Muqaddimah
Al-‘Allāmah Ibn Khaldūn
Em nome
de Deus, o Clemente, o Misericordioso
Diz o
servo necessitado da misericórdia de Deus Altíssimo, ‘Abd al-Raḥmān Ibn Khaldūn
al-Ḥaḍramī — que Deus o perdoe:
Louvado
seja Deus, possuidor da força e do poder, dominador do reino e do domínio, a
quem pertencem os mais belos nomes e os atributos supremos; cujo saber abrange
o oculto e o manifesto; poderoso, não lhe escapando o peso de um átomo nos céus
nem na terra; conhecedor das ações dos servos, que lhes determinou os
movimentos e os repousos; que escreveu para eles as provisões e os termos; que
os guia pelos caminhos da salvação e do êxito; que lhes mostrou as evidências e
os sinais; que os fez sucessores na terra e os elevou uns acima dos outros em
graus, para prová-los naquilo que lhes concedeu; aquele que criou a criação do
nada e a fez multiplicar-se; que lhes concedeu o sustento e os benefícios; que
lhes mostrou os caminhos da retidão e da corrupção; que lhes enviou os mensageiros
com as provas claras e os sustentou com milagres e sinais manifestos; que selou
com Muḥammad — que Deus o abençoe e lhe dê paz — os profetas e mensageiros; e
fez de sua lei a ab-rogadora das leis; e sustentou sua comunidade contra as
comunidades; e elevou sua palavra acima das palavras dos incrédulos e
politeístas.
E
testemunho que não há divindade além de Deus, único, sem associado, testemunho
sincero pelo qual se alcança a salvação no dia do retorno; e testemunho que
Muḥammad é seu servo e mensageiro, enviado com orientação e religião da verdade
para fazê-la prevalecer sobre toda religião, ainda que os politeístas o
detestem.
E que
Deus o abençoe e aos seus familiares, seus companheiros e seus seguidores,
enquanto alternarem os dias e as noites.
Depois disso:
a ciência da história é, em aparência, uma notícia acerca dos dias, dos Estados
e dos acontecimentos dos séculos primeiros. Nela se multiplicam os exemplos e
se apresentam as parábolas. Beneficia-nos nas situações da religião e do mundo,
conduzindo-nos aos estados dos passados dentre as nações, em seus caracteres,
nas condutas dos profetas em suas biografias, e dos reis em seus Estados e
políticas, até que aquele que observa possa obter proveito, em matéria de
religião e de mundo, pela imitação daqueles estados.
Mas o
interior disso é consideração, investigação, verificação e exame das causas dos
acontecimentos e seus princípios; e conhecimento profundo da qualidade dos
acontecimentos e de suas causas. Portanto, a história é enraizada na sabedoria
e digna de ser contada dentre suas ciências.
E porque
os historiadores e os intérpretes e os imames da transmissão se equivocaram nos
relatos e nas ocorrências, confiando apenas na simples transmissão, seja ela
autêntica ou fraca, sem apresentá-la aos seus fundamentos, nem compará-la com
seus semelhantes, nem medi-la pelos critérios da sabedoria e pelo conhecimento
da natureza da civilização e dos estados humanos, nem confrontá-la com os
fundamentos da política e a natureza das coisas existentes; afastaram-se da
verdade e vaguearam nos desertos da ilusão e do erro.
Especialmente
ao tratar de números de riquezas, exércitos e tributos, porque estes são os
assuntos mais suscetíveis à mentira e ao exagero, e necessitam inevitavelmente
ser submetidos aos fundamentos e às regras.
Pois a
notícia, quando meramente transmitida e não governada pelas regras dos hábitos,
pelos fundamentos da política, pela natureza da civilização e pelas condições
da sociedade humana; nem comparada com o presente pelo ausente, nem o testemunhado
pelo oculto, então não se estará seguro de escorregar e afastar-se do caminho
da veracidade.
E
frequentemente os historiadores, intérpretes e imames da transmissão erraram
nesses sentidos ao relatarem acontecimentos e histórias, confiando na mera transmissão.
E a razão
disso é o desconhecimento da natureza da civilização. Pois cada acontecimento,
seja pertencente à essência ou à ação, possui inevitavelmente uma natureza
própria em sua essência e em seus acidentes que o cercam.
Assim,
quando o ouvinte conhece a natureza dos acontecimentos e das circunstâncias na
existência, isso lhe servirá de auxílio para distinguir a verdade da falsidade
nas notícias, e a veracidade da mentira, mediante um critério demonstrativo do
qual não há desvio.
E este é
um conhecimento independente por si mesmo. Pois ele possui assunto próprio, que
é a civilização humana e a sociedade humana; e possui questões, que são a
exposição dos acidentes e estados que atingem a essência dessa civilização, um
após o outro.
E isto é
o caráter de toda ciência: possuir assunto e questões.
Talvez
isso tenha sido compreendido pelos sábios anteriormente, mas não chegou até nós
palavra acerca disso. Pois as ciências são numerosas, e os sábios das nações
são abundantes; e o que não chegou até nós dentre as ciências é mais do que
aquilo que chegou.
Onde
estão as ciências dos persas, cuja destruição foi ordenada por ‘Umar — que Deus
esteja satisfeito com ele — no momento da conquista? E onde estão as ciências
dos caldeus, dos sírios e dos babilônios, e os resultados e efeitos que
possuíam? E onde estão as ciências dos coptas e daqueles que vieram antes
deles? Apenas as ciências de uma única nação chegaram até nós, e elas são as
dos gregos, por causa do cuidado de al-Ma’mūn em traduzi-las, graças à abundância
de tradutores e aos recursos que despendeu nisso.
E talvez
não tenham escrito sobre esta ciência porque ela não fazia parte de suas
preocupações. E Deus sabe.
Este
livro nosso é o primeiro livro a tratar desta ciência, segundo o que
alcançamos. E não é resultado de ensino cuja tradição recebemos dos mestres;
mas é algo que a reflexão encontrou e a investigação correta conduziu.
Portanto,
não é ciência estranha dentre as ciências da sabedoria, nem invenção sem
precedente dentre as artes.
E agora
começamos a apresentar neste livro aquilo que nos foi facilitado por Deus
Altíssimo, dentre os objetivos desta ciência e de seus problemas. E organizamos
isso em uma introdução e três livros.
A
introdução é acerca da excelência da ciência da história, da verificação dos
métodos e dos erros dos historiadores.
O
primeiro livro trata da civilização humana em geral, e dos acidentes que
pertencem a ela por essência, tais como soberania, autoridade, aquisição, meios
de vida, artes e ciências, e das causas e razões disso.
O segundo
livro trata das notícias dos árabes e de suas gerações e Estados, desde o
começo da criação até este nosso tempo; e inclui o que lhes foi contemporâneo dentre
as nações famosas e os grandes Estados.
O
terceiro livro trata das notícias dos berberes e daqueles dentre os povos não
árabes que lhes são aparentados, como os zanāta e outros, e dos Estados que
existiram no Magrebe e suas regiões.
E talvez,
ao tratar dos acontecimentos e dos Estados, tenhamos seguido o caminho dos
historiadores e imitadores; porém expusemos também as causas dos acontecimentos
e os fundamentos dos Estados, e removemos o véu dos motivos dos eventos.
Assim, o
interior deste livro contém sabedoria e investigação das causas e dos seres; e
o exterior dele não passa de história e notícias.
E peço a
Deus auxílio para a retidão e a correção; e que Ele nos conceda, por sua graça,
êxito para alcançar a verdade e a exatidão. Pois Ele é suficiente para nós e
excelente guardião.
Capítulo
da introdução
Na
excelência da ciência da história e na investigação dos métodos dos
historiadores, e exposição dos erros que lhes acontecem.
Saiba que
a ciência da história é ciência nobre quanto ao objetivo, abundante em
benefícios e elevada em finalidade. Pois ela nos faz conhecer os estados das
nações passadas nos seus caracteres, os profetas em suas biografias, e os reis
em seus Estados e políticas.
Até que o
imitador possa seguir os exemplos desses homens em matéria de religião e de
mundo.
E porque
a falsidade alcança naturalmente as notícias, é necessário mencionar as causas
que levam a ela.
Dentre
elas está o partidarismo em favor de opiniões e doutrinas. Pois, quando a alma
está equilibrada na aceitação das notícias, concede à notícia seu direito de
investigação e exame, até que a verdade nela se torne clara. Mas, quando a alma
está inclinada para uma opinião ou doutrina, aceita imediatamente aquilo que
concorda com ela.
E essa
inclinação e esse partidarismo lançam um véu sobre os olhos da percepção e da
crítica, levando à aceitação da mentira e à transmissão dela.
Dentre
elas também está a confiança nos transmissores. E isso retorna à crítica e à
autenticação.
Dentre
elas está a negligência quanto aos objetivos. Pois muitos transmissores ignoram
o propósito daquilo que viram ou ouviram, e transmitem a notícia segundo
conjectura e imaginação, caindo na mentira.
Dentre
elas está a falsa suposição de veracidade. E isso também retorna à confiança
nos transmissores.
Dentre
elas está a incapacidade de aplicar os acontecimentos às suas causas
verdadeiras, por causa da obscuridade da impostura e do artificialismo nas
situações. Assim, transmite-se a notícia tal como foi ouvida, sem consideração
nem investigação.
Dentre
elas está a busca do favor dos possuidores de posição e dignidade, por meio do
elogio e do embelezamento dos estados, difundindo fama favorável. Assim, as
notícias são transmitidas de forma contrária à verdade.
Pois as
almas amam elogios e inclinam-se às coisas do mundo, como prestígio e riqueza.
E na maioria dos casos não desejam virtude nem competem pelas qualidades dos
homens de bem.
Dentre
elas — e esta é a mais forte — está o desconhecimento das naturezas das
condições da civilização.
Pois todo
acontecimento ocorrido na civilização, seja pertencente à essência dela ou algo
que lhe aconteça, possui inevitavelmente natureza própria.
Assim,
quando o ouvinte conhece a natureza da civilização e das condições existentes
na sociedade humana, isso lhe serve como critério para distinguir a verdade da
falsidade nas notícias, e a veracidade da mentira.
E esta é
uma regra separadora entre verdade e falsidade, pela qual o investigador obtém
verificação nas notícias.
Muitos
dos imames da transmissão foram enganados por relatos absurdos e notícias
falsas, por causa da confiança na mera transmissão.
E dentre
as causas disso está também o esquecimento das transformações que ocorrem nas
nações e nas gerações com a passagem dos tempos e dos dias.
Pois as
condições do mundo e das nações, seus costumes e doutrinas, não permanecem numa
única forma e num método constante. Ao contrário, há alternância entre dias e
passagem de estados de uma condição para outra.
Assim
como isso ocorre nos indivíduos, nos tempos e nas cidades, também ocorre nas
regiões, nos séculos e nos Estados.
E esta é
uma enfermidade oculta e profunda, cuja percepção só acontece após longo tempo.
Poucos
são aqueles que a percebem.
E o
motivo disso é que os homens, na maior parte, seguem hábitos e tradições. E a
familiaridade com os estados impede a percepção da mudança.
Quando a
mudança ocorre gradualmente e sucessivamente, ela se torna imperceptível. E só
é percebida depois de muito tempo, quando a diferença se torna evidente.
Assim,
aquele que observa pensa que o estado presente sempre existiu daquela forma.
E os
historiadores, quando seguem apenas a transmissão, sem considerar os
fundamentos dos hábitos, as regras da política, a natureza da civilização e as
condições da sociedade humana; nem medem o ausente pelo presente, nem o oculto
pelo testemunhado; frequentemente erram o caminho da verdade.
E isso
aconteceu a muitos dentre eles.
E dentre
os exemplos disso está aquilo que os historiadores mencionam acerca dos
exércitos dos antigos Estados, e os números daqueles que participaram das
guerras e batalhas.
Pois eles
frequentemente ultrapassam os limites do habitual e entram no domínio do
impossível.
E isso
porque não consideraram os fundamentos dos costumes, nem a natureza da
civilização, nem as condições dos agrupamentos humanos.
Pois os
Estados possuem necessariamente limites na força militar, nos recursos e na
capacidade de sustento.
Assim,
quando os relatos ultrapassam esses limites conhecidos, deve-se saber que há
exagero ou falsificação.
E isso
porque os agrupamentos humanos somente se mantêm pela cooperação para obtenção
de alimento e sobrevivência.
E a
capacidade de alimentação é proporcional ao número de trabalhadores e
produtores.
Portanto,
quando os números relatados excedem aquilo que os territórios e regiões podem
sustentar, a falsidade torna-se evidente.
Do mesmo
modo, as cidades e metrópoles possuem proporções conhecidas em extensão,
população e construção.
Quando os
relatos ultrapassam as proporções habituais da civilização, isso indica
afastamento da verdade.
E muitas
pessoas ignoram isso, por desconhecerem as naturezas das coisas existentes.
Assim,
aceitam notícias impossíveis e as transmitem.
E Deus é
o guia para a verdade.
Capítulo
Que o
homem é civil por natureza, e que é indispensável para ele a sociedade humana,
a qual os filósofos expressam pela expressão “cidade”.
E isso
significa civilização.
A
explicação disso é que Deus — glorificado seja — criou o homem e o formou numa
constituição que não pode viver nem manter sua existência senão mediante
alimento.
E
guiou-o, pela disposição natural, para buscar alimento, e colocou nele poder
para obtê-lo.
Mas a
capacidade de um único indivíduo é insuficiente para obter aquilo de que
necessita em alimento.
E ele não
alcança sozinho a quantidade suficiente para sua subsistência e permanência da
vida.
Assim, é
indispensável a cooperação dos filhos de sua espécie.
E não se
obtém, mediante a cooperação de um grupo deles, aquilo suficiente para a
necessidade de um dentre eles apenas; ao contrário, obtém-se, mediante
cooperação, quantidade suficiente para muitos deles.
Por
exemplo: um único indivíduo não consegue sozinho obter sua porção de trigo;
tampouco consegue prepará-la como alimento, moendo-a, amassando-a e
cozinhando-a.
Portanto,
torna-se indispensável a reunião de muitas capacidades dentre os filhos de sua
espécie para obter alimento para ele e para eles.
Assim,
mediante cooperação, realizam-se as necessidades deles.
E da
mesma forma acontece quanto à defesa contra os animais agressivos.
Pois Deus
— glorificado seja —, quando criou os animais e distribuiu entre eles as
capacidades, concedeu a muitos deles força muito maior do que a força do homem.
Assim,
não concedeu ao homem grande força corporal em comparação com muitos animais.
Mas
concedeu-lhe pensamento e mão.
A mão foi
preparada para as artes mediante o pensamento.
Assim, as
artes obtidas pela reflexão substituem, para ele, aquilo que os animais possuem
naturalmente em força.
Então,
armas foram preparadas para ele, substituindo os dentes dos animais ferozes, os
chifres dos animais cornudos e os cascos dos animais que golpeiam.
E o
pensamento guia isso para sua obtenção.
Portanto,
é indispensável para o homem a cooperação dos filhos de sua espécie para
obtenção de alimento e defesa.
E, sem
essa cooperação, não se completaria sua existência, nem se realizaria aquilo
que Deus quis do povoamento do mundo por meio deles e de sua sucessão na terra.
E este é
o significado da civilização.
E os
filósofos expressam isso dizendo: “O homem é civil por natureza”, isto é, é
inevitável para ele a sociedade, que é a cidade, segundo a terminologia deles.
E este é
o significado da civilização.
E também
é indispensável entre os homens um impedidor e governante que afaste uns dos
outros a agressão.
Pois a
agressividade e a injustiça são características animais presentes na natureza
dos seres vivos.
E as
armas preparadas para defesa contra os animais irracionais existem também entre
todos os homens.
Portanto,
não bastam para afastar a agressão entre eles, porque todos as possuem.
Assim,
torna-se indispensável algo mais, pelo qual um homem se diferencie dos outros.
E esse
algo deve necessariamente proceder de um dentre eles, possuindo predominância e
autoridade, para que nenhum deles agrida o outro.
E este é
o significado da autoridade real.
Portanto,
ficou estabelecido que a existência da autoridade governante é necessária para
a espécie humana.
E quando
isso é estabelecido, a civilização humana torna-se necessária.
E a
sabedoria divina exige a existência da civilização e da continuidade da espécie
humana, para realização da sucessão que Deus decretou na terra.
Glorificado
seja aquele em cuja mão está o reino de todas as coisas.
Capítulo
Sobre a
civilização beduína e as nações selvagens.
Saiba que
a diferença de condições entre os povos ocorre conforme a diferença dos modos
de obtenção da subsistência.
Pois a
reunião deles para a sociedade e cooperação tem como objetivo obter sustento e
buscar meios de vida.
Assim,
alguns dentre eles limitam-se ao necessário e ao indispensável na obtenção de alimentos,
vestimentas e moradias.
E estes
são os beduínos.
Eles
utilizam para suas moradias casas de pelos, lã ou árvores, ou cavernas naturais
das montanhas, para proteção contra calor e frio.
E suas
condições estão próximas das condições primitivas e da natureza primeira.
E alguns
dentre eles ampliam as condições acima do necessário, chegando ao luxo e à
abundância.
Assim,
utilizam casas construídas com pedra e barro, adornam-nas com revestimentos e
refinam as condições da vida.
E estes
são os habitantes das cidades e das metrópoles.
E a
origem de tudo isso é a civilização e a cooperação para obtenção das
necessidades da vida.
Então,
quando há abundância além do necessário, as almas inclinam-se ao repouso e ao
conforto.
E os
costumes passam da simplicidade para o luxo e o refinamento.
Assim
surgem hábitos de alimento, vestimenta, construção, mobiliário e demais estados
da civilização.
E cada
geração acrescenta às condições da geração anterior novas formas de luxo e
refinamento.
Até que
se consolidem as artes e se fortaleçam os hábitos da vida urbana.
Então a
civilização alcança o máximo de sua natureza.
Mas o
luxo, quando ultrapassa o limite da necessidade, conduz à corrupção dos
costumes.
Pois a
alma, quando se habitua ao conforto e ao repouso, afasta-se da dureza e da
coragem.
E os
homens tornam-se dependentes daquilo a que se acostumaram dentre os prazeres e
os hábitos.
Assim,
enfraquece-se neles a força da resistência e desaparece a austeridade.
Ao
contrário dos beduínos, pois eles permanecem próximos da condição natural.
Por isso
são mais aptos à coragem, mais preparados para defesa e mais capazes de
suportar dificuldades.
E a razão
disso é que os habitantes do luxo entregam a defesa de si mesmos aos
governantes e soldados que os protegem.
Então
perdem o hábito da defesa e da luta.
Enquanto
os beduínos confiam em si mesmos para proteção e defesa.
Por isso,
a coragem torna-se caráter firme entre eles.
E por
isso os beduínos são mais capazes de alcançar domínio do que os habitantes das
cidades.
Pois a
coragem e a força de resistência existem entre eles em maior grau.
E a razão
disso é que os homens, quando vivem em conforto e tranquilidade, tornam-se
dependentes daqueles que os defendem.
Assim,
enfraquecem suas almas quanto à resistência e à defesa.
Enquanto
os beduínos, por viverem em estado de vigilância e temor, permanecem armados e
atentos.
E isso
fortalece neles o caráter da coragem.
Além
disso, os beduínos estão mais afastados da corrupção dos costumes que acompanha
o luxo.
Pois os
habitantes das cidades entregam-se aos prazeres, diversões e refinamentos.
Então
multiplicam-se entre eles os vícios e desaparecem as qualidades da austeridade.
Ao passo
que os beduínos, devido à rudeza da vida e à limitação às necessidades,
permanecem mais próximos do bem e afastados das corrupções.
Assim,
suas almas são mais puras e mais preparadas para aceitar virtudes.
E
frequentemente os habitantes das religiões surgem dentre os beduínos, por causa
da simplicidade de suas condições e da distância em relação aos hábitos da
corrupção.
Enquanto
os habitantes das cidades tornam-se mergulhados nos prazeres do mundo e nas
suas paixões.
Portanto,
os beduínos estão mais dispostos para o bem do que os habitantes urbanos.
E isso
não significa que todos os beduínos sejam virtuosos, nem que todos os
habitantes das cidades sejam corruptos; mas trata-se daquilo que predomina na
natureza de cada grupo.
