abrangente ao identificar Deus com o próprio Ser subsistente, fundamento de
toda existência. Essas diferenças não significam oposição entre os autores, mas
desenvolvimento de aspectos distintos de uma mesma realidade. Ainda assim, elas
produzem diferentes possibilidades de negação. Quem rejeita o Primeiro Motor
aristotélico não está necessariamente combatendo a mesma concepção metafísica
que aquele que recusa o Ipsum Esse Subsistens tomista.
Essa diversidade torna-se ainda mais evidente quando observamos a história
moderna. O Deus criticado por Voltaire difere significativamente daquele
combatido por Feuerbach. Feuerbach dirige sua análise contra a ideia de Deus
como projeção da essência humana. Marx transforma essa crítica antropológica em
interpretação histórica das relações sociais. Nietzsche anuncia a morte de Deus
como acontecimento cultural e espiritual, não apenas como conclusão lógica.
Freud interpreta a divindade segundo categorias psicológicas ligadas à figura
paterna. Cada autor combate uma representação específica da transcendência,
elaborada segundo problemas próprios de sua época. A palavra "Deus"
permanece constante; o conteúdo intelectual contra o qual se dirige cada crítica
modifica-se profundamente.
Percebe-se, então, que o ateísmo raramente nasce do exame direto da
realidade. Ele nasce, antes de tudo, da relação entre uma inteligência e
determinada tradição interpretativa. O homem não abandona simplesmente Deus;
abandona uma compreensão concreta de Deus recebida por meio da família, da
educação, da cultura ou da religião. Em muitos casos, a ruptura dirige-se menos
contra a realidade divina do que contra uma imagem insuficiente, deformada ou
incompleta que lhe foi apresentada ao longo da formação. A crítica pode ser
filosoficamente rigorosa e, ainda assim, atingir apenas uma representação
parcial daquilo que pretende negar.
Essa distinção possui consequências importantes para toda investigação séria
acerca da descrença. Quando se pergunta por que alguém se tornou ateu, não
basta conhecer os argumentos utilizados para justificar sua posição. É
igualmente necessário compreender qual concepção de Deus esteve presente em sua
formação intelectual. Dois indivíduos podem apresentar objeções semelhantes
contra a religião e, no entanto, estarem reagindo a experiências espirituais
completamente diferentes. A genealogia da descrença encontra-se frequentemente
mais próxima da biografia cultural do que da lógica formal dos argumentos
posteriormente elaborados.
A história confirma continuamente essa observação. O ateísmo francês do
século XVIII desenvolveu-se em diálogo permanente com o catolicismo romano e
com suas instituições políticas. O ateísmo alemão do século XIX nasceu em
ambiente profundamente marcado pelo protestantismo e pela filosofia idealista.
O secularismo judaico moderno conservou categorias históricas e éticas
provenientes da tradição bíblica mesmo quando abandonou a fé religiosa. O
materialismo soviético herdou elementos messiânicos que haviam pertencido à
cultura cristã oriental. Em todos esses casos, a ruptura preservou aspectos
significativos da tradição anterior, modificando-lhes apenas o fundamento
último.
É precisamente por isso que esta obra evitará utilizar a palavra "ateísmo"
como categoria homogênea. Cada modalidade de descrença será examinada segundo a
tradição específica da qual emerge. Perguntaremos continuamente qual imagem de
Deus está sendo recusada, quais elementos dessa tradição permanecem vivos mesmo
após a negação e quais consequências antropológicas decorrem dessa
transformação. Somente esse procedimento permitirá compreender por que
determinadas formas de ateísmo conservaram forte preocupação moral, enquanto
outras caminharam para o niilismo; por que algumas produziram filosofias
altamente especulativas, enquanto outras deram origem a movimentos
essencialmente políticos; e por que certas correntes substituíram Deus pela
ciência, outras pelo Estado, outras pela humanidade e outras ainda pelo próprio
indivíduo.
O primeiro passo para compreender qualquer descrença consiste, portanto, em
compreender a crença que lhe deu origem. A negação nunca paira acima da
história. Ela possui raízes, linguagem, símbolos e memória. Nega sempre alguma
coisa determinada, recebida anteriormente pela tradição. Ignorar esse fato
significa reduzir um dos fenômenos mais complexos da história intelectual a uma
fórmula abstrata incapaz de explicar sua verdadeira diversidade. É justamente
dessa diversidade que nascerá, nos capítulos seguintes, a possibilidade de uma
comparação rigorosa entre os diferentes ateísmos que marcaram a formação
espiritual do Ocidente e de outras grandes civilizações.
Capítulo I
Artigo III — O Método da Religião Comparada
Toda ciência começa pela distinção adequada de seu objeto. Enquanto não se
sabe exatamente o que está sendo comparado, toda comparação degenera
inevitavelmente em simplificação. Esse princípio possui importância decisiva
quando aplicado ao estudo das religiões. Durante muito tempo, tanto apologistas
quanto críticos partiram da suposição de que todas as tradições religiosas
respondiam às mesmas perguntas utilizando apenas vocabulários diferentes. Uns
concluíram que todas diziam substancialmente a mesma coisa; outros afirmaram
que todas compartilhavam os mesmos erros fundamentais. Em ambos os casos, o
resultado foi semelhante: perdeu-se a singularidade própria de cada tradição e
tornou-se praticamente impossível compreender o significado histórico das
diferenças que as distinguem.
A religião comparada surgiu precisamente para superar essa limitação. Seu
objetivo nunca consistiu em reduzir todas as religiões a um denominador comum
nem em estabelecer imediatamente qual delas seria verdadeira ou falsa. Seu
primeiro dever é compreender. Antes de qualquer juízo filosófico ou teológico,
torna-se necessário reconstruir a estrutura interna de cada tradição segundo
seus próprios princípios. Isso exige examinar sua cosmologia, sua antropologia,
sua concepção do tempo, sua compreensão da moral, seus símbolos fundamentais,
sua linguagem litúrgica e, sobretudo, a posição ocupada por Deus dentro dessa
arquitetura espiritual. Somente depois dessa reconstrução torna-se legítimo
estabelecer aproximações, diferenças e críticas.
Esse procedimento exige uma disciplina intelectual frequentemente
negligenciada. A inteligência deve resistir à tentação de traduzir
imediatamente uma tradição para categorias pertencentes a outra. Quando um
filósofo grego fala do Primeiro Princípio, um rabino fala do Deus da Aliança,
um teólogo cristão fala da Trindade ou um pensador islâmico fala de Alá,
existem certamente pontos de contato importantes, mas também diferenças
estruturais cuja eliminação produziria apenas falsas equivalências. A
comparação autêntica não começa pelas semelhanças; começa pelo respeito à forma
própria de cada tradição. É justamente essa forma que permitirá compreender
tanto aquilo que aproxima quanto aquilo que distingue.
Essa exigência metodológica vale igualmente para o estudo do ateísmo. Se
toda descrença nasce da negação de uma determinada imagem de Deus, torna-se
impossível comparar diferentes modalidades de ateísmo sem reconstruir
previamente a tradição religiosa da qual cada uma delas emerge. Um ateísmo
protestante não pode ser compreendido sem certo conhecimento da teologia
protestante; um ateísmo judaico permanece parcialmente obscuro para quem ignora
a estrutura espiritual do judaísmo; o mesmo ocorre com o ateísmo surgido em
ambientes católicos, islâmicos ou filosóficos. A religião comparada não
constitui, portanto, um apêndice da investigação. Ela representa a condição
necessária para que a própria comparação dos ateísmos possa ser realizada com
rigor.
Esse método produz um efeito inesperado. Quanto mais profundamente se
conhece uma tradição religiosa, menos simplistas tornam-se as críticas
dirigidas contra ela. Muitos argumentos que pareciam devastadores revelam-se
destinados apenas a interpretações superficiais ou historicamente limitadas. Ao
mesmo tempo, surgem problemas mais profundos, que dificilmente poderiam ser
percebidos sem essa compreensão inicial. A crítica amadurece juntamente com o
conhecimento. Ela deixa de combater caricaturas e passa a dialogar com as
formulações mais elevadas produzidas por determinada tradição. Esse progresso
não favorece nem a crença nem a descrença; favorece apenas a inteligência.
Pode-se observar fenômeno semelhante na história da filosofia. Ninguém
compreenderia adequadamente Aristóteles limitando-se a recolher frases isoladas
de seus tratados. É necessário reconstruir o sistema inteiro para que cada
conceito encontre seu verdadeiro lugar. O mesmo vale para Platão, Santo
Agostinho, Santo Tomás ou qualquer outro grande pensador. A religião comparada
apenas amplia esse princípio para o universo das tradições espirituais. Cada
religião constitui uma totalidade orgânica. Retirar um elemento dessa
totalidade equivale a deslocar uma pedra de uma catedral e pretender
compreender toda a arquitetura examinando apenas essa única peça.
Essa perspectiva modifica também o modo de compreender os conflitos
religiosos. Muitas disputas históricas nasceram menos da oposição entre duas
tradições do que da incapacidade de compreendê-las segundo suas próprias
categorias. Frequentemente uma religião foi criticada a partir de pressupostos
pertencentes a outra, produzindo debates nos quais os interlocutores utilizavam
as mesmas palavras para designar realidades profundamente distintas. A
controvérsia prolongava-se indefinidamente porque o verdadeiro objeto da
discussão jamais era suficientemente esclarecido. A religião comparada procura
justamente restaurar esse objeto antes que qualquer conclusão seja formulada.
No caso específico desta obra, esse procedimento desempenhará papel
decisivo. Não compararemos apenas argumentos utilizados por diferentes ateus.
Compararemos, sobretudo, as estruturas religiosas das quais esses argumentos
nasceram. Perguntaremos continuamente qual concepção de Deus está sendo
rejeitada, qual visão do homem permanece implícita nessa rejeição e quais
elementos da tradição anterior continuam atuando, muitas vezes de maneira
inconsciente, dentro da própria descrença. O centro da investigação desloca-se,
assim, da polêmica para a genealogia. Em vez de perguntar apenas contra o que
determinado ateu argumenta, procuraremos compreender de onde provém sua maneira
de argumentar.
Esse deslocamento revela uma verdade de grande importância histórica. As
ideias raramente desaparecem completamente. Elas transformam-se, reorganizam-se
e reaparecem sob novas formas. Uma religião pode perder sua influência
institucional e continuar viva em categorias morais, políticas ou culturais. Um
ateísmo pode rejeitar explicitamente Deus e conservar estruturas profundamente
religiosas em sua compreensão da história, da esperança ou da redenção. A
comparação deixa então de ser mera classificação de doutrinas e passa a tornar
visíveis continuidades invisíveis que atravessam séculos de transformações
intelectuais.
É precisamente por essa razão que o método da religião comparada representa
muito mais do que uma técnica de pesquisa. Ele constitui uma disciplina da
inteligência. Obriga o investigador a suspender julgamentos precipitados, a
reconstruir cuidadosamente cada tradição em sua coerência interna e a
reconhecer que nenhuma ideia importante pode ser compreendida fora da história
espiritual que lhe deu origem. Somente essa atitude permitirá acompanhar, nos
capítulos seguintes, a extraordinária diversidade dos ateísmos sem reduzi-los a
uma única fórmula abstrata. Antes de comparar suas conclusões, será necessário
compreender as diferentes visões de Deus, do homem e do mundo que cada um deles
herdou e transformou ao longo da história.
Capítulo I
Artigo IV — A Estrutura Filosófica da Negação
Toda negação depende logicamente de uma afirmação anterior. Essa proposição,
aparentemente elementar, constitui uma das leis mais importantes da filosofia
e, ao mesmo tempo, uma das mais frequentemente esquecidas quando se discute o
ateísmo. Negar significa determinar aquilo que não é; mas somente é possível
determinar o que não é quando já existe alguma compreensão daquilo que é
negado. O vazio absoluto não pode ser objeto da negação, porque a inteligência
não consegue dirigir-se ao absolutamente indeterminado. Assim, toda recusa
pressupõe um conteúdo previamente conhecido, ainda que de maneira imperfeita. O
ateísmo, enquanto negação de Deus, confirma exatamente essa estrutura lógica:
ele somente pode existir porque determinada ideia de Deus já se encontra
presente na inteligência daquele que a rejeita.
Essa dependência não é apenas lógica; é também histórica. Nenhuma
civilização conheceu um ateísmo anterior à formação de uma linguagem religiosa.
Os primeiros movimentos de descrença não surgem antes da religião, mas dentro
dela. São respostas, correções, recusas ou rupturas produzidas no interior de
um horizonte espiritual previamente estabelecido. O ateísmo pertence, portanto,
à história da religião tanto quanto a heresia pertence à história da teologia.
Ambos só existem porque existe anteriormente uma tradição em relação à qual se
definem. A negação jamais inaugura sozinha um universo intelectual; ela
reorganiza um universo que já encontrou constituído.
Essa constatação impede dois equívocos igualmente frequentes. O primeiro
consiste em imaginar que toda religião produz necessariamente o mesmo tipo de
ateísmo. O segundo supõe que todos os ateísmos conduzem às mesmas consequências
filosóficas, morais ou políticas. Nenhuma dessas hipóteses resiste ao exame
histórico. A forma da negação acompanha inevitavelmente a forma daquilo que é
negado. Quanto mais rica e complexa a tradição religiosa, mais sofisticadas
tendem a ser as possibilidades de ruptura que dela podem nascer. Por isso,
estudar os ateísmos significa, ao mesmo tempo, estudar a extraordinária
diversidade das imagens de Deus elaboradas pelas diferentes civilizações.
Existe ainda um aspecto mais profundo dessa questão. Quando uma religião
desaparece, nem todos os seus elementos desaparecem com ela. Frequentemente
sobrevivem suas categorias morais, sua concepção do tempo, sua visão da história
e até mesmo sua estrutura simbólica. Apenas o fundamento explícito é
abandonado. Em muitos casos, aquilo que antes era atribuído a Deus passa a ser
atribuído ao Estado, à humanidade, ao progresso, à ciência, ao mercado, à
técnica ou ao próprio indivíduo. A função permanece; modifica-se apenas o
sujeito que passa a ocupá-la. O absoluto muda de nome, mas continua exercendo
papel organizador semelhante dentro da inteligência coletiva.
Esse fenômeno foi observado por diversos pensadores ao longo do século XX.
Muitos movimentos políticos aparentemente seculares conservaram estruturas
tipicamente religiosas: promessas de redenção, narrativas de queda e
libertação, figuras de profetas, mártires, heróis, textos canônicos,
ortodoxias, heresias, excomunhões simbólicas e expectativas escatológicas. Não
se trata de afirmar que essas ideologias sejam religiões em sentido estrito,
mas de reconhecer que herdaram formas espirituais cuja origem pertence
claramente ao universo religioso. A negação de Deus não eliminou completamente
essas estruturas; apenas deslocou seu centro de gravidade.
É justamente nesse ponto que a comparação entre os diferentes ateísmos
torna-se particularmente fecunda. Ela revela que nem toda descrença conduz ao
mesmo tipo de substituição. Algumas correntes elevam a razão ao lugar outrora
ocupado pela transcendência. Outras fazem da história o princípio absoluto da
realidade. Certas formas de ateísmo depositam sua esperança na ciência; outras,
na economia; outras ainda, na liberdade individual ou no progresso técnico.
Cada substituição corresponde, em última análise, ao tipo de fundamento cuja
ausência se procura compensar. A inteligência humana parece conservar uma
tendência permanente para organizar sua experiência em torno de algum princípio
supremo, ainda que esse princípio já não seja explicitamente denominado Deus.
Essa observação não pretende diminuir a seriedade filosófica do ateísmo.
Pelo contrário, procura reconhecê-lo como fenômeno muito mais complexo do que
uma simples ausência de crença. A descrença reorganiza inteiramente a visão de
mundo daquele que a adota. Ela redefine a origem da moral, a natureza da
liberdade, o fundamento da dignidade humana, o sentido da história e a
possibilidade do conhecimento. Em outras palavras, ela produz uma metafísica,
ainda que frequentemente recuse esse nome. Nenhum homem vive apenas de
negações. Mais cedo ou mais tarde, toda inteligência constrói algum princípio
positivo a partir do qual interpreta a realidade.
Chegamos, assim, ao término do fundamento metodológico desta obra.
Demonstramos que não existe um ateísmo abstrato e universal, mas uma
pluralidade de formas de descrença nascidas da pluralidade das tradições
religiosas e filosóficas da humanidade. Mostramos igualmente que toda negação
conserva vínculos profundos com aquilo que rejeita, herdando categorias,
símbolos e problemas cuja influência frequentemente permanece inconsciente.
Essa conclusão permitirá iniciar o próximo capítulo por um caminho mais seguro.
Em vez de discutir genericamente "o ateísmo", passaremos a acompanhar
sua formação concreta no interior das grandes tradições abraâmicas, examinando
cada uma delas segundo sua própria lógica histórica, filosófica e religiosa.
Somente então será possível compreender por que diferentes imagens de Deus
deram origem a diferentes imagens do homem e, consequentemente, a diferentes
modalidades de ateísmo.
Capítulo II
Artigo V — O Ateísmo Protestante
Entre todas as formas modernas de ateísmo, talvez nenhuma tenha exercido
influência tão ampla sobre a cultura ocidental quanto aquela que nasceu no
interior do mundo protestante. Essa afirmação pode parecer surpreendente,
sobretudo porque o protestantismo sempre atribuiu enorme importância à relação
pessoal entre o homem e Deus. Entretanto, é precisamente essa centralidade da
experiência religiosa individual que explica o modo singular pelo qual a
descrença se desenvolveu em seu interior. O ateísmo protestante não nasce
inicialmente da recusa da transcendência enquanto tal. Surge, antes de tudo, da
crise de confiança numa determinada compreensão da relação entre Deus, a
Escritura e a consciência individual. A ruptura dirige-se contra uma forma
específica de viver a fé, e não simplesmente contra a ideia abstrata de
divindade.
Desde a Reforma do século XVI, o protestantismo colocou enorme ênfase na
autoridade das Escrituras e na responsabilidade pessoal do fiel diante de Deus.
A mediação institucional da Igreja foi profundamente reduzida, enquanto a
consciência individual adquiriu importância inédita na interpretação da
revelação. Essa transformação produziu extraordinários efeitos espirituais,
culturais e políticos. Ao mesmo tempo, introduziu uma tensão permanente. Se a
interpretação da verdade religiosa depende cada vez mais da consciência
individual, a própria consciência passa progressivamente a ocupar posição
central na vida espiritual. A longo prazo, aquilo que inicialmente servia para
aproximar o homem de Deus poderia também fornecer os instrumentos intelectuais
para afastá-lo d'Ele.
Esse processo não ocorreu de maneira brusca. Durante séculos, o
protestantismo produziu alguns dos mais importantes teólogos da história
cristã, mantendo vigorosa vida religiosa e intensa atividade missionária.
Contudo, paralelamente, desenvolveu-se um ambiente intelectual no qual a
investigação crítica das Escrituras, da história e da própria religião adquiriu
crescente autonomia. A razão deixou gradualmente de ocupar apenas uma função
auxiliar da fé para tornar-se também seu tribunal permanente. O problema já não
consistia apenas em compreender a revelação, mas em determinar racionalmente
quais elementos dessa revelação poderiam continuar sendo aceitos.
Essa mudança favoreceu o nascimento da chamada crítica histórico-bíblica. A
Escritura passou a ser examinada segundo os mesmos critérios aplicados aos
demais documentos antigos. Sua formação, autoria, contexto histórico e
desenvolvimento textual tornaram-se objeto de investigação científica. Em si
mesma, essa pesquisa representava legítimo avanço dos estudos históricos.
Entretanto, em numerosos ambientes intelectuais, produziu uma consequência mais
ampla. A autoridade religiosa começou lentamente a deslocar-se da revelação
para o próprio método crítico. A confiança que anteriormente repousava na
Palavra de Deus passou gradualmente a concentrar-se na capacidade da razão
histórica de reconstruir a origem dessa mesma Palavra.
Esse deslocamento alterou profundamente a estrutura da fé. Deus deixou de
aparecer como fundamento imediato da certeza religiosa e passou a depender, em
larga medida, da validação produzida pela investigação racional. A relação
entre fé e razão sofreu, assim, uma inversão silenciosa. Em vez de a razão
servir à inteligência da fé, tornou-se frequente exigir que a própria fé se
justificasse continuamente perante a razão crítica. Não poucos pensadores
concluíram, ao final desse processo, que aquilo que inicialmente pretendiam
purificar acabava por perder completamente seu fundamento sobrenatural.
É justamente nesse ambiente que se desenvolvem diversas modalidades do
ateísmo moderno. Feuerbach, por exemplo, interpreta Deus como projeção
idealizada da essência humana. Embora sua conclusão seja radicalmente diversa
da teologia protestante, seu ponto de partida continua profundamente marcado
pelas categorias religiosas herdadas da tradição luterana. O mesmo pode ser
observado, sob aspectos diferentes, em Marx, cuja compreensão da história
conserva traços de uma escatologia secularizada, e em diversos autores
posteriores que transformaram a esperança cristã numa expectativa puramente
histórica. A ruptura é real, mas a genealogia permanece visível.
Tal continuidade manifesta-se sobretudo na compreensão da história. O
protestantismo desenvolveu uma percepção particularmente intensa da ação divina
no tempo histórico. Mesmo quando Deus deixa de ocupar o centro dessa narrativa,
a própria história continua frequentemente desempenhando função quase
redentora. A expectativa da salvação transforma-se em expectativa de progresso.
A consumação escatológica converte-se em realização futura da humanidade. A
providência divina cede lugar ao desenvolvimento histórico. Mudam os sujeitos;
preserva-se a estrutura narrativa.
