O Homem que Chamava a Morte pelo Nome
Prólogo
Carcará e as Três Cabeças do Diabo
No fim das contas, é sempre o ponto de vista que decide o tamanho das coisas.
Uma montanha, vista do alto, parece uma dobra discreta da terra; vista da base, torna-se o próprio horizonte. Assim também acontece com os homens. Alguns nascem pequenos e morrem maiores do que a memória de um povo. Outros atravessam o mundo fazendo barulho suficiente para parecerem gigantes, mas basta o silêncio de uma geração para que desapareçam como poeira depois da chuva.
Houve, porém, um rapaz que jamais soube o que era ser uma coisa ou outra. Chamava-se Zé Antônio. Poucos ainda lembravam desse nome. Os que o pronunciavam faziam-no apenas quando queriam recordar o menino que corria pelas ruas de Porto Seco antes de aprender que a infância termina muito antes da juventude começar. Para todo o restante da costa, ele era simplesmente Carcará.
Diziam que possuía apenas vinte e dois anos. Outros afirmavam vinte e cinco. Alguns juravam que já nascera velho. Em Lugar Nenhum nunca houve grande preocupação com datas. O tempo, por aquelas bandas, preferia esconder-se dentro das pessoas do que nos calendários. Era comum encontrar velhos que ainda carregavam a imprudência dos dezoito anos e crianças cujo olhar já parecia ter assistido ao último dia do mundo.
Carcará pertencia a essa segunda espécie.
Não cultivava amizades numerosas, tampouco inimigos duradouros. Descobrira cedo que amizade demais produz dependência, e ódio demais produz distração. Preferia caminhar sozinho, atravessando estradas poeirentas que ligavam Porto Seco às pequenas cidades espalhadas pela Região de Lugar Nenhum. Conhecia quase todas. Ponte Curta. Brasa. Beira do Sal. Vento Manso. Vida-Curta. Algumas existiam nos mapas; outras insistiam em existir apenas na conversa dos caixeiros-viajantes, que sempre sabiam mais do que contavam.
Sua única companhia constante era uma Magnum .44 de cano longo.
Seria injusto chamá-la apenas de revólver.
O armeiro que a modificara desaparecera anos antes, levando consigo o segredo das alterações. O cano fora alargado além do razoável. O tambor recebera reforços de aço. As munições eram moldadas artesanalmente por um velho ferreiro que se recusava a fabricá-las durante o dia, alegando que certos metais só aceitavam o fogo depois que o Sol desistia de olhar para eles.
Cada projétil parecia carregar peso suficiente para convencer a matéria a esquecer sua própria resistência.
Carcará nunca explicou por que chamava aquela arma de Madalena.
Alguns sustentavam que era homenagem à mãe. Outros diziam tratar-se da mulher que lhe ensinara a ler antes de morrer. Havia ainda quem afirmasse que Madalena jamais existira e que o nome servia apenas para impedir que a morte fosse tratada como ferramenta. Dar nome às coisas, afinal, era uma maneira antiga de impedir que elas se tornassem simples objetos.
Em Lugar Nenhum existia esse costume.
Ninguém confiava inteiramente nas coisas que não possuíam nome.
Ao sul de Porto Seco erguiam-se dois portões de pedra escurecidos pelo vento do mar. Não eram grandes, tampouco majestosos. Quem os visse pela primeira vez dificilmente imaginaria que dali começava o território mais evitado de toda a região. Depois deles vinha apenas uma estrada estreita que desaparecia entre serras secas e árvores retorcidas.
Chamavam aquele lugar de Sul.
Mas ninguém utilizava esse nome.
Todos preferiam dizer apenas:
— É o caminho para Lugar Nenhum.
Não porque a capital estivesse ali. A capital ficava muito além. Aquele era o começo antigo, a parte da estrada sobre a qual ninguém gostava de fazer perguntas.
Havia um provérbio repetido havia tanto tempo que já não se sabia quem o inventara:
"Quem atravessa os portões não volta sendo o mesmo. Os que voltam diferentes ainda podem agradecer; muitos voltam sem perceber que ficaram do outro lado."
Carcará escutara aquilo desde menino.
Nunca dera importância.
Naquela manhã, porém, os portões decidiram contrariar o costume.
Não foi alguém da Região que entrou por eles.
Foram três homens que saíram.
Cada qual conduzia uma criatura monstruosa presa por correntes tão grossas que pareciam destinadas a conter terremotos. Os animais lembravam grandes felinos apenas pela distância. De perto, nenhuma comparação fazia sentido. Eram musculosos como touros, ágeis como onças e silenciosos como aves de rapina quando deixam de bater as asas para cair sobre a presa.
Os três homens caminhavam sem pressa.
Não olhavam para as casas.
Não olhavam para as pessoas.
Pareciam conhecer exatamente o lugar onde pretendiam chegar.
Quando alcançaram a praça central de Porto Seco, pararam.
O primeiro deu um passo à frente.
Sua voz não era alta.
Era apenas pesada.
— Quem é o rei?
A pergunta atravessou a praça como atravessam certas ideias: sem fazer ruído, mas deslocando tudo o que encontram.
Ninguém respondeu.
O segundo homem sorriu.
Um sorriso estreito, incapaz de esconder o desprezo.
— Vou soltar as três cabeças do diabo.
O terceiro não disse palavra alguma.
Ergueu lentamente a mão.
As correntes caíram.
O mundo, por um instante, pareceu esquecer a diferença entre ordem e desespero.