Capítulo
Que a
asabiyyah existe somente mediante parentesco ou algo equivalente a ele.
Saiba que
o vínculo entre os homens, mediante ajuda e proteção, somente se realiza pela
solidariedade decorrente de parentesco ou de algo semelhante.
Pois a
compaixão pelos parentes é natural nas almas humanas.
E
raramente alguém aceita ver injustiça ou destruição atingir seus parentes e
próximos sem ser movido à defesa e à proteção deles.
E quando
existe entre eles parentesco próximo, fortalece-se a solidariedade e
intensifica-se a união.
Assim, a
agressão contra um dentre eles torna-se pesada para os demais.
E isto é
o significado da asabiyyah.
E talvez
isso também ocorra mediante alianças, pactos, clientela e convivência
prolongada.
Pois a
convivência contínua produz afeição e união semelhantes às produzidas pelo
parentesco.
Assim, a
solidariedade pode surgir de causas diferentes do sangue, quando os vínculos se
consolidam e as almas se acostumam ao auxílio mútuo.
Mas o
parentesco permanece sendo a origem mais forte disso, porque a natureza humana
inclina-se naturalmente à defesa dos próximos.
E saiba
que o domínio e a autoridade somente se realizam mediante asabiyyah.
Pois o
poder necessita de auxílio, proteção e defesa.
E nenhuma
dessas coisas se completa sem solidariedade grupal.
Assim,
toda autoridade fundada sem asabiyyah rapidamente desaparece.
E a
asabiyyah mais forte é aquela baseada em parentesco próximo.
Depois
dela vêm as solidariedades derivadas de alianças e vínculos adquiridos.
Quando a
asabiyyah torna-se forte num grupo, surge neles desejo de superioridade e
domínio.
Pois a
natureza da autoridade é exigir predominância e vitória.
Então o
grupo busca submeter outros grupos e ampliar sua autoridade.
E quando
alcançam o domínio, procuram estabelecer o reino e consolidar o Estado.
Assim
surgem os Estados.
Capítulo
Que o
objetivo da asabiyyah é o reino e a autoridade.
Pois toda
solidariedade grupal, quando se fortalece e se consolida, tende naturalmente à
obtenção do domínio.
E isso
porque a vitória e a proteção são os frutos da solidariedade.
Quando a
solidariedade alcança o máximo de sua força, conduz inevitavelmente ao poder.
E
raramente um grupo possuidor de forte asabiyyah permanece submetido a outro
grupo por longo tempo.
Pois a
natureza da solidariedade exige elevação e predominância.
Assim,
quando o grupo alcança o domínio, estabelece-se nele a autoridade real.
E saiba
que o reino possui significados e condições.
Pois o
reino é dominar os homens mediante poder e autoridade, e obrigá-los às
exigências da vontade e do julgamento.
E isso
ocorre algumas vezes por mera força e opressão.
Outras
vezes ocorre mediante política e condução conforme os interesses do povo.
Quando o
objetivo do governante é apenas satisfazer seus desejos e paixões, o reino
torna-se injustiça e tirania.
Mas,
quando o objetivo é conduzir os homens conforme aquilo que lhes traz benefício
e afasta danos, então isso é política racional.
E quando
a condução ocorre conforme a lei revelada por Deus, visando os interesses da
vida terrena e da vida futura, então isso é o califado.
Pois a
finalidade da lei revelada é conduzir os homens ao benefício da outra vida e
também aos interesses da vida presente relacionados a ela.
Assim, o
califado é representar o Legislador na proteção da religião e no governo do
mundo segundo ela.
E isso é
diferente do simples reino político.
Pois o
reino político busca apenas organizar os interesses mundanos segundo a razão
humana.
Enquanto
o califado considera os interesses da outra vida juntamente com os da vida
terrena.
Por isso,
o califado foi estabelecido após o Mensageiro de Deus — que Deus o abençoe e
lhe dê paz — para proteger a religião e administrar os assuntos da comunidade.
E os
primeiros que assumiram isso foram os califas retos — que Deus esteja
satisfeito com eles.
Depois
disso, o reino misturou-se ao califado.
Então o
significado da autoridade transformou-se gradualmente.
Capítulo
Que os
Estados possuem duração natural, assim como os indivíduos.
Saiba que
os Estados têm durações limitadas na maioria dos casos.
E
raramente ultrapassam três gerações.
Pois a
primeira geração conserva a rudeza beduína, a dureza, a coragem e a
participação na glória.
Assim, a
força da asabiyyah permanece firme entre eles.
A segunda
geração conviveu com aqueles da primeira geração e recebeu deles a glória e o
poder.
Mas
passou da rudeza para a suavidade, e da participação comum na glória para a
submissão à autoridade de um só governante.
Assim,
enfraqueceu-se neles parte da coragem e da austeridade.
Entretanto,
ainda permanece entre eles algo da primeira condição, por causa da convivência
com seus predecessores.
Quanto à
terceira geração, ela esquece completamente o período da rudeza e da vida
beduína, como se jamais tivesse existido.
Então
desaparece deles a doçura da glória e da asabiyyah, devido à submissão
prolongada.
E
alcançam o extremo do luxo e do refinamento.
Assim,
tornam-se dependentes do Estado, como mulheres e crianças dependem daquele que
cuida deles.
Então a
asabiyyah se dissolve completamente.
E eles
esquecem a proteção, a defesa e a exigência dos direitos.
Assim, os
outros homens os veem como presa fácil.
E
continuam aparentando possuir autoridade, por causa das marcas externas do
reino, como exércitos, vestimentas, insígnias e cerimônias.
Mas a
verdade de sua força já desapareceu.
Então
Deus permite que outro grupo, possuidor de asabiyyah mais forte, triunfe sobre
eles.
E o
Estado passa para esse novo grupo.
Assim
ocorre nos Estados e dinastias.
E
raramente um Estado ultrapassa essas três gerações.
E a
duração de uma geração é, na maioria dos casos, quarenta anos.
Porque
esse é o limite médio entre crescimento e declínio na vida humana.
E Deus é
o herdeiro da terra e daqueles que nela estão.
Capítulo
Que a
convocação religiosa aumenta a força da asabiyyah no surgimento do Estado.
Pois a
convocação religiosa remove das almas a inveja e a rivalidade que existem entre
os possuidores de asabiyyah.
Assim, as
intenções unem-se na verdade.
E quando
ocorre acordo e convergência, fortalece-se o poder e torna-se possível a
vitória.
Pois os
homens, quando possuem objetivos diversos e opiniões conflitantes,
multiplicam-se entre eles as disputas e enfraquece-se sua força.
Mas,
quando a religião os reúne em torno de uma única finalidade, desaparecem as
causas da rivalidade.
Então
ocorre entre eles auxílio mútuo e união.
E a força
deles torna-se dupla.
Por isso,
a convocação religiosa foi fundamento dos grandes Estados no início do Islã.
Pois os
árabes eram o povo mais distante da submissão uns aos outros, por causa da
rudeza da vida beduína e da força da arrogância existente entre eles.
Assim,
seus objetivos eram numerosos e suas tendências divergentes.
E quando
a religião veio por meio do Profeta — que Deus o abençoe e lhe dê paz —,
removendo deles os vícios da arrogância e da rivalidade, e reunindo-os na
verdade, tornaram-se os mais fortes dos povos.
Então
dominaram os Estados e venceram os reis.
E isso
ocorreu porque a força da religião uniu-se à força da asabiyyah.
Assim, a
força tornou-se multiplicada.
Pois a
convocação religiosa possui efeito extraordinário na união das intenções e na
disposição para a morte.
E saiba
que todo Estado fundado apenas na asabiyyah, sem apoio religioso, alcança
domínio limitado.
Mas,
quando a convocação religiosa se junta à asabiyyah, o domínio torna-se mais
amplo e poderoso.
Por isso,
os árabes somente obtiveram reino universal mediante religião e lei revelada.
Pois eram
incapazes de reunir-se apenas pela política natural.
E a razão
disso é que sua rudeza e sua independência tornavam difícil a submissão de
alguns deles aos outros.
Então,
quando a religião removeu isso de suas almas, tornou-se fácil sua união e
obediência.
E Deus
faz prevalecer sua luz, ainda que os incrédulos detestem.
Capítulo
Que o
luxo é o fim natural da civilização e anúncio de sua corrupção.
Saiba que
as nações, quando alcançam domínio e abundância, inclinam-se ao conforto e ao
luxo.
Então
passam a buscar refinamentos nos alimentos, vestimentas, construções,
utensílios e demais hábitos da vida.
E as artes
multiplicam-se nas cidades e metrópoles.
Assim,
aumentam os gastos e os costumes de luxo.
Então os
habitantes tornam-se dependentes dos hábitos adquiridos.
E aquilo
que antes era considerado abundância passa a ser visto como necessidade.
Assim
crescem as despesas do Estado e do povo.
E os
governantes aumentam os tributos e impostos para sustentar os gastos do reino e
as condições do luxo.
Mas os
impostos excessivos reduzem a atividade dos produtores.
Pois os
homens, quando percebem que o fruto de seus esforços lhes é retirado, perdem o
desejo de trabalhar e produzir.
Então
diminuem as atividades econômicas e enfraquecem os mercados.
E quando
diminuem as receitas do Estado, os governantes aumentam novamente os impostos.
Assim, a
corrupção amplia-se progressivamente.
E o luxo
conduz também à corrupção moral.
Pois os
homens acostumados ao conforto tornam-se incapazes de suportar dificuldades.
Então
desaparecem deles a coragem e a resistência.
E os
filhos das famílias nobres crescem em abundância e proteção, afastados das
qualidades da austeridade.
Assim,
tornam-se frágeis diante dos perigos e incapazes de defender o Estado.
Enquanto
isso, grupos mais rudes e mais fortes surgem nas regiões afastadas.
E
conservam a coragem e a asabiyyah.
Então
cobiçam o domínio do Estado enfraquecido.
E quando
encontram oportunidade, atacam-no e o conquistam.
Assim, o
luxo torna-se causa da destruição da civilização.
Pois ele
corrói gradualmente a força interna do Estado.
E Deus é
aquele que alterna os dias entre os homens.
Capítulo
Que os
impostos excessivos conduzem ao declínio das receitas do Estado.
Saiba que
no início do Estado os impostos são pequenos em quantidade, mas grandes em
arrecadação.
Porque os
impostos, no começo do Estado, são estabelecidos conforme a lei e a moderação.
Assim, os
homens realizam suas atividades com ânimo e disposição, devido à pequena carga
tributária.
Então
multiplicam-se os empreendimentos e aumentam os ganhos.
E, com o
aumento das atividades, cresce a arrecadação total do Estado.
Depois
disso, quando o Estado envelhece e os governantes acostumam-se ao luxo e aos
gastos excessivos, aumentam os impostos sobre os súditos.
Então
tornam pesadas as cargas tributárias.
E os
homens perdem o desejo de trabalhar, por causa daquilo que lhes é retirado dos
frutos de seus esforços.
Assim
diminuem as atividades produtivas.
E, com a
redução das atividades, diminuem também as receitas do Estado.
Então os
governantes imaginam que a solução está em aumentar ainda mais os impostos.
Mas isso
apenas amplia a corrupção.
Porque os
produtores abandonam seus trabalhos e os comerciantes reduzem seus negócios.
Então os
mercados enfraquecem e as cidades decaem.
E a
arrecadação continua diminuindo, apesar do aumento das taxas.
Até que o
Estado alcance estágio em que não consegue sustentar seus exércitos e suas
despesas.
Então
começa o declínio.
E saiba
que a justiça é o fundamento da civilização.
Pois a
injustiça destrói o povoamento.
E o
significado da injustiça não é apenas tomar riquezas ou propriedades sem
compensação.
Ao
contrário, a injustiça é mais abrangente.
Todo
aquele que toma propriedade de alguém, ou o força a trabalhar sem direito, ou
exige dele algo não determinado pela lei, ou impõe tributos ilegítimos, pratica
injustiça.
E os
destruidores da civilização são numerosos quando a injustiça se espalha.
Pois os
homens abandonam o trabalho quando perdem esperança de conservar o fruto de
seus esforços.
Então o
povoamento diminui e o Estado enfraquece.
E quando
o povoamento diminui, os mercados enfraquecem, os lucros desaparecem e as
receitas do Estado reduzem-se.
Então o
Estado aproxima-se da ruína.
Pois o
reino e a autoridade somente se sustentam pela civilização, e a civilização
somente se sustenta pela justiça.
E quando
a injustiça se espalha, Deus anuncia a destruição da civilização.
Capítulo
Que as
profissões e os meios de subsistência são naturais na civilização.
Saiba que
Deus — glorificado seja — criou os homens necessitando de alimento para
permanência de suas vidas.
E
guiou-os aos meios de obtenção do sustento.
Assim,
tornou indispensável para eles o trabalho e a busca.
E os
meios de subsistência diferem conforme as diferentes maneiras de obtenção.
Alguns
obtêm sustento pela agricultura.
Outros
pela criação de animais.
Outros
pelo comércio.
Outros
pelas artes e profissões.
E todas
essas atividades pertencem à civilização humana.
Pois o
homem sozinho não consegue satisfazer todas as suas necessidades.
Assim,
torna-se indispensável a divisão dos trabalhos entre os homens.
Então um
grupo produz alimento.
Outro
produz vestimentas.
Outro
fabrica ferramentas.
Outro
realiza construções.
E
mediante cooperação completam-se as necessidades da vida.
E saiba
que os lucros obtidos pelos homens são, na verdade, valores de seus trabalhos.
Pois
aquilo que é adquirido sem trabalho é raro ou depende do trabalho de outros.
Assim, o
fundamento dos ganhos e aquisições é o trabalho humano.
E quando
os trabalhos multiplicam-se e aperfeiçoam-se nas cidades, aumentam também os
lucros e as riquezas.
Porque as
artes refinadas possuem maior valor e maior retorno.
Então as
cidades grandes tornam-se mais ricas que as pequenas.
E os
habitantes das metrópoles vivem em condições mais amplas.
Mas o
excesso de luxo e abundância conduz novamente à corrupção e ao desperdício.
Assim, as
condições da civilização alternam-se entre crescimento e decadência.
Capítulo
Que as
ciências e as artes somente se multiplicam nas civilizações abundantes e
desenvolvidas.
Saiba que
as ciências são numerosas apenas quando a civilização é grande e o luxo
abundante.
Pois as
ciências e as artes pertencem às condições suplementares da civilização, que
ultrapassam as necessidades indispensáveis.
Assim,
enquanto os homens permanecem ocupados apenas em garantir alimento e
sobrevivência, não encontram tempo nem disposição para as ciências e os
conhecimentos.
Mas,
quando a civilização se amplia e surgem abundância e conforto, alguns homens
dedicam-se às ciências e às artes.
Então
aparecem os mestres, os estudiosos e os autores.
E as
ciências multiplicam-se conforme a multiplicação da civilização.
Por isso,
as grandes metrópoles do mundo são os lugares onde as ciências florescem.
Enquanto
os povos beduínos permanecem afastados das ciências, devido à simplicidade de
suas condições e à limitação às necessidades da vida.
E saiba
que o ensino das ciências exige continuidade e repetição.
Pois as
aptidões são adquiridas gradualmente.
E a
abundância de disciplinas e resumos excessivamente condensados prejudica os
estudantes.
Porque o
estudante, no início, é incapaz de compreender os problemas complexos e as
divergências detalhadas.
Assim,
deve-se começar pelas questões simples e gerais.
Depois
disso, avança-se gradualmente para aquilo que é mais difícil.
E saiba
também que a severidade excessiva no ensino prejudica os estudantes.
Pois ela
conduz à preguiça, à mentira e à corrupção do caráter.
Porque
aquele que é educado mediante violência e opressão torna-se incapaz de agir
livremente.
Então
perde a energia da alma e acostuma-se à submissão e à hipocrisia.
E isso
corrompe os significados da humanidade nele.
Assim, a
boa educação deve ocorrer gradualmente e com suavidade.
E dentre
as coisas que prejudicam os estudantes está também a multiplicidade de métodos
e terminologias no ensino das ciências.
Pois isso
confunde o entendimento e dispersa a mente.
Então o
estudante imagina que as ciências são numerosas em si mesmas, quando na verdade
a diferença está apenas nos métodos de exposição.
E isso
aumenta a dificuldade da aprendizagem.
Portanto,
o mais adequado no ensino é limitar-se, no início, a um único método claro e
completo.
Depois
disso, o estudante pode conhecer as divergências e as diferentes abordagens.
Capítulo
Que os
árabes são os povos mais afastados da política do reino.
Saiba que
os árabes, por causa de sua rudeza e vida beduína, são os povos mais difíceis
de serem governados uns pelos outros.
Pois eles
vivem em independência e liberdade.
E
detestam submissão e obediência.
Assim,
raramente se submetem à autoridade de um governante, exceto mediante influência
religiosa.
Pois a
religião remove deles a arrogância e a rivalidade.
Então
torna-se possível reuni-los sob autoridade comum.
Por isso,
o Islã foi o fundamento de seu reino.
E quando
a influência religiosa enfraqueceu, os árabes retornaram à rivalidade e à
dispersão.
Assim,
seu poder fragmentou-se.
E saiba
que os árabes, quando conquistam regiões rapidamente, frequentemente
conduzem-nas à ruína.
Pois sua
natureza beduína está afastada das artes da construção e da preservação da
civilização.
Eles
estão habituados à obtenção rápida mediante domínio e saque.
E não
possuem paciência para as obras da urbanização e da administração contínua.
Assim,
quando dominam cidades e metrópoles, utilizam os recursos sem reconstruí-los
adequadamente.
Então as
condições do povoamento enfraquecem.
Mas isso
não ocorre por incapacidade natural absoluta; ao contrário, ocorre devido aos
hábitos da vida beduína que predominam neles.
E quando
se estabelecem por longo período numa civilização urbana, transformam-se
gradualmente segundo os hábitos dela.
E dentre
as naturezas dos árabes está que eles são os mais distantes dos ofícios e das
artes.
Pois as
artes são hábitos urbanos adquiridos pela estabilidade da civilização.
Enquanto
os árabes permanecem mais próximos da simplicidade beduína.
Assim, as
profissões refinadas, as construções elaboradas e as artes detalhadas raramente
aparecem entre eles, exceto quando permanecem longo tempo sob influência de
civilizações urbanas.
Capítulo
Que os
povos vencidos tendem a imitar os vencedores.
E a razão
disso é que a alma acredita na perfeição daquele que a domina.
Assim, o
vencido vê o vencedor com olhar de grandeza e considera perfeitas suas
condições, hábitos e modos.
Então
procura imitá-lo em vestimentas, armas, montarias, costumes e demais estados.
E isso
ocorre porque a submissão produz admiração interior.
Assim, os
filhos sempre imitam seus pais, os estudantes seus mestres e os povos vencidos
seus conquistadores.
E
frequentemente isso conduz o povo derrotado ao abandono gradual de suas
próprias tradições e características.
Então
passam a considerar inferiores seus próprios hábitos.
E isso
continua até que desapareçam os sinais distintivos de sua identidade.
E saiba
que a imitação é mais forte quando o domínio do vencedor é completo e
prolongado.
Pois a
convivência contínua fortalece a influência psicológica da submissão.
E os
homens acreditam que a causa da superioridade do vencedor está em seus costumes
e aparências.
Então
esforçam-se para reproduzi-los.
Mas a
verdadeira causa da vitória frequentemente está na força da asabiyyah e não nos
aspectos exteriores.
Entretanto,
a maioria dos homens não percebe isso.
Assim,
ocupam-se das aparências e abandonam as causas profundas do poder.
Capítulo
Que o
reino, quando alcança o máximo da expansão, aproxima-se da decadência.
Pois os
Estados, no início, são simples quanto às despesas e limitados quanto às
necessidades.
Então
suas receitas bastam para sustentá-los.
Mas,
quando o reino se amplia e o luxo cresce, multiplicam-se os gastos do
governante, dos soldados e dos servidores.
Então
aumentam os impostos e as imposições sobre os súditos.
E os
governantes habituam-se aos prazeres, às construções grandiosas, às vestimentas
luxuosas e à multiplicidade de servidores.
Assim,
tornam-se incapazes de retornar à simplicidade do início do Estado.
Então os
gastos continuam crescendo progressivamente.
E quando
as receitas não bastam, recorrem à opressão e à injustiça.