Essa permanência explica por que muitos ateísmos oriundos do ambiente
protestante mantêm forte preocupação moral. Ainda quando rejeitam
explicitamente Deus, continuam organizando a realidade segundo categorias de
responsabilidade, consciência, missão histórica e transformação do mundo. A
moral não desaparece; procura apenas outro fundamento. Em diversos casos, a
política, a ciência ou a própria humanidade passam a desempenhar funções
anteriormente atribuídas ao transcendente. O vazio deixado pela negação não
permanece vazio durante muito tempo. Ele tende naturalmente a ser preenchido
por algum novo absoluto.
Essa observação não pretende reduzir o protestantismo à origem do ateísmo
moderno, nem sugerir que sua doutrina conduza necessariamente à descrença. Tal
conclusão seria historicamente insustentável. Milhões de protestantes
conservaram e continuam conservando profunda vida religiosa. O que se procura
mostrar é algo diferente: determinadas características intelectuais
desenvolvidas no interior dessa tradição forneceram condições específicas para
o aparecimento de formas particulares de ateísmo, diferentes daquelas surgidas
em outros ambientes religiosos. A genealogia não determina inevitavelmente o
resultado, mas ajuda a explicar por que certos resultados tornaram-se historicamente
possíveis.
Compreender o ateísmo protestante significa, portanto, compreender uma forma
de descrença que continua dialogando intensamente com a tradição da qual
nasceu. Sua linguagem, seus problemas e até mesmo muitas de suas esperanças
permanecem marcados por categorias religiosas herdadas do próprio
protestantismo. A negação rompe com a fé, mas não consegue romper completamente
com a estrutura espiritual que durante séculos moldou sua maneira de
compreender Deus, o homem e a história. É precisamente essa continuidade
invisível que torna essa modalidade de ateísmo um dos objetos mais importantes
da religião comparada e da história das ideias.
Capítulo II
Artigo VI — O Ateísmo Católico
À primeira vista, a expressão "ateísmo católico" parece
contraditória. Durante quase dois milênios, a Igreja Católica constituiu uma
das instituições religiosas que mais profundamente elaboraram a doutrina acerca
de Deus, da criação, da natureza humana e da ordem moral. Justamente por isso,
poderia parecer improvável que uma forma específica de ateísmo pudesse nascer
em seu interior. Entretanto, a história intelectual demonstra exatamente o
contrário. A riqueza metafísica do pensamento católico não impediu o
aparecimento da descrença; ao contrário, forneceu-lhe um horizonte próprio de
problemas. O ateísmo surgido em ambiente católico distingue-se precisamente
porque sua ruptura não ocorre apenas com uma prática religiosa, mas com uma das
construções metafísicas mais completas produzidas pela civilização ocidental.
Desde os primeiros séculos do cristianismo, e especialmente após a síntese
realizada por Santo Tomás de Aquino, Deus passou a ser compreendido não apenas
como objeto da fé, mas como fundamento do próprio ser. A tradição católica
jamais limitou a teologia ao campo da revelação. Ela desenvolveu
simultaneamente uma metafísica na qual Deus aparece como causa primeira, ato
puro, inteligência suprema e o próprio Ser subsistente. Essa característica
possui enorme importância para compreender o ateísmo que posteriormente surgirá
em seu interior. Diferentemente de outras tradições, o problema não consiste
apenas em abandonar uma determinada experiência religiosa. Exige igualmente
romper com uma arquitetura filosófica destinada a explicar a própria
inteligibilidade da realidade.
Essa profundidade modifica inteiramente o caráter da ruptura. O indivíduo
formado na tradição católica não recebe apenas narrativas bíblicas ou
ensinamentos morais. Recebe também uma determinada compreensão do ser, da
causalidade, da verdade, da natureza humana e da finalidade da existência. A fé
encontra-se continuamente apoiada por uma estrutura racional cuidadosamente
desenvolvida ao longo de séculos. Quando ocorre a perda da fé, essa estrutura
nem sempre desaparece imediatamente. Muitas vezes permanece silenciosamente
presente, mesmo quando seu fundamento transcendente já foi recusado. O
resultado costuma ser uma descrença intelectualmente inquieta, frequentemente
marcada por questões metafísicas que dificilmente aparecem com igual
intensidade em outras modalidades de ateísmo.
A modernidade introduziu nesse ambiente uma transformação decisiva. O
crescimento das ciências naturais, o racionalismo, o empirismo e,
posteriormente, o positivismo passaram a propor novos critérios para definir
aquilo que poderia ser considerado conhecimento legítimo. A metafísica deixou
progressivamente de ser vista como ciência do ser para transformar-se, aos
olhos de muitos, em simples especulação incapaz de produzir demonstrações
verificáveis. O conflito deslocou-se então da religião para a própria
filosofia. Antes de rejeitar Deus, tornou-se necessário rejeitar a
possibilidade da metafísica. O ateísmo católico desenvolveu-se, em grande
medida, como consequência dessa transformação epistemológica.
Essa mudança explica por que numerosos pensadores oriundos de ambientes
católicos dirigiram inicialmente suas críticas menos contra Deus do que contra
os instrumentos intelectuais utilizados para demonstrá-Lo. A discussão
concentrou-se na validade da causalidade, na possibilidade da analogia do ser,
na natureza da substância, na inteligibilidade da finalidade e na própria
capacidade da razão de ultrapassar o domínio dos fenômenos sensíveis. O
problema tornou-se profundamente filosófico. A descrença apresentava-se
frequentemente como resultado de uma reforma do conhecimento antes de
manifestar-se como recusa explícita da religião.
Entretanto, essa ruptura jamais conseguiu eliminar completamente a herança
recebida. Muitos autores que abandonaram a fé continuaram organizando seu
pensamento segundo categorias cuja origem pertence claramente à tradição
católica. A preocupação com a universalidade da verdade, a busca de fundamentos
racionais para a moral, a ideia de dignidade intrínseca da pessoa humana e até
mesmo a convicção de que a história possui sentido objetivo frequentemente
sobreviveram à perda da fé religiosa. O edifício metafísico foi parcialmente
abandonado, mas vários de seus pilares permaneceram sustentando silenciosamente
novas construções filosóficas.
Tal permanência torna-se particularmente visível na filosofia existencial do
século XX. Diversos autores formados em ambiente católico conservaram intenso
interesse por questões como liberdade, culpa, consciência, morte,
transcendência e sentido da existência, ainda quando recusavam respostas
propriamente religiosas. A experiência espiritual permanecia presente;
modificava-se apenas seu fundamento último. O homem continuava sendo visto como
ser chamado a responder por si mesmo diante de uma realidade que ultrapassa a
simples materialidade da vida cotidiana, embora essa realidade já não fosse
identificada com Deus nos moldes tradicionais.
Essa continuidade demonstra que o ateísmo católico raramente se reduz ao
materialismo simplificador. Pelo contrário, frequentemente preserva elevada consciência
da profundidade dos problemas metafísicos. A dificuldade não consiste em
ignorar Deus, mas em considerar insuficientes os caminhos tradicionais que
conduziam até Ele. Em muitos casos, a descrença nasce menos da indiferença
religiosa do que da convicção de que a inteligência não conseguiu justificar
racionalmente aquilo que anteriormente aceitava pela fé. A ruptura conserva,
por isso mesmo, caráter profundamente filosófico.
As consequências culturais dessa modalidade de ateísmo também possuem características
próprias. Como a tradição católica sempre desenvolveu forte concepção de ordem
objetiva, lei natural e bem comum, sua negação frequentemente produz intenso
debate acerca dos fundamentos da moral e do direito. Se Deus deixa de
constituir o princípio último da ordem, torna-se necessário encontrar outro
fundamento capaz de justificar a dignidade humana, os deveres morais e a
legitimidade das instituições. Grande parte da filosofia moral contemporânea
pode ser compreendida precisamente como tentativa de responder a essa questão.
O problema herdado da metafísica permanece vivo mesmo quando sua solução
tradicional já não é aceita.
Isso explica por que o ateísmo oriundo do ambiente católico apresenta
frequentemente extraordinária densidade intelectual. Sua genealogia obriga-o a
enfrentar diretamente problemas que outras formas de descrença podem
simplesmente contornar. A pergunta pelo ser, pela verdade, pela finalidade e
pela natureza da pessoa humana continua impondo-se com força incomum. A negação
de Deus não elimina essas questões; apenas torna mais difícil sua solução. Em
consequência, essa modalidade de ateísmo frequentemente produz filosofias
sofisticadas, mas igualmente marcadas por permanente tensão entre a herança
metafísica recebida e a impossibilidade de conservar integralmente seu
fundamento transcendente.
Sob a perspectiva da religião comparada, essa forma de descrença revela
novamente o princípio estabelecido no início desta obra. O ateísmo conserva
muito da tradição que combate. O homem pode abandonar a fé católica;
dificilmente abandona de imediato a estrutura intelectual que essa fé ajudou a
formar. Sua maneira de perguntar continua sendo, durante longo tempo,
profundamente católica, ainda quando suas respostas já não o sejam. É justamente
essa permanência silenciosa que distingue o ateísmo católico das demais
modalidades de descrença e que permitirá, nos artigos seguintes, compreender
como outras tradições religiosas deram origem a formas profundamente diferentes
de negar Deus.
Capítulo II
Artigo VII — O Ateísmo Judaico
Entre todas as modalidades de ateísmo examinadas nesta obra, poucas exigem
tantos cuidados metodológicos quanto aquela surgida no interior do judaísmo.
Isso ocorre porque o judaísmo nunca foi apenas uma religião no sentido estrito
da palavra. Desde suas origens, constituiu simultaneamente um povo, uma
tradição jurídica, uma memória histórica, uma língua sagrada, uma cultura e uma
forma específica de compreender a relação entre Deus e a humanidade.
Consequentemente, o abandono da crença em Deus não implica necessariamente o
abandono da identidade judaica. Ao longo da história moderna surgiram numerosos
pensadores que permaneceram profundamente inseridos na tradição cultural
judaica enquanto recusavam explicitamente a existência de Deus. A descrença
desenvolveu-se, assim, não como ruptura completa com a civilização de origem,
mas como transformação de um de seus elementos fundamentais.
Essa característica distingue imediatamente o ateísmo judaico das formas
anteriormente analisadas. No protestantismo e no catolicismo, a religião tende
a organizar a totalidade da vida espiritual em torno da fé em Cristo e da
comunidade eclesial. No judaísmo, embora a fé em Deus permaneça absolutamente
central, ela encontra-se inseparavelmente ligada à história concreta de Israel,
à Aliança, à Torá e à continuidade de um povo através dos séculos. A identidade
religiosa e a identidade histórica desenvolvem-se de maneira profundamente
entrelaçada. Quando alguns intelectuais modernos abandonam a fé, continuam
frequentemente preservando intenso vínculo com essa memória coletiva. A
genealogia da descrença permanece, portanto, fortemente marcada pela
consciência histórica.
O Deus da tradição judaica manifesta-se, antes de tudo, como o Deus da
Aliança. Sua relação com o homem não aparece inicialmente como especulação
metafísica acerca do fundamento do ser, mas como iniciativa histórica pela qual
Deus chama um povo, estabelece uma Lei e conduz progressivamente sua história.
A revelação possui caráter concreto. Ela acontece em acontecimentos, promessas,
libertações e mandamentos. A verdade religiosa encontra-se continuamente ligada
à fidelidade da memória. O homem conhece Deus porque participa de uma história
que interpreta sua própria existência à luz dessa presença divina.
Quando essa fé começa a ser questionada durante a modernidade, a ruptura
assume feição peculiar. Muitos pensadores deixam de reconhecer a origem
sobrenatural da Aliança, mas conservam a importância da história como categoria
fundamental da experiência humana. A expectativa religiosa transforma-se
frequentemente numa expectativa histórica. A esperança messiânica desloca-se
para projetos políticos, sociais ou culturais. O povo permanece; modifica-se o
fundamento transcendente que anteriormente orientava sua caminhada. A própria
ideia de missão histórica continua viva, ainda que reinterpretada em termos
puramente seculares.
Esse fenômeno torna-se particularmente evidente em diversos movimentos
intelectuais dos séculos XIX e XX. Muitos autores de origem judaica permaneceram
profundamente sensíveis às questões da justiça, da libertação, da
responsabilidade coletiva e da transformação histórica mesmo depois de
abandonarem a fé religiosa tradicional. Não se trata de afirmar que essas
ideias pertençam exclusivamente ao judaísmo, mas de reconhecer que sua forma
específica de articulação frequentemente conserva elementos herdados da
tradição bíblica. A estrutura permanece reconhecível mesmo quando seu
fundamento teológico deixa de ser explicitamente admitido.
Essa permanência manifesta-se também na maneira como muitos desses
pensadores compreendem a história. Enquanto determinadas correntes filosóficas
tendem a perceber o tempo como sucessão de acontecimentos sem direção objetiva,
o pensamento oriundo do horizonte judaico frequentemente conserva forte
percepção da história como processo dotado de significado. Mesmo quando Deus
desaparece da narrativa, permanece frequentemente a convicção de que os
acontecimentos caminham para alguma forma de realização futura. O conteúdo dessa
realização modifica-se; a estrutura da expectativa continua surpreendentemente
semelhante.
Outro aspecto digno de atenção encontra-se na extraordinária valorização da
inteligência característica da tradição judaica. Durante séculos, o estudo da
Torá, do Talmude e da literatura rabínica desenvolveu uma cultura do debate, da
interpretação e da argumentação raramente igualada por outras civilizações.
Quando parte dessa tradição migra para ambientes seculares, essa disciplina
intelectual frequentemente permanece intacta. O objeto do estudo transforma-se;
o método de investigação conserva notável continuidade. Não poucos filósofos,
cientistas e intelectuais ateus oriundos do judaísmo revelam precisamente essa
herança de rigor interpretativo, ainda que já não a coloquem a serviço da fé
religiosa.
Isso explica por que o ateísmo judaico raramente se caracteriza por simples
indiferença diante da religião. Em muitos casos, mantém diálogo intenso com os
textos bíblicos, com a tradição rabínica e com os grandes problemas teológicos
da história de Israel. A negação não elimina o interlocutor. Deus continua
ocupando posição central, ainda que agora como objeto de contestação, silêncio
ou ausência. A própria intensidade do debate revela quanto a tradição anterior
permanece viva na estrutura da inteligência.
As consequências culturais dessa modalidade de descrença também diferem
significativamente das demais. A perda da fé não conduz necessariamente ao
abandono da identidade comunitária, da valorização da educação, da responsabilidade
moral ou da memória histórica. Muitos desses elementos continuam desempenhando
papel organizador da vida coletiva. O fundamento teológico é substituído, mas a
importância atribuída ao estudo, à justiça, à continuidade histórica e à
responsabilidade diante das gerações futuras frequentemente permanece
notavelmente preservada.
Sob a perspectiva da religião comparada, o ateísmo judaico confirma
novamente o princípio desenvolvido desde o início desta investigação. O homem
nunca nega um Deus abstrato. Ele nega o Deus concreto da tradição que o formou.
No caso judaico, essa negação continua marcada pela memória da Aliança, pela
centralidade da história e pela disciplina intelectual construída ao longo de
milênios. A descrença modifica profundamente a estrutura da fé, mas não elimina
imediatamente a forma espiritual que organizou a existência daquele povo. É
justamente essa continuidade que distingue essa modalidade de ateísmo e que
permitirá compreender, no artigo seguinte, como a tradição islâmica dará origem
a uma configuração inteiramente diversa da relação entre Deus, o homem e a
própria possibilidade da descrença.
Capítulo II
Artigo VIII — O Ateísmo Islâmico
Entre as grandes tradições religiosas da humanidade, o islamismo ocupa uma
posição singular no estudo do ateísmo. Não porque a descrença seja impossível
em seu interior, mas porque sua estrutura teológica torna a negação de Deus
qualitativamente diferente daquela observada no cristianismo ou no judaísmo.
Enquanto a tradição cristã desenvolveu extensas sínteses metafísicas acerca do
ser e o judaísmo organizou sua experiência religiosa em torno da história da
Aliança, o islã construiu sua unidade principalmente sobre a absoluta
transcendência de Deus e sobre a submissão integral da criatura à Sua vontade.
A palavra islām, em seu sentido mais profundo, exprime precisamente
essa entrega. Consequentemente, abandonar essa visão não significa apenas
deixar de acreditar em Deus; significa romper com um princípio que organiza
simultaneamente religião, direito, moral, política e vida cotidiana.
Desde sua origem, a doutrina islâmica afirma de maneira rigorosa a unidade
absoluta de Deus (tawḥīd). Nenhuma realidade criada participa de Sua
essência; nenhuma criatura compartilha Sua soberania. Deus não constitui apenas
o maior dos seres. Ele é absolutamente incomparável com tudo o que existe. Essa
transcendência radical molda toda a antropologia islâmica. O homem encontra sua
dignidade precisamente porque reconhece sua condição de criatura e orienta
livremente sua existência segundo a vontade divina revelada. A ordem moral não
nasce primariamente da autonomia da consciência, mas da conformidade entre a
vida humana e a vontade de Deus expressa na revelação.
Essa característica modifica profundamente a natureza da descrença quando
ela surge em ambientes islâmicos. O problema raramente se apresenta, como
ocorreu em diversos contextos cristãos, sob a forma de uma crítica às
demonstrações metafísicas da existência de Deus. Tampouco aparece inicialmente
como revisão histórica das Escrituras nos moldes desenvolvidos pela crítica
bíblica europeia. A ruptura dirige-se, antes de tudo, contra a autoridade
absoluta da revelação e contra a ideia de que toda a ordem da existência humana
deva permanecer subordinada a ela. A questão assume, portanto, dimensão
simultaneamente religiosa, jurídica e civilizacional.
Historicamente, essa transformação tornou-se mais intensa durante o contato
do mundo islâmico com a modernidade europeia. O desenvolvimento científico, a
filosofia iluminista, os Estados nacionais, o constitucionalismo e diversas
correntes políticas modernas introduziram formas de organização social
distintas daquelas tradicionalmente vinculadas à civilização islâmica. Em
muitos ambientes intelectuais, a tensão não surgiu imediatamente entre fé e
razão, mas entre duas concepções diferentes de ordem civilizacional. A
descrença apareceu frequentemente associada ao processo de secularização,
entendido como separação entre autoridade religiosa e organização política da
sociedade.
Essa genealogia explica por que o ateísmo islâmico costuma apresentar
características distintas das modalidades anteriormente examinadas. Em
numerosos casos, sua preocupação central não consiste em demonstrar
filosoficamente a inexistência de Deus, mas em reivindicar autonomia da vida
pública em relação à autoridade religiosa. A crítica desloca-se do plano
estritamente metafísico para o plano institucional. A pergunta deixa de ser
apenas "Deus existe?" e passa igualmente a ser "qual deve ser o
lugar da religião na organização da sociedade?". Embora ambas as questões
possam coexistir, sua ordem histórica frequentemente se inverte.
Entretanto, assim como nas demais tradições, a ruptura não elimina
completamente a herança recebida. Mesmo quando abandona a crença religiosa, o
intelectual formado na cultura islâmica continua frequentemente conservando
forte percepção da unidade entre vida moral, comunidade e ordem social. A
tendência para compreender a religião como realidade pública, e não apenas
privada, permanece influenciando seu modo de pensar. A estrutura da totalidade
sobrevive muitas vezes à perda de seu fundamento teológico. Aquilo que antes
era organizado pela submissão a Deus procura novo princípio capaz de conservar
a coesão da comunidade.
Essa continuidade revela um aspecto importante da religião comparada. O
ateísmo raramente destrói completamente a arquitetura espiritual da civilização
em que nasce. Ele modifica seu centro de gravidade. Em diferentes contextos
islâmicos, ideias como nacionalismo, socialismo, racionalismo ou secularismo
procuraram desempenhar funções anteriormente exercidas pela religião. Não se
trata de simples substituições mecânicas, mas de tentativas de reorganizar a
unidade da vida coletiva mediante fundamentos distintos. A necessidade de uma
ordem permanece; altera-se apenas o princípio ao qual essa ordem será
atribuída.
Sob o ponto de vista antropológico, essa transformação produz consequências
relevantes. Quando a submissão à vontade divina deixa de constituir o
fundamento da existência, torna-se necessário redefinir a origem da autoridade
moral, da legitimidade política e da responsabilidade individual. Em algumas
correntes, essa função passa a ser atribuída à razão; em outras, ao Estado; em
outras ainda, à própria comunidade humana. Cada resposta corresponde a uma
maneira diferente de preencher o espaço anteriormente ocupado pela
transcendência. O problema não desaparece; apenas muda de formulação.
Essa observação impede igualmente um equívoco frequente. O ateísmo islâmico
não pode ser explicado simplesmente pela importação de ideias ocidentais, como
se fosse fenômeno completamente estranho à história intelectual do islã. Embora
diversas influências modernas tenham desempenhado papel decisivo, a forma
concreta assumida pela descrença depende sempre da tradição religiosa na qual
ela se desenvolve. Os mesmos conceitos filosóficos produzem efeitos diferentes
quando entram em diálogo com estruturas espirituais distintas. A genealogia
permanece determinante para compreender a configuração específica de cada
modalidade de ateísmo.
Ao concluir este capítulo dedicado às tradições abraâmicas, torna-se
possível perceber com maior clareza a tese desenvolvida desde o início da obra.
O protestantismo, o catolicismo, o judaísmo e o islamismo deram origem a formas
de descrença profundamente diferentes porque cada um deles apresenta uma
compreensão própria de Deus, do homem, da história e da ordem do mundo. A
negação acompanha inevitavelmente a forma da afirmação anterior. Não existe,
portanto, um ateísmo abstrato. Existem múltiplos ateísmos, cada qual
refletindo, como uma imagem invertida, a tradição espiritual da qual nasceu.