Prólogo (continuação)
As correntes tocaram o chão com um som seco, pesado, como se não fossem feitas de ferro, mas de anos.
As três feras permaneceram imóveis durante um breve instante. Não havia pressa em seus movimentos. A violência, quando conhece a própria força, raramente precisa correr. Elas apenas respiravam. Cada inspiração parecia puxar consigo o ar da praça inteira. Depois, quase ao mesmo tempo, ergueram a cabeça.
Foi suficiente.
A primeira avançou pela rua do mercado.
A segunda tomou o caminho do curral.
A terceira permaneceu parada por alguns segundos, observando as pessoas fugirem. Havia, em seus olhos, algo pior do que fome. Havia escolha.
Em Porto Seco, até aquele dia, acreditava-se que o medo sempre chegava correndo. Descobriram que não. Às vezes ele anda devagar, porque sabe que ninguém escapará dele.
A fera do mercado derrubou duas carroças apenas roçando nelas. Sacos de farinha estouraram, espalhando uma nuvem branca que transformou homens em fantasmas. Um comerciante tentou esconder-se atrás do balcão; a criatura arrancou balcão e comerciante como quem afasta uma cortina.
No curral, outra delas atravessou a cerca sem sequer percebê-la. O gado dispersou-se num estampido de cascos, mas uma vaca de porte médio demorou um segundo a mais para compreender o perigo. Bastou um segundo. Quando os animais voltaram a correr, já não havia mais vaca; apenas um silêncio que fez os bois recusarem o pasto durante muitos dias.
A terceira continuava escolhendo.
Seu olhar encontrou um menino.
Chamava-se Gemírico.
Era filho do dono da venda da praça, desses garotos que ainda acreditam que toda injustiça pode ser resolvida com coragem. Apanhou uma pedra do chão e lançou-a contra o focinho da criatura.
A pedra acertou.
Não machucou.
Mas interrompeu o silêncio.
A fera voltou lentamente a cabeça.
Gemírico percebeu, tarde demais, que existem gestos cuja consequência chega antes do arrependimento.
Correu.
Correu como correm aqueles que ainda não aprenderam que as pernas possuem limites.
A criatura partiu atrás dele.
Os adultos gritavam, mas ninguém ousava atravessar o caminho entre os dois. Alguns procuravam armas; outros procuravam explicações. Nenhum dos dois costuma aparecer quando o mundo resolve enlouquecer.
Gemírico atravessou a praça quase tropeçando nas próprias pernas.
Foi então que avistou Carcará.
Duas horas antes, ele regressara de Ponte Curta.
Fora visitar Morte Lenta, uma velha amiga cuja fama de compreender os vivos era maior do que a de muitos padres. Morena também estava por lá. Entre uma conversa e outra, surgira Caranguejeira, irmão dela, sujeito capaz de transformar qualquer desacordo numa guerra de família. Carcará preferira ir embora antes que uma discussão precisasse ser enterrada.
Agora caminhava distraído, o chapéu protegendo os olhos do sol e Madalena repousando na cintura como se dormisse.
Gemírico lançou-se contra ele.
— Seu Carcará... ajuda!
O rapaz apenas ergueu os olhos.
A distância entre a fera e o menino diminuía rapidamente.
Não havia tempo para calcular.
Não havia tempo para pensar.
Apenas para reconhecer.
Carcará apoiou a mão sobre Madalena com a naturalidade de quem cumprimenta uma velha conhecida.
Sacou.
O estampido não pareceu um tiro.
Pareceu uma porta antiga sendo aberta por alguém do outro lado do mundo.
Durante muitos anos, jurou-se em Porto Seco que, naquele exato instante, centenas de borboletas atravessaram a praça antes mesmo que o projétil chegasse ao alvo. Outros diziam que eram pedaços da fumaça tomando forma. Os mais velhos limitavam-se a responder que certas coisas não devem ser medidas pelos olhos.
A bala encontrou a criatura ainda em pleno salto.
Não a empurrou.
Não a derrubou.
Atravessou-a.
O corpo dividiu-se em duas partes tão limpas que, por um instante, ambas continuaram seguindo adiante como se ainda estivessem vivas. Uma metade caiu poucos metros à frente de Gemírico. A outra desapareceu além dos telhados de Porto Seco. Nunca foi encontrada.
Fez-se um silêncio estranho.
Até os animais interromperam o movimento.
As outras duas feras pararam.
Os três homens permaneceram imóveis.
O primeiro olhou para o cadáver.
Depois para Madalena.
Por fim, para Carcará.
Não havia surpresa em seu rosto.
Havia reconhecimento.
Como quem finalmente encontra alguém que procurava havia muito tempo.
O segundo homem quebrou o silêncio.
— Quantas balas ainda restam?
Carcará fechou lentamente o tambor do revólver.
A resposta veio calma, quase educada.
— O suficiente para fazer as estrelas escorregarem.
Os três homens trocaram um olhar breve.
Não disseram mais nada.
Assobiaram.
As duas feras restantes obedeceram imediatamente, retornando para junto deles.
Sem olhar para trás, os três recolheram as correntes e caminharam de volta na direção dos portões do sul.
Ninguém tentou impedi-los.
Ninguém os seguiu.
A única pessoa que permaneceu observando até que desaparecessem foi um velho caixeiro-viajante, parado à sombra de um umbuzeiro.
Quando os portões voltaram a fechar-se, ele sorriu discretamente.
Não porque compreendesse o que acabara de acontecer.