Assim
confiscam propriedades, multiplicam tributos e interferem nos negócios dos
comerciantes e produtores.
Então os
homens perdem o desejo de produzir.
E o
povoamento enfraquece.
Quando
isso se prolonga, o Estado torna-se velho e debilitado.
Então
perde gradualmente a força da asabiyyah que o sustentava em seu início.
E os
governantes passam a depender de soldados mercenários e auxiliares
estrangeiros.
Porque os
filhos do Estado tornaram-se acostumados ao luxo e afastados da coragem.
Então o
governante busca proteção em grupos externos.
Mas esses
grupos não possuem lealdade verdadeira ao Estado; apenas servem enquanto
recebem benefícios.
Assim, a
autoridade torna-se artificial e frágil.
E quando
surge um grupo novo possuidor de forte asabiyyah, ele encontra o Estado
enfraquecido internamente.
Então o conquista
com facilidade.
E
frequentemente os habitantes do próprio Estado auxiliam os conquistadores,
devido ao ódio produzido pela injustiça e pelos impostos excessivos.
Assim
ocorre a decadência dos Estados.
Capítulo
Que os
Estados possuem estágios e transformações.
Saiba que
os Estados possuem, como os indivíduos, idades e condições naturais.
E
geralmente passam por cinco estágios.
O
primeiro estágio é o da vitória e conquista.
Nele, o
governante compartilha a glória com seu grupo e mantém os costumes da
asabiyyah.
O segundo
estágio é o da consolidação da autoridade.
Nele, o
governante concentra o poder em si mesmo e afasta seus companheiros da
participação na autoridade.
Então ele
impede que os membros de sua asabiyyah participem do poder, para que a
autoridade permaneça exclusivamente em suas mãos.
Assim,
recorre a servos, clientes e auxiliares externos para fortalecer sua posição
contra seus antigos companheiros.
O
terceiro estágio é o da tranquilidade e do descanso.
Nele, o
governante dedica-se à coleta de riquezas, à construção de monumentos, à
ampliação das cidades e ao refinamento das condições do reino.
Então
surgem grandes construções, fortalezas, palácios e cidades magníficas.
E
multiplicam-se os exércitos, os servidores e os auxiliares.
O quarto
estágio é o da satisfação e conformidade.
Nele, os
governantes contentam-se com aquilo que seus predecessores construíram.
Assim,
seguem seus caminhos e imitam suas tradições.
E evitam
mudanças importantes, acreditando que a preservação do que existe é melhor que
inovação.
O quinto
estágio é o da extravagância e dissipação.
Nele, o
governante entrega-se aos prazeres, distribui riquezas entre favoritos e
companheiros de diversão, e escolhe para altos cargos pessoas indignas e
incapazes.
Então a
administração enfraquece e a corrupção espalha-se.
E o
governante desperdiça as reservas acumuladas pelos predecessores.
Assim,
destrói aquilo que foi construído no início do Estado.
E quando
o Estado alcança esse estágio, torna-se acometido por enfermidade crônica
difícil de curar.
Então
aproxima-se inevitavelmente da ruína.
Porque
perdeu a força da asabiyyah, espalhou a injustiça, multiplicou o luxo e
corrompeu as condições da civilização.
Assim,
Deus permite a ascensão de outro grupo mais forte, que herda o reino.
E esta é
a condição dos Estados no mundo.
Capítulo
Que o
governante, quando se separa de sua asabiyyah original, aproxima-se da
fraqueza.
Saiba que
o fundador do Estado necessita de sua asabiyyah para alcançar o domínio.
Pois ela
é a fonte de sua força e proteção.
Mas,
quando o poder se consolida para ele, começa a temer aqueles que participaram
da autoridade com ele.
Porque
acredita que possam disputar-lhe o reino.
Então
procura afastá-los gradualmente.
E
substitui-os por servos, clientes e estrangeiros.
Assim,
enfraquece a força original do Estado.
Pois os
novos auxiliares não possuem solidariedade verdadeira nem disposição para
morrer pelo governante como possuíam os membros da asabiyyah inicial.
Ao
contrário, sua ligação depende de recompensas e benefícios.
Então,
quando os benefícios cessam ou a situação se enfraquece, desaparece a lealdade
deles.
E isso
constitui uma das causas ocultas da decadência dos Estados.
Porque a
autoridade torna-se apoiada em aparências externas e não mais em solidariedade
natural.
Assim, o
Estado permanece de pé exteriormente, enquanto sua essência já se enfraqueceu.
Capítulo
Que o
luxo destrói as qualidades da coragem.
Saiba que
os homens acostumados ao luxo e à abundância tornam-se dependentes do conforto.
Então
afastam-se da resistência às dificuldades.
E seus
corpos e almas enfraquecem.
Pois a
coragem nasce da capacidade de suportar dureza, fome, medo e privação.
Enquanto
o excesso de conforto produz apego à segurança e temor da perda.
Assim, os
filhos das famílias nobres criados no luxo tornam-se menos aptos à guerra e à
defesa.
Ao
contrário daqueles que vivem em condições simples e austeras.
Por isso,
os povos beduínos são mais preparados para combate e conquista.
E
frequentemente ocorre que um pequeno grupo rude triunfe sobre um Estado
poderoso e numeroso, porque a força da coragem e da asabiyyah supera a mera
quantidade.
E Deus
concede domínio a quem deseja dentre seus servos.
Capítulo
Que os
povos submetidos ao domínio prolongado tornam-se enfraquecidos em sua
disposição para defesa.
Pois a
submissão contínua destrói a energia da alma.
E isso
porque o homem, quando é impedido de agir por si mesmo e acostumado à
dependência de outro, perde gradualmente a coragem e a confiança.
Então
torna-se semelhante àquele que foi domesticado dentre os animais.
Assim, os
povos submetidos durante longo período ao domínio tirânico tornam-se incapazes
de defender-se ou buscar liberdade.
Pois a
opressão destrói a força interior das almas.
E isso ocorre
especialmente quando os governantes utilizam severidade excessiva, castigos
contínuos e humilhação.
Então os
homens acostumam-se ao medo e à submissão.
E perdem
o desejo de resistência.
Ao
contrário dos povos beduínos e independentes, pois eles preservam o senso de
honra e a disposição para defesa.
Por isso,
os povos submetidos necessitam frequentemente de auxílio externo para
libertarem-se.
Porque a
força da resistência já desapareceu dentre eles.
Capítulo
Que a
injustiça anuncia a ruína da civilização.
Saiba que
a agressão contra os bens dos homens remove deles a esperança de obter lucro
mediante trabalho.
Então
abandonam a produção e os empreendimentos.
Pois,
quando percebem que o resultado de seus esforços será tomado injustamente,
perdem o desejo de trabalhar.
Assim,
diminuem os mercados e enfraquece o povoamento.
E a
injustiça não se limita à tomada de propriedades.
Ao
contrário, toda imposição indevida, todo trabalho forçado, toda tributação
excessiva e toda interferência arbitrária nas atividades dos homens constituem
injustiça.
E quando
a injustiça se torna generalizada, acelera-se a destruição da civilização.
Porque os
homens escondem riquezas, abandonam negócios e afastam-se das cidades.
Então as
regiões tornam-se vazias e os Estados enfraquecem.
E saiba
que Deus proibiu a injustiça entre seus servos por causa dos danos que ela
causa à civilização e à ordem do mundo.
Pois a
continuidade do povoamento depende da justiça.
E quando
o povoamento se enfraquece, diminuem necessariamente as receitas do Estado.
Então os
governantes aumentam ainda mais os impostos e as exigências sobre os súditos.
Assim, a
corrupção intensifica-se progressivamente.
E o
Estado aproxima-se do colapso.
Pois o
fundamento do reino é a civilização, e o fundamento da civilização é a justiça.
Quando a
justiça desaparece, desaparece também o povoamento.
Capítulo
Que as
cidades e metrópoles possuem idades naturais como os indivíduos e os Estados.
Saiba que
as cidades surgem inicialmente pequenas e simples.
Então
crescem gradualmente conforme o crescimento da civilização e do reino.
E
multiplicam-se nelas as construções, os mercados, as artes e os habitantes.
Assim
alcançam o auge da prosperidade.
Mas,
quando o luxo aumenta excessivamente e os impostos tornam-se pesados, começam
os sinais de decadência.
Então
diminuem as atividades econômicas e enfraquece o povoamento.
E muitos
habitantes abandonam as cidades em busca de regiões menos opressivas.
Assim, os
edifícios deterioram-se e os mercados esvaziam-se.
E
frequentemente permanecem nas cidades apenas os sinais exteriores de sua antiga
grandeza.
Pois a
essência da prosperidade já desapareceu.
E saiba
que a destruição das cidades ocorre gradualmente e não de uma só vez.
Assim
como o crescimento da civilização acontece pouco a pouco, também sua decadência
se desenvolve progressivamente.
Até que a
cidade se torne ruína após ter sido centro de povoamento e poder.
E esta é
a condição das civilizações humanas no mundo.
Capítulo
Que a
abundância de servos e auxiliares no Estado é sinal de decadência.
Pois os
governantes, quando se afastam da simplicidade e da austeridade, passam a
cercar-se de grande número de servidores, guardas e auxiliares.
Então
aumentam os gastos do reino.
E os
governantes tornam-se dependentes desses auxiliares para proteção e
administração.
Assim,
enfraquece-se ainda mais a coragem natural dos filhos do Estado.
Então o
governante passa a confiar mais nos auxiliares estrangeiros e nos servidores do
que nos membros de sua própria asabiyyah.
E isso é
sinal de enfraquecimento da autoridade natural.
Pois o
Estado forte em seu início necessita de poucos auxiliares, devido à força da
solidariedade entre seus membros.
Mas,
quando a asabiyyah enfraquece, cresce a necessidade de aparato externo para
sustentar o reino.
Assim,
multiplicam-se os guardas, os soldados mercenários, os administradores e os
cobradores de impostos.
Então
aumentam também as despesas e os encargos sobre os súditos.
E saiba
que a multiplicação excessiva de funcionários no Estado conduz inevitavelmente
à corrupção administrativa.
Porque
muitos deles passam a buscar seus próprios interesses.
Então
espalham injustiça e exploração entre o povo.
E o
governante torna-se incapaz de controlar completamente seus auxiliares devido
ao grande número deles.
Assim, a
corrupção alastra-se pelas instituições do reino.
Capítulo
Que os
governantes, no fim dos Estados, tornam-se inclinados à extravagância.
Pois o
governante, quando nasce já em meio ao luxo e à abundância, desconhece as
dificuldades pelas quais passaram os fundadores do Estado.
Assim,
considera naturais as riquezas e os confortos que herdou.
Então
aumenta continuamente os gastos em prazeres, construções, presentes e
cerimônias.
E
distribui riquezas para obter lealdade e elogios.
Mas isso
corrói gradualmente as reservas acumuladas pelos predecessores.
E
frequentemente os governantes do fim dos Estados escolhem companheiros de
diversão e pessoas indignas para posições importantes.
Porque
preferem aqueles que os agradam aos que possuem mérito e competência.
Então
enfraquece a administração do reino.
E as
decisões passam a ser guiadas por paixões e interesses pessoais.
Assim, a
corrupção alcança o centro da autoridade.
E quando
isso ocorre juntamente com impostos excessivos, enfraquecimento militar e
dissolução da asabiyyah, o Estado aproxima-se rapidamente da ruína.
Pois a
essência do poder já desapareceu, ainda que permaneçam os símbolos externos do
reino.
Capítulo
Que os
exércitos, no início do Estado, são poucos em número e fortes em coragem; e no
fim do Estado tornam-se numerosos e fracos.
Saiba que
os fundadores dos Estados dependem, no início, da força da asabiyyah e da
coragem natural.
Assim,
seus exércitos são pequenos em quantidade, mas fortes em disposição para
combate.
Pois cada
homem luta defendendo sua honra, seus parentes e sua solidariedade grupal.
Então a
disposição para a morte é grande entre eles.
Mas,
quando o Estado se consolida e o luxo se espalha, os filhos do reino
acostumam-se ao conforto.
Assim,
enfraquece-se neles a coragem.
Então o
governante aumenta o número dos soldados para compensar a perda da força
interior.
E recorre
a mercenários e auxiliares estrangeiros.
Portanto,
os exércitos tornam-se numerosos em aparência, mas fracos em essência.
Porque
muitos dentre eles lutam apenas pelo pagamento e não por solidariedade ou
convicção.
Assim,
quando enfrentam grupos possuidores de forte asabiyyah, frequentemente são
derrotados apesar de sua quantidade.
E saiba
que a coragem verdadeira não depende apenas do número de homens ou da
abundância de armas.
Ao
contrário, sua origem está na firmeza das almas e na união das intenções.
Por isso,
pequenos grupos unidos frequentemente triunfam sobre grandes exércitos
divididos.
Capítulo
Que o
comércio e os mercados prosperam mediante segurança e justiça.
Pois os
comerciantes somente realizam viagens e investimentos quando possuem confiança
na proteção de suas riquezas.
Assim,
quando os caminhos são seguros e os governantes evitam injustiça,
multiplicam-se os mercados e os negócios.
Então
aumentam os lucros e as receitas do povo e do Estado.
Mas,
quando os governantes espalham opressão, confiscam riquezas ou permitem
insegurança nas estradas, os comerciantes escondem seus bens e abandonam
viagens.
Então os
mercados enfraquecem e as cidades empobrecem.
E saiba
que o comércio depende fortemente da expectativa de lucro.
Assim,
quando os impostos tornam-se excessivos, diminui o interesse pelas atividades
comerciais.
Porque os
ganhos deixam de compensar os riscos e os esforços.
Então as
atividades econômicas reduzem-se gradualmente.
E quando
os mercados enfraquecem, reduzem-se também as receitas tributárias do Estado.
Então os
governantes aumentam novamente os impostos, imaginando compensar a diminuição
da arrecadação.
Mas isso
apenas intensifica a corrupção econômica.
Pois os
comerciantes abandonam os negócios e os produtores reduzem suas atividades.
Assim, a
prosperidade desaparece gradualmente.
E saiba
que a segurança é um dos maiores fundamentos da civilização.
Pois os
homens, quando temem pela própria vida ou pelos próprios bens, afastam-se das
atividades produtivas.
Então a
agricultura enfraquece, o comércio diminui e as cidades entram em decadência.
Por isso,
os governantes justos preocupam-se com a proteção das estradas, dos mercados e
das propriedades.
Porque
sabem que a prosperidade do povo fortalece o reino.
Capítulo
Que as
artes refinadas aparecem somente após a consolidação da civilização.
Saiba que
os homens, no início da civilização, ocupam-se apenas das necessidades
indispensáveis da vida.
Assim,
concentram-se em alimento, moradia, defesa e obtenção do sustento.
Mas,
quando a civilização se fortalece e surgem abundância e conforto, as almas
passam a desejar refinamento e beleza.
Então
aparecem as artes relacionadas à ornamentação, à música, à arquitetura refinada,
às vestimentas luxuosas e aos utensílios elaborados.
E essas
artes aperfeiçoam-se progressivamente nas grandes cidades.
Pois a
abundância de riqueza permite aos homens dedicar tempo às coisas além da
necessidade.
E saiba
que a perfeição das artes é sinal da perfeição da civilização.
Mas
também é frequentemente sinal da aproximação da decadência.
Porque as
nações, quando atingem o máximo refinamento, inclinam-se ao excesso de luxo e
afastam-se da austeridade que sustentou seu poder no início.
Então enfraquecem
gradualmente as qualidades da coragem e da resistência.
Assim, o
refinamento extremo frequentemente acompanha o envelhecimento dos Estados.
Capítulo
Que a
escrita e os registros administrativos surgem com o fortalecimento do reino e
da civilização.
Saiba que
os homens, no início da civilização e dos Estados, possuem poucas necessidades
administrativas.
Pois as
condições são simples e as relações limitadas.
Assim,
não necessitam de muitos registros e documentos.
Mas,
quando o reino se amplia e aumentam as receitas, os exércitos, os impostos e os
negócios, torna-se indispensável registrar informações e organizar os assuntos
do Estado.
Então
surgem os escribas e os administradores.
E a arte
da escrita desenvolve-se conforme o desenvolvimento da civilização.
Pois ela
é uma das artes urbanas refinadas.
E saiba
que a escrita é uma das características próprias da espécie humana.
Porque
ela preserva conhecimentos, transmite ordens e conserva notícias das gerações
passadas.
Assim,
por meio dela, os saberes permanecem além da vida dos indivíduos.
E os
Estados dependem fortemente dela para administração de receitas, despesas,
correspondências e decretos.
Portanto,
quando a civilização enfraquece e os Estados entram em decadência, deteriora-se
também a qualidade da escrita e da administração.
Porque as
artes seguem as condições gerais da civilização.
Capítulo
Que as
ciências florescem quando os governantes honram os estudiosos.
Pois os
homens dedicam-se às ciências e aos conhecimentos quando encontram estima,
proteção e sustento.
Assim, os
governantes que valorizam os estudiosos contribuem para multiplicação das
ciências.
Então
surgem autores, professores e pesquisadores.
E os
estudantes deslocam-se entre cidades e regiões em busca de aprendizado.
Assim, a
civilização fortalece-se por meio do conhecimento.
Mas,
quando os governantes desprezam as ciências ou perseguem os estudiosos,
enfraquece-se o movimento intelectual.
Então as
ciências entram em decadência gradualmente.
Porque os
conhecimentos dependem da continuidade do ensino e da transmissão.
E saiba
que as grandes civilizações são reconhecidas tanto pela força política quanto
pela abundância das ciências e das artes.
Pois a
ciência é uma das formas mais elevadas do refinamento civilizacional.
Capítulo
Que a
educação das crianças influencia profundamente o caráter das nações.
Saiba que
os hábitos adquiridos na infância tornam-se firmes na alma.
Pois a
criança cresce segundo aquilo a que é acostumada desde o início.
Assim,
quando é educada com severidade excessiva, medo contínuo e humilhação,
acostuma-se à submissão e à incapacidade.
Então
perde a coragem de agir livremente e passa a depender dos outros em suas
decisões.
E
frequentemente recorre à mentira, à dissimulação e à hipocrisia para escapar da
opressão.
Porque a
violência destrói a sinceridade natural das almas.
Ao
contrário, quando a educação ocorre com equilíbrio, disciplina moderada e
orientação adequada, desenvolvem-se coragem, iniciativa e firmeza de caráter.
E saiba
que isso não se aplica apenas aos indivíduos, mas também aos povos.
Pois as
nações submetidas durante longo tempo à tirania tornam-se semelhantes às
crianças educadas na opressão.
Assim,
enfraquecem nelas as qualidades da independência e da defesa.
Capítulo
Que os
homens seguem os costumes predominantes de seu tempo e de sua civilização.
Pois a
alma humana inclina-se naturalmente à imitação daqueles com quem convive.
Assim, os
hábitos, as vestimentas, as linguagens e os modos de agir espalham-se entre os
homens pela convivência contínua.
E cada
geração recebe da anterior muitos de seus costumes.
Então as
tradições consolidam-se até parecerem naturais.
Mas,
quando as condições da civilização mudam, transformam-se também os costumes dos
homens.
Porque os
hábitos dependem das condições da vida e dos modos de obtenção do sustento.
Assim, os
habitantes do deserto possuem costumes diferentes dos habitantes das cidades.
E os
habitantes das regiões frias diferem dos habitantes das regiões quentes.
Do mesmo
modo, os povos pobres diferem dos povos ricos.
Pois as
condições externas influenciam os estados interiores das almas.
E aquele
que ignora isso não compreende corretamente as diferenças entre as nações e as
gerações.
Capítulo
Que a
diferença das regiões e dos climas influencia os corpos, os caracteres e as
condições dos povos.
Saiba que
as regiões habitadas da terra diferem conforme os climas, o calor, o frio e as
condições do ar.
E essas
diferenças produzem efeitos nos corpos e nas almas dos habitantes.
Assim, os
povos das regiões quentes tendem à leveza, à rapidez de emoção e à inclinação
para alegria e despreocupação.
Enquanto
os povos das regiões frias tendem à reflexão, à perseverança e à contenção.
E os
corpos também diferem conforme essas condições.
Pois a
influência do clima afeta as cores, as formas e as disposições naturais.
Do mesmo
modo, as condições de abundância ou escassez influenciam os caracteres.