Essa conclusão servirá de ponto de partida para o capítulo seguinte, no qual
deixaremos o terreno das religiões históricas para examinar as modalidades de
ateísmo surgidas diretamente no interior da tradição filosófica ocidental.
Capítulo III
Artigo IX — O Ateísmo Platônico e Aristotélico
Ao deixar para trás as grandes tradições religiosas abraâmicas, a
investigação encontra uma forma de descrença cuja origem pertence diretamente
ao universo filosófico. Essa mudança modifica profundamente o problema. Nas
religiões anteriormente estudadas, Deus aparecia inseparavelmente ligado à
revelação, à história sagrada e à comunidade dos fiéis. Na tradição filosófica
grega, porém, a questão assume outra configuração. O problema já não consiste
inicialmente em saber se Deus falou aos homens, mas em compreender se a própria
estrutura da realidade exige um princípio absoluto capaz de explicar sua
inteligibilidade. O ateísmo filosófico nasce precisamente quando essa
necessidade passa a ser recusada.
Essa distinção possui enorme importância metodológica. O filósofo que
rejeita o Deus de Platão ou de Aristóteles não está, em primeiro lugar, combatendo
uma religião positiva. Sua crítica dirige-se contra uma conclusão metafísica. A
discussão desloca-se do campo da fé para o da razão especulativa. A pergunta
fundamental deixa de ser "devemos acreditar?" e passa a ser "o
ser exige um fundamento transcendente?". A genealogia dessa modalidade de
ateísmo encontra-se, portanto, na própria história da metafísica ocidental.
Em Platão, o problema aparece sob a forma do Bem absoluto. Todas as coisas
participam de uma ordem inteligível que ultrapassa a multiplicidade do mundo
sensível. O conhecimento somente se torna possível porque existe uma realidade
permanente diante da qual o intelecto pode orientar-se. As Ideias não
representam simples conceitos produzidos pela mente humana; constituem a
estrutura objetiva da inteligibilidade. Acima delas encontra-se o Bem,
princípio supremo que ilumina simultaneamente o ser e o conhecimento. Negar
essa estrutura significa muito mais do que rejeitar determinada doutrina
religiosa. Significa abandonar a própria convicção de que existe uma ordem
objetiva capaz de fundamentar a verdade.
Aristóteles desenvolve essa intuição em linguagem diferente. Em vez de
concentrar sua investigação na participação das Ideias, procura compreender a
estrutura concreta dos entes. A análise do movimento conduz progressivamente ao
Primeiro Motor Imóvel; a investigação da causalidade conduz à causa primeira; a
reflexão sobre o conhecimento conduz à inteligibilidade do ser. Deus não
aparece como hipótese introduzida para preencher lacunas da ciência, mas como
conclusão de uma investigação metafísica acerca das condições permanentes da
realidade. Sua função consiste em explicar por que o ser é inteligível e por
que toda potência tende naturalmente ao ato.
Quando a modernidade começa a abandonar essa arquitetura, o alvo da crítica
não é inicialmente Deus enquanto objeto de culto, mas a própria possibilidade
da metafísica. A pergunta transforma-se silenciosamente. Em vez de investigar
se a realidade exige um fundamento último, muitos filósofos passam a perguntar
se a inteligência humana possui legitimidade para formular esse tipo de
questão. A dúvida desloca-se do objeto para o método. Antes de negar Deus,
torna-se necessário limitar o alcance da razão. A crítica da metafísica prepara
o terreno para o ateísmo filosófico.
Esse deslocamento manifesta-se com clareza crescente a partir do empirismo
moderno. Se todo conhecimento deriva exclusivamente da experiência sensível,
qualquer realidade que ultrapasse esse domínio torna-se inacessível. Deus deixa
de ser negado diretamente; passa a ser considerado objeto impossível de
conhecimento. A consequência prática, porém, aproxima-se da descrença. O
fundamento metafísico da realidade torna-se intelectualmente irrelevante. A
filosofia passa a organizar-se sem necessidade de recorrer ao absoluto,
concentrando-se exclusivamente nos fenômenos observáveis ou nas operações da
consciência.
Entretanto, essa ruptura produz um efeito inesperado. Ao eliminar o
princípio transcendente da inteligibilidade, a própria ideia de verdade
objetiva começa lentamente a perder estabilidade. Se não existe fundamento
permanente do ser, torna-se progressivamente mais difícil justificar por que o
conhecimento corresponde efetivamente à realidade. A metafísica desaparece, mas
o problema que ela procurava resolver permanece intacto. Diversas correntes
filosóficas dos séculos XIX e XX serão precisamente tentativas de responder a
essa dificuldade mediante novos fundamentos: a história, a linguagem, a
consciência, a vontade ou a própria estrutura social.
É justamente aqui que se encontra a diferença essencial entre o ateísmo
filosófico e as modalidades anteriormente estudadas. O filósofo não substitui
imediatamente Deus por outra divindade cultural. Sua primeira operação consiste
em modificar a própria estrutura do conhecimento. Alterando a maneira pela qual
a inteligência compreende o ser, altera simultaneamente a possibilidade de toda
metafísica. O problema religioso aparece então como consequência de uma reforma
epistemológica. A descrença nasce da transformação da filosofia antes de
manifestar-se como transformação da religião.
Todavia, mesmo essa ruptura conserva marcas profundas da tradição que
combate. O ateísmo platônico continua preocupado com a verdade objetiva; o
aristotélico permanece interessado na inteligibilidade da realidade. Ambos
conservam perguntas cuja origem pertence inteiramente à metafísica clássica. A
diferença encontra-se nas respostas. A estrutura do problema permanece
surpreendentemente estável, demonstrando mais uma vez que a negação raramente
consegue libertar-se completamente daquilo que procura negar. O diálogo com
Platão e Aristóteles continua existindo, ainda que agora sob a forma da recusa.
Esse aspecto explica por que a filosofia contemporânea continua retornando
incessantemente aos gregos. Mesmo autores profundamente críticos da metafísica
clássica permanecem obrigados a confrontar-se com problemas formulados por ela:
o ser, a verdade, a causalidade, a finalidade, a substância e a
inteligibilidade do mundo. A tradição filosófica demonstra, assim, possuir
continuidade muito maior do que normalmente se imagina. O ateísmo filosófico
não inaugura um universo inteiramente novo. Ele constitui mais um capítulo da
longa discussão iniciada pelos próprios fundadores da metafísica ocidental.
Compreender essa continuidade será indispensável para examinar, no próximo
artigo, as formas de descrença dirigidas especificamente contra a síntese
cristã realizada por Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino.
Capítulo III
Artigo X — O Ateísmo Agostiniano e Tomista
Se o ateísmo dirigido contra Platão e Aristóteles nasce da recusa da
metafísica clássica, a descrença surgida no interior da tradição agostiniana e
tomista apresenta natureza ainda mais complexa. Não se trata apenas de negar
determinados princípios filosóficos, mas de romper com uma síntese que procurou
integrar razão e revelação numa única arquitetura intelectual. Santo Agostinho
e Santo Tomás não apenas falaram de Deus; fizeram de Deus o princípio a partir
do qual toda a realidade, todo conhecimento e toda a existência humana recebiam
unidade. Consequentemente, negar essa síntese exige reconstruir praticamente
toda a compreensão do homem, do mundo e da história.
Em Santo Agostinho, Deus manifesta-se inicialmente como Verdade. O caminho
da inteligência dirige-se para o interior da própria consciência, onde o homem
descobre que nenhuma verdade particular pode explicar a si mesma. Toda certeza
pressupõe uma Verdade superior à inteligência que a contempla. Quando o homem
reconhece princípios universais, como a identidade, a justiça ou o bem, percebe
simultaneamente que essas realidades não dependem de sua vontade. Elas
permanecem verdadeiras ainda que toda a humanidade as negasse. Deus aparece,
assim, como fundamento da própria possibilidade do conhecimento. A alma não
produz a verdade; participa dela.
Essa concepção possui enorme importância para compreender a genealogia da
descrença moderna. O ateísmo agostiniano não consiste simplesmente em abandonar
práticas religiosas ou rejeitar determinados dogmas. Sua ruptura dirige-se
contra a ideia de que exista uma Verdade objetiva anterior à consciência
humana. Quando esse fundamento desaparece, a própria teoria do conhecimento
precisa ser reorganizada. A verdade deixa gradualmente de ser descoberta para
tornar-se construída. A inteligência deixa de participar da ordem eterna e passa
a organizar autonomamente sua experiência. A mudança parece exclusivamente
epistemológica; suas consequências, entretanto, alcançam toda a antropologia.
Santo Tomás de Aquino desenvolve essa estrutura em direção ainda mais
abrangente. Enquanto Agostinho enfatiza a iluminação da inteligência, Tomás
procura compreender a própria existência dos entes. Sua investigação conduz à
formulação de uma das teses centrais da metafísica cristã: Deus não é apenas o
maior dos seres. É o próprio Ser subsistente, Aquele cuja essência consiste em
existir. Todos os demais entes possuem existência recebida; Deus existe por Si
mesmo. Essa distinção modifica inteiramente a compreensão da realidade. O
universo deixa de ser simples conjunto de objetos e passa a constituir participação
contínua no ato de existir comunicado pelo Criador.
Negar essa concepção significa muito mais do que afirmar que Deus não
existe. Significa recusar a própria distinção entre ser necessário e seres
contingentes. O problema desloca-se novamente para a metafísica. Antes de
abandonar Deus, torna-se necessário demonstrar que a realidade pode ser
plenamente explicada sem recorrer a um fundamento cuja essência seja o próprio
existir. O ateísmo tomista nasce, portanto, da tentativa de construir uma ontologia
capaz de dispensar o princípio do ser absoluto. Sua dificuldade não consiste
apenas em responder às cinco vias apresentadas por Tomás, mas em oferecer uma
explicação alternativa para a própria inteligibilidade da existência.
Foi precisamente esse caminho que grande parte da filosofia moderna procurou
seguir. Em vez de perguntar pelo fundamento do ser, deslocou a investigação
para o sujeito que conhece. A metafísica cedeu lugar à teoria do conhecimento.
O centro da filosofia deixou de ser Deus enquanto princípio do real e passou a
ser a consciência enquanto princípio da experiência. Essa mudança permitiu
extraordinário desenvolvimento da reflexão epistemológica, mas produziu
igualmente uma consequência inevitável: a questão do ser perdeu progressivamente
sua posição central. A filosofia passou a investigar as condições do conhecer
antes das condições do existir.
Entretanto, a herança agostiniana e tomista permaneceu surpreendentemente
viva mesmo entre numerosos autores descrentes. A busca de fundamentos universais
para a moral, o interesse pela dignidade objetiva da pessoa humana, a convicção
de que a verdade possui validade para todos os homens e a própria exigência de
coerência racional conservam traços evidentes da tradição metafísica cristã. Em
muitos casos, a estrutura permaneceu intacta enquanto apenas seu fundamento
transcendente era substituído por outro princípio. A razão, a humanidade, a
história ou a autonomia moral passaram sucessivamente a ocupar posições
anteriormente atribuídas a Deus.
Essa continuidade revela um aspecto frequentemente negligenciado da história
intelectual do Ocidente. A modernidade não destruiu simplesmente a metafísica
cristã. Em larga medida, procurou redistribuir suas funções. A providência
transformou-se em progresso histórico; a lei natural converteu-se em direitos
universais; a vocação da pessoa foi reinterpretada como autonomia; a esperança
escatológica reapareceu sob a forma de utopias políticas ou sociais. Muitas
categorias permaneceram extraordinariamente semelhantes, embora agora
desligadas de sua origem teológica. A genealogia da descrença mostra novamente
que a negação dificilmente consegue libertar-se completamente da tradição que
lhe deu nascimento.
Isso explica por que o ateísmo oriundo da tradição agostiniana e tomista
apresenta frequentemente intenso caráter metafísico. Mesmo quando rejeita Deus,
continua interrogando o fundamento da verdade, da liberdade, da moral e da
existência. As perguntas permanecem profundamente cristãs em sua estrutura.
Apenas as respostas procuram novos caminhos. A ruptura nunca é absoluta. Ela
conserva o formato intelectual da tradição anterior, ainda que substitua
progressivamente seus princípios fundamentais.
Sob a perspectiva da religião comparada e da história das ideias, essa modalidade
de ateísmo confirma mais uma vez a tese central desta obra. A descrença nunca
representa simples ausência. Ela reorganiza uma herança recebida. O homem que
abandona a síntese agostiniana e tomista continua frequentemente pensando
segundo categorias que essa própria síntese ajudou a formar. Sua filosofia
permanece em diálogo permanente com aquilo que procura superar. É justamente
essa continuidade que distingue o ateísmo nascido da metafísica cristã das
demais formas de descrença e prepara o terreno para compreender, no artigo
seguinte, como o deísmo iluminista acabaria abrindo caminho para um ateísmo de
natureza completamente diversa.
Capítulo III
Artigo XI — O Ateísmo Deísta e Iluminista
Se as formas de ateísmo anteriormente estudadas nasceram da transformação
interna de tradições religiosas ou metafísicas, o deísmo iluminista ocupa uma
posição intermediária e decisiva na história intelectual do Ocidente. Ele não
começa negando Deus. Pelo contrário, procura preservá-Lo. Entretanto, ao
modificar profundamente a maneira de compreendê-Lo, acaba preparando as
condições para que, poucas gerações mais tarde, a própria ideia de Deus se
tornasse dispensável para grande parte da filosofia moderna. O deísmo não
constitui ainda um ateísmo, mas representa uma das etapas mais importantes de
sua genealogia.
O contexto histórico dessa transformação encontra-se no extraordinário
desenvolvimento das ciências naturais entre os séculos XVII e XVIII. O universo
revelava uma ordem matemática impressionante. As leis da mecânica pareciam
explicar o movimento dos corpos com precisão inédita. A astronomia ampliava
continuamente a compreensão do cosmos. Muitos pensadores passaram então a
perguntar se essa regularidade universal não exigiria um Criador racional que
houvesse estabelecido, no princípio, toda a estrutura do universo. Deus
permanecia presente, mas Sua função começava lentamente a modificar-se.
Na tradição cristã, Deus nunca havia sido apenas o Criador inicial do
universo. Permanecia continuamente presente como providência, sustentando o ser
das criaturas, governando a história, respondendo à oração e relacionando-Se
pessoalmente com o homem. O deísmo reduz progressivamente essa presença. Deus
transforma-se no grande arquiteto do cosmos, aquele que estabelece as leis naturais
e permite que o universo funcione segundo elas. Depois desse ato originário,
Sua intervenção torna-se cada vez menos necessária. O mundo adquire autonomia
crescente. A criação permanece; a providência torna-se discreta.
Essa mudança altera profundamente a estrutura da religião. A revelação perde
importância diante da razão natural. Os milagres passam a ser considerados
improváveis ou desnecessários. Os sacramentos deixam de ocupar posição central.
A religião tende a reduzir-se à moral universal fundada na racionalidade
humana. Deus continua existindo, mas Sua presença concreta na história torna-se
progressivamente mais distante. A relação pessoal entre Criador e criatura cede
espaço a uma ordem cósmica regulada por leis universais e permanentes.
À primeira vista, essa concepção parece fortalecer a crença. Afinal, procura
conciliá-la com os avanços da ciência e da razão. Entretanto, precisamente aí
se encontra sua fragilidade filosófica. Quanto mais perfeitamente as leis
naturais explicam o funcionamento do universo, menos evidente parece tornar-se
a necessidade de um Criador que permaneça ativo. Se Deus apenas deu início ao
mecanismo cósmico, e esse mecanismo funciona perfeitamente por si mesmo, a
pergunta inevitavelmente surge: por que supor Sua existência contínua? O deísmo
introduz, sem o desejar, uma concepção de Deus cuja ausência prática parece
produzir poucas consequências observáveis.
Esse deslocamento modifica igualmente a compreensão da moral. Na tradição
cristã, a moral nasce da participação do homem na ordem querida por Deus e
orienta-se para uma finalidade sobrenatural. O iluminismo procura reconstruí-la
sobre fundamentos exclusivamente racionais. O bem passa a depender menos da
vontade divina e mais da própria natureza racional do homem. Essa transformação
produz importantes contribuições para a filosofia política, para o direito e
para a teoria moral. Contudo, também desloca novamente o centro da reflexão. A
razão deixa de ser instrumento para compreender uma ordem superior e passa
progressivamente a ocupar o lugar dessa própria ordem.
Essa substituição manifesta-se claramente na geração seguinte. Se a razão
basta para explicar a natureza e fundamentar a moral, Deus torna-se
intelectualmente cada vez menos indispensável. O passo do deísmo para o ateísmo
deixa de exigir ruptura radical. Basta retirar o Criador de um sistema que já
havia aprendido a funcionar quase inteiramente sem Sua presença efetiva. A
passagem realiza-se de maneira gradual. Primeiro desaparecem os milagres;
depois a revelação; em seguida a providência; finalmente, o próprio Criador
torna-se hipótese considerada supérflua. A arquitetura permanece quase intacta.
Apenas seu fundamento último é silenciosamente removido.
Esse processo explica por que tantos filósofos posteriores herdaram
categorias iluministas mesmo quando abandonaram completamente o deísmo. A
confiança na razão universal, na autonomia do homem, no progresso histórico e
na existência de leis naturais capazes de organizar toda a realidade continuou
estruturando grande parte da filosofia moderna. O absoluto deslocou-se
novamente. Aquilo que antes era atribuído à ação providente de Deus passou a
ser confiado à racionalidade humana ou às leis da natureza. O universo
permaneceu ordenado; apenas deixou de necessitar explicitamente de um ordenador
permanente.
Sob a perspectiva da religião comparada, o deísmo revela um fenômeno
recorrente na história das ideias. Muitas vezes, uma tradição não desaparece
por oposição frontal, mas por sucessivas reduções de seu conteúdo. Cada geração
conserva parte da herança recebida e abandona outro aspecto. O resultado final
pode parecer uma ruptura completa, quando, na realidade, representa uma longa
cadeia de pequenas transformações. O ateísmo moderno não surgiu repentinamente
no século XIX. Foi preparado por mudanças graduais que alteraram lentamente a
posição ocupada por Deus dentro da própria inteligência ocidental.
Essa observação confirma novamente a tese central desta obra. O ateísmo não
nasce simplesmente da negação. Ele frequentemente nasce de uma redefinição.
Antes que Deus seja recusado, Sua função dentro da visão de mundo é modificada.
Antes que desapareça da filosofia, torna-se progressivamente menos necessário
para explicar a realidade. O deísmo iluminista constitui talvez o exemplo mais
claro desse processo. Pretendendo preservar a crença mediante sua adaptação à
razão moderna, acabou oferecendo à própria modernidade os instrumentos
intelectuais que tornariam possível uma filosofia inteiramente construída sem
referência ao Deus que desejava conservar. É precisamente dessa transformação
que nascerá, no artigo seguinte, o ateísmo existencial, onde a questão já não
será explicar o universo, mas enfrentar a condição humana depois da ausência de
qualquer fundamento transcendente.
Capítulo III
Artigo XII — O Ateísmo Existencial
Entre todas as modalidades de ateísmo examinadas nesta obra, nenhuma talvez
tenha penetrado tão profundamente na cultura contemporânea quanto aquela
desenvolvida pela filosofia existencial. Sua originalidade não consiste em
apresentar novos argumentos contra a existência de Deus. Sob esse aspecto,
pouco acrescenta às críticas já formuladas pelo materialismo, pelo positivismo
ou pelo racionalismo moderno. Sua novidade encontra-se em outro lugar. O
problema central deixa de ser Deus e passa a ser o homem. A pergunta decisiva
já não consiste em demonstrar racionalmente a inexistência da transcendência,
mas em compreender qual significado permanece possível para a existência humana
quando toda referência absoluta desaparece. O centro da filosofia desloca-se
definitivamente da metafísica para a experiência concreta da existência.
Essa transformação não ocorreu de maneira abrupta. Ela foi preparada por
todo o desenvolvimento filosófico da modernidade. À medida que Deus deixava de
ocupar o lugar de fundamento objetivo da realidade, crescia inevitavelmente a
responsabilidade atribuída ao próprio homem. A razão tornou-se progressivamente
autônoma; a moral procurou justificar-se sem recorrer à transcendência; a
política organizou-se segundo princípios seculares; a ciência passou a explicar
o universo sem necessidade de causas sobrenaturais. Restava ainda uma questão
que nenhuma dessas transformações conseguira resolver: qual é o sentido da
existência humana quando o fundamento último da realidade deixa de existir?
É precisamente nesse ponto que o existencialismo inicia sua investigação. O
homem já não aparece como criatura chamada a participar de uma ordem objetiva
do ser. Surge como um indivíduo lançado num universo silencioso, obrigado a
construir por si mesmo o significado de sua própria vida. A liberdade adquire
dimensão inédita. Não representa apenas a capacidade de escolher entre
diferentes bens, mas a responsabilidade de determinar autonomamente o valor das
próprias escolhas. A existência deixa de possuir finalidade recebida; torna-se
tarefa continuamente construída pela decisão humana.
Essa concepção modifica profundamente a antropologia. Na tradição clássica e
cristã, a natureza humana precede as ações do indivíduo. O homem age de
determinada maneira porque possui determinada natureza. No existencialismo
ateu, essa relação tende a inverter-se. A existência concreta antecede qualquer
essência previamente definida. O homem primeiro existe; somente depois,
mediante suas escolhas, constrói aquilo que será. A identidade deixa de ser
descoberta e passa a ser produzida. A liberdade converte-se no princípio
organizador da própria natureza humana.