Mas porque reconhecera a pergunta.
Aquela não era uma pergunta feita a Porto Seco.
Era uma pergunta feita ao mundo.
"Quem é o rei?"
Naquele dia, quase todos acreditaram que os três homens haviam partido sem obter resposta.
Estavam enganados.
A resposta começara a ser dada muito antes do primeiro disparo, numa cidade distante chamada Tomotôco, por um rapaz em quem ninguém confiava, justamente porque seu nome era Honesto.
Livro I — Os Nomes que Mentem
Capítulo 1 — Honesto
Alguns nomes chegam antes dos homens.
Não pedem licença. Entram na conversa, ocupam a memória e, quando o verdadeiro dono finalmente aparece, já encontram um lugar preparado para ele. Poucas injustiças são tão discretas quanto essa. O sujeito passa a vida tentando alcançar aquilo que seu nome prometeu por ele.
Assim aconteceu com Honesto.
Seu pai dizia que escolhera aquele nome para espantar a desgraça. A mãe sustentava outra versão: afirmava que o menino nascera olhando fixamente para o teto da casa, como se procurasse alguma coisa invisível, e que isso só podia ser sinal de uma alma direita. O vigário preferia acreditar que ambos estavam enganados, porque nomes nunca mudaram destino algum; apenas complicaram a vida dos cartórios.
O próprio Honesto jamais perguntou por que se chamava assim.
Talvez intuísse que certas respostas não resolvem pergunta nenhuma.
Tomotôco era um lugar pequeno demais para guardar segredos e grande demais para esquecer escândalos. As casas espalhavam-se ao redor de uma igreja branca, cuja torre parecia mais alta do que realmente era porque todo o restante da cidade insistia em permanecer baixo. Havia uma venda, um curral, uma escola de duas salas, um cemitério cercado por aroeiras antigas e uma praça onde os bancos serviam mais para ouvir histórias do que para descansar.
Tudo ali obedecia a uma ordem curiosa.
As pessoas acordavam cedo, trabalhavam até o calor vencer a disposição, almoçavam lentamente, cochilavam sem culpa e encerravam o dia comentando a vida umas das outras. Não havia grandes acontecimentos. Quando um cachorro desaparecia, a notícia sobrevivia três semanas. Quando uma galinha botava dois ovos no mesmo dia, o assunto atravessava gerações.
Foi por isso que Honesto se tornou tão famoso.
Não havia semana em que não inventasse alguma desordem capaz de alimentar as conversas da cidade inteira.
Aos doze anos conseguiu convencer o vigário de que um dos santos da igreja piscava apenas para pessoas de boa consciência. Durante dois dias o pobre sacerdote permaneceu diante da imagem esperando o milagre. Honesto jamais contou que havia escondido, atrás do altar, o filho do sineiro, encarregado de balançar discretamente a cabeça da escultura por meio de um barbante.
Noutra ocasião vendeu ao escrivão um mapa indicando o lugar exato onde começava Lugar Nenhum. O homem caminhou dois dias inteiros até descobrir que o desenho terminava justamente no quintal da própria casa.
O senhor Jubiscreudo sofreu ainda mais.
Comprou de Honesto uma galinha anunciada como excepcionalmente inteligente. Segundo o rapaz, bastava assobiar três vezes para que ela voltasse sozinha ao galinheiro. O detalhe omitido era que a ave já morava no galinheiro de Jubiscreudo havia anos.
Quando percebeu o engano, já havia pago duas vezes pelo mesmo animal.
Os moradores começaram a desconfiar de que o problema não era apenas o menino.
Era o mundo que parecia conspirar para ajudá-lo.
Reuniram-se certa noite.
O encontro aconteceu na casa de Dona Pegapelo, mulher cuja especialidade era transformar qualquer conversa em decisão coletiva.
Sentaram-se em silêncio.
Cada um levou uma reclamação.
Quando terminaram, ninguém sabia exatamente quem falara mais: os presentes ou as próprias queixas.
Foi Jubiscreudo quem apresentou a solução.
— Vendamos o menino ao circo.
Ninguém riu.
A proposta pareceu razoável.
Dona Pegapelo apenas completou:
— Nada mais justo. Quem sabe essa aberração não dê algum lucro e nos devolva a paz.
Resolveram agir naquela mesma madrugada.
Esperaram a lua subir, atravessaram a rua principal e cercaram a pequena casa dos pais de Honesto.
Entraram devagar.
A cama estava vazia.
Revistaram o quarto.
Nada.
A cozinha.
Nada.
O quintal.
Nada.
Somente ao amanhecer descobriram que o rapaz escolhera dormir entre os porcos, alegando, no dia seguinte, que "os homens estavam conversando demais para quem queria descansar".
Ninguém voltou a tocar no assunto.
Não porque desistissem.
Mas porque, dali em diante, começaram a desconfiar de que Honesto sempre chegava antes das próprias armadilhas.
Foi também nessa época que surgiu a única pessoa disposta a enxergar outra coisa naquele rapaz.
Chamava-se Pedaço de Lenha.
Filha de Zé do Carvão, crescera ajudando o pai na venda da cidade. Não era bonita segundo os padrões das moças de Tomotôco, mas havia em seu olhar uma firmeza incomum, dessas que parecem enxergar o homem escondido atrás do comportamento.
Sempre que alguém amaldiçoava Honesto, ela respondia da mesma maneira:
— Há honestidade no Honesto. Só está atrasada.
Os outros riam.