Assim, os
povos habituados à fome e à austeridade tornam-se mais resistentes e pacientes.
Enquanto
os povos acostumados ao luxo e à abundância tornam-se mais frágeis e inclinados
ao conforto.
E saiba
que essas diferenças não significam superioridade absoluta de um povo sobre
outro.
Ao
contrário, cada condição produz qualidades adequadas ao modo de vida
correspondente.
Capítulo
Que os
povos mais simples e austeros estão mais próximos da coragem do que os povos
entregues ao luxo.
Pois a
coragem nasce da resistência às dificuldades e da familiaridade com perigos.
Assim,
aqueles que vivem em condições duras acostumam-se à paciência, à vigilância e à
defesa.
Enquanto
os homens do luxo tornam-se dependentes da segurança proporcionada por outros.
Então
perdem gradualmente as qualidades da coragem.
E
frequentemente os povos simples triunfam sobre civilizações refinadas e
poderosas.
Não
porque possuam mais riqueza ou tecnologia, mas porque preservam força interior
e solidariedade grupal.
Assim, a
força verdadeira dos Estados não depende apenas da abundância material.
Ao
contrário, depende principalmente da firmeza das almas e da união das
intenções.
E quando
essas qualidades desaparecem, a decadência já começou, ainda que permaneçam os
sinais exteriores da prosperidade.
Capítulo
Que a
autoridade governante necessita inevitavelmente de força para preservar o
reino.
Saiba que
o reino e a autoridade não se sustentam apenas por leis e ordens.
Ao
contrário, necessitam de força pela qual os homens sejam compelidos à obediência.
Pois
muitos dentre os homens seguem suas paixões e desejos.
Assim, se
não houver poder que os impeça da agressão e da injustiça, espalhar-se-á a
corrupção.
Portanto,
o governante necessita de exércitos e auxiliares para proteção do reino.
Mas a
força do exército depende da força da asabiyyah.
Pois os
homens não se dispõem sinceramente à defesa senão por solidariedade e vínculo.
E quando
a asabiyyah enfraquece, o governante recorre a mercenários e grupos
estrangeiros.
Então o
Estado perde parte de sua força natural.
Porque os
auxiliares estrangeiros servem pelo pagamento e não por lealdade verdadeira.
Assim, o
reino torna-se dependente de recursos financeiros contínuos para manutenção da
autoridade.
E quando
as receitas diminuem, enfraquece-se também a força militar.
Então
aparecem sinais de decadência do Estado.
Capítulo
Que o
excesso de centralização enfraquece os homens e destrói a iniciativa.
Pois
quando todas as decisões dependem exclusivamente do governante e de seus
representantes, os homens acostumam-se à passividade.
Então
deixam de agir por iniciativa própria.
E isso
enfraquece gradualmente a vitalidade da civilização.
Porque as
sociedades fortes são aquelas em que existe participação ativa dos homens na
proteção de suas condições e interesses.
Mas,
quando tudo é transferido ao aparato do Estado, os homens tornam-se semelhantes
aos dependentes incapazes de agir sem comando.
Assim,
desaparece deles a energia da responsabilidade e da autonomia.
E
frequentemente os governantes acreditam fortalecer o reino mediante controle
excessivo.
Mas, na
realidade, ampliam a fragilidade interna da sociedade.
Pois a
autoridade exageradamente concentrada corrói a capacidade espontânea dos
homens.
E quando
o Estado enfraquece, já não existem entre o povo as qualidades necessárias para
sustentá-lo.
Então o
colapso torna-se mais rápido.
Capítulo
Que as
nações conquistadoras adotam gradualmente os hábitos das civilizações que
dominam.
Saiba que
os grupos conquistadores, quando estabelecem domínio sobre grandes civilizações
urbanas, passam gradualmente a adotar seus costumes e hábitos.
Pois os
homens inclinam-se naturalmente às condições de conforto e refinamento quando
estas lhes são apresentadas.
Assim, os
conquistadores abandonam pouco a pouco a rudeza que lhes concedeu força no
início.
Então
passam a utilizar vestimentas luxuosas, construções refinadas e hábitos
urbanos.
E seus
filhos crescem já acostumados ao conforto e à abundância.
Assim,
enfraquece-se neles a coragem e dissolve-se a asabiyyah original.
E
frequentemente ocorre que o grupo conquistador, após algumas gerações, torna-se
semelhante ao povo anteriormente dominado.
Então
surge outro grupo mais rude e mais forte que o substitui.
E esta é
uma das causas da alternância dos Estados entre as nações.
Capítulo
Que a
abundância de riqueza no fim dos Estados frequentemente produz corrupção moral.
Pois os
homens, quando mergulham excessivamente no luxo, passam a buscar prazeres e
satisfações contínuas.
Então
tornam-se inclinados à extravagância, à competição em ostentação e ao
desperdício.
E os
governantes incentivam essas condições por meio de festas, construções
grandiosas e distribuição de riquezas.
Assim, as
almas afastam-se da austeridade e da disciplina.
E os
filhos das famílias nobres crescem sem conhecer dificuldades ou
responsabilidades.
Então
tornam-se incapazes de sustentar as condições do reino herdado.
Além
disso, a abundância excessiva desperta inveja, rivalidade e disputa por
posições e riquezas.
Assim,
espalham-se intrigas e divisões internas entre os membros do Estado.
E isso
enfraquece ainda mais a coesão necessária para preservação do reino.
Pois a
corrupção moral precede frequentemente a decadência política.
E quando
os homens deixam de valorizar coragem, honra e responsabilidade, aproximam-se
do enfraquecimento coletivo.
Capítulo
Que a
civilização, quando alcança o extremo do refinamento, aproxima-se naturalmente
da decadência.
Pois toda
coisa que atinge o máximo de sua natureza começa a inclinar-se para o declínio.
Assim
ocorre com os indivíduos, os Estados, as cidades e as civilizações.
Quando a
civilização alcança o auge da abundância, das artes e do luxo, enfraquecem-se
gradualmente as causas que produziram sua força no início.
Pois os
homens passam da austeridade para o conforto, da coragem para a dependência, e
da simplicidade para a extravagância.
Então
desaparecem deles as qualidades da resistência e da disciplina.
E as
gerações nascidas no luxo ignoram as dificuldades pelas quais passaram os
fundadores do reino.
Assim,
acreditam que a autoridade e a prosperidade existem naturalmente e continuarão
para sempre.
Então
negligenciam a preservação das causas que sustentam o Estado.
E quando
os sinais da decadência aparecem, poucos os percebem no início.
Porque a
civilização continua possuindo aparência de força, riqueza e organização.
Mas a
essência interior já se enfraqueceu.
Assim, os
homens observam os palácios, os exércitos e os mercados e imaginam que o reino
permanece sólido.
Enquanto
a asabiyyah, a coragem e a vitalidade já começaram a desaparecer.
E
frequentemente o colapso torna-se visível apenas quando um grupo externo mais
forte surge e encontra o Estado vazio de sua força original.
Então
ocorre a queda rapidamente.
Capítulo
Que a
memória das dificuldades desaparece nas gerações tardias dos Estados.
Pois os
fundadores do reino conheceram pobreza, luta, medo e necessidade.
Assim,
preservavam austeridade, vigilância e coragem.
Mas os
filhos e descendentes crescem em meio ao conforto proporcionado pelas
conquistas anteriores.
Então
desconhecem as causas reais que produziram o poder do Estado.
E passam
a considerar naturais o luxo, a segurança e a abundância.
Assim,
afastam-se dos hábitos de disciplina e resistência.
E isso
enfraquece gradualmente a capacidade do reino de defender-se e renovar sua
força.
Assim,
quando surgem perigos ou dificuldades, os descendentes do Estado mostram-se
menos preparados para enfrentá-los.
Porque
perderam os hábitos que fortaleciam seus predecessores.
E
frequentemente procuram preservar o reino apenas por meio de riqueza,
cerimônias e aparência de poder.
Mas isso
não substitui a força interior produzida pela asabiyyah e pela coragem.
Assim, o
Estado continua existindo exteriormente, enquanto suas bases já se encontram
enfraquecidas.
Capítulo
Que os
governantes, no fim dos Estados, tornam-se mais inclinados ao medo e à
suspeita.
Pois o
fundador do reino possui confiança em sua asabiyyah e em seus companheiros.
Assim,
sente-se seguro quanto à preservação de sua autoridade.
Mas os
governantes tardios, após o enfraquecimento da solidariedade grupal, começam a
temer conspirações e disputas.
Então tornam-se
desconfiados de todos ao redor.
E
frequentemente eliminam antigos aliados e membros influentes do reino por
receio de perda do poder.
Assim,
enfraquecem ainda mais a coesão interna do Estado.
Além
disso, cercam-se de guardas, auxiliares e sistemas de vigilância.
Porque já
não confiam espontaneamente no povo nem nos membros de sua autoridade.
E o medo
torna-se uma das características dominantes dos governantes decadentes.
Enquanto
os fundadores do reino possuíam mais coragem e segurança interior.
E saiba
que o excesso de medo no governante frequentemente conduz à tirania.
Pois ele
passa a enxergar ameaça em toda independência e força existente na sociedade.
Então
amplia punições, controles e opressões.
Assim,
cresce o ódio do povo contra o Estado.
E isso
acelera ainda mais sua decadência.
Capítulo
Que a
opressão destrói a esperança e enfraquece a atividade humana.
Pois o
homem somente trabalha e se esforça quando possui esperança de usufruir o resultado
de seu trabalho.
Mas,
quando acredita que aquilo que produz será tomado injustamente, perde o desejo
de agir.
Então
enfraquecem agricultura, comércio, artes e construções.
E os
homens passam a buscar apenas o mínimo necessário para sobreviver.
Assim,
diminui o povoamento e enfraquece o reino.
E saiba
que a esperança é um dos maiores estímulos para a atividade humana.
Assim,
quando os homens sentem segurança quanto às suas propriedades e ganhos,
multiplicam seus esforços e empreendimentos.
Então
prosperam os mercados, aumentam as construções e fortalece-se a civilização.
Mas,
quando a injustiça e a opressão espalham-se, desaparece a confiança no futuro.
Então os
homens escondem riquezas, abandonam negócios e afastam-se das atividades
produtivas.
Assim, o
Estado destrói com as próprias mãos as bases de sua prosperidade.
Pois a
riqueza do reino não consiste apenas em ouro e prata armazenados.
Ao
contrário, consiste principalmente na vitalidade do povoamento e na
continuidade do trabalho humano.
E quando os
homens deixam de produzir, enfraquecem inevitavelmente as receitas do Estado.
Então os
governantes recorrem a novas formas de opressão para compensar as perdas.
Assim,
amplia-se ainda mais a corrupção.
E
frequentemente os governantes não percebem que a causa da redução das receitas
está na própria injustiça que praticam.
Ao
contrário, imaginam que o problema decorre apenas da insuficiência dos
impostos.
Então
aumentam ainda mais as cargas sobre os súditos.
E isso
acelera o declínio da civilização.
Capítulo
Que a
civilização depende da cooperação entre os homens.
Saiba que
o homem sozinho é incapaz de satisfazer todas as necessidades de sua
existência.
Pois
necessita de alimento, vestimenta, moradia, proteção e instrumentos.
E nenhuma
dessas coisas é obtida plenamente por um único indivíduo isolado.
Assim,
tornou-se indispensável a cooperação entre os homens.
Então um
cultiva a terra, outro fabrica ferramentas, outro constrói moradias e outro
protege os caminhos.
E
mediante divisão dos trabalhos completam-se as condições da vida humana.
Por isso,
a civilização cresce conforme cresce a cooperação.
E quando
os laços de solidariedade e confiança enfraquecem, enfraquece-se também a
civilização.
Pois a
sociedade humana depende da interdependência entre seus membros.
E saiba
que os Estados fortes são aqueles que conseguem preservar simultaneamente:
a justiça,
a solidariedade,
a segurança,
e a disposição dos homens para cooperar.
Quando
uma dessas bases se dissolve, começam os sinais da decadência.
Capítulo
Que a
divisão dos trabalhos aumenta a produção e fortalece a civilização.
Saiba que
os trabalhos humanos tornam-se mais perfeitos quando são divididos entre
diferentes pessoas.
Pois cada
indivíduo, ao dedicar-se continuamente a uma única atividade, aperfeiçoa sua
habilidade nela.
Então
aumenta a qualidade do trabalho e cresce a quantidade da produção.
Assim,
mediante divisão dos trabalhos, obtém-se muito mais do que aquilo que os homens
conseguiriam individualmente.
E esta é
uma das causas do crescimento das cidades e da abundância das riquezas.
Pois nas
grandes metrópoles existem numerosas profissões e artes especializadas.
Então
cada grupo dedica-se a um tipo específico de atividade.
Assim,
multiplicam-se os produtos, os lucros e os meios de subsistência.
Enquanto
nas regiões pequenas e pouco povoadas os homens são obrigados a realizar muitas
tarefas por si mesmos.
Então as
artes permanecem simples e limitadas.
E saiba
que a abundância da produção depende da abundância da cooperação.
Porque a
força de muitos homens reunidos supera amplamente a capacidade de um único
indivíduo.
Assim, a
civilização desenvolve-se conforme cresce a especialização das atividades
humanas.
Mas,
quando a civilização entra em decadência, enfraquece-se também a perfeição das
artes e profissões.
Porque as
atividades refinadas dependem da abundância econômica e da estabilidade do
povoamento.
Então
muitas artes desaparecem gradualmente com a ruína das cidades e dos Estados.
Capítulo
Que a
autoridade excessivamente severa destrói a coragem dos súditos.
Pois os
homens submetidos continuamente ao medo e à punição tornam-se incapazes de agir
com independência.
Então
acostumam-se à obediência passiva e perdem a disposição para iniciativa.
E
frequentemente recorrem à mentira e à dissimulação para proteger-se da
opressão.
Assim, a
tirania corrói o caráter dos homens.
E saiba
que os povos educados sob excesso de severidade tornam-se mais frágeis diante
dos perigos.
Porque a coragem
depende da confiança da alma em sua própria capacidade de agir.
Mas o
medo constante destrói essa confiança.
Então os
homens tornam-se semelhantes àqueles que aguardam sempre comando e proteção
externos.
E isso
enfraquece profundamente a vitalidade da civilização.
E
frequentemente os governantes imaginam que fortalecem o reino mediante aumento
da severidade e das punições.
Mas, na
realidade, produzem súditos incapazes de defender o Estado ou agir com coragem.
Pois o
excesso de opressão destrói a energia interior dos homens.
Assim,
quando surgem perigos externos, o povo enfraquecido pela tirania mostra-se
incapaz de resistência firme.
Enquanto
os povos acostumados à liberdade e à responsabilidade preservam maior força de
caráter.
Capítulo
Que os
impostos moderados fortalecem a prosperidade do reino.
Saiba que
os governantes justos estabelecem impostos moderados e proporcionais às
capacidades dos súditos.
Assim, os
homens realizam suas atividades econômicas com entusiasmo e esperança de lucro.
Então
aumentam agricultura, comércio, construções e artes.
E, com a
multiplicação das atividades, crescem naturalmente as receitas do Estado.
Porque a
prosperidade geral amplia a base de arrecadação.
Mas,
quando os impostos tornam-se excessivos, os homens reduzem seus esforços e
abandonam empreendimentos.
Então
diminuem os mercados e enfraquecem os ganhos.
E as
receitas do Estado começam a cair, apesar do aumento das taxas.
Assim, a
moderação tributária produz frequentemente maiores receitas do que a opressão
fiscal.
E isso
porque a riqueza do Estado depende da vitalidade econômica da sociedade.
Quando os
súditos prosperam, prospera também o reino.
Mas,
quando os homens são esmagados por tributos e exigências, enfraquece-se toda a
civilização.
Capítulo
Que os
homens tendem a imitar os hábitos das classes dominantes.
Pois as
almas humanas acreditam na perfeição daqueles que ocupam posição elevada e
autoridade.
Assim, os
homens procuram imitar governantes, nobres e grupos poderosos em suas
vestimentas, hábitos e estilos de vida.
Então os
costumes das elites espalham-se gradualmente por toda a sociedade.
E
frequentemente os homens abandonam seus hábitos antigos para aproximar-se dos
modos daqueles que consideram superiores.
Assim, as
transformações culturais propagam-se por imitação social.
E saiba
que isso ocorre especialmente quando o domínio político e psicológico das
classes superiores torna-se forte.
Pois a
submissão produz admiração e desejo de semelhança.
Então as
nações vencidas passam a reproduzir os hábitos dos vencedores.
E isso
ocorre não apenas nas vestimentas e aparências externas, mas também nas
crenças, nos costumes e nas formas de pensamento.
Pois os
homens imaginam que a superioridade dos dominadores decorre da perfeição de
suas condições em geral.
Assim,
esforçam-se para imitá-los em tudo aquilo que conseguem.
Mas
frequentemente ignoram que a verdadeira causa da superioridade está na força da
asabiyyah, da organização e da coragem, e não apenas nas aparências exteriores.
Então
ocupam-se das formas externas e negligenciam os fundamentos reais da força.
Capítulo
Que os
Estados mais duradouros são aqueles fundados sobre justiça e moderação.
Saiba que
o reino baseado apenas na força pode permanecer por algum tempo, mas dificilmente
alcança longa duração.
Pois a
opressão gera ódio nas almas e enfraquece gradualmente a lealdade dos súditos.
Assim, o
povo passa a desejar a queda do governante.
E
frequentemente auxilia inimigos externos contra o próprio Estado devido ao peso
da injustiça.
Mas,
quando os governantes agem com justiça, preservam a confiança e a cooperação do
povo.
Então
fortalece-se a disposição para proteção do reino.
E a
civilização cresce sob segurança e estabilidade.
Assim, a
justiça prolonga naturalmente a duração dos Estados.
E saiba
que a moderação é uma das maiores causas da estabilidade política.
Pois os
excessos, seja em punições, impostos ou luxos, conduzem gradualmente à
corrupção.
Enquanto
o equilíbrio preserva as condições da civilização.
E os
governantes sábios evitam tanto a severidade exagerada quanto a negligência
excessiva.
Assim
mantêm a ordem sem destruir a vitalidade do povo.
Capítulo
Que os
povos acostumados à liberdade preservam mais fortemente a coragem.
Pois os
homens que participam da defesa de suas condições e interesses desenvolvem
senso de responsabilidade e confiança.
Então
tornam-se mais preparados para resistência e ação.
Enquanto
os povos submetidos continuamente à dependência e à tutela perdem gradualmente
a disposição para iniciativa.
E passam
a esperar que outros resolvam seus problemas e garantam sua proteção.
Assim,
enfraquece-se a coragem coletiva.
E saiba
que a liberdade moderada fortalece a vitalidade da civilização.
Porque
produz homens habituados à responsabilidade e ao esforço.
Mas a
liberdade excessiva, sem autoridade e ordem, conduz à desagregação.
Pois os
homens necessitam de governo que impeça agressões mútuas e preserve a justiça.
Assim, a
melhor condição é aquela em que existe equilíbrio entre autoridade e liberdade.
Porque a
tirania destrói a coragem, e a ausência completa de autoridade destrói a ordem.
Capítulo
Que a
riqueza excessiva produz dependência e enfraquecimento moral.
Saiba que
os homens, quando mergulham profundamente na abundância e nos prazeres,
tornam-se inclinados ao repouso e à satisfação imediata.
Então
passam a evitar dificuldades e riscos.
E os
filhos das famílias ricas crescem acostumados ao conforto e à proteção.
Assim,
tornam-se menos preparados para suportar privações e enfrentar perigos.
E
frequentemente acreditam que suas condições continuarão eternamente.
Então
negligenciam disciplina, esforço e vigilância.
Mas a
riqueza excessiva também desperta competição em ostentação e luxo.
Assim, os
homens passam a medir valor pela aparência de riqueza e não pelas qualidades de
caráter.
Então
espalham-se inveja, rivalidade e busca exagerada por prestígio.
E isso
corrói gradualmente a coesão moral da sociedade.
Pois as
almas tornam-se dominadas por desejos materiais.
E quando
o apego ao luxo domina os homens, enfraquecem-se as qualidades da coragem, da
moderação e da responsabilidade.
Assim, a
riqueza que inicialmente fortaleceu a civilização transforma-se, no excesso, em
causa de decadência.