Essa inversão possui consequências de enorme alcance filosófico. Se não
existe uma natureza objetiva do homem, também desaparece um fundamento
permanente para a moral. O bem deixa de corresponder à realização de
determinada essência e passa a depender da autenticidade com que cada indivíduo
assume suas escolhas. A ética desloca-se da conformidade com uma ordem objetiva
para a fidelidade do sujeito à própria decisão. O problema moral já não
consiste em descobrir o que deve ser feito segundo a natureza humana, mas em
assumir integralmente a responsabilidade pelas próprias ações.
Entretanto, essa ampliação da liberdade produz simultaneamente um peso que
nenhuma tradição anterior conhecera com semelhante intensidade. Se Deus não
existe, se não há finalidade objetiva e se nenhuma natureza determina
previamente aquilo que o homem deve ser, toda responsabilidade repousa
exclusivamente sobre o próprio indivíduo. Não existe mais autoridade superior
capaz de justificar suas escolhas. Cada decisão torna-se absoluta precisamente
porque nenhuma instância transcendente permanece para confirmá-la ou
corrigi-la. A liberdade transforma-se inseparavelmente em angústia.
É justamente essa experiência da angústia que distingue o ateísmo
existencial das modalidades anteriores. O materialismo preocupava-se
principalmente com a estrutura da realidade física; o positivismo, com os
limites do conhecimento; o deísmo, com a racionalidade do universo. O
existencialismo dirige-se diretamente à experiência vivida do homem. Seu
problema não é explicar o cosmos, mas compreender o drama da liberdade quando
toda referência transcendente desaparece. O silêncio de Deus torna-se menos uma
conclusão lógica do que uma experiência existencial.
Sob a perspectiva da religião comparada, essa modalidade de ateísmo conserva
elementos profundamente cristãos, embora agora invertidos. A centralidade da
pessoa, a importância da decisão moral, a responsabilidade individual e a
singularidade da existência continuam ocupando posição privilegiada. O que
desaparece é o fundamento transcendente que anteriormente lhes conferia
unidade. Em certo sentido, o existencialismo seculariza a antropologia cristã.
Preserva a dignidade da pessoa e a seriedade da liberdade, mas procura
sustentá-las sem recorrer ao Criador.
Essa permanência explica por que muitos autores existencialistas continuam
dialogando intensamente com problemas religiosos, mesmo quando rejeitam
explicitamente a fé. A culpa, o perdão, a esperança, a morte, o sofrimento, o
sentido e a autenticidade permanecem no centro de suas reflexões. A linguagem
muda; os temas permanecem extraordinariamente próximos daqueles desenvolvidos
durante séculos pela tradição cristã. A negação de Deus não elimina o problema
religioso. Apenas desloca sua solução para o interior da própria existência
humana.
Entretanto, exatamente aqui manifesta-se a tensão mais profunda dessa forma
de ateísmo. Ao retirar de Deus o fundamento da dignidade humana, torna-se
necessário justificar por que a liberdade possui valor absoluto. Se o universo
resulta apenas do acaso e da matéria, por que a decisão humana deveria possuir
significado objetivo? Se nenhuma essência precede a existência, por que
determinadas escolhas seriam mais autênticas do que outras? Grande parte da
filosofia existencial dedicou-se precisamente a enfrentar essa dificuldade. A
liberdade precisava tornar-se fundamento de si mesma, tarefa cuja complexidade
marcou profundamente todo o pensamento do século XX.
Sob o ponto de vista histórico, o ateísmo existencial representa o momento
em que a questão de Deus deixa definitivamente de ser apenas uma disputa entre
teólogos ou metafísicos. Ela transforma-se numa questão antropológica. O
problema já não consiste apenas em saber se Deus existe, mas em perguntar que
tipo de homem surge quando Deus deixa de existir. É justamente essa
transformação que torna o existencialismo uma das expressões mais influentes da
descrença moderna. Seu verdadeiro objeto nunca foi apenas Deus; foi, acima de tudo,
o destino da própria pessoa humana diante da ausência de qualquer fundamento
transcendente. É essa problemática que abrirá caminho, no capítulo seguinte,
para os ateísmos explicitamente ideológicos, nos quais a religião deixará de
ser apenas recusada para ser substituída por novos absolutos históricos.
Capítulo IV
Artigo XIII — O Ateísmo Marxista
Se o ateísmo existencial deslocou o problema de Deus para o interior da
experiência humana, o marxismo realizou um movimento diferente e igualmente
decisivo: deslocou-o para a história. A questão deixou de ser metafísica e
passou a ser material. Deus já não aparece como fundamento do ser, nem como
problema da consciência individual, mas como produto das condições econômicas
que organizam a vida social. A religião deixa de ser compreendida como
revelação, erro filosófico ou escolha existencial. Torna-se um fenômeno
histórico cuja origem deve ser procurada nas relações concretas de produção e
nas estruturas de poder existentes em cada sociedade.
Essa mudança representa uma das maiores transformações já ocorridas na
história da descrença. Até então, mesmo os filósofos ateus continuavam
discutindo Deus como problema intelectual. Marx altera completamente a direção
da investigação. Em vez de perguntar se Deus existe, pergunta por que os homens
acreditam que Deus existe. O centro da análise desloca-se do objeto para o
sujeito e, mais precisamente, para as condições materiais que produzem esse
sujeito. A religião deixa de ser explicada pela teologia ou pela metafísica e passa
a ser interpretada pela economia política.
Essa perspectiva possui raízes filosóficas profundas. Marx herda de Hegel a
convicção de que a história constitui o verdadeiro cenário onde a realidade
humana se desenvolve. Contudo, rejeita o idealismo hegeliano, substituindo o
Espírito pelas relações materiais de produção. A história continua sendo o
grande princípio explicativo, mas sua força motriz já não reside nas ideias.
Encontra-se no trabalho, na propriedade, na luta entre as classes sociais e nas
transformações econômicas. A religião passa então a ocupar posição secundária.
Ela não cria a estrutura da sociedade; é criada por ela.
É nesse contexto que surge a célebre afirmação segundo a qual a religião
constitui "o ópio do povo". Frequentemente essa frase é interpretada
de maneira superficial, como simples insulto dirigido às religiões. Entretanto,
seu significado dentro do pensamento marxista é mais amplo. O ópio não apenas
entorpece; também alivia a dor. Marx reconhece que a religião oferece consolo ao
sofrimento humano. Sua crítica consiste em afirmar que esse consolo impede o
homem de enfrentar as verdadeiras causas de sua miséria. Enquanto procura
salvação numa realidade transcendente, deixa intactas as estruturas materiais
responsáveis por sua condição histórica.
Essa interpretação modifica profundamente a natureza do ateísmo. Deus deixa
de ser visto como hipótese falsa acerca do universo e passa a ser compreendido
como consequência necessária de determinadas condições sociais. A religião
torna-se sintoma, não causa. Combatê-la diretamente produziria poucos
resultados enquanto permanecessem intactas as relações econômicas que a geram.
O verdadeiro combate deve dirigir-se contra a estrutura material da sociedade.
Eliminada a alienação econômica, a própria necessidade da religião
desapareceria naturalmente.
Essa concepção produz uma das primeiras grandes substituições sistemáticas
da transcendência por um princípio histórico. O lugar anteriormente ocupado
pela providência divina passa a ser desempenhado pelo desenvolvimento dialético
da história. A esperança escatológica transforma-se na expectativa da sociedade
sem classes. A redenção deixa de ser sobrenatural e converte-se em emancipação
econômica. O Reino de Deus é substituído pela realização histórica do
comunismo. A estrutura da expectativa permanece extraordinariamente semelhante;
modifica-se apenas o fundamento ao qual ela se dirige.
É precisamente esse aspecto que torna o marxismo um objeto privilegiado da
religião comparada. Embora se apresente como crítica radical da religião,
conserva diversos elementos característicos das grandes tradições religiosas.
Possui narrativa da origem, diagnóstico da queda, promessa de libertação,
comunidade dos fiéis, textos fundamentais, intérpretes autorizados e uma
expectativa de consumação histórica. Não se trata de afirmar que o marxismo
seja uma religião no sentido teológico da palavra, mas de reconhecer que
desempenha, para muitos de seus adeptos, funções anteriormente exercidas pela
religião. O absoluto não desaparece; apenas muda de lugar.
Essa continuidade manifesta-se igualmente na moral. Embora Marx critique as
fundamentações religiosas da ética, sua filosofia permanece profundamente
orientada pela ideia de justiça histórica. A exploração do homem pelo homem não
constitui apenas fenômeno econômico; representa realidade moralmente
intolerável. O problema consiste em justificar objetivamente essa
intolerabilidade depois que Deus deixa de ocupar o lugar de fundamento último
da ordem moral. Em grande medida, o marxismo transfere essa fundamentação para
a própria história. A direção objetiva do processo histórico passa a legitimar
aquilo que deve ser considerado justo ou injusto.
As consequências culturais dessa modalidade de ateísmo ultrapassaram
largamente o domínio da filosofia. Durante o século XX, diversas experiências
políticas inspiradas pelo marxismo procuraram reorganizar integralmente a
sociedade segundo seus princípios. A religião foi frequentemente considerada
obstáculo ao progresso histórico e, em alguns contextos, sofreu restrições
severas ou perseguições estatais. Essas experiências variaram enormemente entre
si, dependendo das circunstâncias locais, das interpretações adotadas e das
condições políticas de cada país. Ainda assim, revelam até que ponto uma
filosofia da história pode transformar-se em programa concreto de reorganização
da vida social.
Sob a perspectiva desta obra, o aspecto mais significativo permanece outro.
O ateísmo marxista confirma novamente que nenhuma descrença nasce no vazio. Embora
rejeite explicitamente Deus, conserva categorias profundamente marcadas pela
tradição religiosa europeia. A esperança, a redenção, a universalidade da
história e a expectativa de uma transformação definitiva da condição humana
permanecem estruturando seu horizonte intelectual. O transcendente é
substituído pelo histórico, mas a necessidade de um princípio absoluto continua
organizando toda a visão de mundo.
Essa constatação prepara naturalmente o desenvolvimento do artigo seguinte.
Se Marx procurou explicar Deus pela economia, Freud tentará explicá-Lo pela
psicologia. O problema deixará novamente a história para instalar-se no
interior da alma humana. A genealogia da religião continuará sendo investigada,
mas agora segundo outra disciplina e outro método. A mudança de perspectiva
mostrará, mais uma vez, que os diferentes ateísmos distinguem-se menos pelo
fato de negarem Deus do que pelo princípio positivo que colocam em Seu lugar
como fundamento último da compreensão da realidade.
Capítulo IV
Artigo XIV — O Ateísmo Freudiano
Enquanto Marx procurou descobrir a origem da religião nas estruturas
econômicas da sociedade, Sigmund Freud deslocou a investigação para um domínio
inteiramente diverso: a estrutura psíquica do próprio homem. A pergunta
permanece semelhante, mas o caminho muda profundamente. Já não se trata de
explicar Deus pela história, e sim pela mente humana. A religião deixa de ser
compreendida como reflexo das relações de produção para tornar-se expressão dos
mecanismos inconscientes que organizam a personalidade. O ateísmo freudiano
inaugura, assim, uma modalidade de descrença cuja força reside menos na
metafísica ou na política do que na psicologia.
Essa transformação corresponde ao próprio desenvolvimento da psicanálise.
Freud parte da convicção de que grande parte da vida psíquica permanece oculta
à consciência. Desejos reprimidos, medos infantis, conflitos afetivos e
impulsos inconscientes continuam atuando silenciosamente sobre o comportamento
humano. A consciência, longe de constituir senhora absoluta de si mesma,
representa apenas pequena parte de uma estrutura muito mais ampla. Quando essa
hipótese é aplicada à religião, Deus deixa de aparecer como realidade objetiva
e passa a ser interpretado como símbolo produzido pela dinâmica interior da
psique.
É precisamente nesse contexto que Freud formula uma de suas teses mais
conhecidas. A imagem de Deus corresponderia, em grande medida, à projeção
ampliada da figura paterna. A criança experimenta inicialmente o pai como
autoridade, proteção, limite e segurança. Posteriormente, essas características
seriam projetadas para além da experiência familiar, dando origem à ideia de um
Pai universal que governa o mundo e protege os homens. A religião tornar-se-ia,
assim, continuação psicológica das necessidades afetivas da infância. Deus
existiria não como realidade exterior, mas como resposta imaginária a
determinadas exigências emocionais da personalidade.
Essa hipótese modifica radicalmente o debate filosófico. A discussão já não
gira em torno da existência ou inexistência de Deus. O problema passa a ser a
origem da crença. Mesmo que nenhum argumento metafísico fosse apresentado, a
religião continuaria sendo explicada mediante mecanismos psicológicos. A
verdade objetiva deixa de ocupar posição central. O interesse desloca-se para a
função desempenhada pela crença dentro da economia da vida psíquica. O que
importa não é saber se Deus existe, mas compreender por que o homem sente
necessidade de acreditar que Ele exista.
Essa mudança possui enorme alcance metodológico. Pela primeira vez, a
religião é sistematicamente interpretada segundo categorias clínicas. O fiel
deixa de ser apenas alguém convencido de determinada verdade religiosa e passa
a ser também portador de determinadas necessidades emocionais. A fé converte-se
em sintoma. A teologia cede lugar à psicologia. O sacerdote é silenciosamente
substituído pelo terapeuta como intérprete privilegiado da experiência
religiosa. A linguagem da salvação começa a ser traduzida pela linguagem da
saúde psíquica.
Entretanto, a própria teoria freudiana revela aspectos profundamente
marcados pela tradição que procura explicar. A importância atribuída à culpa,
ao conflito interior, à consciência moral e à necessidade de reconciliação
conserva notáveis afinidades estruturais com a antropologia cristã. Freud
altera-lhes o fundamento, mas preserva muitos de seus elementos essenciais. O
pecado transforma-se em repressão; a confissão cede lugar à análise; a direção
espiritual converte-se em terapia; a redenção torna-se elaboração psíquica. A
estrutura permanece surpreendentemente semelhante, embora agora organizada
segundo categorias estritamente psicológicas.
Sob a perspectiva da religião comparada, essa continuidade possui enorme
importância. Ela demonstra novamente que o ateísmo raramente cria linguagem
inteiramente nova. Em vez disso, reorganiza símbolos anteriormente existentes.
O universo religioso continua fornecendo grande parte das categorias utilizadas
para explicar a própria religião. A psicanálise combate a transcendência, mas
conserva intensa preocupação com a culpa, o desejo, a interioridade e a
libertação da pessoa. Em certo sentido, desloca o drama religioso do
relacionamento entre o homem e Deus para o relacionamento entre o homem e seu
próprio inconsciente.
Essa interpretação também produz consequências relevantes para a compreensão
da moral. Se a religião resulta principalmente de necessidades psicológicas, a
autoridade moral deixa de possuir fundamento transcendente. Ela passa a ser
analisada como produto do desenvolvimento psíquico da personalidade. O dever
moral torna-se inseparável da formação do superego. A consciência deixa de
representar participação numa ordem objetiva do bem e passa a ser compreendida
como estrutura construída ao longo da infância mediante relações familiares e
sociais. A ética desloca-se, assim, da metafísica para a psicologia do
desenvolvimento.
Essa mudança influenciou profundamente a cultura do século XX. Muitos
fenômenos anteriormente interpretados em chave religiosa passaram a receber
explicações predominantemente psicológicas. Conversão, vocação, culpa,
sofrimento espiritual e experiência mística tornaram-se frequentemente objeto
de análise clínica. Em diversos ambientes intelectuais, a pergunta acerca da
verdade religiosa foi substituída pela investigação de seus efeitos emocionais.
A religião deixou de ser julgada principalmente por sua correspondência com a
realidade e passou a ser avaliada segundo sua capacidade de promover equilíbrio
ou sofrimento psíquico.
Contudo, essa própria transformação suscita uma dificuldade filosófica
importante. Se toda crença religiosa pode ser explicada como projeção
psicológica, por que a descrença não poderia igualmente resultar de mecanismos
inconscientes? Se a origem subjetiva de uma convicção basta para questionar sua
objetividade, o mesmo princípio deverá aplicar-se também ao ateísmo. A
psicanálise oferece instrumentos para investigar a formação da crença, mas
dificilmente consegue demonstrar, apenas por esse caminho, a inexistência
objetiva daquilo em que se acredita. Explicar a gênese de uma ideia não
equivale necessariamente a determinar seu valor de verdade. Essa distinção
metodológica permanecerá decisiva para toda filosofia da religião posterior.
É justamente por isso que o ateísmo freudiano representa menos uma refutação
da religião do que uma mudança radical de perspectiva. Deus deixa de ser
tratado como problema metafísico e transforma-se em fenômeno psicológico. A
transcendência é reinterpretada como expressão da interioridade humana. A
pergunta "quem é Deus?" cede lugar à pergunta "por que o homem
precisa de Deus?". Essa inversão exercerá influência extraordinária sobre
a cultura contemporânea e preparará o terreno para outra modalidade de
descrença ainda mais abrangente: o ateísmo positivista e cientificista, no qual
a própria ciência passará a ocupar o lugar anteriormente reservado à religião
como critério supremo de verdade.
Capítulo IV
Artigo XV — O Ateísmo Positivista e Cientificista
Poucas formas de ateísmo exerceram influência tão ampla sobre a mentalidade
contemporânea quanto aquela surgida do positivismo e posteriormente ampliada
pelo cientificismo. Diferentemente do marxismo, que procurava explicar a
religião pela economia, ou da psicanálise, que a interpretava segundo a
dinâmica da vida psíquica, o positivismo deslocou o problema para a própria
natureza do conhecimento. A questão deixou de ser histórica ou psicológica.
Tornou-se epistemológica. Deus passou a ser considerado não necessariamente
falso, mas intelectualmente irrelevante. A pergunta fundamental já não
consistia em saber se Deus existia, mas em determinar se uma afirmação acerca
de Deus poderia ser legitimamente considerada conhecimento.
Essa mudança alterou profundamente a posição da ciência na cultura
ocidental. Até então, mesmo os grandes cientistas compreendiam seu trabalho
como investigação de determinados aspectos da realidade, permanecendo a
metafísica responsável pelas questões últimas acerca do ser. O positivismo
modifica essa hierarquia. A ciência deixa gradualmente de ser uma disciplina
entre outras e passa a apresentar-se como o único modelo legítimo de
conhecimento. Tudo aquilo que não pudesse ser observado, medido, experimentado
ou verificado pelos métodos científicos seria considerado pertencente ao
domínio da opinião, da imaginação ou da subjetividade.
Auguste Comte formulou essa transformação de maneira particularmente
sistemática ao propor sua conhecida lei dos três estados. Segundo essa
interpretação, a humanidade teria atravessado sucessivamente uma fase
teológica, uma fase metafísica e, finalmente, uma fase científica. A religião
representaria a infância do espírito humano; a metafísica, sua adolescência; a
ciência, sua maturidade definitiva. Essa narrativa exerceu influência
extraordinária porque oferecia não apenas uma teoria do conhecimento, mas uma
filosofia da história. O progresso intelectual consistiria precisamente na
substituição gradual das explicações religiosas pelas explicações científicas.
À primeira vista, essa concepção parece apenas descrever a evolução das
ciências naturais. Entretanto, ela contém uma afirmação filosófica muito mais
ampla. Ao declarar que somente o conhecimento científico possui legitimidade
objetiva, o positivismo formula uma tese que não pode ser demonstrada pelos
próprios métodos científicos. Nenhum experimento laboratorial é capaz de provar
que apenas experimentos laboratoriais produzem conhecimento verdadeiro. A
afirmação pertence inevitavelmente à filosofia. O cientificismo nasce
exatamente quando uma metodologia legítima para determinado domínio da
realidade transforma-se em critério absoluto para toda forma de inteligência.
Essa absolutização modifica inevitavelmente a compreensão de Deus. A
existência divina deixa de ser rejeitada mediante argumentos metafísicos
tradicionais. Ela simplesmente deixa de constituir questão cientificamente
significativa. Deus torna-se semelhante a uma hipótese que não pode ser
submetida ao laboratório e, por isso mesmo, seria excluída do conhecimento
legítimo. A metafísica não é propriamente refutada; é declarada desnecessária.
A inteligência deixa de perguntar pelo fundamento do ser porque passa a
considerar essa pergunta metodologicamente inválida.
Sob a perspectiva da religião comparada, essa modalidade de ateísmo
apresenta característica particularmente interessante. Ela conserva da tradição
religiosa uma confiança profunda na existência de uma ordem objetiva e
universal. A diferença encontra-se no fundamento dessa ordem. Aquilo que antes
era atribuído à inteligência divina passa agora a ser atribuído exclusivamente
às leis da natureza. O universo continua inteligível; apenas deixa de exigir um
princípio transcendente para explicar essa inteligibilidade. A confiança
anteriormente depositada em Deus transfere-se silenciosamente para a ciência.
Essa substituição manifesta-se também na posição cultural ocupada pelo
cientista. Em diversas sociedades modernas, a autoridade científica passou a
desempenhar funções anteriormente reservadas às autoridades religiosas ou
filosóficas. A ciência tornou-se referência última para questões que
frequentemente ultrapassam seu próprio campo metodológico. Perguntas acerca da
moral, da liberdade, da dignidade humana, da beleza ou do sentido da existência
passaram progressivamente a buscar legitimação mediante linguagem científica,
ainda quando seus objetos não pertencem propriamente ao domínio das ciências
naturais. A metodologia converteu-se em cosmovisão.