Ela nunca.
Porque certas esperanças, quando são verdadeiras, dispensam testemunhas.
Naquele tempo, ninguém imaginava que duas cidades adiante, além das colinas secas e dos portões de Porto Seco, um rapaz chamado Carcará acabara de responder a uma pergunta que ainda levaria muitos anos para alcançar Tomotôco.
Nem que os três homens que atravessaram os portões do sul haviam partido satisfeitos.
Eles não procuravam um rei.
Procuravam dois homens.
E um deles ainda nem sabia disso.
Capítulo 2 — Tomotôco
Tomotôco não aparecia nos mapas por mérito próprio.
Aparecia por insistência.
Os cartógrafos de Lugar Nenhum tentaram apagá-la mais de uma vez. Não porque a cidade fosse pequena — havia povoados muito menores —, mas porque ninguém conseguia explicar exatamente por que ela existia. Não produzia riqueza suficiente para justificar sua permanência; tampouco era pobre o bastante para exigir socorro. Permanecia ali, entre uma estrada e outra, como certas palavras que ninguém usa, mas que também ninguém tem coragem de esquecer.
Dizia-se que Tomotôco era uma cidade onde tudo era simples, rápido e fácil.
Os próprios moradores repetiam isso com orgulho.
Entretanto, quem permanecesse ali por tempo suficiente acabava percebendo que as coisas não eram simples; eram apenas familiares. A rapidez vinha do hábito. E a facilidade era o nome que davam à resignação.
Havia uma diferença enorme entre essas coisas.
Mas ninguém possuía tempo para percebê-la.
Logo ao amanhecer, o sino da igreja tocava três vezes. Não chamava apenas para a missa; organizava a cidade inteira. Os padeiros começavam a trabalhar, os agricultores atravessavam os portões dos quintais, as crianças corriam atrás das primeiras sombras e as mulheres varriam as calçadas como se afastassem da rua qualquer pensamento inconveniente que tivesse passado durante a noite.
O padre Salva-Salva costumava dizer que uma cidade se mantém de pé por três motivos: porque as casas resistem à chuva, porque os homens resistem à fome e porque as histórias resistem ao tempo.
Quanto às casas e à fome, Tomotôco ia razoavelmente bem.
Quanto às histórias, era um lugar perigosamente rico.
Não existia acontecimento pequeno.
Quando Dona Língua-Grande descobriu que o cachorro de Gole de Pinga aprendera a abrir sozinho a porteira do quintal, transformou o fato numa teoria sobre inteligência animal, decadência moral e influência da lua cheia. Três dias depois, metade da cidade evitava sair de casa à noite, receosa de encontrar cães filosofando pelas ruas.
Ninguém desmentiu.
Seria falta de educação contrariar uma história tão bem contada.
Na venda de Zé do Carvão, o mundo chegava em pequenos pedaços de papel.
Eram os folhetins vindos da capital.
Quase sempre atrasados.
Às vezes, tão atrasados que relatavam acontecimentos já esquecidos até pelos envolvidos. Ainda assim, eram aguardados com ansiedade. Em Tomotôco, notícia velha possuía a vantagem de permitir comentários mais seguros.
Foi numa dessas manhãs que Dona Língua-Grande abriu um dos impressos e leu em voz alta:
— "O Governador Grande Pedaço visitará as cidades da Região nas próximas semanas."
A venda silenciou.
Um homem retirou lentamente o chapéu.
Outro endireitou a coluna.
Zé do Carvão coçou a barba.
O governador raramente saía da capital. Quando saía, era porque pretendia mostrar que ela existia também fora de seus próprios muros.
Jubiscreudo foi o primeiro a calcular vantagens.
— Se vier, talvez mande consertar a ponte.
O prefeito Gole de Pinga enxergou mais longe.
— Talvez mande dinheiro.
Padre Salva-Salva, mais prudente, comentou apenas:
— Talvez venha.
Essa resposta desagradou a todos.
Esperança demais exige certeza, e certezas costumam faltar justamente quando mais se precisa delas.
Nos dias seguintes, Tomotôco começou a modificar a própria aparência.
Pintaram cercas.
Capinaram terrenos.
Consertaram bancos da praça.
A igreja ganhou uma faixa enorme, escrita por Jubiscreudo com letras tão caprichadas que metade da tinta terminou em suas botas.
BEM-VINDO, GOVERNADOR GRANDE PEDAÇO.
A frase ocupava quase toda a fachada.
Padre Salva-Salva observou-a por alguns minutos antes de comentar:
— Nunca vi uma recepção tão grande para um homem tão baixo.
Ninguém soube se aquilo era elogio ou crítica.
Enquanto isso, Honesto continuava trabalhando na venda.
Ou, pelo menos, tentava.
— Honesto... — dizia Zé do Carvão certa manhã — dona Róla Falso afirmou que você cobrou trinta moedas por um saco de batatas.
— Ela pagou?
— Pagou.
— Então o problema não é meu.
Zé respirava fundo.
Horas depois surgia outra reclamação.
— Disseram que você anda rondando o milharal de Chico Penico.
— Eu rondo muita coisa.
— Para quê?
— Para descobrir quem anda dizendo que eu rondo.
A resposta parecia satisfazê-lo apenas o suficiente para impedir uma bronca maior.
Pedaço de Lenha assistia a tudo em silêncio.
Percebia algo que os demais ignoravam.
Honesto nunca mentia quando perguntado diretamente.