Capítulo
Que as
grandes civilizações frequentemente ignoram os sinais iniciais de sua própria
decadência.
Pois os
sinais da ruína aparecem gradualmente e de forma dispersa.
Assim, os
homens acostumados à prosperidade não percebem imediatamente o enfraquecimento
interno do Estado.
Porque
continuam vendo:
grandes construções,
mercados ativos,
exércitos numerosos,
e abundância de riquezas.
Então
acreditam que o reino permanece sólido.
Mas a
essência da força já começou a desaparecer.
Pois a
asabiyyah enfraqueceu, a coragem diminuiu, a corrupção espalhou-se e os homens
tornaram-se dependentes do luxo.
Assim, a
decadência avança silenciosamente antes do colapso visível.
E
frequentemente os homens somente percebem a gravidade da decadência quando já
se tornou difícil revertê-la.
Pois as
causas da ruína acumulam-se pouco a pouco durante longo período.
Então,
quando aparece um perigo externo ou uma grande crise, revela-se a fragilidade
escondida do Estado.
E aquilo
que parecia sólido desmorona rapidamente.
Porque a
força exterior já não possuía fundamento interior suficiente para sustentá-la.
Capítulo
Que os
povos simples frequentemente possuem maior disposição para aceitação da verdade
religiosa.
Pois os
homens afastados do excesso de luxo e sofisticação permanecem mais próximos da
disposição natural.
Assim,
suas almas são menos ocupadas por distrações, prazeres e ambições exageradas.
Então
mostram-se mais preparados para aceitar exortações religiosas e princípios
morais.
Enquanto
os habitantes das civilizações refinadas frequentemente tornam-se dominados
pelo apego ao mundo e pelas competições do luxo.
Assim,
endurecem-se suas almas diante das advertências espirituais.
E saiba
que a rudeza da vida beduína preserva nos homens qualidades de simplicidade e
humildade.
Enquanto
o excesso de conforto frequentemente produz arrogância e negligência.
Por isso,
muitos profetas e movimentos religiosos surgiram inicialmente entre povos
simples e afastados do refinamento extremo das grandes cidades.
Porque as
condições da simplicidade favorecem receptividade espiritual maior.
Capítulo
Que os
Estados necessitam constantemente renovar sua força interior.
Pois o
poder político não permanece estático.
Ao
contrário, enfraquece-se naturalmente com o tempo devido à expansão do luxo, à
dissolução da asabiyyah e ao crescimento da dependência.
Assim, se
o Estado não renovar continuamente disciplina, justiça e solidariedade,
aproxima-se inevitavelmente da decadência.
E a
renovação da força não ocorre apenas mediante aumento de riqueza ou exércitos.
Ao
contrário, depende principalmente da renovação das qualidades morais e
coletivas que sustentam a civilização.
Pois a
essência do reino encontra-se nas almas dos homens antes de encontrar-se nas
construções e instituições.
E quando
a corrupção alcança as almas, as estruturas exteriores tornam-se frágeis, ainda
que aparentem força.
Assim, os
Estados perecem primeiro interiormente e somente depois exteriormente.
Capítulo
Que a
autoridade excessivamente prolongada produz enfraquecimento da vigilância
política.
Pois os
governantes, quando permanecem longo tempo no poder sem enfrentar ameaças
sérias, acostumam-se à tranquilidade e à segurança.
Então
diminuem prudência, vigilância e atenção aos perigos.
E os
filhos dos governantes crescem sem experiência das dificuldades enfrentadas
pelos fundadores do reino.
Assim,
tornam-se inclinados ao repouso e à confiança excessiva na estabilidade do
Estado.
Mas os
perigos continuam surgindo continuamente no mundo.
E os
grupos possuidores de forte asabiyyah observam atentamente as fraquezas dos
reinos estabelecidos.
Então,
quando percebem sinais de decadência, cobiçam o domínio.
E
frequentemente os Estados decadentes não percebem imediatamente a gravidade
dessas ameaças.
Porque
estão ocupados com luxos, disputas internas e preservação das aparências do
poder.
Assim, o
relaxamento prolongado da vigilância política torna-se uma das causas ocultas
da ruína dos Estados.
Capítulo
Que os
governantes decadentes frequentemente confundem aparência de poder com força
verdadeira.
Pois os
reis do fim dos Estados observam:
a multiplicidade dos exércitos,
a grandeza das construções,
a abundância das riquezas,
e o número dos servidores.
Então
imaginam que o reino permanece forte.
Mas
frequentemente ignoram que a essência da força política está:
na coesão,
na coragem,
na lealdade,
e na disposição dos homens para defender o Estado.
Quando
essas qualidades desaparecem, os símbolos exteriores já não conseguem preservar
o reino.
Assim, um
Estado pode aparentar grandeza exterior enquanto internamente encontra-se vazio
de vitalidade.
E
frequentemente o colapso torna-se repentino apenas porque a decadência interior
permaneceu oculta durante longo tempo.
Pois os
homens observam os sinais exteriores da prosperidade e deixam de perceber o
enfraquecimento das causas profundas do poder.
Capítulo
Que a
alternância dos Estados entre as nações é uma lei constante da civilização
humana.
Saiba que
nenhum reino permanece eternamente para um único povo ou grupo.
Pois os
Estados surgem, fortalecem-se, envelhecem e desaparecem.
Então
outro grupo assume o poder.
E isso
ocorre devido às transformações naturais das condições humanas.
Pois a
força produz domínio; o domínio produz luxo; o luxo produz enfraquecimento; e o
enfraquecimento abre caminho para novos conquistadores.
Assim
alternam-se os dias entre as nações.
E Deus
concede o reino a quem deseja e o retira de quem deseja.
E saiba
que os homens frequentemente imaginam que a permanência de um Estado depende
apenas da abundância de riquezas e armas.
Mas a
verdadeira permanência depende da continuidade das causas que produziram a
força do reino em seu início.
Assim,
quando desaparecem coragem, justiça, solidariedade e disciplina, a abundância
material já não é suficiente para preservar a autoridade.
Então o
Estado continua existindo apenas pela força do hábito e da aparência.
Até que
surja grupo mais forte e mais unido que o substitua.
Capítulo
Que os
governantes, quando exageram no luxo, afastam-se das condições do povo.
Pois os
reis do início dos Estados vivem próximos de seus companheiros e compartilham
com eles muitas condições da vida comum.
Assim,
compreendem facilmente as dificuldades e necessidades do povo.
Mas, quando
o luxo aumenta, os governantes cercam-se de palácios, guardas e cerimônias.
Então
tornam-se separados da realidade da sociedade.
E passam
a conhecer os assuntos do povo apenas por intermédio de servidores e
auxiliares.
Assim,
enfraquece-se a percepção verdadeira das condições do reino.
E
frequentemente os auxiliares escondem problemas ou distorcem informações para
agradar o governante.
Então
aumentam erros administrativos e decisões injustas.
Além
disso, a distância excessiva entre governantes e povo enfraquece os vínculos de
lealdade natural.
Porque os
homens sentem-se abandonados por aqueles que exercem autoridade sobre eles.
Assim,
cresce gradualmente ressentimento contra o Estado.
Capítulo
Que a
corrupção administrativa espalha-se mais facilmente no fim dos Estados.
Pois os
fundadores do reino costumam possuir austeridade e vigilância quanto aos
recursos públicos.
Porque
conhecem o valor das riquezas obtidas mediante esforço e luta.
Mas os descendentes
nascidos no luxo passam a considerar normais as abundâncias do Estado.
Então
tornam-se menos cuidadosos na administração das receitas e despesas.
Além
disso, a multiplicação de funcionários e auxiliares aumenta as oportunidades de
exploração e corrupção.
Assim,
muitos passam a utilizar posições públicas para enriquecimento pessoal.
E
frequentemente o governante perde capacidade de controlar completamente seus
administradores.
Então a
corrupção alastra-se pelas instituições do reino.
E isso
enfraquece ainda mais a confiança do povo no Estado.
Então os
homens passam a acreditar que o Estado já não busca o bem comum, mas apenas os
interesses daqueles que ocupam cargos e posições.
Assim,
enfraquece-se a disposição para cooperação e lealdade.
E isso acelera
a decadência política.
Capítulo
Que a
prosperidade excessiva reduz a disposição dos homens para o sacrifício.
Pois os
homens acostumados ao conforto tornam-se mais apegados à preservação de suas
condições materiais.
Então
passam a temer perdas, dificuldades e perigos.
E
diminuem neles as qualidades da coragem e da disposição para enfrentar
sofrimentos em defesa do reino.
Enquanto
os fundadores dos Estados estavam habituados à privação e à dureza.
Assim,
consideravam naturais o esforço e o risco.
Mas os
descendentes educados no luxo procuram preservar conforto e segurança acima de
tudo.
Então
evitam guerras difíceis, sacrifícios prolongados e resistências perigosas.
E
frequentemente preferem concessões e submissão a suportar grandes dificuldades.
Assim,
enfraquece-se a capacidade coletiva de preservação do Estado diante de ameaças
externas.
Capítulo
Que os
povos dominados frequentemente internalizam a inferioridade.
Pois a
submissão prolongada produz nas almas sensação de incapacidade e dependência.
Então os
homens passam a acreditar que os dominadores possuem superioridade natural
sobre eles.
Assim,
diminuem confiança em suas próprias qualidades e tradições.
E
frequentemente procuram imitar os vencedores em tudo:
na linguagem,
nas vestimentas,
nos costumes,
e nas formas de pensamento.
Porque
acreditam que a causa da superioridade do vencedor encontra-se nessas
aparências.
Mas
raramente percebem que a verdadeira origem da força estava na asabiyyah e nas
condições históricas do domínio.
Assim, a
derrota política transforma-se gradualmente também em derrota psicológica.
E isso
fortalece ainda mais o poder dos dominadores.
Pois o
povo submetido passa a colaborar espontaneamente com os hábitos e valores
daqueles que o governam.
Capítulo
Que os
grandes impérios tornam-se mais difíceis de administrar conforme aumentam em
extensão.
Pois a
ampliação do reino exige aumento de exércitos, funcionários, tributos e
sistemas administrativos.
Então
crescem as despesas e multiplicam-se os centros de poder.
E
torna-se mais difícil ao governante controlar completamente regiões distantes e
numerosos auxiliares.
Assim, os
governantes passam a depender de numerosos intermediários e representantes.
E
frequentemente esses representantes buscam seus próprios interesses antes dos
interesses do reino.
Então
enfraquece-se gradualmente a unidade da autoridade.
Além
disso, as regiões distantes tendem a desenvolver interesses e ambições
próprias.
Assim,
tornam-se mais difíceis de manter sob obediência contínua.
E quando
o centro do reino enfraquece, multiplicam-se rebeliões e movimentos
separatistas.
Porque a
força necessária para preservar a unidade torna-se excessivamente grande.
Por isso,
muitos grandes impérios desmoronam devido ao peso de sua própria expansão.
Pois
aquilo que inicialmente representou força transforma-se, no excesso, em causa
de fragilidade administrativa.
Capítulo
Que a
autoridade política depende mais da aceitação coletiva do que da mera força
física.
Saiba que
nenhum governante consegue dominar sozinho grandes multidões apenas por força
pessoal.
Ao
contrário, o reino depende da aceitação da autoridade pelos homens.
E essa
aceitação nasce da asabiyyah, da religião, da tradição ou da percepção de
legitimidade.
Assim,
quando os homens acreditam na legitimidade do governante, obedecem-lhe mais
facilmente.
Mas,
quando desaparece essa convicção interior, o governante necessita aumentar
continuamente coerção e vigilância.
Então
multiplicam-se punições, guardas e mecanismos de controle.
E isso
frequentemente indica enfraquecimento da autoridade verdadeira.
Pois a
força política mais estável é aquela sustentada por aceitação espontânea e
solidariedade coletiva.
Enquanto
o poder baseado apenas no medo torna-se frágil e instável.
Porque os
homens obedecem exteriormente enquanto aguardam oportunidade de rebelião ou
substituição do governante.
Capítulo
Que a
religião fortalece os Estados ao unificar intenções e disciplinar as almas.
Pois a
convocação religiosa reúne os homens em torno de finalidade comum superior aos
interesses individuais.
Assim,
reduz rivalidades internas e fortalece solidariedade.
E os
homens tornam-se mais dispostos ao sacrifício quando acreditam lutar por
verdade transcendente.
Então
aumenta a coragem e fortalece-se a obediência.
Por isso,
os Estados fundados sobre religião frequentemente alcançam expansão maior que
aqueles sustentados apenas por ambição política.
Porque a
religião organiza não apenas os corpos, mas também as almas.
E quando
a dimensão espiritual enfraquece completamente, crescem disputas egoístas e
divisões internas.
Assim,
dissolve-se gradualmente a coesão necessária à preservação do reino.
Capítulo
Que os
homens acostumados ao conforto tornam-se mais dependentes da proteção do
Estado.
Pois o
luxo produz apego à segurança e ao repouso.
Então os
homens evitam riscos e responsabilidades difíceis.
E passam
a transferir continuamente ao Estado tarefas que antes realizavam por si
mesmos.
Assim,
aumenta a dependência em relação à autoridade governante.
E isso
enfraquece gradualmente a iniciativa individual e coletiva.
Porque os
homens deixam de confiar em suas próprias capacidades.
Então
tornam-se semelhantes àqueles que aguardam continuamente direção e proteção
externas.
E saiba
que os povos excessivamente dependentes tornam-se frágeis quando o Estado
enfraquece.
Pois
perderam os hábitos de autonomia, defesa e responsabilidade.
Assim, a
vitalidade da civilização diminui progressivamente.
Capítulo
Que os
governantes frequentemente ampliam o aparato estatal no fim dos Estados.
Pois os
reis decadentes, ao perceberem enfraquecimento da autoridade natural, procuram
compensá-lo mediante aumento da administração, da vigilância e da força
coercitiva.
Então
multiplicam funcionários, guardas, cobradores de impostos e auxiliares.
E criam
novos mecanismos de controle sobre a sociedade.
Mas isso
aumenta enormemente as despesas do reino.
Assim,
tornam-se necessários mais impostos e mais exploração dos súditos.
E o peso
do aparato estatal recai continuamente sobre a atividade produtiva da
sociedade.
Então
enfraquecem comércio, agricultura e artes.
Além
disso, a multiplicação do aparato administrativo frequentemente aumenta
corrupção e competição por cargos.
Porque
muitos procuram funções públicas apenas para obter riqueza e influência.
Assim, o
Estado torna-se pesado e oneroso para o povoamento.
E aquilo
que deveria proteger a civilização transforma-se gradualmente em carga sobre
ela.
Capítulo
Que as
gerações nascidas no luxo desconhecem as causas reais do poder herdado.
Pois os
descendentes dos fundadores do reino crescem já em meio à abundância e à
estabilidade.
Então
acreditam que essas condições existem naturalmente.
E não
compreendem plenamente os esforços, os sacrifícios e a austeridade que
permitiram a construção do Estado.
Assim,
passam a valorizar apenas os frutos da prosperidade e não as causas que a
produziram.
Então
negligenciam disciplina, vigilância e coragem.
E
frequentemente consideram desagradáveis ou desnecessárias as qualidades que
sustentaram o reino no início.
Assim, enfraquece-se
gradualmente a capacidade do Estado de preservar a si mesmo.
E quando
surgem dificuldades graves ou ameaças externas, mostram-se menos preparados
para enfrentá-las.
Porque
foram educados em condições de conforto e segurança.
Assim,
procuram preservar os prazeres da vida antes de preservar a força do Estado.
E
frequentemente recorrem a mercenários e grupos estrangeiros para defesa do
reino.
Mas esses
grupos não possuem lealdade verdadeira à dinastia.
Então a
autoridade torna-se artificial e dependente de pagamentos contínuos.
E isso
acelera ainda mais a decadência.
Capítulo
Que os
Estados, quando envelhecem, tornam-se inclinados ao excesso de formalidades e
cerimônias.
Pois os
governantes do início dos reinos vivem de forma mais simples e próxima de seus
companheiros.
Mas,
quando o reino se fortalece e o luxo cresce, multiplicam-se protocolos,
símbolos e aparências de majestade.
Então
tornam-se numerosas as cerimônias, os títulos, as vestimentas luxuosas e as
barreiras entre o governante e o povo.
E isso
ocorre porque os reis procuram compensar pela aparência aquilo que perderam em
autoridade natural e força interior.
Assim,
quanto mais o Estado enfraquece internamente, mais frequentemente aumenta a
necessidade de exibir grandeza exterior.
E os
homens simples impressionam-se com essas aparências.
Mas
aqueles que compreendem a natureza dos Estados percebem que o excesso de
formalidade frequentemente acompanha o envelhecimento político.
Porque os
fundadores do reino dependiam mais de coragem e solidariedade do que de
espetáculo e ostentação.
Capítulo
Que a
decadência moral precede frequentemente a decadência militar e política.
Pois os
homens, quando abandonam disciplina, responsabilidade e moderação, enfraquecem
gradualmente a capacidade de sustentar a civilização.
Então
tornam-se dominados por desejos imediatos, rivalidades e busca de prazeres.
E as
qualidades necessárias à preservação do reino desaparecem pouco a pouco.
Assim,
antes que o Estado seja derrotado exteriormente, já ocorreu enfraquecimento
interior nas almas.
E isso
manifesta-se:
na corrupção,
na perda da coragem,
na dissolução da solidariedade,
e no abandono do senso de dever coletivo.
Então os
exércitos tornam-se frágeis, a administração torna-se corrupta e os governantes
tornam-se incapazes de liderança firme.
Assim, a
decadência política é frequentemente consequência da decadência moral anterior.
Capítulo
Que os
homens tornam-se semelhantes às condições em que vivem.
Pois as
almas humanas recebem influência contínua dos hábitos, costumes e formas de
vida predominantes.
Assim,
aqueles que vivem em meio à guerra e às dificuldades tornam-se mais inclinados
à coragem e à resistência.
Enquanto
aqueles que vivem continuamente em conforto e tranquilidade tornam-se
inclinados ao repouso e à dependência.
E isso
ocorre porque os hábitos repetidos transformam-se em qualidades firmes da alma.
Portanto,
as condições da civilização moldam os caracteres dos homens.
E as
gerações nascidas em determinada condição frequentemente acreditam que ela é
natural e permanente.
Assim, os
filhos do luxo estranham a austeridade, e os filhos da austeridade desprezam
excessos de refinamento.
E saiba
que os hábitos possuem enorme poder sobre as almas.
Porque a
repetição contínua transforma comportamentos adquiridos em disposições naturais
aparentes.
Capítulo
Que os
povos excessivamente submetidos tornam-se inclinados à imitação e à
dependência.
Pois a
submissão prolongada enfraquece a confiança dos homens em si mesmos.
Então
passam a acreditar que toda superioridade pertence aos dominadores.
Assim,
abandonam gradualmente suas próprias tradições, modos de pensar e costumes.
E
esforçam-se para reproduzir os hábitos daqueles que os governam.
Porque
imaginam que a força dos vencedores decorre dessas aparências exteriores.
Então
ocorre transformação psicológica profunda nos povos dominados.
E
frequentemente a derrota política converte-se em admiração cultural pelos
dominadores.
Assim, os
vencidos tornam-se colaboradores espontâneos da influência dos vencedores.
E isso
fortalece ainda mais o domínio político e social.
Capítulo
Que o
excesso de riqueza e conforto reduz a disposição para trabalhos difíceis.
Pois os
homens acostumados ao luxo procuram continuamente preservar comodidade e
prazer.
Então
evitam atividades cansativas e perigosas.
E passam
a depender do trabalho de outros para manutenção de suas condições.
Assim, as
profissões mais duras tornam-se desprezadas entre as classes refinadas.
Enquanto
os povos simples e austeros preservam maior disposição para suportar
dificuldades.
Por isso,
frequentemente os conquistadores surgem dentre grupos habituados à rudeza e não
dentre povos entregues ao luxo extremo.
E saiba
que as profissões difíceis e os trabalhos pesados são mais frequentemente
realizados por aqueles que permanecem próximos das condições simples da vida.
Porque a
abundância excessiva enfraquece a disposição para esforço corporal e
resistência.
Assim,
quando as classes dominantes mergulham profundamente no luxo, tornam-se
dependentes do trabalho de outros povos e grupos.