Essa transformação produziu resultados extraordinários no desenvolvimento
tecnológico e no conhecimento da natureza. Seria impossível compreender a
civilização contemporânea sem reconhecer a imensa contribuição das ciências
experimentais. Entretanto, precisamente por causa desse sucesso, tornou-se
frequente confundir eficácia metodológica com suficiência filosófica. O fato de
determinado método explicar admiravelmente certo aspecto da realidade não
implica que ele esgote toda a realidade. A biologia explica os organismos; não
responde integralmente ao problema da consciência. A física descreve o
comportamento da matéria; não determina por si mesma o fundamento da moral.
Cada ciência possui competência própria, mas nenhuma delas consegue absorver
legitimamente todas as demais dimensões do conhecimento.
É justamente nesse ponto que se manifesta a principal dificuldade do ateísmo
cientificista. Ao rejeitar a metafísica como forma de conhecimento, continua
inevitavelmente formulando afirmações metafísicas. Quando declara que somente
existe aquilo que pode ser observado, está realizando uma afirmação acerca da
totalidade do ser — precisamente o tipo de investigação que havia considerado
ilegítimo. Quando afirma que toda verdade depende da verificação empírica,
formula uma proposição que não pode ser empiricamente verificada. A filosofia
retorna exatamente no momento em que se imaginava tê-la eliminado.
Essa constatação não diminui a importância da ciência. Pelo contrário,
recoloca-a em sua verdadeira grandeza. A ciência alcança sua máxima fecundidade
quando permanece fiel ao objeto específico de sua investigação. Torna-se
problemática apenas quando pretende transformar seu método em fundamento
absoluto de toda inteligência. O cientificismo não representa consequência
necessária da ciência; constitui uma interpretação filosófica acerca dela.
Confundir ambos significa atribuir às ciências naturais responsabilidades que
pertencem propriamente à metafísica.
Sob o ponto de vista histórico, o positivismo e o cientificismo revelam mais
uma vez a tese central desta obra. O ateísmo não elimina a necessidade de um
princípio organizador da realidade. Apenas o substitui. Onde antes a ordem do
universo era compreendida como participação na inteligência divina, passa agora
a ser entendida como consequência suficiente das leis naturais. A confiança
permanece; altera-se seu objeto. A própria ideia de verdade continua
desempenhando função central, embora agora fundamentada exclusivamente na
verificação científica. Essa transformação preparará o caminho para o último
artigo deste capítulo, onde veremos como o humanismo secular e o liberalismo
deslocarão definitivamente o centro da realidade para o próprio homem, fazendo
da autonomia humana o novo fundamento da ordem moral e política.
Capítulo IV
Artigo XVI — O Ateísmo Humanista e Liberal
Ao longo dos artigos anteriores acompanhamos uma transformação gradual do
centro de gravidade da civilização ocidental. O protestantismo deslocou parte
da autoridade para a consciência individual; o deísmo aproximou Deus da
condição de simples Legislador do universo; o positivismo transferiu a
confiança para a ciência; o marxismo entregou à história a tarefa da redenção;
a psicanálise reinterpretou a religião segundo a dinâmica do inconsciente.
Resta agora examinar uma forma de ateísmo que, mais do que qualquer outra, moldou
silenciosamente a cultura contemporânea: aquela que coloca o próprio homem no
lugar anteriormente ocupado por Deus. Não se trata de um ateísmo agressivo ou
militante. Frequentemente apresenta-se como defesa da liberdade, da dignidade
humana e da autonomia individual. Justamente por isso, tornou-se uma das
modalidades de descrença mais influentes de nosso tempo.
O humanismo moderno nasce de uma intuição legítima. A tradição cristã sempre
atribuiu extraordinária dignidade à pessoa humana por reconhecê-la criada à
imagem de Deus. O Renascimento e, posteriormente, o Iluminismo passaram a
enfatizar cada vez mais essa dignidade, procurando libertá-la de estruturas
políticas, religiosas e sociais consideradas excessivamente restritivas. Em sua
origem, esse movimento não implicava necessariamente a rejeição de Deus. Muitos
de seus representantes permaneceram profundamente religiosos. Entretanto, à
medida que a autonomia humana crescia como princípio explicativo, tornava-se
progressivamente possível concebê-la independentemente de qualquer fundamento
transcendente.
Esse deslocamento modifica profundamente a estrutura da filosofia política e
moral. Na tradição clássica, a liberdade consiste na capacidade de realizar o
bem conforme a natureza humana. Na tradição liberal moderna, a liberdade passa
gradualmente a ser compreendida como autonomia da vontade. O centro da moral
desloca-se da ordem objetiva para a decisão subjetiva. O homem já não é chamado
principalmente a descobrir a verdade; passa a ser compreendido como aquele que
constrói legitimamente seus próprios projetos de vida. A autoridade deixa de
repousar na natureza das coisas e aproxima-se cada vez mais da escolha
individual.
Essa transformação não ocorreu de maneira uniforme. O liberalismo político
surgiu inicialmente como resposta a problemas concretos relacionados ao abuso
do poder, às guerras religiosas e à necessidade de proteger direitos
fundamentais da pessoa. Seu objetivo imediato consistia em limitar a autoridade
do Estado e garantir espaço para a liberdade civil. Entretanto, ao longo do
tempo, esse princípio jurídico passou progressivamente a exercer influência
sobre a própria antropologia. A autonomia política converteu-se em autonomia
moral; esta, por sua vez, aproximou-se de uma autonomia metafísica. O homem
passou a ser visto como fundamento suficiente de si mesmo.
É precisamente nesse ponto que surge a modalidade de ateísmo característica
do humanismo secular. Deus não é necessariamente combatido. Torna-se
simplesmente desnecessário. A dignidade humana, os direitos fundamentais, a
igualdade entre as pessoas e a liberdade passam a buscar fundamentação
exclusivamente na própria humanidade. A religião continua podendo existir como
opção privada, mas deixa de desempenhar qualquer função indispensável na
justificação da ordem moral. O homem converte-se simultaneamente em sujeito,
fundamento e finalidade de toda organização social.
Sob a perspectiva da religião comparada, essa mudança revela novamente uma
notável continuidade histórica. Diversos valores tradicionalmente associados ao
cristianismo permanecem praticamente intactos. A defesa da dignidade da pessoa,
a igualdade essencial entre todos os homens, a proteção dos mais fracos, a
valorização da consciência individual e a universalidade dos direitos conservam
evidente parentesco com a tradição cristã da qual historicamente emergiram. A
diferença reside no fundamento. Aquilo que antes era compreendido como
consequência da criação divina passa agora a ser afirmado como evidência
autônoma da própria razão humana.
Essa substituição produz uma dificuldade filosófica cuja importância cresce
continuamente. Se a dignidade humana não deriva de nenhuma realidade
transcendente, qual é exatamente seu fundamento objetivo? Por que todos os
homens possuem igual valor? Por que a liberdade deve ser protegida? Por que
determinados direitos são universais? Enquanto Deus permanecia como fundamento
do ser humano, essas questões encontravam resposta relativamente coerente
dentro da metafísica clássica. Quando esse fundamento desaparece, torna-se
necessário justificar racionalmente aquilo que anteriormente era recebido como
consequência da própria criação. Grande parte da filosofia política
contemporânea dedica-se precisamente a enfrentar essa dificuldade.
Outro aspecto digno de atenção encontra-se na própria compreensão da
tolerância. O liberalismo nasceu procurando impedir que o poder político
impusesse determinada confissão religiosa aos cidadãos. Com o passar do tempo,
porém, a neutralidade do Estado foi frequentemente ampliada para uma
neutralidade metafísica. Todas as concepções últimas acerca da realidade
passaram a ser consideradas igualmente pertencentes ao âmbito privado. A esfera
pública procurou organizar-se como se nenhuma verdade última pudesse servir de
fundamento comum. O resultado foi uma sociedade extraordinariamente plural, mas
também progressivamente hesitante em relação às próprias bases filosóficas de
sua convivência.
Essa hesitação manifesta-se de maneira particularmente intensa quando surgem
conflitos entre diferentes concepções da liberdade. Se a autonomia individual
constitui o valor supremo, torna-se inevitável perguntar como resolver o choque
entre autonomias incompatíveis. A própria liberdade exige critérios que ela
mesma dificilmente consegue produzir. O homem continua necessitando de alguma
ordem objetiva capaz de orientar suas escolhas. A tentativa de fundamentar
integralmente a moral na vontade individual revela, assim, seus próprios
limites internos.
Sob o ponto de vista histórico, o humanismo secular representa talvez a
forma de ateísmo mais discreta e, justamente por isso, mais difundida.
Diferentemente do marxismo, não exige revolução. Diferentemente do positivismo,
não depende de determinada teoria científica. Diferentemente do
existencialismo, não nasce da angústia filosófica. Ele instala-se lentamente no
cotidiano, fazendo da autonomia humana o critério espontâneo para interpretar
praticamente todas as dimensões da existência. Deus não é necessariamente
negado. Apenas deixa de desempenhar qualquer papel decisivo na organização da
vida individual e coletiva.
Ao concluir este capítulo, torna-se possível perceber que os ateísmos
ideológicos diferem profundamente entre si. O marxismo substitui Deus pela
história; Freud, pela estrutura psíquica; o cientificismo, pelo método
científico; o humanismo secular, pela autonomia do homem. Todos recusam a
transcendência, mas cada um constrói um novo princípio absoluto capaz de ocupar
seu lugar. Essa constatação confirma novamente a hipótese central desta obra:
nenhuma descrença permanece puramente negativa. Sempre que Deus é retirado do
centro da realidade, alguma outra realidade tende a ocupar silenciosamente essa
posição. O problema filosófico decisivo deixa então de ser simplesmente a negação
de Deus e passa a ser a identificação do novo absoluto que organiza a
inteligência, a cultura e a própria civilização.
Capítulo V
Artigo XVII — O Que Cada Ateísmo Conserva da Religião que Nega
Uma das conclusões mais importantes alcançadas até este ponto consiste na
constatação de que nenhuma forma de ateísmo nasce sobre terreno absolutamente
vazio. Toda descrença possui uma genealogia e, por essa razão, conserva
inevitavelmente elementos da tradição religiosa contra a qual se constitui.
Essa permanência raramente é percebida por seus próprios representantes. A
ruptura costuma apresentar-se como completa e definitiva. Entretanto, quando
observada pela perspectiva da história das ideias, revela-se muito mais
semelhante a uma transformação estrutural do que a uma destruição integral. O
conteúdo muda; a forma frequentemente permanece.
Esse fenômeno pode ser compreendido por uma analogia simples. Quando uma
antiga catedral deixa de exercer funções religiosas, seu edifício continua
existindo. As imagens podem ser retiradas, o altar substituído, os símbolos
modificados e a finalidade alterada. Ainda assim, a arquitetura permanece
reconhecível. As colunas sustentam o teto nos mesmos lugares, os arcos
conservam sua geometria e a distribuição dos espaços continua obedecendo ao
projeto original. Algo semelhante ocorre com as grandes tradições intelectuais.
O ateísmo frequentemente altera o ocupante do centro da construção, mas
preserva a própria estrutura mediante a qual a realidade continua sendo
organizada.
O ateísmo protestante, por exemplo, conserva notável confiança na
consciência individual. Mesmo quando abandona a fé, mantém frequentemente a
convicção de que a decisão pessoal ocupa posição privilegiada diante de toda
autoridade exterior. O princípio da responsabilidade individual permanece vivo,
embora agora desvinculado da relação direta entre a alma e Deus. A estrutura
espiritual da Reforma continua exercendo influência mesmo quando sua
fundamentação religiosa desaparece.
O ateísmo católico apresenta configuração diversa. Sua herança manifesta-se
principalmente na permanência dos grandes problemas metafísicos. A pergunta
pelo fundamento do ser, pela objetividade da verdade, pela natureza da pessoa e
pela universalidade da moral continua organizando grande parte da reflexão
produzida por autores formados nesse ambiente. Ainda quando rejeitam Deus,
continuam pensando segundo categorias cuja origem pertence claramente à síntese
aristotélico-tomista. A inteligência permanece orientada pela busca da unidade,
mesmo quando já não admite o princípio transcendente dessa unidade.
O ateísmo judaico conserva sobretudo a centralidade da história e da
responsabilidade coletiva. A memória permanece desempenhando papel decisivo. A
expectativa de transformação histórica continua frequentemente estruturando a
compreensão da realidade. A própria ideia de missão, embora reinterpretada
segundo categorias seculares, revela profunda continuidade com a tradição da
Aliança. O povo substitui progressivamente o fundamento religioso, mas conserva
elevada consciência de sua própria historicidade.
No caso islâmico, permanece frequentemente a percepção da unidade entre
ordem moral e organização da sociedade. Ainda quando a religião deixa de
exercer função normativa, continua viva a tendência para compreender a vida
humana como totalidade indivisível. A separação radical entre esfera privada e
esfera pública, característica de determinadas correntes ocidentais, nem sempre
encontra equivalente imediato em culturas profundamente marcadas pela tradição
islâmica. A estrutura da unidade permanece mesmo quando seu fundamento
teológico é transformado.
Os ateísmos filosóficos revelam continuidade diferente. Platão continua
presente onde permanece a busca da verdade objetiva. Aristóteles sobrevive onde
a inteligência continua procurando explicar racionalmente a estrutura da
realidade. Santo Agostinho reaparece na valorização da interioridade. Santo
Tomás permanece vivo sempre que a razão procura fundamentos universais para a
moral ou para o conhecimento. A ruptura dirige-se contra determinadas
conclusões metafísicas, mas conserva frequentemente o próprio modo filosófico
de formular os problemas.
As modalidades ideológicas tornam essa permanência ainda mais evidente. O
marxismo conserva a estrutura da esperança escatológica, substituindo o Reino
de Deus pela sociedade sem classes. O positivismo preserva a confiança numa
ordem objetiva, apenas deslocando-a para as leis da natureza. O cientificismo
transforma o método científico em autoridade suprema. O humanismo secular
mantém a dignidade da pessoa, mas procura fundamentá-la exclusivamente no
próprio homem. Em todos esses casos, desaparece um fundamento e imediatamente
outro ocupa sua função organizadora. A inteligência parece resistir
profundamente ao vazio absoluto.
Essa constatação permite compreender um aspecto frequentemente negligenciado
da história intelectual. O homem dificilmente consegue viver sem algum
princípio absoluto. Mesmo quando declara rejeitar toda transcendência, continua
organizando sua experiência em torno de alguma realidade considerada última.
Para uns será a razão; para outros, a ciência; para outros, a história, a
liberdade, a humanidade, o progresso ou a técnica. Os nomes mudam
continuamente. A função permanece surpreendentemente constante. Toda
civilização parece necessitar de um centro em torno do qual possa ordenar seus
juízos, seus valores e sua compreensão da existência.
É justamente por isso que a religião comparada constitui instrumento tão
importante para compreender o ateísmo. Ela permite perceber que a verdadeira
transformação raramente consiste em substituir uma crença por nenhuma crença. O
que normalmente ocorre é a substituição de uma forma de absoluto por outra. A
questão filosófica deixa então de ser simplesmente saber se determinado homem
acredita em Deus. Torna-se necessário perguntar qual realidade ocupa, em sua
inteligência, o lugar anteriormente reservado ao fundamento último. Somente
essa investigação permite compreender plenamente a extraordinária diversidade
das formas de descrença e a profunda continuidade histórica que as une às
tradições religiosas das quais nasceram.
Capítulo V
Artigo XVIII — Os Ídolos Substitutivos
Ao concluir que nenhuma forma de ateísmo permanece inteiramente negativa,
surge inevitavelmente uma nova questão. Se Deus deixa de ocupar o lugar de
fundamento da realidade, o que passa a ocupar esse lugar? A história demonstra
que o homem raramente suporta durante muito tempo a ausência completa de um
princípio absoluto. A inteligência necessita de um centro organizador capaz de
conferir unidade às experiências, orientar os juízos morais, justificar as
decisões políticas e oferecer sentido ao curso da existência. Quando esse
centro deixa de ser Deus, outro princípio tende naturalmente a assumir sua função.
É justamente esse fenômeno que chamaremos, nesta obra, de substituição do
absoluto.
A palavra "ídolo" será empregada aqui em sentido filosófico e não
apenas religioso. Na tradição bíblica, o ídolo não era simplesmente uma imagem
esculpida. Tornava-se ídolo tudo aquilo que ocupava o lugar pertencente
exclusivamente a Deus. O problema não residia principalmente na matéria da qual
era feito, mas na função espiritual que passava a exercer. A idolatria
consistia na transferência da confiança absoluta para uma realidade
contingente. Essa compreensão permite ampliar significativamente o conceito. Um
ídolo pode ser uma ideia, uma instituição, uma teoria científica, uma nação,
uma raça, um partido político ou até mesmo o próprio indivíduo, desde que passe
a desempenhar a função de fundamento último da existência.
Sob essa perspectiva, torna-se possível compreender por que diferentes
modalidades de ateísmo produziram diferentes absolutos substitutivos. O
marxismo elevou a história ao lugar anteriormente ocupado pela providência. O
desenvolvimento das forças produtivas e o conflito entre as classes passaram a
explicar não apenas a economia, mas praticamente toda a dinâmica da
civilização. A história deixou de ser simples sucessão de acontecimentos para
transformar-se em tribunal definitivo da verdade. Aquilo que antes era esperado
da intervenção divina passou a ser esperado da evolução histórica.
O positivismo realizou deslocamento semelhante em direção à ciência. Não se
limitou a reconhecer seu extraordinário êxito metodológico. Atribuiu-lhe
competência para responder às questões últimas da existência humana. A verdade
passou a identificar-se progressivamente com aquilo que pudesse ser comprovado
pelos métodos científicos. A ciência deixou de ser apenas instrumento privilegiado
para conhecer determinados aspectos da natureza e converteu-se em paradigma
universal da própria racionalidade. O método ocupou silenciosamente o lugar do
fundamento.
O humanismo secular, por sua vez, colocou o próprio homem no centro da
realidade. A autonomia individual tornou-se critério último para avaliar
instituições, tradições e normas morais. A dignidade humana permaneceu como
valor absoluto, mas frequentemente desligada de qualquer fundamento
transcendente. O homem passou simultaneamente a legislar, justificar e orientar
sua própria existência. O sujeito converteu-se em princípio de si mesmo. A
liberdade deixou de participar de uma ordem superior para tornar-se a própria
origem da ordem.
Outras correntes transferiram essa centralidade para a técnica. O
extraordinário desenvolvimento tecnológico dos últimos dois séculos produziu
crescente confiança na capacidade humana de resolver todos os problemas
mediante aperfeiçoamento científico e inovação permanente. O progresso técnico
deixou gradualmente de ser apenas consequência da inteligência para
converter-se em esperança civilizacional. Muitos dos antigos anseios de
superação da doença, do sofrimento, da escassez e até mesmo da morte passaram a
ser projetados sobre a tecnologia. Aquilo que antes se esperava da redenção
começou a ser esperado do desenvolvimento técnico.
Também a política conheceu seus próprios absolutos. Diversos regimes
modernos atribuíram ao Estado funções que ultrapassavam largamente sua
finalidade tradicional. Esperava-se dele não apenas segurança e administração
da justiça, mas regeneração moral, reconstrução da sociedade, formação do homem
novo e realização definitiva da felicidade coletiva. O poder político assumiu
frequentemente características quase soteriológicas. A autoridade deixou de
limitar-se ao governo da cidade para apresentar-se como princípio organizador
da própria existência humana.
A economia, em determinados momentos da modernidade, percorreu caminho
semelhante. O mercado deixou de ser compreendido apenas como mecanismo de
circulação de bens e passou a ser visto por alguns como princípio espontâneo
capaz de organizar toda a ordem social. A confiança anteriormente depositada na
providência foi parcialmente deslocada para a autorregulação econômica.
Esperava-se que o livre funcionamento das relações de mercado produzisse
harmonia, prosperidade e equilíbrio quase automaticamente. O mecanismo
econômico aproximou-se, em certas interpretações, da condição de lei universal
da convivência humana.
Sob o ponto de vista antropológico, todas essas substituições revelam uma
característica comum. O homem continua procurando um princípio suficientemente
estável para organizar sua existência. A necessidade do absoluto permanece
inalterada. O que se transforma é apenas a realidade escolhida para desempenhar
essa função. A inteligência parece incapaz de permanecer indefinidamente sem
algum centro ordenador. Mesmo quando rejeita explicitamente toda
transcendência, reconstrói rapidamente novos fundamentos em torno dos quais
reorganiza seus valores, suas esperanças e sua compreensão do mundo.
Essa constatação possui consequências filosóficas profundas. O verdadeiro
debate entre religião e ateísmo talvez não consista simplesmente na presença ou
ausência de Deus, mas na identificação do absoluto efetivamente adotado por
cada civilização. Toda cultura possui um centro simbólico, um princípio
ordenador e uma realidade considerada irredutível. A questão decisiva consiste
em saber qual realidade ocupa essa posição e se ela possui efetivamente condições
de sustentá-la. Nem toda realidade capaz de exercer enorme influência histórica
possui, por isso mesmo, capacidade para fundamentar objetivamente a moral, a
verdade ou a dignidade da pessoa.
Chega-se, assim, a uma conclusão de grande importância para esta
investigação. O ateísmo raramente elimina a estrutura religiosa da inteligência
humana. Em muitos casos, apenas desloca seu objeto. O culto desaparece; a
confiança absoluta permanece. A liturgia modifica-se; a esperança continua
existindo. O altar muda de lugar, mas a necessidade de um altar dificilmente
desaparece. É precisamente essa continuidade que permitirá, no artigo seguinte,
comparar de maneira mais profunda as diferentes antropologias produzidas por
cada modalidade de ateísmo, revelando como cada uma delas redefine, à sua
maneira, aquilo que significa ser homem.