O problema era que quase ninguém fazia a pergunta certa.
A cidade inteira julgava conhecer aquele rapaz.
Ela começava a suspeitar do contrário.
Foi numa tarde abafada que um caixeiro-viajante entrou em Tomotôco.
Seu roda-roda rangia tanto que parecia anunciar a própria chegada antes mesmo de surgir na curva da estrada. Trazia caixas empilhadas, livros, panelas, tecidos, brinquedos, ferramentas e uma quantidade desproporcional de histórias.
Os moradores compravam poucos objetos.
Compravam principalmente conversa.
Sentou-se à sombra da praça, bebeu água lentamente e respondeu às perguntas habituais.
Como estava a capital?
As estradas?
A colheita?
Os impostos?
Respondeu uma por uma.
Depois ficou em silêncio.
Foi Honesto quem percebeu.
— Ainda tem notícia guardada.
O caixeiro sorriu.
— Tenho.
— Então conte.
O homem olhou ao redor para certificar-se de que todos escutavam.
Baixou um pouco a voz.
— Ouvi dizer que os portões do sul foram abertos.
Ninguém respondeu.
Até o vento pareceu diminuir.
— Três homens atravessaram a fronteira.
Padre Salva-Salva fez discretamente o sinal da cruz.
Jubiscreudo murmurou uma oração.
Honesto apenas permaneceu olhando.
— E daí? — perguntou.
O caixeiro respondeu sem desviar os olhos dele.
— Daí que eles fizeram uma pergunta.
— Qual?
O velho demorou alguns segundos antes de repetir exatamente as palavras que ouvira.
— "Quem é o rei?"
Honesto sorriu.
Não porque tivesse entendido.
Mas porque aquela pergunta lhe parecia estranha.
Em Tomotôco ninguém perguntava quem era o rei.
Ali perguntavam quem era o pai, o filho, o dono da venda, o prefeito, o vigário, o devedor ou o fofoqueiro.
Rei era palavra de gente distante.
Mesmo assim, naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, Honesto demorou para dormir.
Sem saber por quê, teve a impressão de que aquela pergunta atravessara estradas demais apenas para morrer numa conversa de venda.
E, pela primeira vez desde menino, sonhou com um portão de pedra.
Do outro lado dele, alguém o esperava sem dizer uma única palavra.
Capítulo 3 — Mal-Fazer e Para-Abaixo
Há cidades que nascem de um sonho.
Outras, de uma necessidade.
Mal-Fazer e Para-Abaixo nasceram de um cansaço.
Os primeiros moradores da Região de Lugar Nenhum viviam espalhados pelas margens das estradas. Construíam uma casa onde o corpo pedia descanso e a abandonavam quando a inquietação voltava a crescer. Durante muitos anos acreditou-se que aquilo fosse liberdade. Mais tarde descobriram que talvez fosse apenas incapacidade de permanecer.
Foi então que o governo da capital decidiu reunir aquela gente.
Não por bondade.
Governar homens espalhados exige mais pernas do que governar homens reunidos.
Assim surgiram as três cidades da Região.
Tomotôco, Para-Abaixo e Mal-Fazer.
Cada uma recebeu famílias diferentes, mas ninguém percebeu que também receberam inclinações diferentes.
Tomotôco tornou-se a cidade dos costumes.
Para-Abaixo, a cidade do desânimo.
Mal-Fazer, a cidade onde até os erros pareciam organizados.
Ninguém escolheu isso.
Quando perceberam, já viviam como se sempre tivesse sido assim.
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Para-Abaixo possuía ruas largas, árvores antigas e casas surpreendentemente bem construídas.
Quem chegava pela primeira vez costumava dizer:
— Bonita cidade.
Os moradores apenas concordavam com a cabeça.
Nunca sorriam.
Não por tristeza.
Mas porque ali toda alegria parecia provisória.
Se uma boa colheita acontecia, comentavam que a próxima talvez fracassasse.
Se uma criança nascia saudável, perguntavam quanto tempo a saúde duraria.
Se chovia, lamentavam a lama.
Se fazia sol, reclamavam da seca.
A esperança nunca morria.
Apenas chegava cansada.
O prefeito, Pena-Pena, governava exatamente como respirava: lentamente.
Era um homem incapaz de levantar a voz.
Os decretos municipais pareciam pedidos de desculpas.
As reuniões terminavam antes de começarem.
Quando alguém perguntava por que nada mudava na cidade, ele respondia:
— Porque tudo muda sozinho.
Ninguém discordava.
Nem concordava.
Em Para-Abaixo até as opiniões pareciam economizar energia.
Entre seus moradores havia um sujeito curioso chamado Não-Tenho-Não.
Criava cabras.
Não dez.
Nem cinquenta.
Centenas.
Talvez milhares.
Ninguém sabia ao certo.
Todos os anos conduzia o rebanho da serra até o Canto do Rio.
Era uma procissão interminável de chifres, poeira e balidos.
Dizia-se que, naquele único dia, até os mortos do cemitério preferiam manter distância.
Perguntaram certa vez por que criava tantos animais.
Ele respondeu:
— Porque cabra nunca promete felicidade.
A frase tornou-se popular.
Mesmo quem nunca criara uma cabra passou a repeti-la.
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Mal-Fazer era diferente.
Muito diferente.
Chegava-se à cidade por uma estrada estreita que parecia diminuir de largura conforme alguém avançava.
As casas eram baixas.
As portas permaneciam fechadas mesmo durante o dia.