E isso
aumenta ainda mais sua fragilidade.
Capítulo
Que os
Estados envelhecidos tornam-se mais inclinados à injustiça financeira.
Pois os
governantes do fim dos reinos enfrentam aumento contínuo de despesas devido ao
luxo, à multiplicação de servidores e à necessidade de sustentar grandes
aparatos administrativos e militares.
Então
procuram novas formas de obtenção de receitas.
E frequentemente
recorrem à apropriação de riquezas privadas, monopólios e interferência direta
nas atividades econômicas.
Assim, o
Estado passa a competir com comerciantes e produtores.
E isso
reduz ainda mais a atividade econômica.
Porque os
homens perdem segurança quanto à preservação de seus bens e lucros.
Então
escondem riquezas e diminuem investimentos.
Assim,
enfraquecem-se mercados, agricultura e comércio.
E o
próprio Estado torna-se responsável pela destruição gradual das fontes de sua
arrecadação.
Pois a
injustiça financeira corrói a confiança necessária à prosperidade da
civilização.
Capítulo
Que os
povos conquistadores tornam-se mais frágeis após longa permanência no poder.
Pois os
grupos que conquistam reinos inicialmente possuem forte asabiyyah, coragem e
disposição para suportar dificuldades.
Mas, após
estabelecerem domínio e habituarem-se ao luxo das cidades conquistadas, começam
gradualmente a perder essas qualidades.
Então
seus descendentes crescem afastados das condições que produziram a força original
do grupo.
Assim,
desaparecem pouco a pouco austeridade, vigilância e solidariedade intensa.
E o grupo
conquistador transforma-se em elite refinada semelhante àquelas que
anteriormente derrotou.
Então
surge novo povo mais rude e mais unido que o substitui.
E esta
alternância repete-se continuamente na história das civilizações.
Pois a
força que produz o domínio contém em si mesma causas que, com o tempo, conduzem
ao enfraquecimento.
Capítulo
Que a
abundância de formalidades no governo é sinal de afastamento da simplicidade
original do Estado.
Pois os
fundadores dos reinos vivem geralmente em condições próximas da rudeza e da
simplicidade.
Assim,
suas relações com os companheiros e súditos são diretas e pouco carregadas de
protocolos.
Mas,
quando o reino se fortalece e o luxo se amplia, multiplicam-se cerimônias,
títulos e formalidades.
Então o
governante passa a ser separado do povo por barreiras, guardas e regras de
acesso.
E isso
ocorre porque a autoridade natural fundada na asabiyyah enfraqueceu.
Assim,
procura-se compensar por meio de símbolos exteriores aquilo que foi perdido
interiormente.
Então
aumentam:
as vestimentas majestosas,
os palácios,
as procissões,
e as demonstrações públicas de grandeza.
Mas essas
aparências não restauram a força original do Estado.
Ao
contrário, frequentemente ocultam decadência já avançada.
Pois os
fundadores do reino necessitavam menos de espetáculo e mais de coragem e
solidariedade.
Capítulo
Que a
corrupção dos costumes espalha-se gradualmente com o excesso de luxo.
Pois os
homens, quando ultrapassam os limites da moderação nos prazeres, tornam-se
inclinados à busca contínua de satisfação.
Então
multiplicam-se extravagâncias em alimentação, vestimentas, construções e
diversões.
E os
homens passam a competir em ostentação e aparência de riqueza.
Assim,
enfraquece-se o senso de disciplina e responsabilidade.
Além
disso, os filhos educados no excesso tornam-se menos preparados para suportar
dificuldades.
Então
desaparecem pouco a pouco as qualidades que sustentaram a força do Estado em
seu início.
E saiba
que a corrupção moral não surge subitamente.
Ao
contrário, desenvolve-se gradualmente através dos hábitos cotidianos da
civilização.
Assim, os
homens acostumam-se progressivamente a condições que antes considerariam excessivas.
Até que o
luxo extremo passe a parecer natural.
E quando
isso acontece, aproxima-se o enfraquecimento coletivo.
Capítulo
Que os
homens frequentemente confundem estabilidade prolongada com permanência eterna.
Pois as
gerações nascidas durante períodos de prosperidade imaginam que as condições
existentes continuarão indefinidamente.
Então
tornam-se negligentes quanto às causas da preservação do reino.
E
acreditam que riqueza, segurança e autoridade existem naturalmente.
Assim,
deixam de valorizar austeridade, vigilância e coragem.
Mas toda
civilização está sujeita à transformação e à decadência.
E os
Estados envelhecem inevitavelmente quando desaparecem as qualidades que lhes
deram origem.
Assim,
quando surgem sinais de enfraquecimento, muitos homens recusam-se a
reconhecê-los.
Porque
estão acostumados à continuidade da prosperidade.
Então
interpretam os problemas como acontecimentos passageiros e não como sintomas de
decadência estrutural.
E
frequentemente continuam aumentando luxos, gastos e disputas internas enquanto
as bases do Estado já se deterioram.
Assim, o
colapso surpreende aqueles que confundiram longa duração com eternidade.
Capítulo
Que a
força dos Estados encontra-se primeiramente nas almas antes de encontrar-se nas
armas.
Pois os
exércitos, as fortalezas e as riquezas somente produzem poder verdadeiro quando
existe disposição interior para utilizá-los com coragem e firmeza.
Assim,
pequenos grupos possuidores de forte asabiyyah frequentemente triunfam sobre grandes
reinos ricos e numerosos.
Porque a
verdadeira força nasce:
da solidariedade,
da coragem,
da disposição para sacrifício,
e da união das intenções.
Enquanto
os Estados decadentes possuem muitas vezes abundância de armas e soldados, mas
carecem de firmeza interior.
Então
seus exércitos tornam-se frágeis diante de grupos mais unidos e determinados.
E saiba
que a coragem coletiva não pode ser comprada apenas com riquezas.
Pois os
homens lutam verdadeiramente quando sentem pertencimento e finalidade comum.
Assim, a
essência do poder político permanece ligada às condições morais e espirituais
das sociedades.
Capítulo
Que a
abundância de riqueza frequentemente aumenta desigualdades e tensões sociais.
Pois,
quando o luxo se amplia nas cidades, concentram-se riquezas nas mãos das elites
e dos grupos próximos do poder.
Então
surgem diferenças excessivas entre as condições dos homens.
E aqueles
que permanecem pobres observam continuamente ostentação e abundância ao redor.
Assim,
aumentam inveja, ressentimento e rivalidade social.
Além
disso, os governantes frequentemente favorecem grupos específicos mediante
privilégios e concessões.
Então
enfraquece-se o senso de justiça coletiva.
E os
homens passam a acreditar que riqueza e posição dependem mais da proximidade ao
poder do que do mérito ou do trabalho.
Assim,
cresce a corrupção moral e política.
E saiba
que as desigualdades extremas enfraquecem a solidariedade necessária à
preservação da civilização.
Porque os
homens deixam de sentir pertencimento comum.
Então
multiplicam-se divisões internas e disputas entre grupos da sociedade.
Capítulo
Que a
civilização enfraquece quando desaparece o senso de responsabilidade coletiva.
Pois os
Estados fortes surgem quando os homens sentem participação comum na preservação
do reino e da sociedade.
Assim,
cada grupo contribui para defesa, produção e continuidade da civilização.
Mas,
quando o luxo e a dependência aumentam, os homens passam a preocupar-se
principalmente com interesses individuais.
Então
enfraquece-se a disposição para sacrifício coletivo.
E cada
grupo procura obter vantagens particulares mesmo que isso prejudique o conjunto
da sociedade.
Assim,
multiplicam-se divisões internas e desaparece gradualmente o espírito de
solidariedade.
E saiba
que a coesão moral é uma das bases invisíveis do poder político.
Pois
nenhum Estado permanece forte quando os homens deixam de sentir pertencimento
comum.
Então o
reino transforma-se em mera estrutura exterior sustentada por coerção e
interesse material.
E isso
torna sua duração limitada.
Capítulo
Que a
autoridade baseada apenas no medo torna-se instável.
Pois o
medo pode compelir os homens à obediência exterior durante certo tempo.
Mas não
produz lealdade verdadeira nem disposição sincera para defesa do Estado.
Assim, os
povos submetidos exclusivamente por terror obedecem enquanto não encontram
oportunidade de resistência ou fuga.
E quando
surge crise grave, desaparece rapidamente a obediência fundada apenas na
coerção.
Porque os
homens não possuem vínculo interior com o reino.
Ao
contrário, frequentemente desejam secretamente sua queda.
Mas os
Estados sustentados por justiça, legitimidade e solidariedade preservam apoio
mais duradouro.
Pois os
homens defendem espontaneamente aquilo que consideram legítimo e benéfico.
Assim, a
força política mais estável é aquela que une autoridade e aceitação interior.
Capítulo
Que o
excesso de dependência de mercenários enfraquece os Estados.
Pois os fundadores
dos reinos baseiam sua força em homens ligados pela asabiyyah.
Assim,
existe lealdade natural e disposição para sacrifício.
Mas os
governantes decadentes recorrem crescentemente a soldados pagos e grupos
estrangeiros.
Porque os
filhos do Estado perderam coragem e disciplina.
Então os
mercenários tornam-se fundamento principal do exército.
Mas esses
homens lutam principalmente por riqueza e benefício.
Assim,
sua lealdade depende da continuidade dos pagamentos e vantagens.
E quando
surgem dificuldades financeiras ou oportunidades melhores, abandonam facilmente
o governante.
Portanto,
os Estados excessivamente dependentes de mercenários tornam-se frágeis diante
de crises prolongadas.
E saiba
que os mercenários raramente possuem vínculo verdadeiro com a população e com a
continuidade da civilização.
Assim,
preocupam-se mais com seus próprios interesses do que com preservação do reino.
E isso
aumenta ainda mais a instabilidade política.
Capítulo
Que os
Estados decadentes tornam-se excessivamente dependentes de arrecadação fiscal.
Pois os
governantes do início dos reinos sustentam-se principalmente mediante
simplicidade das despesas e força da asabiyyah.
Mas,
quando o luxo cresce e multiplica-se o aparato estatal, tornam-se necessárias
receitas cada vez maiores.
Então o
Estado passa a depender intensamente da cobrança contínua de impostos.
E
frequentemente amplia tributos sobre todas as atividades econômicas:
comércio,
agricultura,
artesanato,
e transportes.
Assim, os
homens sentem-se constantemente pressionados pela autoridade fiscal.
E a
atividade produtiva enfraquece gradualmente.
Porque os
produtores perdem esperança de usufruir plenamente o resultado de seus
esforços.
Então
diminuem investimentos, construções e negócios.
E o
próprio Estado torna-se causa do empobrecimento da sociedade da qual depende.
Assim,
aumenta continuamente o círculo de decadência econômica e política.
Capítulo
Que a
multiplicação de luxos cria necessidades artificiais entre os homens.
Pois os
homens, quando vivem inicialmente em simplicidade, contentam-se com poucas
coisas necessárias à vida.
Mas,
quando o refinamento da civilização cresce, surgem novos hábitos de consumo e
prazer.
Então
aquilo que antes era considerado luxo transforma-se gradualmente em necessidade
aparente.
E os
homens passam a acreditar que não conseguem viver sem abundância de objetos,
confortos e diversões.
Assim,
aumentam continuamente despesas individuais e coletivas.
E muitos
esforçam-se excessivamente apenas para manter aparências de riqueza e posição
social.
Então
cresce competição por ostentação.
E as
almas tornam-se mais ocupadas por desejos materiais do que por virtudes e
responsabilidades.
Assim, o
excesso de refinamento modifica profundamente os caracteres humanos.
E frequentemente
enfraquece simplicidade, coragem e moderação.
Capítulo
Que os
homens acostumados à ostentação tornam-se mais dependentes da opinião dos
outros.
Pois
aqueles que vivem em simplicidade preocupam-se principalmente com aquilo que é
necessário à vida.
Mas os
homens mergulhados no luxo passam a buscar reconhecimento, prestígio e
admiração pública.
Então
suas ações tornam-se orientadas pela aparência diante dos outros homens.
E
multiplicam-se competições em vestimentas, construções, banquetes e demonstrações
de riqueza.
Assim, as
almas tornam-se dependentes da aprovação social.
E
frequentemente os homens sacrificam prudência e moderação para preservar imagem
de grandeza.
Então
aumentam desperdícios e dívidas.
E o
desejo de ostentação espalha-se gradualmente por toda a sociedade.
Assim,
mesmo aqueles de recursos limitados procuram imitar hábitos das elites.
E isso
amplia ainda mais pressão econômica e moral sobre os homens.
Pois
passam a viver segundo aparências e não segundo necessidades reais.
Capítulo
Que os
Estados excessivamente ricos tornam-se vulneráveis à corrupção interna.
Pois a
abundância de riquezas amplia oportunidades de disputa por cargos, influência e
privilégios.
Então
muitos homens passam a buscar proximidade do poder não para servir ao reino,
mas para obter benefícios pessoais.
Assim,
multiplicam-se intrigas, rivalidades e alianças oportunistas.
E
frequentemente os governantes distribuem cargos e riquezas para garantir
lealdade temporária.
Mas isso
enfraquece mérito, disciplina e justiça administrativa.
Então
pessoas incapazes alcançam posições importantes apenas por favoritismo.
E os
homens competentes afastam-se ou tornam-se desanimados.
Assim,
deteriora-se gradualmente a qualidade da administração do Estado.
E saiba
que a corrupção interna destrói silenciosamente as bases do reino antes do
aparecimento do colapso visível.
Pois as
estruturas exteriores podem permanecer intactas durante longo tempo enquanto a
confiança, a lealdade e a responsabilidade desaparecem interiormente.
Capítulo
Que as
civilizações refinadas frequentemente desprezam povos simples antes de serem
conquistadas por eles.
Pois os
habitantes das grandes cidades acostumam-se a considerar bárbaros e inferiores
os povos beduínos e austeros.
Porque
observam apenas ausência de refinamento, artes e luxos entre eles.
Mas
frequentemente ignoram que esses povos preservam coragem, resistência e forte
asabiyyah.
Assim,
subestimam perigos vindos das regiões periféricas e dos grupos simples.
Então,
quando esses grupos se fortalecem e encontram o Estado enfraquecido pelo luxo,
conseguem derrotá-lo apesar da inferioridade material inicial.
E isso se
repete muitas vezes na história das civilizações.
Capítulo
Que os
homens frequentemente percebem tarde demais a perda da força interior do
Estado.
Pois
enquanto permanecem:
as riquezas,
os palácios,
os exércitos,
e os símbolos exteriores do poder,
os homens acreditam que o reino continua forte.
Então
ignoram sinais de corrupção moral, dissolução da asabiyyah e enfraquecimento da
coragem coletiva.
Mas a
essência do poder já começou a desaparecer.
Assim,
quando ocorre grande crise ou invasão externa, revela-se subitamente a
fragilidade escondida.
E aquilo
que parecia império sólido desmorona rapidamente.
Porque a
estrutura exterior já não possuía fundamento interior suficiente.
E
frequentemente os homens ficam admirados com a velocidade da queda.
Mas
aqueles que compreendem a natureza dos Estados percebem que a ruína começou
muito antes do colapso visível.
Capítulo
Que o
excesso de conforto reduz gradualmente a disposição para virtudes difíceis.
Pois as
virtudes ligadas à coragem, à paciência e à resistência fortalecem-se mediante
enfrentamento de dificuldades.
Mas os
homens acostumados continuamente ao prazer e à facilidade tornam-se inclinados
a evitar tudo aquilo que exige esforço ou sacrifício.
Então
enfraquecem disciplina, firmeza e autocontrole.
E as
almas passam a buscar satisfação imediata acima de deveres e responsabilidades.
Assim,
modifica-se progressivamente o caráter coletivo da sociedade.
E aquilo
que antes era considerado fraqueza torna-se aceito como comportamento normal.
Enquanto
qualidades de austeridade passam a parecer desagradáveis ou excessivas.
Então a
civilização perde lentamente capacidade de suportar crises e sofrimentos.
Porque os
homens deixam de estar preparados interiormente para tempos difíceis.
Capítulo
Que os
Estados poderosos frequentemente tornam-se vítimas da própria complexidade.
Pois a
expansão do reino produz aumento contínuo de:
leis,
impostos,
instituições,
funcionários,
e sistemas administrativos.
Então a
estrutura política torna-se extremamente complexa e pesada.
E o
governante depende cada vez mais de numerosos intermediários para administração
do Estado.
Assim,
torna-se difícil preservar simplicidade, clareza e unidade de direção.
Além
disso, a multiplicidade de instituições amplia possibilidades de corrupção, conflitos
internos e desperdício.
Então o
reino passa a consumir enorme quantidade de recursos apenas para sustentar sua
própria estrutura.
E isso
enfraquece gradualmente vitalidade econômica e política da civilização.
E saiba
que os Estados simples em sua origem possuem maior capacidade de adaptação e
rapidez nas decisões.
Porque
dependem de menos mecanismos e menos intermediários.
Mas os
Estados excessivamente complexos tornam-se lentos e pesados.
Então
muitas vezes não conseguem responder adequadamente a crises repentinas.
E essa
rigidez aumenta ainda mais sua vulnerabilidade diante de grupos mais simples e
mais ágeis.
Capítulo
Que os
homens submetidos continuamente ao luxo tornam-se mais temerosos da morte e da
perda.
Pois
aqueles acostumados à dureza da vida consideram naturais sofrimento, risco e
privação.
Assim,
mostram-se mais preparados para enfrentar perigos.
Mas os
homens educados no conforto tornam-se intensamente apegados às condições
agradáveis que possuem.
Então
passam a temer profundamente tudo aquilo que ameaça segurança e prazer.
E isso
reduz disposição para guerras difíceis, resistência prolongada e sacrifício
coletivo.
Assim, os
povos refinados frequentemente preferem preservar conforto imediato mesmo ao
custo de submissão futura.
Enquanto
os povos austeros aceitam mais facilmente sofrimento temporário em busca de
domínio e independência.
E saiba
que a coragem depende menos da força física do que da disposição interior para
suportar perdas e perigos.
Capítulo
Que a
multiplicação de desejos torna os homens mais difíceis de satisfazer.
Pois os
homens simples contentam-se facilmente com poucas necessidades.
Mas,
quando o luxo se espalha, surgem continuamente novos desejos e expectativas.
Então
aquilo que antes trazia satisfação passa a parecer insuficiente.
E os
homens tornam-se mais inquietos e insatisfeitos apesar da abundância material.
Assim,
cresce busca incessante por novos prazeres e refinamentos.
E as
almas perdem tranquilidade e moderação.
Além
disso, a competição social intensifica-se, porque cada grupo procura superar os
outros em riqueza e aparência.
Então
aumentam inveja, rivalidade e ressentimento.
E
frequentemente os homens tornam-se escravos de desejos criados pela própria civilização
refinada.
Assim,
aquilo que parecia sinal de prosperidade transforma-se também em causa de
ansiedade e corrupção moral.
Capítulo
Que as
civilizações refinadas frequentemente produzem homens especializados, mas menos
completos.
Pois a
divisão avançada dos trabalhos faz com que cada homem dedique-se continuamente
a atividade muito específica.
Então
aperfeiçoa-se grande habilidade técnica em determinadas artes e profissões.
Mas
frequentemente diminui a capacidade geral dos homens de agir em múltiplas
situações.
Assim, os
habitantes das civilizações muito refinadas tornam-se dependentes uns dos
outros em grau elevado.
E poucos
conseguem satisfazer sozinhos necessidades essenciais da vida.
Enquanto
os povos mais simples preservam habilidades mais amplas ligadas à
sobrevivência, defesa e autonomia.
Então as
sociedades altamente refinadas tornam-se mais vulneráveis à interrupção da
ordem geral.
Porque
dependem profundamente da continuidade da organização complexa da civilização.
E quando
ocorrem crises graves, guerras ou colapsos administrativos, muitos homens
mostram-se incapazes de adaptar-se rapidamente.
Assim, a
especialização extrema fortalece a civilização em tempos de estabilidade, mas
pode aumentar fragilidade em tempos de desordem.
Capítulo
Que os
homens frequentemente confundem riqueza acumulada com força permanente.
Pois os
Estados poderosos acumulam:
ouro,
prata,
mercadorias,
construções,
e abundância material.
Então os
homens imaginam que essas riquezas garantem permanência eterna do reino.