Capítulo V
Artigo XIX — Antropologia Comparada dos Ateísmos
A história da filosofia demonstra que nenhuma concepção de Deus permanece
isolada da compreensão do homem. Sempre que uma civilização afirma determinada
realidade absoluta, simultaneamente estabelece uma resposta para perguntas
igualmente fundamentais: quem é o homem, qual é sua origem, qual é sua
finalidade, por que existe e segundo quais critérios sua vida deve ser julgada.
A antropologia nunca constitui um capítulo secundário da metafísica. Ela
representa sua consequência mais imediata. Alterando-se o fundamento último da
realidade, altera-se inevitavelmente também a definição da própria condição
humana.
Esse princípio permite compreender por que os diversos ateísmos produziram
antropologias tão diferentes entre si. Embora todos rejeitem alguma forma de transcendência,
não chegam à mesma conclusão acerca do homem. Pelo contrário, cada modalidade
de descrença redefine a pessoa segundo o absoluto que escolheu para substituir
Deus. A história torna-se fundamento do homem no marxismo; a psique ocupa esse
lugar em Freud; a ciência passa a definir a racionalidade no positivismo; a
autonomia torna-se princípio supremo no humanismo liberal. O homem permanece no
centro da investigação, mas sua natureza modifica-se conforme muda o fundamento
último da realidade.
O ateísmo marxista compreende o homem principalmente como ser histórico. Sua
identidade não decorre de uma natureza permanente, mas das relações concretas
de produção nas quais vive. A consciência deixa de constituir fundamento da
existência e passa a ser determinada pelas condições materiais. O indivíduo
torna-se inseparável de sua posição dentro do processo histórico. A liberdade
consiste menos na escolha pessoal do que na superação das estruturas econômicas
responsáveis pela alienação. A antropologia converte-se em teoria da história.
O ateísmo freudiano realiza deslocamento completamente diverso. O homem
passa a ser interpretado como estrutura psíquica. Grande parte de sua vida
permanece governada por desejos inconscientes, impulsos reprimidos e conflitos
afetivos cuja origem frequentemente antecede sua própria consciência. A
liberdade deixa de ocupar posição central. A personalidade passa a ser
compreendida como resultado de processos psicológicos cuja complexidade
ultrapassa largamente a percepção imediata do indivíduo. A antropologia
transforma-se em psicologia.
O positivismo e o cientificismo propõem outra compreensão. O homem aparece
principalmente como objeto de investigação científica. Sua singularidade tende
a ser descrita mediante categorias biológicas, neurológicas, comportamentais ou
sociológicas. A pergunta acerca de sua finalidade perde importância diante da
investigação de seu funcionamento. O conhecimento substitui o sentido. A pessoa
continua existindo, mas é progressivamente analisada segundo os mesmos métodos
utilizados para compreender qualquer outro fenômeno natural. A antropologia
aproxima-se das ciências empíricas.
No humanismo secular, o homem converte-se simultaneamente em origem e
finalidade de toda ordem moral. Sua autonomia passa a constituir o princípio
organizador da vida ética e política. A dignidade humana deixa de derivar de
participação em uma realidade transcendente e procura fundamentar-se na própria
condição racional do indivíduo. O sujeito torna-se legislador de si mesmo. Essa
concepção produziu importantes desenvolvimentos na defesa das liberdades civis
e dos direitos fundamentais. Ao mesmo tempo, abriu um problema filosófico
permanente: como justificar objetivamente essa dignidade quando já não existe
fundamento superior ao próprio homem.
O existencialismo, por sua vez, apresenta talvez a antropologia mais
dramática de todas. O homem surge como ser lançado na existência sem natureza
previamente determinada. Sua essência resulta das escolhas que realiza ao longo
da vida. A liberdade torna-se absoluta precisamente porque nenhuma ordem
objetiva permanece para orientá-la. A responsabilidade cresce na mesma
proporção em que desaparece a transcendência. A grandeza dessa visão
encontra-se na seriedade com que trata a decisão humana; sua dificuldade
consiste em explicar por que essa liberdade possui valor universal quando já
não existe fundamento metafísico capaz de sustentá-la.
Comparadas entre si, essas antropologias revelam uma característica comum.
Nenhuma delas consegue permanecer puramente negativa. Sempre que Deus deixa de
fornecer a definição do homem, algum outro princípio assume essa função. A
história, a economia, a psique, a ciência, a autonomia ou a liberdade tornam-se
sucessivamente os novos centros organizadores da identidade humana. A pergunta
"o que é o homem?" continua exigindo resposta. O ateísmo modifica
essa resposta, mas não consegue eliminar a própria pergunta.
Sob a perspectiva da religião comparada, esse fato possui enorme
significado. Ele demonstra que a verdadeira diferença entre as diversas
modalidades de ateísmo não reside apenas naquilo que negam, mas principalmente
naquilo que afirmam acerca da natureza humana. O homem nunca permanece sem
definição. Toda civilização constrói alguma imagem de sua origem, de sua
finalidade e de sua dignidade. A negação de Deus apenas desloca o fundamento
sobre o qual essa imagem será construída.
A tradição clássica e cristã compreendia o homem como participação numa
ordem objetiva do ser. Sua dignidade decorria precisamente dessa participação.
O homem era racional porque participava do Logos; era livre porque podia
orientar-se para o bem; era digno porque fora criado segundo uma finalidade que
transcendia sua própria vontade. As diversas formas de ateísmo analisadas ao
longo desta obra procuram preservar partes significativas dessa antropologia,
mas substituem progressivamente seu fundamento. Algumas conservam a dignidade;
outras, a liberdade; outras, a racionalidade; outras ainda, a responsabilidade
histórica. Nenhuma consegue conservar integralmente a arquitetura original
porque todas alteraram justamente o princípio que lhe conferia unidade.
Chega-se, assim, à conclusão central deste capítulo. O debate entre crença e
descrença não pode limitar-se à existência ou inexistência de Deus. Seu
verdadeiro objeto é a própria definição do homem. Toda metafísica produz uma
antropologia; toda antropologia produz uma ética; toda ética produz uma
civilização. Compreender os diferentes ateísmos significa compreender as
diferentes imagens de homem que nasceram de cada uma de suas negações. É
precisamente dessas imagens que nascerão, no artigo seguinte, as diferentes
consequências históricas, culturais e civilizacionais que marcaram
profundamente o desenvolvimento do mundo moderno.
Capítulo V
Artigo XX — Consequências Históricas e Civilizacionais
As ideias jamais permanecem confinadas aos livros. Toda concepção acerca de
Deus, do homem ou da realidade acaba, cedo ou tarde, produzindo efeitos sobre a
organização concreta da vida social. A história das civilizações demonstra que
não existe filosofia sem consequências. Os princípios adotados pela
inteligência tornam-se lentamente costumes, instituições, sistemas jurídicos,
formas de governo, modelos educacionais e critérios morais. A verdadeira influência
de uma ideia raramente pode ser medida pela repercussão imediata de sua
publicação. Ela manifesta-se quando passa silenciosamente a organizar o modo
como uma sociedade inteira interpreta a existência.
Esse princípio aplica-se igualmente aos diversos ateísmos estudados ao longo
desta investigação. Embora todos tenham surgido da negação de determinadas
concepções de Deus, produziram efeitos históricos profundamente distintos
porque partiram de fundamentos igualmente distintos. O erro mais frequente consiste
em tratar todas essas consequências como se fossem idênticas. A história
demonstra precisamente o contrário. Cada modalidade de descrença reorganizou
aspectos específicos da civilização segundo o princípio absoluto que escolheu
colocar no centro da realidade.
O ateísmo protestante contribuiu para fortalecer determinadas concepções de
autonomia da consciência e de responsabilidade individual. Em diversos
contextos históricos, essa transformação favoreceu o desenvolvimento de formas
particulares de liberdade religiosa, investigação crítica e participação
política. Ao mesmo tempo, produziu crescente fragmentação da autoridade
doutrinária, multiplicando interpretações concorrentes acerca da própria
religião e ampliando progressivamente o espaço destinado ao julgamento
individual como critério de verdade.
O ateísmo desenvolvido em ambiente católico percorreu caminho diferente. Seu
impacto manifestou-se principalmente no domínio filosófico. A crítica da
metafísica repercutiu sobre a teoria do conhecimento, a ética, o direito e a
antropologia. O desaparecimento gradual de fundamentos objetivos para a ordem
moral obrigou a filosofia moderna a reconstruir continuamente justificativas
para conceitos como dignidade humana, direitos universais e justiça. Grande
parte do pensamento contemporâneo pode ser compreendida como esforço permanente
para preservar essas categorias depois que seu fundamento metafísico deixou de
ser amplamente aceito.
No caso judaico, a permanência da consciência histórica produziu formas
particularmente intensas de reflexão acerca da memória, da identidade coletiva
e da responsabilidade diante das gerações futuras. Mesmo em contextos
profundamente secularizados, a história continuou desempenhando função
organizadora da experiência humana. A identidade cultural frequentemente
permaneceu viva independentemente da prática religiosa, revelando que
determinadas estruturas históricas sobrevivem muito além da perda da fé que
inicialmente lhes deu origem.
As sociedades influenciadas pela tradição islâmica enfrentaram desafios
distintos. A secularização frequentemente assumiu forma diversa daquela
observada no Ocidente europeu porque precisou reorganizar uma civilização onde
religião, direito e vida pública haviam permanecido historicamente muito mais
integrados. As respostas foram variadas conforme os países, as escolas
jurídicas e os contextos políticos, demonstrando novamente que a genealogia
religiosa continua exercendo influência decisiva mesmo quando a própria
religião perde parte de sua autoridade social.
Os ateísmos filosóficos produziram consequências ainda mais abrangentes. A
crítica da metafísica deslocou progressivamente o centro da filosofia para o
sujeito, para a linguagem, para a consciência ou para os métodos científicos.
Essa transformação modificou profundamente a educação, a universidade e a
própria definição do conhecimento. A especialização crescente dos saberes
trouxe extraordinários avanços técnicos, mas também contribuiu para a
fragmentação da visão unitária da realidade anteriormente oferecida pela
metafísica clássica.
As modalidades ideológicas exerceram influência particularmente intensa
sobre a organização política da sociedade. O marxismo inspirou projetos
revolucionários que procuraram reorganizar integralmente as relações econômicas
e sociais segundo sua interpretação da história. O positivismo influenciou
reformas administrativas, sistemas educacionais e modelos de organização
estatal marcados pela confiança no progresso científico. O humanismo secular
contribuiu decisivamente para o fortalecimento das liberdades individuais, dos
direitos civis e da autonomia da consciência. Cada uma dessas correntes
produziu benefícios, limitações e tensões próprias, impossíveis de compreender
sem referência ao fundamento antropológico que lhes deu origem.
Existe, entretanto, uma consequência comum que atravessa praticamente todas
essas modalidades de descrença. À medida que Deus deixa de constituir o centro
organizador da civilização, cresce progressivamente a necessidade de novas
instâncias capazes de desempenhar funções anteriormente atribuídas à religião.
A política amplia seu alcance; a ciência torna-se critério cultural; a economia
passa a organizar expectativas coletivas; a técnica converte-se em promessa de
superação das limitações humanas; a psicologia assume parte das funções antes
desempenhadas pela direção espiritual. Nenhuma dessas disciplinas é ilegítima
em si mesma. O problema surge quando alguma delas pretende ocupar sozinha o
lugar anteriormente reservado ao fundamento último da realidade.
Talvez seja justamente esse o traço mais característico da modernidade. Ela
não eliminou a necessidade de unidade. Apenas multiplicou os candidatos a
ocuparem seu centro. Onde antes existia um único fundamento transcendente,
surgiram diversos fundamentos concorrentes. A consequência inevitável foi uma
crescente pluralidade de visões do homem, da moral e da história. Essa
diversidade ampliou extraordinariamente a liberdade intelectual, mas também
tornou mais difícil a construção de critérios comuns capazes de orientar a
convivência entre concepções radicalmente distintas da existência.
Sob a perspectiva da religião comparada, esse panorama confirma novamente a
hipótese que orientou toda esta obra. O ateísmo não constitui apenas ausência
de religião. Ele representa também a construção de novas arquiteturas
civilizacionais. Cada negação reorganiza instituições, redefine a pessoa
humana, modifica a compreensão da história e estabelece novos princípios de
legitimidade para a vida social. Compreender essas consequências exige muito
mais do que discutir argumentos sobre a existência de Deus. Exige acompanhar o
longo percurso pelo qual uma transformação metafísica termina convertendo-se em
transformação cultural.
Essa conclusão encerra igualmente o núcleo comparativo desta investigação.
Demonstramos que diferentes imagens de Deus produziram diferentes formas de
descrença; que diferentes descrenças deram origem a diferentes antropologias; e
que diferentes antropologias reorganizaram de maneiras diversas a história das
civilizações. Resta agora um último passo. Será necessário perguntar se essas
novas arquiteturas, apesar de se declararem frequentemente seculares, não
acabaram reproduzindo funções tradicionalmente exercidas pelas religiões. É
precisamente essa hipótese que orientará o próximo capítulo, dedicado ao estudo
do ateísmo como fenômeno dotado de estruturas funcionalmente religiosas, ainda
que desprovido de transcendência explícita.
Capítulo VI
Artigo XXI — O Ateísmo Pode Tornar-se uma Religião?
À primeira vista, a própria pergunta que intitula este capítulo parece
contraditória. Se religião pressupõe alguma forma de transcendência e o ateísmo
consiste precisamente na negação dessa transcendência, como poderia um
transformar-se no outro? Entretanto, essa dificuldade desaparece quando se
distingue cuidadosamente religião enquanto conteúdo teológico de religião
enquanto estrutura antropológica. Sob o primeiro aspecto, o ateísmo permanece
evidentemente distinto das religiões tradicionais. Sob o segundo, porém, a
história revela fenômeno muito mais complexo. Diversos movimentos
explicitamente ateus passaram progressivamente a desempenhar funções sociais,
psicológicas e culturais extraordinariamente semelhantes àquelas exercidas
pelas religiões.
Para compreender essa possibilidade é necessário recordar uma característica
permanente da natureza humana. O homem não vive apenas de informações ou de
raciocínios abstratos. Sua inteligência organiza a existência mediante
símbolos, narrativas, ritos, comunidades e referências últimas capazes de
conferir unidade à experiência. Esses elementos aparecem em praticamente todas
as civilizações conhecidas, independentemente da religião professada. Eles
respondem menos a necessidades confessionais do que à própria estrutura da vida
humana. Toda sociedade precisa transmitir uma origem, justificar uma ordem,
estabelecer critérios morais, explicar o sofrimento, oferecer esperança e
integrar o indivíduo numa comunidade dotada de significado.
As religiões tradicionais realizaram historicamente essa tarefa mediante a
referência ao transcendente. Deus fornecia simultaneamente o fundamento da
verdade, da moral, da autoridade e da finalidade da existência. Quando essa
referência desaparece, a necessidade antropológica não desaparece juntamente
com ela. Permanece a exigência de unidade. Permanece a necessidade de um
princípio absoluto capaz de orientar a inteligência e a vida coletiva. O vazio
deixado pela transcendência tende, portanto, a ser rapidamente preenchido por
novas formas de organização simbólica.
É precisamente nesse ponto que determinadas correntes ateias começam a
apresentar características funcionalmente religiosas. Desenvolvem narrativas
completas acerca da origem da realidade, da condição presente da humanidade e
de seu destino futuro. Produzem textos considerados fundamentais, estabelecem
intérpretes autorizados, definem ortodoxias, identificam desvios doutrinários,
elaboram linguagens próprias e constituem comunidades fortemente unificadas por
determinada visão do mundo. Nenhum desses elementos exige necessariamente a
existência de Deus. Todos pertencem, antes de tudo, à maneira pela qual a
inteligência humana organiza sua experiência coletiva.
Essa observação não significa que qualquer ideologia deva ser automaticamente
chamada de religião. Tal simplificação eliminaria diferenças essenciais. A
religião, em sentido próprio, dirige-se ao transcendente enquanto realidade
efetivamente existente. Já as ideologias permanecem normalmente confinadas ao
horizonte histórico ou natural. O que se afirma aqui é algo mais restrito e
metodologicamente verificável. Certos movimentos seculares passaram a exercer
funções análogas às das religiões, ainda que seus conteúdos permaneçam
profundamente diferentes. A analogia encontra-se na estrutura, não
necessariamente na doutrina.
Pode-se observar essa semelhança em diversos aspectos da vida social. Toda
comunidade necessita de símbolos capazes de representar sua identidade.
Necessita de datas comemorativas, personagens exemplares, acontecimentos
fundadores e narrativas que expliquem sua própria existência. Precisa
igualmente distinguir comportamentos considerados virtuosos daqueles julgados
condenáveis. Necessita educar novas gerações segundo determinados valores e
preservar certa continuidade histórica. Nenhuma dessas funções desaparece
quando Deus deixa de ocupar o centro da civilização. Apenas passam a ser
desempenhadas por outras instituições e outros princípios organizadores.
Sob a perspectiva da religião comparada, esse fenômeno torna-se
particularmente interessante porque revela a permanência de estruturas
antropológicas muito antigas. A necessidade de pertencimento, de significado,
de esperança e de orientação moral continua existindo independentemente da
posição metafísica adotada por determinada sociedade. O homem continua
procurando uma narrativa suficientemente ampla para integrar sua experiência
individual à história coletiva. Continua buscando critérios que permitam
distinguir entre o justo e o injusto, o verdadeiro e o falso, o digno e o
indigno. Essas exigências pertencem à própria condição humana.
A modernidade frequentemente imaginou que a secularização eliminaria
definitivamente tais necessidades. A experiência histórica parece indicar
resultado diferente. Em vez de desaparecerem, elas reorganizaram-se em torno de
novos centros simbólicos. O Estado, a ciência, a humanidade, o progresso, a
revolução, a liberdade ou a técnica passaram sucessivamente a desempenhar
funções integradoras anteriormente atribuídas à religião. A transcendência foi
substituída por diferentes absolutos históricos, mas a estrutura antropológica
permaneceu notavelmente constante.
Essa constatação ajuda igualmente a compreender por que determinados debates
contemporâneos assumem intensidade quase religiosa, mesmo quando seus
participantes se declaram inteiramente seculares. O problema raramente consiste
apenas na defesa de determinada opinião. Frequentemente encontra-se em jogo uma
visão completa da realidade, da pessoa humana e da história. Questionar determinado
princípio deixa de significar simples divergência intelectual e passa a ser
percebido como ameaça ao próprio fundamento da comunidade. A reação torna-se
proporcional não apenas ao argumento apresentado, mas à função simbólica
desempenhada por aquilo que está sendo defendido.
Chega-se, assim, a uma conclusão de grande importância para o restante desta
obra. O ateísmo, considerado apenas como negação da transcendência, não explica
suficientemente os fenômenos culturais que produziu. É necessário examiná-lo
também segundo as funções que passou a exercer dentro das civilizações
modernas. Somente então se torna possível compreender por que diversas
correntes declaradamente seculares desenvolveram estruturas de pertencimento,
autoridade, esperança e identidade extraordinariamente semelhantes às
encontradas nas grandes tradições religiosas. Essa perspectiva servirá de base
para o próximo artigo, no qual investigaremos como essas novas formas de
organização simbólica construíram autênticas escatologias sem Deus,
substituindo a expectativa da salvação transcendente por diferentes promessas
de redenção histórica.
Capítulo VI
Artigo XXII — Escatologias Sem Deus
Entre todos os elementos que compõem uma religião, poucos exercem influência
tão profunda quanto a escatologia. Toda grande tradição religiosa responde, de
alguma maneira, às mesmas perguntas fundamentais: para onde caminha a história?
Existe um fim último para a existência humana? O sofrimento possui significado?
A justiça triunfará? A morte constitui a última palavra? Essas questões
ultrapassam o interesse meramente especulativo. Elas orientam silenciosamente
toda a vida moral de uma civilização, porque o modo como uma cultura imagina
seu futuro determina, em grande medida, a maneira como organiza seu presente.
As religiões abraâmicas responderam a essas perguntas mediante a esperança
escatológica. A história não constitui simples sucessão de acontecimentos. Ela
possui origem, direção e finalidade. Deus conduz os acontecimentos para uma
consumação que transcende a própria história. O Reino de Deus, o Juízo Final, a
ressurreição e a restauração definitiva da ordem representam diferentes
aspectos dessa mesma convicção fundamental: o sentido último da existência
encontra-se para além das limitações do tempo presente. A esperança religiosa
nasce precisamente dessa transcendência.
Quando Deus deixa de ocupar o centro da inteligência, essa necessidade de
uma consumação final não desaparece. O homem continua perguntando para onde a
história caminha. Continua necessitando acreditar que o sofrimento possui algum
significado e que a injustiça não constitui a palavra definitiva sobre a
existência. A diferença encontra-se apenas na resposta. Em vez de situar a
realização última além da história, diversas correntes modernas passam a
procurá-la dentro da própria história. A escatologia torna-se progressivamente
imanente.
O marxismo talvez ofereça o exemplo mais evidente dessa transformação. A
sociedade sem classes ocupa função extraordinariamente semelhante àquela
desempenhada pelo Reino de Deus em diversas tradições religiosas. A história
adquire direção objetiva, os sofrimentos presentes recebem justificação pela
promessa futura e toda a humanidade caminha para uma reconciliação definitiva
consigo mesma. A transcendência desaparece; a estrutura da esperança permanece
praticamente intacta. A salvação deixa de ser sobrenatural e converte-se em
libertação histórica.
O positivismo desenvolve expectativa diferente, mas estruturalmente
semelhante. A humanidade progride continuamente mediante o avanço da ciência e
da técnica. Cada geração acumula conhecimento superior ao da anterior. A
ignorância, a doença, a pobreza e até mesmo determinados limites da natureza
humana parecem destinados a desaparecer progressivamente. O futuro transforma-se
em promessa permanente. A esperança deixa de repousar na providência divina e
passa a confiar quase exclusivamente na capacidade científica da civilização.