As janelas raramente se abriam por completo.
Ali, as pessoas aprenderam cedo que confiança excessiva costuma custar caro.
Dizia-se que um desconhecido podia atravessar Mal-Fazer carregando um saco de ouro.
Chegaria ao outro lado ainda com o ouro.
Mas sem o saco.
O prefeito chamava-se Coisa Ruim.
Ninguém recordava seu verdadeiro nome.
Talvez ele próprio já o tivesse esquecido.
Governava sem levantar a voz.
Também não precisava.
O medo trabalha melhor quando fala baixo.
Coisa Ruim compreendia isso como poucos.
Periodicamente era convocado à capital para prestar contas.
Sempre voltava.
Todos estranhavam.
Um dia perguntaram ao secretário do governo por que Mal-Fazer jamais fora fechada.
A resposta tornou-se lendária.
— Porque até o governo precisa saber onde mora aquilo que não presta.
A frase chegou rapidamente às tavernas.
Em Vida-Curta foi repetida durante meses.
Zóio-Torto apenas sorriu.
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Houve um viajante chamado Ando-Curto.
Homem simples.
Pouca bagagem.
Poucas perguntas.
Pouca pressa.
Numa tarde errada escolheu a estrada errada.
Entrou em Mal-Fazer quase ao anoitecer.
Pensou em continuar viagem.
Resolveu dormir.
Nunca mais foi visto.
Meses depois surgiu um pequeno anúncio num folhetim da capital.
> "Sujeito fez mal o cálculo da tarde. Dançou com o dia e perdeu para a noite."
Era tudo.
Nenhuma investigação.
Nenhum enterro.
Nenhuma explicação.
Como quase tudo que envolvia Mal-Fazer.
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Na venda de Zé do Carvão, Honesto escutava essas histórias desde menino.
Nunca acreditara completamente nelas.
Não porque duvidasse dos fatos.
Mas porque percebia um detalhe curioso.
Quanto mais distante ficava uma cidade, mais perfeita parecia a história contada sobre ela.
Tomotôco ria de Mal-Fazer.
Mal-Fazer zombava de Para-Abaixo.
Para-Abaixo lamentava Tomotôco.
E todas, juntas, falavam da capital como se fosse outro mundo.
Talvez fossem.
Ou talvez cada cidade enxergasse apenas aquilo que precisava enxergar para continuar sendo quem era.
Nessa mesma semana, o velho caixeiro retornou.
Dessa vez não trouxe mercadorias novas.
Trouxe silêncio.
Sentou-se diante da venda.
Aceitou um copo de café.
Olhou demoradamente para Honesto.
Depois perguntou:
— Você sabe por que os homens de Porto Seco perguntaram quem era o rei?
— Não.
— Nem eu.
O rapaz sorriu.
— Então por que perguntou?
O velho passou os dedos pela borda do copo.
— Porque descobri outra coisa.
— O quê?
O caixeiro ergueu os olhos.
Sua voz saiu quase como quem teme acordar alguém.
— Eles passaram primeiro por Mal-Fazer.
Honesto deixou de sorrir.
— E ninguém contou isso?
— Contaram.
— Então por que ninguém sabe?
O velho respirou fundo.
— Porque, às vezes, uma cidade inteira decide esquecer o mesmo acontecimento.
O vento atravessou lentamente a praça.
Ao longe, o sino da igreja tocou as seis horas.
Pela primeira vez, Honesto teve a sensação de que as histórias da Região não estavam acontecendo uma depois da outra.
Estavam acontecendo ao mesmo tempo.
Como se todas obedecessem a um relógio invisível.
Ou a alguém que soubesse exatamente quando cada uma delas deveria ser contada.
Capítulo 4 — Lugar Nenhum
Toda capital acredita ser o centro do mundo.
Lugar Nenhum acreditava ser o mundo inteiro.
Não por arrogância, mas por costume. Crescera cercada por estradas que chegavam de todas as direções e, durante gerações, seus moradores passaram a imaginar que toda viagem terminava ali. Alguns afirmavam que era impossível ir além da cidade. Outros sustentavam que era possível, mas inútil. Havia ainda quem dissesse que, depois de Lugar Nenhum, começava apenas aquilo que os mapas não tinham coragem de desenhar.
O curioso é que cada versão encontrava alguém disposto a jurar que a havia testemunhado.
A cidade possuía ruas largas, edifícios públicos revestidos de pedra clara e uma quantidade desproporcional de repartições. Existiam departamentos para quase tudo: Registro das Coisas Perdidas, Arquivo dos Assuntos Encerrados, Comissão Permanente para o Estudo das Questões Já Resolvidas e até um pequeno gabinete responsável por catalogar rumores antes que se transformassem em notícias.
Funcionava mal.
Os rumores sempre chegavam antes.
Os funcionários, porém, trabalhavam com dedicação exemplar. Era comum encontrar um escriba gastando semanas para decidir se determinado documento deveria ser arquivado na prateleira das dúvidas antigas ou na das certezas provisórias.
Ninguém via problema nisso.
Em Lugar Nenhum, burocracia não era atraso; era uma forma respeitável de demonstrar que o tempo estava sendo utilizado.
No centro da capital erguia-se o Palácio do Governo.
Não era belo.
Era convincente.
As colunas sustentavam mais autoridade do que peso, e as portas, sempre abertas, davam a impressão de acolher qualquer cidadão. Apenas davam a impressão.
Quem atravessava aquele salão descobria rapidamente que as portas permaneciam abertas porque o difícil nunca fora entrar.