Mas a
riqueza somente permanece útil enquanto existe civilização capaz de protegê-la
e administrá-la.
Assim,
quando desaparecem coragem, solidariedade e disciplina, as riquezas tornam-se
incapazes de salvar o Estado.
E
frequentemente servem apenas como prêmio para conquistadores mais fortes.
Pois os
tesouros acumulados pelos povos refinados atraem grupos austeros e guerreiros.
Então
aquilo que antes representava sinal de poder transforma-se em motivo adicional
para invasão e conquista.
E saiba
que as riquezas dependem da força política mais do que a força política depende
das riquezas.
Porque
sem autoridade legítima e coesão coletiva, os recursos materiais dispersam-se
rapidamente.
Capítulo
Que o
excesso de confiança no passado enfraquece a capacidade de renovação.
Pois as
civilizações antigas e gloriosas frequentemente tornam-se orgulhosas de suas
conquistas anteriores.
Então
passam a acreditar que superioridade passada garante superioridade futura.
E isso
reduz disposição para vigilância, adaptação e reforma.
Assim, os
homens apegam-se excessivamente às formas herdadas, mesmo quando as condições
do mundo já mudaram.
Então o
Estado torna-se rígido e incapaz de responder adequadamente às transformações
históricas.
E
frequentemente grupos novos, mais flexíveis e mais disciplinados, superam
civilizações antigas excessivamente confiantes em sua própria tradição de
poder.
Capítulo
Que os
Estados envelhecidos tornam-se menos capazes de produzir homens excepcionais.
Pois os
fundadores dos reinos surgem geralmente em tempos de dificuldade, luta e
transformação.
Assim,
desenvolvem coragem, prudência, liderança e disposição para suportar grandes
responsabilidades.
Mas,
quando o reino se estabiliza excessivamente e o luxo domina a civilização, os
homens passam a buscar mais conforto do que grandeza.
Então
diminuem as condições que produzem personalidades fortes e disciplinadas.
E muitos
preferem segurança e prazer à honra e ao sacrifício.
Assim,
torna-se raro o surgimento de líderes verdadeiramente vigorosos.
Enquanto
em épocas de crise e austeridade aparecem homens capazes de suportar riscos e
realizar grandes feitos.
E saiba
que as condições da civilização influenciam profundamente a formação dos
caracteres humanos.
Porque as
almas moldam-se segundo aquilo que enfrentam continuamente.
Capítulo
Que os
povos simples frequentemente preservam mais fortemente o senso de pertencimento
coletivo.
Pois os
homens que vivem em condições austeras dependem intensamente uns dos outros
para sobrevivência e defesa.
Assim,
fortalecem-se solidariedade, auxílio mútuo e disposição para proteção comum.
Enquanto
os habitantes das grandes civilizações refinadas tornam-se mais
individualizados e preocupados com interesses privados.
Então
enfraquece-se gradualmente o vínculo coletivo.
E os
homens passam a sentir-se menos responsáveis pelo destino comum da sociedade.
Assim, a
asabiyyah dissolve-se pouco a pouco.
E quando
desaparece o senso de pertencimento coletivo, torna-se difícil preservar
unidade política duradoura.
Porque os
homens deixam de enxergar o reino como extensão de si mesmos.
Então o
Estado depende cada vez mais de coerção, impostos e administração artificial
para manter-se.
Capítulo
Que os
homens habituados ao conforto tornam-se menos tolerantes às dificuldades inevitáveis
da vida.
Pois
aqueles que cresceram em meio à abundância e segurança esperam continuidade
permanente dessas condições.
Então
reagem com grande inquietação diante de perdas, crises ou privações moderadas.
Enquanto
os povos acostumados à austeridade suportam adversidades com maior firmeza.
E isso
ocorre porque a alma adapta-se às condições em que vive.
Assim, o
excesso de conforto reduz capacidade de resistência psicológica.
Então
pequenas dificuldades passam a parecer grandes sofrimentos.
E frequentemente
as sociedades refinadas mostram-se mais frágeis interiormente apesar de sua
riqueza exterior.
Capítulo
Que os
Estados decadentes tornam-se excessivamente preocupados com preservação de
aparências.
Pois
quando a força interior do reino enfraquece, os governantes procuram manter
sinais exteriores de majestade e poder.
Então
aumentam cerimônias, títulos, procissões e demonstrações públicas de
autoridade.
E
esforçam-se para impressionar o povo pela grandiosidade das formas exteriores.
Mas
frequentemente essas aparências ocultam fragilidade crescente da estrutura
política.
Pois a
verdadeira força do Estado encontra-se:
na coragem dos homens,
na justiça,
na solidariedade,
e na disposição para defesa comum.
Quando
essas qualidades desaparecem, os símbolos exteriores tornam-se insuficientes
para preservar o reino.
Assim, os
Estados envelhecidos frequentemente dedicam mais energia à manutenção da imagem
do poder do que à renovação de suas causas reais.
E isso
acelera ainda mais a decadência.
Capítulo
Que os
homens submetidos continuamente ao prazer tornam-se mais frágeis diante do
sofrimento.
Pois a
alma acostumada ao conforto perde gradualmente capacidade de suportar dor,
privação e incerteza.
Então os
homens procuram evitar qualquer condição difícil.
E passam
a desejar segurança permanente e satisfação imediata.
Assim,
enfraquece-se a disposição para coragem e perseverança.
Enquanto
aqueles habituados à austeridade preservam maior resistência física e
psicológica.
E saiba
que as dificuldades moderadas fortalecem os homens quando enfrentadas
continuamente.
Porque
produzem disciplina, paciência e capacidade de adaptação.
Mas o
excesso de conforto enfraquece essas qualidades.
Assim, as
civilizações muito refinadas frequentemente tornam-se incapazes de suportar
crises prolongadas.
Capítulo
Que a
continuidade da civilização depende da preservação simultânea de força e
justiça.
Pois a
força sem justiça produz opressão e ódio.
Enquanto
a justiça sem força torna-se incapaz de proteger a ordem e impedir agressões.
Assim, os
Estados duradouros combinam:
autoridade,
justiça,
disciplina,
e solidariedade coletiva.
Então os
homens sentem simultaneamente respeito e confiança em relação ao reino.
E isso
fortalece estabilidade política e disposição para cooperação.
Mas,
quando desaparece equilíbrio entre força e justiça, começam sinais de
enfraquecimento.
Então
multiplicam-se rebeliões, rivalidades e divisões internas.
E o
Estado perde gradualmente legitimidade e capacidade de preservação.
E saiba
que os homens obedecem mais facilmente à autoridade quando acreditam que ela
protege justiça e ordem comum.
Mas,
quando enxergam apenas exploração e benefício dos governantes, enfraquece-se
lealdade interior.
Então a
coerção precisa aumentar continuamente.
E isso é
sinal de decadência política.
Capítulo
Que a
abundância de prazeres enfraquece gradualmente a disposição para virtudes
elevadas.
Pois os
homens acostumados à satisfação contínua tornam-se menos inclinados ao
autocontrole e à disciplina.
Então procuram
evitar tudo aquilo que exige paciência, sacrifício ou renúncia.
E as
almas passam a buscar principalmente:
diversão,
comodidade,
e prazer imediato.
Assim,
enfraquecem virtudes ligadas à perseverança, coragem e responsabilidade.
E saiba
que as civilizações fortes exigem homens capazes de suportar dificuldades em
benefício do bem comum.
Mas,
quando o apego aos prazeres domina a sociedade, os homens tornam-se mais
preocupados com satisfação individual do que com preservação coletiva.
Então
dissolve-se gradualmente a força moral necessária ao reino.
Capítulo
Que as
sociedades excessivamente refinadas tornam-se mais vulneráveis a choques
inesperados.
Pois os
povos simples e austeros estão habituados a lidar continuamente com escassez,
riscos e instabilidade.
Assim,
desenvolvem maior capacidade de adaptação diante de crises.
Enquanto
as civilizações muito refinadas dependem profundamente da estabilidade de
sistemas complexos:
mercados,
administração,
transportes,
e divisão avançada dos trabalhos.
Então
qualquer ruptura significativa produz desordem ampla.
Porque
muitos homens perderam capacidade de agir independentemente das estruturas da
civilização.
Assim,
aquilo que representa força em tempos de estabilidade transforma-se em
fragilidade em tempos de crise.
E
frequentemente pequenos choques produzem consequências enormes em sociedades
excessivamente dependentes da complexidade.
Capítulo
Que a
alternância entre austeridade e luxo repete-se continuamente nas civilizações.
Pois os
povos austeros conquistam reinos mediante coragem, disciplina e forte
asabiyyah.
Então
estabelecem domínio e alcançam abundância.
Mas a
abundância produz refinamento e luxo.
Assim,
enfraquecem gradualmente as qualidades que permitiram a conquista inicial.
Então
surge novo grupo mais simples e mais forte que substitui o reino decadente.
E esta
alternância repete-se continuamente ao longo da história humana.
Pois as
condições da civilização transformam inevitavelmente os caracteres dos homens.
Assim, nenhuma
civilização permanece eternamente na mesma condição.
Porque os
próprios fatores que produzem força e prosperidade transformam-se gradualmente
em causas de enfraquecimento.
E Deus
alterna os dias entre os homens e as nações.
Capítulo
Que os
homens frequentemente recusam reconhecer decadência enquanto ainda existe
abundância material.
Pois os
habitantes das civilizações prósperas observam:
mercados cheios,
grandes construções,
riquezas abundantes,
e conforto generalizado.
Então
acreditam que a sociedade permanece forte e estável.
Mas
frequentemente ignoram:
o enfraquecimento da coragem,
a dissolução da solidariedade,
o crescimento da dependência,
e a corrupção moral.
Assim,
confundem prosperidade material momentânea com vitalidade duradoura da civilização.
E quando
surgem crises profundas, descobrem que as bases interiores do reino já estavam
deterioradas há muito tempo.
Então
ocorre espanto diante da rapidez do declínio.
Mas
aqueles que observam as causas profundas compreendem que a ruína começou muito
antes das manifestações exteriores.
Capítulo
Que a
força moral das sociedades é mais difícil de restaurar do que as riquezas
materiais.
Pois
riquezas podem ser acumuladas novamente mediante trabalho e organização.
Construções
podem ser reconstruídas.
Exércitos
podem ser recrutados.
Mas a
coragem, a solidariedade e a disposição para sacrifício coletivo exigem longo
tempo para formação.
Porque
dependem dos hábitos, da educação e das condições morais das gerações.
Assim,
quando uma civilização perde profundamente suas virtudes fundamentais, torna-se
difícil restaurá-las rapidamente.
E
frequentemente os governantes procuram solucionar decadência apenas mediante
aumento de recursos materiais e aparato estatal.
Mas isso
não recompõe automaticamente força interior das almas.
Pois a
essência do poder político e civilizacional encontra-se primeiramente nos
homens e em seus caracteres.
Capítulo
Que as
civilizações excessivamente dependentes do luxo tornam-se frágeis diante da
escassez.
Pois os
homens acostumados à abundância organizam toda sua vida segundo continuidade do
conforto.
Então
qualquer redução significativa de riqueza ou estabilidade produz grande
desordem.
Porque
muitos já não sabem viver em condições simples.
Assim, os
hábitos do luxo transformam-se em forma de dependência coletiva.
E quando
surgem crises econômicas, guerras ou interrupções do comércio, os homens
mostram-se incapazes de adaptar-se rapidamente à austeridade.
Então
aumentam medo, desordem e conflito social.
Enquanto
os povos habituados à simplicidade suportam mais facilmente períodos de
escassez.
Assim, o
excesso de dependência do conforto enfraquece resistência coletiva diante das
mudanças inevitáveis do mundo.
Capítulo
Que os
homens frequentemente tornam-se prisioneiros dos hábitos criados pela própria
civilização.
Pois os
costumes repetidos continuamente moldam desejos, expectativas e formas de
pensar.
Então
aquilo que começou como conveniência transforma-se gradualmente em necessidade
psicológica.
E os
homens passam a sentir dificuldade em imaginar modos diferentes de vida.
Assim, as
civilizações refinadas criam padrões de existência dos quais os próprios homens
tornam-se dependentes.
E
frequentemente defendem tais hábitos mesmo quando eles contribuem para
enfraquecimento da sociedade.
Porque as
almas acostumam-se às condições predominantes e resistem à mudança.
Então
torna-se difícil restaurar austeridade e disciplina após longa expansão do
luxo.
Capítulo
Que o
excesso de centralização torna os Estados mais vulneráveis a falhas do centro
político.
Pois os
reinos simples distribuem naturalmente responsabilidades entre grupos e
comunidades locais.
Assim,
parte da vitalidade da sociedade permanece independente do governante central.
Mas,
quando o Estado concentra excessivamente autoridade, administração e recursos
em um único centro, toda a civilização torna-se dependente da estabilidade
desse núcleo.
Então
qualquer enfraquecimento da autoridade central produz efeitos amplos em todas
as regiões.
E os
homens acostumam-se a esperar continuamente direção superior para resolução de
problemas.
Assim,
reduz-se capacidade espontânea de organização local e responsabilidade
coletiva.
E quando
o centro político entra em crise, muitas partes da sociedade mostram-se
incapazes de agir autonomamente.
Então o
colapso espalha-se rapidamente por todo o reino.
Capítulo
Que a
continuidade da civilização exige equilíbrio entre refinamento e força
interior.
Pois as
artes, as ciências e os refinamentos da vida representam perfeições importantes
da civilização humana.
Mas,
quando o refinamento ultrapassa certos limites, começa a corroer coragem,
disciplina e solidariedade.
Assim, a
civilização necessita preservar simultaneamente:
prosperidade,
justiça,
força moral,
e capacidade de resistência.
Porque o
excesso em qualquer direção conduz desequilíbrio.
Então os
Estados mais duradouros são aqueles que conseguem combinar abundância com
preservação das qualidades que sustentam a força coletiva.
E saiba
que os povos que conseguem preservar coragem e disciplina juntamente com
prosperidade possuem maior capacidade de prolongar estabilidade política.
Porque
não abandonam completamente as qualidades que produziram sua força inicial.
Capítulo
Que os
homens acostumados à submissão prolongada tornam-se menos capazes de iniciativa
política.
Pois a
dependência contínua da autoridade enfraquece gradualmente confiança dos homens
em sua própria capacidade de agir.
Então
passam a esperar decisões e soluções vindas sempre de cima.
E evitam
assumir responsabilidades coletivas espontaneamente.
Assim,
desaparece pouco a pouco participação ativa na preservação da sociedade.
E os
homens tornam-se mais inclinados à passividade e à obediência automática.
Enquanto
os povos habituados à autonomia preservam maior energia política e senso de
responsabilidade comum.
E saiba
que a vitalidade das civilizações depende também da capacidade dos homens de
agir por si mesmos quando necessário.
Porque
sociedades compostas apenas por indivíduos dependentes tornam-se frágeis diante
de crises inesperadas.
Capítulo
Que a
corrupção das elites acelera a corrupção geral da sociedade.
Pois os
homens tendem naturalmente a imitar aqueles que ocupam posições elevadas e
prestigiosas.
Assim,
quando governantes e elites preservam moderação, justiça e disciplina, essas
qualidades espalham-se mais facilmente pelo povo.
Mas,
quando as elites entregam-se ao luxo excessivo, à corrupção e à busca
desenfreada de prazeres, os demais homens procuram imitá-las.
Então os
vícios tornam-se socialmente aceitos e difundem-se gradualmente por toda a
civilização.
E aquilo
que antes era considerado desonroso passa a parecer normal.
Assim, a
decadência moral das classes superiores frequentemente precede e acelera
decadência coletiva do reino.
Porque os
costumes das elites possuem grande influência sobre comportamento geral da
sociedade.
Capítulo
Que os
povos fortes preservam memória viva das dificuldades que originaram sua força.
Pois as
gerações fundadoras dos Estados lembram constantemente:
as lutas,
os perigos,
as privações,
e os sacrifícios necessários para obtenção do domínio.
Assim,
mantêm vigilância, austeridade e disposição para defesa.
Mas os
descendentes nascidos em abundância esquecem gradualmente essas dificuldades.
Então
passam a considerar naturais segurança e prosperidade.
E isso
enfraquece lentamente consciência das condições necessárias para preservação do
reino.
Assim,
quando surgem tempos difíceis, as gerações tardias mostram-se menos preparadas
para suportá-los.
Porque
perderam memória viva das causas que sustentaram a força da civilização.
E saiba
que a lembrança constante das dificuldades anteriores fortalece prudência e
disciplina entre os homens.
Enquanto
o esquecimento completo da fragilidade humana conduz frequentemente à
arrogância e à negligência.
Capítulo
Que os
Estados decadentes tornam-se mais inclinados a conflitos internos.
Pois
quando enfraquece a asabiyyah comum, aumentam rivalidades entre grupos,
famílias e facções.
Então
cada grupo procura ampliar seus próprios interesses e posições dentro do reino.
E a
unidade política dissolve-se gradualmente.
Assim,
governantes passam grande parte de sua energia tentando controlar disputas
internas em vez de fortalecer o Estado diante de ameaças externas.
E
frequentemente recorrem à distribuição de favores e riquezas para comprar
lealdades temporárias.
Mas isso
amplia ainda mais corrupção e competição por privilégios.
Então
enfraquece-se continuamente a coesão necessária à preservação do reino.
E saiba
que os conflitos internos consomem força política e moral da civilização.
Porque os
homens passam a enxergar adversários entre seus próprios compatriotas.
Então diminui
disposição para cooperação coletiva e defesa comum.
Capítulo
Que a
estabilidade excessivamente longa pode produzir ilusão de invulnerabilidade.
Pois as
gerações que vivem durante longos períodos de segurança e prosperidade
acostumam-se à continuidade dessas condições.
Então
imaginam que o reino tornou-se naturalmente permanente.
E deixam
de considerar seriamente possibilidade de decadência ou conquista.
Assim,
diminuem vigilância, prudência e preparação para crises.
Enquanto
povos mais simples e mais ameaçados permanecem continuamente atentos aos
perigos.
E saiba
que muitas civilizações foram surpreendidas não porque lhes faltassem riquezas
ou recursos, mas porque perderam capacidade de imaginar própria fragilidade.
Então
ignoraram sinais claros de enfraquecimento até que já fosse tarde demais.
Capítulo
Que a
renovação moral é condição necessária para prolongamento dos Estados.
Pois as
riquezas e instituições somente permanecem úteis quando sustentadas por homens
disciplinados e responsáveis.
Assim,
toda civilização necessita continuamente renovar:
a justiça,
a coragem,
a solidariedade,
e o senso de dever coletivo.
Porque
essas qualidades enfraquecem naturalmente com expansão do luxo e da comodidade.
Então os
Estados que abandonam completamente renovação moral aproximam-se
inevitavelmente da decadência.
E
frequentemente nenhuma reforma material consegue salvar reino cuja força
interior já desapareceu.
Capítulo
Que as
civilizações fortes preservam equilíbrio entre tradição e adaptação.
Pois os
povos necessitam de continuidade de costumes, leis e princípios para manter
unidade e estabilidade.
Mas
também necessitam adaptar-se às mudanças das condições históricas e políticas.
Assim, os
Estados sábios preservam fundamentos essenciais enquanto ajustam práticas
secundárias conforme necessidade.
Enquanto
as civilizações excessivamente rígidas tornam-se incapazes de responder
adequadamente às transformações do mundo.
E aquelas
que abandonam completamente tradições e fundamentos perdem coesão e identidade.
Portanto,
a permanência política exige equilíbrio entre conservação e renovação.
E saiba
que os povos que conseguem adaptar-se sem destruir própria unidade possuem
maior capacidade de prolongar sua força.
Capítulo
Que a
abundância material não garante superioridade moral.
Pois os
homens frequentemente confundem riqueza, refinamento e luxo com perfeição
verdadeira.
Então
imaginam que as civilizações mais abundantes são necessariamente superiores em
todos os aspectos.
Mas a
abundância pode coexistir com:
corrupção,
fraqueza,
covardia,
e decadência moral.
Enquanto
povos simples e pobres podem preservar:
coragem,
disciplina,
solidariedade,
e firmeza de caráter.
Assim, a
verdadeira força das sociedades não depende apenas daquilo que possuem
materialmente.
Ao
contrário, depende principalmente das qualidades interiores dos homens.