Também o liberalismo moderno desenvolveu sua própria escatologia. Embora
menos explícita, permanece profundamente presente na convicção de que o
aperfeiçoamento das instituições democráticas, dos direitos individuais e da
liberdade econômica conduzirá gradualmente a sociedades cada vez mais justas e
prósperas. O progresso político substitui parcialmente a expectativa religiosa.
O homem deixa de esperar a plenitude da intervenção divina e passa a depositar
confiança crescente na evolução contínua das estruturas sociais construídas por
ele mesmo.
Em épocas mais recentes, essa expectativa deslocou-se novamente para a
tecnologia. O desenvolvimento da inteligência artificial, da engenharia
genética, da biotecnologia e da computação produziu novas formas de esperança
histórica. Não poucos pensadores passaram a imaginar uma humanidade capaz de
superar definitivamente a doença, o envelhecimento e talvez até a própria morte
mediante recursos técnicos. O antigo sonho da imortalidade reaparece, agora,
sob linguagem científica. A redenção deixa de ser espiritual e torna-se
tecnológica.
Sob a perspectiva da religião comparada, essas transformações revelam
notável continuidade antropológica. O homem continua recusando a ideia de que a
história seja destituída de significado. Continua procurando uma consumação
capaz de justificar o sofrimento presente. Continua organizando sua existência
segundo alguma promessa futura suficientemente ampla para conferir unidade às
ações individuais. O objeto da esperança modifica-se continuamente; a
necessidade de esperar permanece constante.
Essa permanência demonstra igualmente que a escatologia não pertence
exclusivamente às religiões positivas. Ela corresponde a uma exigência
profundamente enraizada na estrutura da inteligência humana. O homem vive
orientado pelo futuro. Suas decisões presentes dependem continuamente daquilo
que considera possível alcançar. Nenhuma civilização consegue organizar-se sem
alguma concepção acerca de seu próprio destino. A esperança constitui elemento
antropológico antes mesmo de tornar-se elemento religioso.
Entretanto, existe diferença filosófica decisiva entre a escatologia
transcendente e suas formas imanentes. Nas religiões clássicas, a consumação
definitiva ultrapassa a história porque a própria história permanece limitada.
Nenhum acontecimento temporal pode realizar plenamente todas as possibilidades
do homem. As escatologias modernas procuram realizar essa plenitude dentro da
própria história. Espera-se da política, da economia, da ciência ou da técnica
aquilo que anteriormente era esperado da transcendência. A consequência
inevitável consiste em atribuir às realidades históricas responsabilidades que
frequentemente ultrapassam sua própria natureza.
Essa diferença ajuda igualmente a compreender diversas crises da
modernidade. Sempre que determinada promessa histórica fracassa, não entra em
colapso apenas um projeto político ou científico. Abala-se também a esperança
que havia sido depositada naquele projeto. O desencanto torna-se proporcional à
expectativa anteriormente construída. Quanto maior a promessa de redenção
histórica, maior tende a ser a frustração produzida por seus limites
inevitáveis. A história revela repetidamente esse movimento de entusiasmo,
realização parcial e desilusão.
Chega-se, assim, a uma conclusão de grande importância. A secularização não
eliminou a escatologia; apenas a deslocou da transcendência para a história. O
homem continua vivendo em função de alguma promessa de plenitude. O Reino de
Deus transforma-se em sociedade perfeita, progresso ilimitado, emancipação
política, desenvolvimento científico ou aperfeiçoamento tecnológico. Mudam os
nomes, os métodos e os fundamentos filosóficos. Permanece, entretanto, a mesma
necessidade profundamente humana de acreditar que a história possui direção e
que o futuro reserva uma realização capaz de justificar os esforços do
presente. É precisamente essa permanência que permitirá compreender, no próximo
artigo, como o desaparecimento do sagrado tradicional não suprimiu o sagrado da
vida humana, mas apenas deslocou seu objeto para novas realidades culturais e
políticas.
Capítulo VI
Artigo XXIII — O Sagrado Deslocado
A palavra "sagrado" costuma ser imediatamente associada aos
templos, aos ritos, às orações e aos objetos religiosos. Entretanto, a história
das religiões demonstra que seu significado é muito mais amplo. O sagrado
designa aquilo que uma civilização considera absolutamente inviolável, aquilo
diante do qual o homem reconhece um limite que não pode ser ultrapassado sem
comprometer a própria ordem da existência. Toda cultura estabelece uma
distinção entre aquilo que pode ser tratado como simples instrumento e aquilo
que deve ser cercado de respeito absoluto. Essa distinção constitui uma das
estruturas permanentes da experiência humana.
Nas sociedades tradicionais, esse lugar era ocupado principalmente por Deus
e, por participação, por tudo aquilo que Lhe pertencia. O templo era sagrado
porque remetia ao divino. A vida humana era sagrada porque procedia do Criador.
A verdade possuía caráter sagrado porque participava da inteligência divina. A
própria ordem moral recebia sua autoridade da relação com um fundamento
transcendente. O sagrado organizava toda a arquitetura simbólica da
civilização, funcionando como eixo em torno do qual se distribuíam os demais
valores.
A secularização moderna não eliminou essa estrutura. O que ela modificou foi
o objeto ao qual o caráter sagrado passou a ser atribuído. O homem continuou
distinguindo entre realidades ordinárias e realidades intocáveis. Apenas deixou
de fundamentar essa distinção na transcendência. Em lugar de Deus, diferentes
épocas passaram a sacralizar diferentes princípios históricos. A mudança
ocorreu de forma gradual e frequentemente imperceptível, precisamente porque a
estrutura antropológica permaneceu a mesma.
Durante determinados períodos, a nação ocupou essa posição privilegiada. A
pátria deixou de ser apenas comunidade política para tornar-se realidade quase
inviolável, capaz de exigir sacrifícios supremos de seus cidadãos. Em outros
momentos, foi a revolução que assumiu esse lugar. Criticá-la equivalia a atacar
o próprio sentido da história. Em diferentes contextos, também a raça, a classe
social, o partido, o progresso científico, a democracia, o mercado ou a
liberdade individual passaram sucessivamente a desempenhar funções semelhantes.
O conteúdo modificava-se; a sacralidade permanecia.
Essa transformação pode ser observada pela intensidade das reações
produzidas quando determinados princípios são questionados. Em toda religião
existem doutrinas cuja negação provoca forte resposta da comunidade. Fenômeno
semelhante ocorre em numerosas ideologias modernas. Certos temas deixam de ser
objeto de investigação e tornam-se critérios prévios para toda investigação
possível. Não se trata apenas de defender uma ideia considerada verdadeira.
Trata-se de proteger um fundamento cuja contestação parece ameaçar a própria
identidade coletiva. O comportamento social aproxima-se, sob diversos aspectos,
daquele anteriormente reservado às verdades religiosas.
Esse deslocamento manifesta-se igualmente na linguagem. Palavras como
"progresso", "liberdade", "ciência",
"igualdade", "humanidade" ou "democracia"
frequentemente deixam de funcionar apenas como conceitos descritivos. Passam a
exercer função normativa e simbólica. Tornam-se referências últimas diante das
quais outras realidades devem ser julgadas. Em si mesmas, essas palavras
designam bens reais e importantes. O problema filosófico surge quando deixam de
ser bens relativos para converterem-se em absolutos incapazes de receber
qualquer limitação ou integração dentro de uma ordem mais ampla.
Sob a perspectiva da religião comparada, esse fenômeno revela extraordinária
continuidade histórica. A inteligência humana parece estruturalmente inclinada
a reconhecer alguma realidade como digna de reverência suprema. Quando Deus
deixa de ocupar esse lugar, outro princípio tende espontaneamente a recebê-lo.
A sacralidade não desaparece; apenas muda de endereço. O homem continua
distinguindo entre aquilo que considera negociável e aquilo que julga
absolutamente inviolável. A experiência permanece; modifica-se seu fundamento.
Essa permanência permite compreender por que sociedades profundamente
secularizadas continuam produzindo símbolos, cerimônias, datas comemorativas,
monumentos, juramentos públicos e narrativas fundadoras dotadas de enorme força
emocional. Nenhuma comunidade política consegue sobreviver apenas mediante
contratos racionais. Toda sociedade necessita de elementos simbólicos capazes
de produzir pertencimento, continuidade e identidade. Mesmo quando a religião
perde influência institucional, essas necessidades continuam exigindo resposta.
A cultura encarrega-se então de fornecer novos objetos de veneração coletiva.
Entretanto, existe diferença filosófica decisiva entre o sagrado
transcendente e o sagrado deslocado. Quando Deus ocupa o centro da ordem, todas
as demais realidades permanecem relativas a Ele. Nenhuma instituição humana
pode reivindicar autoridade absoluta, precisamente porque todas participam de
um fundamento superior. Quando esse fundamento desaparece, aumenta
significativamente a possibilidade de que alguma realidade histórica
reivindique para si um valor absoluto que, por sua própria natureza
contingente, não consegue sustentar indefinidamente. O resultado costuma ser
uma tensão permanente entre a limitação concreta das instituições humanas e as
expectativas quase ilimitadas que sobre elas passam a recair.
Talvez seja justamente essa uma das características mais marcantes da
modernidade. O desaparecimento da transcendência não eliminou a necessidade do
sagrado. Produziu apenas uma multiplicação de sagrados concorrentes. Diferentes
grupos passaram a organizar sua identidade em torno de princípios considerados
invioláveis, frequentemente incompatíveis entre si. A unidade anteriormente
fornecida por uma referência comum cedeu lugar a uma pluralidade de centros
simbólicos disputando legitimidade dentro da mesma sociedade. A fragmentação
cultural revela-se, assim, inseparável da fragmentação do próprio sagrado.
Chega-se, portanto, a uma conclusão que sintetiza toda a investigação
realizada até aqui. O homem não parece capaz de viver sem algum objeto de
reverência suprema. Pode modificar sua religião, abandonar sua tradição ou
rejeitar explicitamente Deus. Ainda assim, continuará organizando sua
existência em torno de alguma realidade considerada última. A questão decisiva
deixa então de ser saber se existe ou não algo sagrado na vida humana. A
verdadeira pergunta consiste em identificar aquilo que cada civilização decidiu
tornar sagrado e examinar se esse objeto possui efetivamente condições de
sustentar a autoridade que lhe foi atribuída. Essa será precisamente a
investigação do último artigo deste capítulo, quando examinaremos a formação da
nova sacralidade característica da civilização contemporânea.
Capítulo VI
Artigo XXIV — A Nova Sacralidade
Ao término deste capítulo, torna-se possível perceber que a secularização
jamais significou o desaparecimento do sagrado. Ela representou, antes, uma
profunda reorganização de seu objeto. A modernidade frequentemente acreditou
ter libertado o homem de toda forma de sacralidade ao reduzir progressivamente
a influência das religiões tradicionais. Entretanto, aquilo que efetivamente
ocorreu foi um fenômeno muito mais sutil. A necessidade humana de reconhecer
realidades absolutas permaneceu praticamente inalterada. Mudaram apenas os
princípios que passaram a ocupar essa posição. O sagrado abandonou os templos
para dispersar-se por diferentes esferas da cultura.
Essa dispersão constitui talvez uma das características mais marcantes da
civilização contemporânea. Enquanto as sociedades tradicionais possuíam um
centro relativamente unificado de referência, a modernidade multiplicou os
centros possíveis de sacralização. A ciência tornou-se sagrada para alguns; a
autonomia individual, para outros; a identidade nacional, a igualdade, a
liberdade, o progresso tecnológico, a preservação ambiental, o mercado, a
democracia ou a própria humanidade passaram sucessivamente a ocupar posições de
autoridade quase absoluta. Nenhum desses princípios é necessariamente
ilegítimo. Todos representam bens reais. O problema surge quando qualquer um
deles deixa de ocupar lugar relativo e passa a reivindicar validade
incondicional sobre todas as demais dimensões da existência.
Essa multiplicação dos absolutos produz um efeito histórico inevitável. Se
cada grupo social organiza sua vida em torno de um centro simbólico diferente,
torna-se progressivamente mais difícil estabelecer uma linguagem comum capaz de
integrar toda a comunidade política. O conflito deixa de ocorrer apenas entre
opiniões diversas. Passa a ocorrer entre diferentes formas de sacralidade. Cada
lado percebe o outro não apenas como adversário intelectual, mas como ameaça ao
próprio fundamento de sua visão do mundo. O debate transforma-se lentamente em
disputa entre absolutos concorrentes.
É justamente por isso que muitos conflitos contemporâneos assumem
intensidade desproporcional aos temas aparentemente discutidos. Questões que,
em outros períodos históricos, permaneceriam restritas ao campo jurídico,
científico ou político passam a adquirir enorme carga emocional. A razão desse
fenômeno encontra-se menos no conteúdo imediato dessas discussões do que na
função simbólica que passaram a exercer. Criticar determinado princípio
significa, muitas vezes, questionar aquilo que determinada comunidade considera
inviolável. O desacordo deixa então de ser apenas racional e adquire dimensão
existencial.
A cultura digital ampliou significativamente esse processo. Pela primeira
vez na história, diferentes sistemas simbólicos convivem simultaneamente no
mesmo espaço comunicativo, competindo continuamente pela atenção, pela adesão e
pela autoridade moral dos indivíduos. O homem contemporâneo transita
diariamente entre múltiplas comunidades interpretativas, cada uma delas
oferecendo seus próprios heróis, suas narrativas fundadoras, seus critérios de
pertencimento, seus interditos e seus objetos de veneração. A antiga unidade
religiosa cede lugar a uma pluralidade permanente de pequenas sacralidades
concorrentes.
Essa transformação modifica igualmente a experiência individual. Nas
sociedades tradicionais, a identidade era construída em torno de referências
relativamente estáveis transmitidas pela família, pela religião e pela cultura
local. A modernidade tardia transfere ao próprio indivíduo a responsabilidade
de escolher quais princípios considerar absolutos. A liberdade cresce
enormemente, mas cresce também o peso da decisão. O homem já não recebe
integralmente seu universo simbólico; precisa construí-lo continuamente. A
sacralidade torna-se, em grande medida, objeto de escolha pessoal.
Entretanto, essa aparente autonomia não elimina uma dificuldade filosófica
fundamental. Se o próprio indivíduo escolhe aquilo que considera sagrado, quem
determinará os limites entre diferentes sacralidades incompatíveis? Se toda
referência última depende exclusivamente da vontade humana, desaparece qualquer
critério objetivo capaz de arbitrar conflitos entre absolutos concorrentes. A
pluralidade amplia a liberdade, mas também aumenta a instabilidade. Quanto
maior o número de fundamentos possíveis, mais difícil se torna encontrar um
fundamento comum para a convivência social.
Sob a perspectiva da religião comparada, esse cenário revela uma das maiores
diferenças entre a modernidade e as civilizações anteriores. O problema
contemporâneo já não consiste principalmente na oposição entre religião e
ateísmo. Consiste na coexistência de múltiplas formas de sacralização,
religiosas e seculares, disputando simultaneamente a função de organizar a
inteligência coletiva. A antiga oposição binária dissolve-se numa complexa rede
de absolutos concorrentes. O conflito deixa de ocorrer apenas entre fé e
descrença. Passa a envolver diferentes concepções acerca daquilo que merece
confiança absoluta.
Essa constatação permite reinterpretar toda a trajetória desenvolvida ao
longo desta obra. O ateísmo não eliminou a religião como estrutura
antropológica. Também não suprimiu o sagrado, a esperança ou a necessidade de
um fundamento último. Reorganizou todos esses elementos segundo novos
princípios históricos. Em consequência, a modernidade não produziu uma
civilização sem absolutos. Produziu uma civilização onde diversos absolutos
competem continuamente entre si pela autoridade moral e intelectual da
sociedade.
Talvez seja precisamente essa a razão pela qual tantas discussões
contemporâneas parecem insolúveis. Não se trata apenas de divergências sobre
fatos ou argumentos. Em grande parte dos casos, confrontam-se diferentes centros
de sacralidade, diferentes narrativas de redenção e diferentes concepções do
homem. Enquanto esses fundamentos permanecerem implícitos, o diálogo
dificilmente alcançará verdadeira profundidade. A inteligência continuará
discutindo conclusões sem examinar cuidadosamente os princípios últimos que
lhes dão origem.
Chega-se, assim, ao término deste capítulo e a uma das teses centrais de
toda a investigação. O homem parece incapaz de viver sem um absoluto, sem uma
esperança e sem alguma forma de sagrado. A descrença modifica profundamente o
conteúdo dessas realidades, mas não elimina sua necessidade antropológica. A
verdadeira questão filosófica deixa então de ser simplesmente se Deus foi
abandonado. Torna-se necessário perguntar qual realidade passou a ocupar Seu
lugar e se ela possui efetivamente capacidade para sustentar as funções
espirituais, morais e civilizacionais que lhe foram atribuídas. Essa pergunta
conduzirá naturalmente ao capítulo final desta obra, onde investigaremos se
existe um ateísmo verdadeiramente puro ou se toda negação da transcendência
acaba, inevitavelmente, reconstruindo alguma forma de fundamento absoluto.
Capítulo VII
Artigo XXV — A Crise do Fundamento
Desde o início desta investigação procuramos evitar uma compreensão
simplificada do ateísmo. Em vez de tratá-lo como mera ausência de crença
religiosa, examinamos sua formação histórica, suas raízes filosóficas, suas
diferentes antropologias e suas consequências civilizacionais. O percurso
revelou uma constante inesperada. Em nenhuma das modalidades analisadas a
negação de Deus permaneceu simplesmente negativa. Sempre que um fundamento era
recusado, outro surgia para ocupar sua função. Essa constatação conduz
inevitavelmente ao problema central deste capítulo: pode uma civilização viver
sem qualquer fundamento absoluto ou toda inteligência acaba inevitavelmente
reconstruindo algum princípio último?
A filosofia clássica sempre compreendeu o fundamento como aquilo que impede
o pensamento de dissolver-se numa regressão infinita. Toda explicação depende
de outra explicação, toda causa remete a outra causa, todo juízo pressupõe
algum critério de verdade. Se esse movimento não encontrar um princípio
suficientemente estável, a inteligência permanecerá indefinidamente suspensa
sem conseguir justificar sequer o próprio ato de conhecer. A questão do
fundamento não pertence apenas à teologia. Ela constitui uma exigência interna
da própria racionalidade.
As grandes tradições religiosas responderam a essa exigência identificando
em Deus o princípio último da realidade. A metafísica clássica procurou
demonstrar racionalmente essa conclusão; a revelação ofereceu-lhe conteúdo
histórico e espiritual. A modernidade, entretanto, julgou possível reorganizar
toda a estrutura do conhecimento sem recorrer a esse fundamento transcendente.
O projeto mostrou-se intelectualmente fecundo em inúmeros aspectos. Produziu
extraordinário desenvolvimento científico, ampliou a autonomia das diversas
disciplinas e favoreceu formas inéditas de investigação racional. Contudo, ao
mesmo tempo, deslocou continuamente a pergunta pelo fundamento sem jamais
conseguir eliminá-la.
Pode-se acompanhar esse deslocamento ao longo de praticamente toda a
filosofia moderna. Em Descartes, o fundamento aproxima-se da certeza da
consciência. Em Kant, das condições transcendentais do conhecimento. Em Hegel,
do movimento dialético do Espírito. Em Marx, da história. Em Nietzsche, da
vontade de potência. Em Freud, da estrutura inconsciente da personalidade. No
positivismo, do método científico. No humanismo contemporâneo, da autonomia da
pessoa. As respostas multiplicam-se, mas a pergunta permanece rigorosamente a
mesma. O fundamento apenas muda de lugar.
Essa permanência demonstra que o problema não pertence exclusivamente às
religiões. Pertence à própria estrutura da inteligência. O homem não consegue
pensar indefinidamente sem algum ponto de repouso capaz de justificar o
restante de seu sistema. Mesmo quando declara rejeitar qualquer absoluto,
continua pressupondo algum critério último para distinguir verdadeiro e falso,
justo e injusto, legítimo e ilegítimo. A negação do fundamento transforma-se
frequentemente em simples deslocamento do fundamento.
É precisamente nesse ponto que se manifesta a principal tensão do ateísmo
contemporâneo. Muitas correntes recusam explicitamente qualquer realidade
absoluta e, ao mesmo tempo, afirmam de maneira incondicional determinados
valores considerados irrenunciáveis. A dignidade da pessoa, os direitos
humanos, a igualdade moral, a liberdade, a justiça ou a racionalidade são
frequentemente apresentados como princípios cuja validade ultrapassa
circunstâncias históricas particulares. Entretanto, quanto mais universais
esses valores pretendem ser, mais intensa se torna a necessidade de justificar
o fundamento que lhes confere tal universalidade. A dificuldade não consiste em
afirmar esses bens, mas em explicar por que devem possuir validade objetiva
quando já não existe realidade superior ao próprio homem.
Sob a perspectiva da religião comparada, essa dificuldade aparece em
praticamente todas as formas de descrença estudadas nesta obra. O marxismo
precisou atribuir à história uma objetividade capaz de fundamentar a justiça
revolucionária. O cientificismo transferiu essa função às leis da natureza. O
existencialismo procurou sustentá-la na liberdade. O humanismo liberal
depositou-a na autonomia da pessoa. Nenhuma dessas correntes permaneceu sem
fundamento. Todas reconstruíram, de maneira explícita ou implícita, algum
princípio considerado suficientemente absoluto para organizar sua visão da
realidade.