O difícil era sair levando consigo a mesma opinião com que havia chegado.
Grande Pedaço governava dali.
Era homem de pequena estatura, barriga generosa e voz surpreendentemente firme. Seus adversários costumavam rir de sua aparência até o momento em que precisavam enfrentá-lo em alguma decisão. Então descobriam que certos homens compensam a falta de altura ocupando mais espaço na consciência dos outros.
Havia nascido à beira da estrada.
Jamais escondera isso.
Contava, com certo orgulho, que sua primeira casa possuía apenas duas paredes; as outras duas eram completadas pela imaginação de seus pais.
— Quem nasce olhando o horizonte aprende cedo que teto demais faz o pensamento encolher — dizia em ocasiões festivas.
Os presentes aplaudiam.
Nem todos entendiam.
Mas a frase soava importante.
Ao seu lado trabalhava um homem chamado Vou na Frente.
Era emissário, geógrafo e responsável pelos mapas oficiais da Região. Conhecia cada estrada, cada ponte e cada desvio. Não porque viajasse muito, mas porque escutava atentamente quem viajava.
Costumava afirmar que os mapas mais confiáveis eram desenhados com lembranças.
Os feitos apenas com tinta envelheciam depressa.
Foi ele quem chegou primeiro a Tomotôco anunciando o desaparecimento da primeira-dama e de Pequeno Pedaço.
Mas essa história ainda aguardava o momento certo para encontrar seu lugar.
Enquanto isso, outra preocupação ocupava discretamente o governo.
Os três homens.
Depois do ocorrido em Porto Seco, nenhuma notícia segura voltara a surgir. Sabia-se apenas que atravessaram novamente os portões do sul. Alguns afirmavam que regressaram ao lugar de onde vieram. Outros garantiam que jamais saíram da Região.
Grande Pedaço convocou uma reunião reservada.
Participaram poucos.
O comandante da guarda.
Vou na Frente.
Dois conselheiros.
E um velho funcionário cuja tarefa consistia em permanecer calado durante quase toda a reunião.
Quando finalmente falou, todos prestaram atenção.
— Eles não procuravam um rei.
O governador ergueu os olhos.
— Como sabe?
O velho respondeu sem alterar a voz.
— Porque ninguém pergunta pelo rei quando deseja conquistar um reino.
Fez-se silêncio.
A frase permaneceu no ar tempo suficiente para que cada um lhe atribuísse um significado diferente.
O comandante militar foi o primeiro a quebrá-lo.
— Então o que procuravam?
O funcionário fechou lentamente o livro que trazia sobre o colo.
— Ainda não sei.
Mas acredito que eles mesmos também não.
Naquela mesma tarde, um relatório chegou ao palácio.
Não trazia selo.
Não possuía assinatura.
Continha apenas uma frase escrita em caligrafia antiga:
> "Quando os nomes começarem a responder pelas pessoas, as pessoas deixarão de responder por si."
Grande Pedaço leu duas vezes.
Depois três.
Dobrou cuidadosamente o papel e guardou-o dentro da gaveta principal de sua mesa.
Jamais comentou o conteúdo com ninguém.
Mesmo assim, durante os dias seguintes, passou a observar seus ministros de maneira diferente.
Percebia que muitos já não pareciam homens.
Pareciam cargos.
Outros pareciam hábitos.
Alguns lembravam títulos.
Pouquíssimos ainda davam a impressão de possuir um nome que lhes pertencesse de verdade.
Naquela noite, enquanto a capital dormia, um velho sentado à soleira de uma casa distante ergueu discretamente a cabeça.
Não enxergava.
Nunca enxergara.
Ainda assim, sorriu.
Como quem acabara de ouvir uma porta se abrir muitos quilômetros adiante.
Sem mover um músculo além dos lábios, murmurou para o vento:
— Já começaram a caminhar.
O vento levou aquelas palavras para longe.
Passou por Porto Seco.
Atravessou Mal-Fazer.
Contornou Para-Abaixo.
Chegou a Tomotôco justamente quando Honesto apagava a lamparina antes de dormir.
Sem compreender por quê, ele tornou a sonhar com o mesmo portão de pedra.
Desta vez, porém, havia alguém esperando do outro lado.
Não era um homem.
Também não era uma sombra.
Era uma estrada.
E, pela primeira vez, a estrada parecia olhar de volta para ele.
Capítulo 5 — O Cego que Vê
Entre Tomotôco e Lugar Nenhum havia estradas.
Entre Lugar Nenhum e o começo das estradas havia silêncio.
Nem todo silêncio é ausência de voz. Alguns apenas esperam a pergunta certa para responder. Aquele era um desses. Os caixeiros-viajantes sabiam disso e, por esse motivo, quando passavam por determinada encruzilhada, retiravam o chapéu, diminuíam o passo e evitavam conversar. Não porque houvesse perigo, mas porque certas paisagens parecem escutar.
Poucos quilômetros depois da última ponte existia uma casa.
Não era grande.
Também não era pequena.
Era exatamente do tamanho necessário para que alguém pudesse viver sem desejar outra.
Não havia cerca.
Não havia horta.
Não havia sequer fumaça saindo da chaminé.
Quem a visse de longe teria dificuldade em afirmar se estava abandonada ou apenas esperando.
Ali morava o Cego que Vê.
Ninguém sabia sua idade.