E
frequentemente civilizações poderosas exteriormente tornam-se frágeis porque
perderam virtudes fundamentais.
Então
acabam derrotadas por grupos menos refinados, porém mais fortes interiormente.
Capítulo
Que os
homens acostumados ao excesso de proteção tornam-se menos preparados para
liberdade e responsabilidade.
Pois
aqueles que vivem continuamente sob tutela e direção constantes deixam de
exercitar iniciativa própria.
Então
acostumam-se a depender de autoridades para solução de dificuldades e tomada de
decisões.
Assim,
enfraquece-se gradualmente capacidade de agir autonomamente.
E os homens
tornam-se mais passivos diante dos acontecimentos.
Enquanto
os povos habituados à responsabilidade preservam maior disposição para
iniciativa e defesa de seus interesses.
E saiba
que a liberdade exige homens capazes de suportar consequências de suas próprias
ações.
Mas os
excessivamente dependentes frequentemente preferem segurança à autonomia.
Assim,
tornam-se inclinados à submissão em troca de proteção e conforto.
Capítulo
Que os
Estados excessivamente dependentes de coerção demonstram enfraquecimento da
legitimidade.
Pois os
reinos fortes em seu início sustentam-se principalmente pela solidariedade,
pela aceitação coletiva e pela convicção de legitimidade.
Assim, os
homens obedecem não apenas por medo, mas também por reconhecimento da
autoridade.
Mas,
quando enfraquecem justiça e asabiyyah, o governante passa a depender cada vez
mais de vigilância, punições e aparato coercitivo.
Então
multiplicam-se guardas, controles e demonstrações de força.
E isso
indica que a obediência espontânea diminuiu.
Assim, o
aumento contínuo da coerção frequentemente revela decadência interior da
autoridade política.
Porque os
homens obedecem exteriormente enquanto interiormente afastam-se do reino.
E quando
surge oportunidade favorável, muitos abandonam rapidamente lealdade aparente.
Capítulo
Que os
homens acostumados à facilidade tornam-se mais impacientes diante das
dificuldades.
Pois
aqueles que cresceram em abundância e conforto esperam satisfação rápida de
seus desejos.
Então
possuem menor tolerância para demora, esforço prolongado e sofrimento.
Enquanto
os povos habituados à austeridade desenvolvem paciência e resistência maiores.
E saiba
que a paciência é uma das qualidades necessárias para preservação dos Estados
em tempos difíceis.
Porque
crises prolongadas exigem homens capazes de suportar perdas e privações sem
desagregação completa.
Mas as
civilizações excessivamente refinadas frequentemente mostram-se menos capazes
de perseverança diante de grandes adversidades.
Assim,
pequenas dificuldades produzem nelas inquietação e desordem desproporcionais.
Capítulo
Que o
excesso de luxo frequentemente transforma virtudes em objetos de desprezo.
Pois nas
civilizações austeras são valorizadas:
coragem,
disciplina,
moderação,
e resistência.
Mas,
quando o refinamento extremo se espalha, os homens passam a considerar essas
qualidades como sinais de rudeza ou atraso.
Então
exaltam:
comodidade,
sofisticação,
prazer,
e ostentação.
Assim,
modifica-se gradualmente a escala moral da sociedade.
E aquilo
que antes sustentava força coletiva passa a ser desprezado pelas elites
refinadas.
Então
enfraquecem fundamentos invisíveis da civilização.
Porque os
homens deixam de admirar qualidades necessárias à preservação do reino.
E saiba
que as civilizações não perdem força apenas pela pobreza ou pela derrota
militar.
Ao
contrário, frequentemente começam a enfraquecer quando deixam de valorizar as
virtudes que lhes deram origem.
Então
permanece riqueza exterior enquanto desaparece força interior.
Capítulo
Que os
homens frequentemente tornam-se incapazes de perceber a própria dependência.
Pois os
hábitos adquiridos gradualmente parecem naturais àqueles que vivem sob eles.
Assim, os
povos acostumados ao conforto, à centralização e à proteção constante deixam de
perceber quanto perderam em autonomia e capacidade de ação.
E passam
a considerar impossível viver de outro modo.
Então
defendem espontaneamente condições que contribuem para enfraquecimento de sua
própria vitalidade.
Porque as
almas habituam-se à dependência como se ela fosse estado natural da
civilização.
Enquanto
os povos mais simples preservam maior consciência da necessidade de coragem,
responsabilidade e esforço contínuo.
E saiba
que a dependência excessiva enfraquece lentamente as qualidades necessárias à
preservação da liberdade e do reino.
Capítulo
Que as
grandes civilizações frequentemente caem mais por decomposição interna do que
por força externa.
Pois os grupos
conquistadores raramente triunfam apenas pela superioridade material.
Ao
contrário, geralmente encontram reinos já enfraquecidos interiormente por:
corrupção,
luxo,
divisões,
e dissolução da asabiyyah.
Assim, a
força exterior apenas acelera colapso cujas causas profundas já estavam
presentes.
E
frequentemente pequenos grupos conseguem derrotar grandes impérios porque estes
perderam coragem e coesão.
Então os
exércitos tornam-se numerosos em aparência, mas frágeis em disposição.
E os
homens deixam de sentir vontade verdadeira de defender o Estado.
Assim, o
reino cai rapidamente apesar da grandeza exterior que ainda aparentava possuir.
Capítulo
Que os
Estados necessitam continuamente preservar vínculo entre governantes e povo.
Pois os
fundadores dos reinos costumam compartilhar dificuldades e perigos com seus
companheiros e súditos.
Assim,
existe sentimento comum de participação no destino do Estado.
Mas,
quando o luxo e as formalidades aumentam, os governantes afastam-se
progressivamente da vida do povo.
Então
multiplicam-se barreiras físicas, sociais e psicológicas entre autoridade e
sociedade.
E os
homens passam a sentir que o reino pertence apenas às elites e não mais ao
conjunto da civilização.
Assim,
enfraquece-se lealdade espontânea ao Estado.
E isso
reduz disposição para sacrifício coletivo em momentos de crise.
Capítulo
Que os
homens defendem mais intensamente aquilo que sentem pertencer-lhes.
Pois a
disposição para sacrifício nasce do vínculo interior entre o homem e aquilo que
ele considera parte de si mesmo.
Assim, os
povos que sentem pertencimento verdadeiro ao reino mostram-se mais preparados
para protegê-lo.
Enquanto
os homens que percebem o Estado como entidade distante e separada defendem-no
apenas por obrigação ou interesse momentâneo.
Então a
força política torna-se superficial e instável.
E saiba
que a solidariedade coletiva fortalece-se quando existe participação comum nas
dificuldades, nos benefícios e nas responsabilidades da civilização.
Mas,
quando crescem desigualdades excessivas e afastamento entre governantes e povo,
enfraquece-se sentimento de unidade.
Assim, os
homens passam a preocupar-se apenas com interesses particulares.
E diminui
disposição para defesa do bem comum.
Capítulo
Que a
decadência das civilizações ocorre gradualmente antes de tornar-se visível.
Pois os
sinais iniciais da ruína frequentemente aparecem nas almas e nos costumes antes
de aparecerem nas instituições e construções.
Assim, os
homens continuam vendo prosperidade exterior e acreditam que o reino permanece
forte.
Enquanto
interiormente:
enfraquece coragem,
cresce dependência,
espalha-se corrupção,
e dissolve-se solidariedade.
Então a
decadência avança silenciosamente durante longo período.
E somente
quando ocorre grande crise os homens percebem dimensão real do enfraquecimento.
Porque as
estruturas exteriores conseguem permanecer de pé mesmo após perda da vitalidade
interior.
Assim,
muitos impérios aparentaram grandeza até pouco antes de seu colapso.
E aqueles
que observavam apenas riquezas e exércitos não compreenderam causas profundas
da ruína.
Capítulo
Que a
preservação das civilizações exige constante renovação das virtudes coletivas.
Pois
coragem, disciplina, justiça e solidariedade enfraquecem naturalmente com
expansão prolongada do conforto e do luxo.
Assim,
toda sociedade necessita continuamente educar novas gerações para
responsabilidade e resistência.
Porque os
homens não conservam espontaneamente qualidades difíceis sem esforço contínuo.
E quando
as civilizações abandonam formação moral e disciplina coletiva, aproximam-se
gradualmente da decadência.
Então
mesmo abundância material e poder militar tornam-se insuficientes para
preservação do reino.
Pois a
essência da força política encontra-se nas almas dos homens antes de
encontrar-se nas instituições exteriores.
E saiba
que os Estados que conseguem prolongar duração são aqueles que preservam
equilíbrio entre:
força e justiça,
prosperidade e disciplina,
autoridade e participação coletiva.
Porque o
excesso em qualquer direção conduz enfraquecimento gradual da civilização.
Capítulo
Que os
homens frequentemente acreditam que decadência significa apenas pobreza
material.
Mas a
verdadeira decadência começa antes:
quando enfraquecem virtudes,
quando dissolve-se solidariedade,
quando desaparece disposição para sacrifício,
e quando os homens tornam-se excessivamente dependentes do conforto.
Assim,
uma civilização pode possuir abundância de riquezas e ainda assim aproximar-se
da ruína.
Porque
riqueza exterior não substitui força interior.
E saiba
que muitos povos permaneceram poderosos materialmente mesmo após terem perdido
coragem e vitalidade.
Então
bastou choque relativamente pequeno para revelar fragilidade escondida.
Capítulo
Que as
civilizações mais fortes são aquelas capazes de unir refinamento e vigor.
Pois a
perfeição da civilização não consiste apenas em luxo ou abundância.
Ao
contrário, consiste em preservar:
ciências,
artes,
justiça,
prosperidade,
e refinamento,
sem destruir coragem, disciplina e solidariedade.
Assim, os
Estados mais equilibrados conseguem prolongar força política por período maior.
Enquanto
aqueles que se entregam completamente ao luxo acabam corroendo fundamentos de
sua própria permanência.
E saiba
que a dificuldade maior não está em conquistar o reino, mas em preservá-lo sem
perder as qualidades que tornaram possível sua conquista.
Porque o
sucesso produz continuamente tentações de conforto, arrogância e excesso.
Então
toda civilização carrega dentro de si causas potenciais de sua própria
decadência.
Capítulo
Conclusão
sobre a natureza da civilização humana.
Saiba que
a sociedade humana é necessária à existência da espécie.
E que os
homens dependem inevitavelmente de cooperação para preservação da vida.
Assim
surgem:
os povos,
os Estados,
as cidades,
as artes,
e as ciências.
Mas as
condições da civilização transformam continuamente os caracteres humanos.
Então
alternam-se:
austeridade e luxo,
força e fraqueza,
ascensão e decadência.
E nenhum
Estado permanece eternamente em uma única condição.
Porque
Deus alterna os dias entre os homens e faz sucederem-se as gerações e os
reinos.
Assim, os
povos fortes tornam-se fracos quando mergulham excessivamente no luxo.
E os
povos fracos tornam-se fortes quando preservam coragem, solidariedade e
disposição para suportar dificuldades.
Então
alternam-se os Estados e sucedem-se as civilizações.
E esta é
uma das leis mais constantes da sociedade humana.
Capítulo
Que os
homens mais sábios são aqueles que observam as causas ocultas dos
acontecimentos e não apenas suas aparências exteriores.
Pois a
maioria dos homens observa:
riquezas,
exércitos,
palácios,
e símbolos de autoridade,
e imagina que nisso consiste a força verdadeira dos reinos.
Mas o
investigador das condições da civilização compreende que essas coisas são
apenas manifestações exteriores.
Enquanto
as causas profundas encontram-se:
na asabiyyah,
na justiça,
na coragem,
na disciplina,
e nas condições morais das sociedades.
Assim, um
reino pode aparentar grandeza enquanto já se encontra interiormente
enfraquecido.
E outro
pode parecer pequeno e simples enquanto preserva força suficiente para ascender
ao domínio.
Por isso,
aquele que deseja compreender história e política deve investigar as naturezas
ocultas das sociedades e não limitar-se às aparências dos acontecimentos.
Capítulo
Que a
continuidade da autoridade depende da preservação da legitimidade interior.
Pois os
homens obedecem mais firmemente àquilo que consideram legítimo e justo.
Assim,
quando o governante preserva:
justiça,
moderação,
e proteção do povo,
fortalece-se disposição espontânea para obediência e cooperação.
Mas,
quando espalham-se injustiça, corrupção e exploração, enfraquece-se
legitimidade do reino.
Então os
homens obedecem apenas por medo ou necessidade.
E isso
torna a autoridade frágil diante de crises.
Porque o
medo sozinho não sustenta continuamente os Estados.
Enquanto
a aceitação interior produz estabilidade mais duradoura.
Capítulo
Que as
civilizações excessivamente refinadas frequentemente tornam-se incapazes de
retorno voluntário à austeridade.
Pois os
homens habituados durante longo tempo ao conforto e à abundância passam a
considerar intoleráveis condições simples da vida.
Então
resistem a qualquer tentativa de redução de luxos, privilégios e prazeres.
Mesmo
quando a preservação do Estado exige disciplina e contenção.
Assim,
torna-se difícil restaurar qualidades austeras após longa expansão do
refinamento.
E
frequentemente as civilizações permanecem avançando em direção ao excesso até
que crises externas imponham mudanças violentas.
Então os
homens preferem frequentemente preservar prazeres imediatos mesmo ao custo do
enfraquecimento gradual da civilização.
E isso
acelera aproximação da decadência.
Capítulo
Que os
Estados necessitam continuamente equilibrar expansão e capacidade de
sustentação.
Pois o
crescimento excessivo do reino amplia:
despesas,
necessidades administrativas,
dependência militar,
e complexidade política.
Então
torna-se mais difícil preservar unidade e estabilidade.
E muitos
governantes buscam expansão contínua acreditando que aumento territorial
significa necessariamente fortalecimento permanente.
Mas
frequentemente a ampliação exagerada ultrapassa capacidade real de
administração e sustentação do Estado.
Assim,
aquilo que inicialmente representa força transforma-se gradualmente em peso.
E saiba
que os reinos mais estáveis são aqueles que mantêm proporção equilibrada entre:
recursos,
território,
população,
e capacidade administrativa.
Porque a
desmedida produz fragilidade oculta.
Capítulo
Que os
homens raramente reconhecem plenamente as causas profundas de sua própria
prosperidade.
Pois as
gerações nascidas durante períodos de abundância costumam atribuir prosperidade
apenas:
à riqueza acumulada,
à tecnologia,
ou às instituições visíveis.
Então
esquecem virtudes e condições morais que permitiram surgimento e preservação da
civilização.
Assim,
deixam de valorizar:
disciplina,
solidariedade,
coragem,
e disposição para sacrifício coletivo.
Mas essas
qualidades frequentemente constituem fundamento invisível da prosperidade
material.
E quando
desaparecem, começa lentamente enfraquecimento do reino.
Mesmo que
ainda permaneçam abundância e conforto exteriores.
Capítulo
Que os
povos fortes são aqueles capazes de suportar dificuldades sem dissolução
interior.
Pois
crises, guerras e escassez atingem inevitavelmente todas as civilizações.
Mas os
povos diferem profundamente na maneira como respondem a essas dificuldades.
Assim,
aqueles que preservam:
coesão,
disciplina,
e coragem,
conseguem suportar sofrimentos temporários sem destruição completa da
sociedade.
Enquanto
os povos excessivamente dependentes do conforto entram rapidamente em desordem
diante de perdas moderadas.
Porque
perderam capacidade de resistência psicológica e moral.
E saiba
que a verdadeira força das civilizações revela-se mais claramente nos tempos de
dificuldade do que nos períodos de abundância.
Capítulo
Que os
homens frequentemente tornam-se mais frágeis interiormente à medida que
aumentam refinamento exterior.
Pois as
civilizações avançadas produzem grande perfeição em:
artes,
construções,
ciências,
e formas de conforto.
Mas, ao
mesmo tempo, podem reduzir gradualmente capacidade de resistência das almas.
Então os
homens tornam-se mais sensíveis:
à dor,
à perda,
à incerteza,
e às dificuldades inevitáveis da existência.
Enquanto
os povos acostumados à austeridade preservam maior firmeza diante das mudanças
do destino.
E saiba
que a abundância material não fortalece necessariamente coragem e caráter.
Ao
contrário, quando não acompanhada de disciplina e moderação, pode produzir
dependência e fragilidade.
Assim,
civilizações altamente refinadas frequentemente aparentam grandeza exterior
enquanto interiormente tornam-se vulneráveis.
Capítulo
Que a
preservação da civilização exige renovação contínua da educação moral.
Pois as
virtudes necessárias à continuidade do reino não permanecem espontaneamente nas
gerações.
Assim,
toda sociedade necessita educar continuamente:
coragem,
justiça,
disciplina,
responsabilidade,
e disposição para cooperação coletiva.
Porque os
homens inclinam-se naturalmente ao conforto e à busca de prazeres imediatos.
Então,
sem formação moral constante, enfraquecem-se qualidades necessárias à
preservação da ordem e da força política.
E saiba
que a decadência frequentemente começa quando as sociedades passam a valorizar
apenas riqueza e prazer, negligenciando formação do caráter.
Assim, os
homens tornam-se incapazes de sustentar civilização que herdaram.
Capítulo
Que os
Estados sobrevivem enquanto preservam equilíbrio entre autoridade e vitalidade
social.
Pois o
excesso de autoridade destrói iniciativa e coragem dos homens.
Enquanto
a ausência de autoridade dissolve ordem e unidade política.
Assim, os
reinos mais duradouros são aqueles que conseguem preservar:
força suficiente para proteger justiça,
e liberdade suficiente para manter vitalidade da sociedade.
Então os
homens cooperam espontaneamente sem perder completamente capacidade de agir por
si mesmos.
E isso
fortalece simultaneamente estabilidade política e energia coletiva.
Mas,
quando desaparece esse equilíbrio, aproxima-se enfraquecimento gradual do
reino.
Porque
tanto a tirania quanto a desordem corroem fundamentos da civilização.
Capítulo
Que a
verdadeira força política depende da união entre ordem exterior e força
interior.
Pois os
Estados não se sustentam apenas:
por exércitos,
leis,
ou riquezas.
Ao
contrário, dependem principalmente da condição das almas dos homens.
Assim,
quando existe:
justiça,
solidariedade,
disciplina,
e disposição para defesa comum,
fortalece-se naturalmente o reino.
Então os
homens cooperam espontaneamente para preservação da civilização.
Mas,
quando espalham-se:
corrupção,
luxo excessivo,
dependência,
e egoísmo,
enfraquece-se gradualmente a base interior do poder político.
Assim,
mesmo grandes impérios tornam-se vulneráveis.
Porque as
estruturas exteriores não conseguem sustentar-se indefinidamente sem vitalidade
moral e coletiva.
E saiba
que as causas profundas da ascensão e da decadência dos Estados encontram-se
principalmente nas transformações dos caracteres humanos.
Pois os
homens constroem civilizações conforme suas qualidades interiores.
E também
as destroem quando essas qualidades desaparecem.
Capítulo
final
Conclusão
da introdução acerca da natureza dos Estados e das civilizações.
Saiba que
a civilização humana alterna continuamente entre:
força e fraqueza,
austeridade e luxo,
ascensão e decadência.
Pois os
povos austeros conquistam reinos mediante coragem e solidariedade.
Então
estabelecem abundância e refinamento.
Mas o
refinamento excessivo dissolve gradualmente as qualidades que produziram a
força inicial.
Assim,
surge novo povo mais simples e mais forte que substitui o reino decadente.
E esta
alternância repete-se continuamente na história das nações.
Porque
Deus fez dos dias sucessão entre os homens, e dos Estados ciclos de ascensão e
desaparecimento.
Portanto,
aquele que deseja compreender verdadeiramente a história deve investigar:
as naturezas da civilização,
as condições das sociedades,
e as causas ocultas dos acontecimentos,
e não limitar-se apenas à aparência das notícias transmitidas.
Pois a
essência da história encontra-se na compreensão das causas e não apenas na
narração dos fatos.
E Deus é
o mais sábio acerca da verdade das coisas e do destino das nações.
Louvor a
Deus, Senhor dos mundos.
E que Deus
abençoe nosso senhor Muḥammad, sua família e seus companheiros, e lhes conceda
paz abundantemente.
E Deus é
mais sábio.