Essa observação permite compreender um dos fenômenos mais característicos da
cultura contemporânea. Grande parte dos conflitos filosóficos atuais não
decorre da oposição entre quem possui fundamento e quem não possui. Decorre da
existência de fundamentos concorrentes. Diferentes correntes disputam qual
realidade deve ocupar o centro da inteligência coletiva. O debate raramente
ocorre entre fundamento e ausência de fundamento. Ocorre entre diferentes
candidatos ao lugar anteriormente reservado ao absoluto.
Talvez seja justamente essa a maior contribuição da história das ideias para
o estudo do ateísmo. Ela demonstra que a questão decisiva nunca consistiu
simplesmente na existência de Deus. A verdadeira questão sempre foi a do
fundamento. Toda civilização necessita responder de algum modo por que existe
ordem em vez de caos, verdade em vez de ilusão, moral em vez de arbitrariedade
e dignidade em vez de mera utilidade. Enquanto essas perguntas permanecerem
inevitáveis, também permanecerá inevitável a busca de algum princípio capaz de
respondê-las.
Chega-se, assim, à conclusão que orientará os últimos artigos desta obra. O
problema filosófico do ateísmo não reside apenas naquilo que nega, mas
principalmente naquilo que afirma para ocupar o lugar daquilo que negou. A
crise moderna não pode ser compreendida apenas como perda da transcendência.
Ela constitui igualmente uma permanente procura de novos fundamentos capazes de
exercer as funções anteriormente atribuídas ao absoluto. É precisamente essa
procura que permitirá investigar, nos artigos seguintes, se a metafísica
realmente desapareceu da cultura contemporânea ou se apenas passou a
manifestar-se sob novas linguagens e novos símbolos.
Capítulo VII
Artigo XXVI — O Ateísmo e o Retorno Involuntário da Metafísica
Uma das características mais marcantes da filosofia contemporânea consiste
na frequente afirmação de que a metafísica teria sido definitivamente superada.
Desde o Iluminismo, passando pelo positivismo e chegando a diversas correntes
do século XX, tornou-se comum sustentar que o pensamento deveria limitar-se ao
campo da experiência verificável, da linguagem, da história ou das estruturas
sociais. A metafísica passou a ser frequentemente apresentada como resíduo de
uma época pré-científica, incapaz de oferecer conhecimento verdadeiro acerca da
realidade. Entretanto, a própria história da filosofia revela um fenômeno
surpreendente. Quanto mais energicamente se tentou expulsar a metafísica, mais
ela reapareceu sob novas formas e novos vocabulários.
A razão dessa permanência é relativamente simples. A metafísica não nasce do
desejo arbitrário de construir sistemas abstratos. Ela nasce das próprias
perguntas inevitáveis da inteligência. Sempre que o homem pergunta o que é a
realidade, por que existe alguma coisa em vez do nada, o que torna verdadeiro
um juízo, qual é o fundamento da moral ou por que a razão pode conhecer o
mundo, ele já se encontra realizando investigação metafísica. Pode recusar esse
nome; dificilmente conseguirá evitar o problema. A inteligência humana parece
estruturalmente incapaz de limitar-se indefinidamente ao fenômeno sem perguntar
também pelo fundamento do fenômeno.
É justamente por isso que muitos ateísmos modernos acabam reconstruindo,
involuntariamente, autênticas metafísicas. O materialismo afirma que toda
realidade se reduz à matéria. O naturalismo sustenta que somente a natureza
existe. O fisicalismo procura explicar todos os fenômenos mediante processos
físicos. O historicismo atribui primazia absoluta à história. Cada uma dessas
posições apresenta-se frequentemente como crítica da metafísica tradicional.
Entretanto, todas realizam exatamente aquilo que pretendem abandonar: formulam
afirmações universais acerca da estrutura última da realidade. A diferença
encontra-se apenas no conteúdo dessas afirmações.
Pode-se perceber esse retorno observando a própria linguagem utilizada por
essas correntes. Quando alguém afirma que "tudo é matéria", não está
descrevendo apenas determinado objeto observado experimentalmente. Está
pronunciando um juízo acerca da totalidade do ser. Nenhum laboratório pode
examinar diretamente a totalidade do ser. A conclusão ultrapassa
necessariamente o domínio da experiência particular. Trata-se, portanto, de uma
proposição metafísica. O mesmo ocorre quando se afirma que somente a ciência
produz conhecimento verdadeiro ou que toda consciência resulta exclusivamente
de processos materiais. Essas afirmações pretendem valer universalmente e,
justamente por isso, pertencem inevitavelmente ao campo da filosofia primeira.
Esse fenômeno demonstra uma importante distinção metodológica. Existe
diferença entre rejeitar determinada metafísica e rejeitar toda metafísica. A
primeira atitude é perfeitamente possível. Platão criticou os pré-socráticos;
Aristóteles corrigiu Platão; Tomás dialogou criticamente com Aristóteles; Kant
reformulou toda a tradição anterior. A história da filosofia é, em grande
medida, história dessas revisões. Outra coisa completamente diferente consiste
em imaginar que o pensamento possa existir sem qualquer pressuposto metafísico.
Até o momento, nenhuma corrente filosófica conseguiu realizar efetivamente esse
projeto.
O próprio desenvolvimento das ciências confirma essa observação. A física
investiga as leis da natureza; a biologia estuda os organismos vivos; a
psicologia analisa os processos mentais; a sociologia observa as estruturas
sociais. Todas essas disciplinas pressupõem continuamente conceitos como
realidade, causalidade, identidade, tempo, ordem e verdade. Nenhuma delas
demonstra experimentalmente esses princípios. Elas simplesmente os utilizam
porque constituem condições prévias para qualquer investigação racional. A
ciência depende silenciosamente de uma infraestrutura filosófica que ela mesma
não produz.
Sob a perspectiva da religião comparada, essa permanência da metafísica
possui significado ainda mais profundo. Ela explica por que as diversas formas
de ateísmo continuaram produzindo visões completas da realidade. O homem não
consegue limitar-se a negar Deus. Precisa também responder o que existe, qual é
a natureza do homem, de onde provém a moral, por que a inteligência conhece e
qual é o destino da história. Cada resposta articula inevitavelmente uma metafísica,
ainda que seu autor recuse explicitamente essa denominação. A estrutura
permanece constante; apenas o conteúdo se modifica.
Essa constatação permite reinterpretar grande parte dos debates
contemporâneos. Muitas controvérsias apresentadas como conflitos entre ciência
e religião ou entre fé e razão revelam-se, em exame mais atento, disputas entre
diferentes metafísicas. Uma delas atribui prioridade à matéria; outra, à
consciência; outra, à linguagem; outra, à história; outra, ao ser. A
divergência raramente ocorre entre filosofia e ausência de filosofia. Ocorre
entre filosofias concorrentes, cada uma oferecendo interpretação distinta da
realidade última.
Tal reconhecimento possui importante consequência intelectual. Obriga
igualmente o pensamento religioso a abandonar qualquer atitude simplificadora.
Se o ateísmo reconstrói inevitavelmente uma metafísica, ele deixa de ser
compreendido como simples ausência de pensamento filosófico. Torna-se
interlocutor genuíno dentro da investigação acerca do fundamento da realidade.
O debate deixa então de opor metafísica e antimetafísica. Passa a opor
diferentes compreensões metafísicas da existência. Essa mudança eleva
significativamente o nível da discussão, pois desloca o problema do terreno da
caricatura para o da filosofia propriamente dita.
Chega-se, assim, a uma conclusão decisiva para o encerramento desta obra. A
modernidade não assistiu ao desaparecimento da metafísica. Assistiu à
substituição de determinadas metafísicas por outras. A linguagem tornou-se mais
científica, mais histórica ou mais psicológica; entretanto, a necessidade de
interpretar a totalidade do real permaneceu rigorosamente a mesma. O ateísmo
não aboliu a filosofia primeira. Apenas lhe atribuiu novos princípios e novos
fundamentos. Resta agora responder à pergunta final desta investigação: se toda
inteligência necessita inevitavelmente de um fundamento e toda negação
reconstrói alguma forma de absoluto, será possível existir um ateísmo
absolutamente puro ou a própria estrutura da razão humana torna inevitável a
busca permanente pelo fundamento último da realidade?
Capítulo VII
Artigo XXVII — Existe um Ateísmo Puro?
Ao longo desta investigação procuramos acompanhar o ateísmo em suas
múltiplas manifestações históricas. Examinamos suas origens religiosas, suas
raízes filosóficas, suas diferentes antropologias, seus desdobramentos
culturais e suas consequências civilizacionais. O percurso conduziu
continuamente à mesma constatação: toda vez que determinado fundamento era
abandonado, outro surgia para ocupar sua função. Essa repetição não parece
constituir simples coincidência histórica. Ela revela algo mais profundo acerca
da própria estrutura da inteligência humana. Surge então a pergunta inevitável:
existe realmente um ateísmo completamente puro, isto é, uma forma de pensamento
absolutamente desprovida de qualquer fundamento último?
Responder afirmativamente exigiria demonstrar que a inteligência consegue
organizar integralmente a realidade sem recorrer a nenhum princípio absoluto.
Entretanto, toda investigação realizada até aqui aponta precisamente na direção
oposta. O homem pode modificar indefinidamente aquilo que considera fundamento;
dificilmente consegue eliminar a própria ideia de fundamento. Sempre que
procura explicar o mundo, termina inevitavelmente elegendo alguma realidade
como suficientemente primeira para justificar todas as demais. A mudança ocorre
no conteúdo dessa realidade, não na função que ela desempenha.
Essa conclusão pode ser observada mesmo nas correntes filosóficas que mais
energicamente combateram qualquer forma de transcendência. O materialismo faz
da matéria o princípio universal. O naturalismo atribui essa posição à
natureza. O historicismo entrega-a ao processo histórico. O cientificismo
transfere-a ao método científico. O existencialismo concentra-a na liberdade. O
humanismo secular localiza-a na autonomia da pessoa. Nenhuma dessas filosofias
permanece sem absoluto. Todas apenas modificam aquilo que recebe essa dignidade
filosófica.
Esse fenômeno possui enorme importância porque demonstra que a questão
fundamental nunca foi propriamente Deus. O verdadeiro problema sempre consistiu
na necessidade de um princípio capaz de explicar a unidade da realidade. A
palavra "Deus" representa uma resposta possível a essa exigência.
Outras filosofias oferecem respostas diferentes. O que nenhuma delas consegue
fazer é eliminar a própria exigência. A inteligência continua perguntando pela
origem da ordem, pelo fundamento da verdade, pela legitimidade da moral e pelo
sentido da existência. Enquanto essas perguntas permanecerem inevitáveis,
também permanecerá inevitável a procura de algum absoluto.
Pode-se dizer, portanto, que o ateísmo puro somente seria possível caso a
inteligência humana renunciasse completamente à própria racionalidade metafísica.
Seria necessário abandonar definitivamente perguntas acerca do ser, da verdade,
da moral, da causalidade, da finalidade e do fundamento. Entretanto, tal
renúncia parece incompatível com a própria natureza da razão. O homem pode
suspender temporariamente essas perguntas; dificilmente consegue suprimi-las.
Elas retornam continuamente porque pertencem à estrutura mesma do pensamento.
Sob essa perspectiva, torna-se igualmente possível compreender por que
tantas correntes modernas oscilaram entre sucessivos fundamentos. Quando
determinado princípio revelou limitações, outro foi rapidamente elevado à
condição de novo absoluto. A história substituiu a natureza; a consciência
substituiu a história; a linguagem substituiu a consciência; a técnica passou a
substituir parcialmente todas elas. O movimento não indica ausência de
metafísica. Revela precisamente sua permanência. A inteligência continua
procurando aquilo que possa desempenhar a função de fundamento último.
Essa observação conduz igualmente a uma releitura da própria secularização.
Frequentemente ela foi descrita como passagem da religião para a ausência de
religião. A análise realizada nesta obra sugere interpretação diferente. O
processo parece consistir muito mais na passagem entre diferentes formas de fundamentação
do que na eliminação do fundamento. A transcendência foi frequentemente
substituída por princípios imanentes, mas a necessidade de um centro
organizador permaneceu praticamente intacta. O homem secular continua
estruturando sua existência em torno de algum absoluto, ainda que raramente
utilize essa linguagem para descrevê-lo.
Sob o ponto de vista da religião comparada, essa conclusão permite
compreender a extraordinária continuidade existente entre civilizações
religiosas e sociedades modernas. Ambas procuram responder às mesmas perguntas
fundamentais. Divergem frequentemente quanto às respostas, mas permanecem
unidas pela permanência dos problemas. A origem, o sentido, a verdade, o bem, a
liberdade, a justiça e o destino da existência continuam organizando o
pensamento humano através dos séculos. A modernidade alterou profundamente suas
soluções; não conseguiu eliminar suas perguntas.
Chega-se, assim, ao término desta investigação. O objetivo desta obra nunca
consistiu em demonstrar a superioridade de determinada tradição religiosa nem
em reduzir o ateísmo a simples erro intelectual. Procurou-se compreender
historicamente sua formação, filosoficamente sua estrutura e antropologicamente
suas consequências. O resultado alcançado permite formular uma conclusão
relativamente modesta, mas intelectualmente significativa: o ateísmo,
considerado apenas como negação de Deus, nunca esgota sua própria realidade.
Toda negação pressupõe alguma afirmação; toda recusa repousa sobre algum
fundamento; toda crítica organiza-se segundo determinada visão da realidade.
Talvez seja precisamente essa a principal lição oferecida pela história das
ideias. O homem parece incapaz de viver sem algum princípio último diante do
qual organize sua inteligência, sua moral e sua esperança. A verdadeira questão
filosófica deixa então de ser simplesmente se alguém acredita ou não em Deus.
Torna-se muito mais profunda: qual realidade ocupa efetivamente, para
cada inteligência e para cada civilização, o lugar do fundamento absoluto?
Enquanto essa pergunta permanecer aberta, continuará igualmente aberta a
investigação filosófica acerca da própria condição humana. E enquanto o homem
continuar perguntando pelo fundamento da realidade, a metafísica, sob um nome
ou sob outro, continuará inevitavelmente acompanhando toda a aventura da
inteligência.
Epílogo
O Homem e o Absoluto
Ao iniciarmos esta investigação, a pergunta parecia relativamente simples.
Pretendíamos compreender o ateísmo. Entretanto, à medida que percorremos sua
história, tornou-se evidente que o objeto de nosso estudo não era apenas a
descrença. O verdadeiro objeto sempre foi o próprio homem. O ateísmo revelou-se
menos como ausência de religião do que como uma forma particular de responder
às mesmas perguntas que acompanharam todas as civilizações: por que existe
alguma coisa em vez do nada, qual é o fundamento da verdade, de onde provém a
moral, qual é o sentido da história e para onde caminha a existência humana.
Foi precisamente essa constatação que nos obrigou a abandonar a ideia de um
único ateísmo. Descobrimos que existem muitos. O protestante, o católico, o judaico,
o islâmico, o filosófico, o existencial, o marxista, o positivista, o
cientificista, o humanista e tantos outros não representam simples variações de
uma mesma negação. Cada um nasce de uma tradição diferente, conserva estruturas
diferentes e produz consequências diferentes. A descrença possui genealogia.
Sua forma depende daquilo que procura negar.
A religião comparada permitiu então perceber um fenômeno ainda mais
profundo. Toda negação conserva parte daquilo que combate. As categorias
permanecem. A linguagem permanece. A esperança permanece. O sagrado permanece.
O absoluto permanece. Modifica-se apenas o objeto ao qual essas funções passam
a ser atribuídas. A história substitui Deus. A ciência substitui Deus. A
liberdade substitui Deus. A humanidade substitui Deus. O progresso substitui
Deus. Em cada época muda o nome; permanece a necessidade.
Essa permanência não constitui simples acidente histórico. Parece nascer da
própria estrutura da inteligência. O homem não apenas conhece objetos
particulares; procura continuamente aquilo que confere unidade ao conjunto da
realidade. Não vive apenas de fatos. Vive também de fundamentos. Não organiza
sua existência apenas mediante causas imediatas. Necessita igualmente de
princípios últimos capazes de justificar suas escolhas, seus sacrifícios, suas
instituições e sua esperança.
Talvez seja justamente essa a grande descoberta proporcionada pela história
das ideias. O problema filosófico nunca consistiu apenas na existência de Deus.
Sempre consistiu na existência do absoluto. Deus representa uma resposta
possível a essa exigência. O ateísmo não elimina a exigência; apenas propõe
respostas diferentes. A verdadeira disputa nunca ocorreu entre fundamento e
ausência de fundamento, mas entre diferentes compreensões do fundamento.
Essa conclusão modifica igualmente a compreensão da própria modernidade.
Costuma-se descrevê-la como época da secularização, do desencantamento do mundo
e da superação das antigas estruturas religiosas. A análise desenvolvida nesta
obra sugere interpretação diversa. O mundo talvez nunca tenha deixado de ser
sagrado. Apenas multiplicou seus sagrados. O homem moderno não vive
necessariamente sem absolutos. Vive frequentemente entre absolutos
concorrentes. O conflito contemporâneo nasce menos da ausência de fundamentos
do que da coexistência de múltiplos fundamentos disputando legitimidade.
É justamente por isso que a pergunta decisiva deixa de ser "você
acredita em Deus?". Essa pergunta, embora importante, revela-se
insuficiente para compreender a complexidade da condição humana. A investigação
conduz inevitavelmente a outra, muito mais profunda: qual realidade
ocupa, para você, o lugar do fundamento último? Diante de que
princípio todas as demais coisas recebem sentido? Qual realidade determina, em
última instância, aquilo que você considera verdadeiro, justo, belo, digno e
necessário? Toda filosofia responde, consciente ou inconscientemente, a essas
perguntas.
A história demonstra que as respostas mudam. Mudam as religiões, mudam as
filosofias, mudam os sistemas políticos, mudam as teorias científicas e mudam
as culturas. Entretanto, as perguntas permanecem extraordinariamente estáveis.
Talvez seja justamente essa estabilidade que explique por que a metafísica
jamais desapareceu. Ela acompanha o homem porque acompanha a própria
inteligência. Enquanto houver alguém perguntando pela origem, pela verdade,
pelo bem e pelo sentido, continuará existindo alguma forma de metafísica, ainda
que sob nomes completamente diferentes daqueles utilizados pelas gerações
anteriores.
Esta obra não pretendeu oferecer uma resposta definitiva para essas
questões. Seu propósito foi mais modesto e, talvez por isso mesmo, mais
necessário. Procurou apenas mostrar que o ateísmo não pode ser compreendido
como simples vazio intelectual. Trata-se de um conjunto complexo de tradições,
pressupostos, fundamentos e antropologias que merece ser estudado com o mesmo
rigor aplicado às grandes religiões da humanidade. Somente essa abordagem
permite compreender sua verdadeira profundidade histórica e filosófica.
Se o leitor chegou até aqui, talvez perceba que o percurso realizado começou
falando sobre Deus, passou pelo homem e terminou novamente no homem. Não porque
Deus tenha desaparecido da investigação, mas porque toda pergunta sobre Deus
acaba inevitavelmente tornando-se uma pergunta sobre aquele que pergunta. A
inteligência nunca contempla apenas o objeto; contempla também a si mesma
enquanto procura compreender o objeto. É nessa dupla contemplação que nasce a
filosofia.
E talvez seja precisamente aí que toda investigação séria termina. Não numa
resposta absoluta, mas numa pergunta formulada com maior clareza. Enquanto o
homem continuar perguntando pelo fundamento da realidade, continuará igualmente
perguntando por si mesmo. E enquanto essa pergunta permanecer viva, a aventura
da filosofia ainda não terá chegado ao fim.
Índice
Prólogo
Não
Existe "o" Ateísmo
Capítulo I — O Problema
Filosófico do Ateísmo
Artigo I
— O Erro de Falar em "o" Ateísmo
Artigo II
— A Genealogia da Descrença
Artigo
III — Método para uma Religião Comparada do Ateísmo
Artigo IV
— A Estrutura Filosófica da Negação
Capítulo II — Os Ateísmos
Religiosos
Artigo V
— O Ateísmo Protestante
Artigo VI
— O Ateísmo Católico
Artigo
VII — O Ateísmo Judaico
Artigo
VIII — O Ateísmo Islâmico
Capítulo III — Os Ateísmos
Filosóficos
Artigo IX
— O Ateísmo Platônico e Aristotélico
Artigo X
— O Ateísmo Agostiniano e Tomista
Artigo XI
— O Ateísmo Deísta e Iluminista
Artigo
XII — O Ateísmo Existencial
Capítulo IV — Os Ateísmos
Ideológicos
Artigo
XIII — O Ateísmo Marxista
Artigo
XIV — O Ateísmo Freudiano
Artigo XV
— O Ateísmo Positivista e Cientificista
Artigo
XVI — O Ateísmo Humanista e Liberal
Capítulo V — Estruturas
Comparadas da Descrença
Artigo
XVII — O Que Cada Ateísmo Conserva da Religião que Nega
Artigo
XVIII — Os Ídolos Substitutivos
Artigo
XIX — Antropologia Comparada dos Ateísmos
Artigo XX
— Consequências Históricas e Civilizacionais
Capítulo VI — A Religião
sem Deus?
Artigo
XXI — O Ateísmo Pode Tornar-se uma Religião?
Artigo
XXII — Escatologias Sem Deus
Artigo
XXIII — O Sagrado Deslocado
Artigo
XXIV — A Nova Sacralidade
Capítulo VII — O Problema
do Fundamento
Artigo
XXV — A Crise do Fundamento
Artigo
XXVI — O Ateísmo e o Retorno Involuntário da Metafísica
Artigo
XXVII — Existe um Ateísmo Puro?
Epílogo
O Homem e
o Absoluto