Os mais velhos juravam tê-lo encontrado quando ainda eram crianças. Os mais novos tinham a impressão de que ele sempre estivera ali, como as pedras ou as árvores antigas. Nunca se ouviu falar de seu nascimento, de seus pais ou de algum parente. Era como se a estrada o tivesse produzido naturalmente, do mesmo modo que produz poeira quando o verão aperta.
Seu nome nunca foi registrado.
Não porque esquecessem.
Mas porque ninguém ousou perguntar.
Chamavam-no apenas daquilo que conseguiam compreender.
O Cego que Vê.
A primeira vista, o apelido parecia ironia.
Depois de algum tempo, deixava de parecer.
Os olhos do velho permaneciam sempre abertos. Eram claros, imóveis, incapazes de seguir o movimento das pessoas. Mesmo assim, quem se aproximava tinha a estranha sensação de estar sendo observado por inteiro, como se o velho não enxergasse o rosto, mas aquilo que o rosto escondia.
Por isso poucos demoravam.
Entravam.
Cumprimentavam.
Recebiam um copo de água.
Iam embora antes que alguma pergunta os encontrasse.
Porque era sempre assim.
As perguntas nunca partiam dele.
Partiam de quem chegava.
---
Certa manhã apareceu um homem trazendo um relógio quebrado.
Colocou-o sobre a mesa.
— O senhor conserta?
O velho passou lentamente os dedos sobre o metal.
Sorriu.
— Não.
O homem insistiu.
— Então por que mexeu nele?
— Para descobrir se estava quebrado o relógio... ou o dono.
O visitante recolheu o objeto e partiu sem dizer palavra.
Jamais voltou.
---
Noutra ocasião apareceu uma viúva.
Carregava uma fotografia antiga.
Queria saber se algum dia voltaria a ser feliz.
O velho permaneceu longo tempo em silêncio.
Depois perguntou:
— A senhora quer felicidade... ou quer o passado?
Ela começou a chorar.
Não respondeu.
Também não precisava.
---
Essas histórias percorriam toda a Região.
Cada viajante acrescentava um detalhe.
Cada cidade retirava outro.
Com o tempo, ninguém sabia exatamente o que o Cego havia dito ou o que inventaram depois.
Somente uma característica permanecia igual em todas as versões.
Ele jamais respondia à pergunta feita.
Respondia sempre à pergunta escondida.
---
O caixeiro-viajante conhecia aquele caminho melhor do que qualquer outro homem.
Sempre que podia, desviava alguns quilômetros apenas para sentar-se na varanda da pequena casa.
Os dois permaneciam horas sem conversar.
Era uma amizade construída quase inteiramente de silêncio.
Naquela semana, entretanto, o velho falou primeiro.
— Os três já passaram.
O caixeiro não perguntou quais.
Sabia.
— Passaram.
— E encontraram?
O velho levou alguns segundos antes de responder.
— Encontraram o primeiro.
O caixeiro franziu a testa.
— Achei que procurassem um rei.
O Cego sorriu.
Um sorriso pequeno.
Quase imperceptível.
— Todo homem acredita procurar aquilo que consegue nomear.
O que realmente procura costuma ter outro nome.
A frase ficou entre os dois como permanece uma pedra no meio do rio: imóvel, obrigando a água a mudar de direção.
---
Na mesma tarde, Honesto apareceu pela primeira vez naquela estrada.
Não pretendia visitar ninguém.
Saíra apenas para caminhar.
Era um costume antigo. Quando os pensamentos se embaralhavam, andava sem destino até que um deles decidisse seguir adiante sozinho.
Acabou chegando à pequena casa.
Parou diante da porteira.
Olhou.
Pensou em voltar.
Antes que pudesse fazê-lo, ouviu a voz do velho.
— Já que veio... entre.
Honesto estremeceu.
Não havia feito ruído algum.
Empurrou lentamente a porteira.
Entrou.
Encontrou apenas uma mesa, duas cadeiras, um banco de madeira e um copo já cheio de água.
Sentou-se.
Os dois permaneceram alguns minutos em silêncio.
Foi o rapaz quem falou primeiro.
— Dizem que o senhor vê.
— Dizem muitas coisas.
— O senhor vê mesmo?
O velho apoiou as mãos sobre a mesa.
— Depende.
— Do quê?
— Do que você chama de ver.
Honesto sorriu.
Gostava daquele tipo de resposta.
Não porque esclarecesse.
Mas porque obrigava a pergunta a crescer.
— Então deixe eu perguntar direito.
O velho permaneceu imóvel.
— O senhor consegue me ver?
Pela primeira vez, o Cego demorou bastante.
Quando respondeu, sua voz parecia vir de muito longe.
— Ainda não.
Honesto arregalou os olhos.
— Como assim?
— Hoje consigo ver apenas o seu nome.
O rapaz permaneceu imóvel.
Nunca alguém lhe respondera daquela maneira.
O velho continuou:
— Um dia... quando ele parar de andar na sua frente... talvez eu consiga ver você.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros.
Não era constrangedor.
Era fértil.
Como se alguma coisa tivesse acabado de ser plantada.
Honesto levantou-se devagar.
Agradeceu o copo de água.
Dirigiu-se à porta.
Antes de sair, voltou-se uma última vez.
— Posso fazer outra pergunta?
O velho assentiu.
— O que os três homens procuravam?
O Cego que Vê sorriu novamente.
Mas, dessa vez, havia certa tristeza naquele sorriso.
— Eles procuravam o mesmo homem que você.
— Quem?
O velho virou lentamente o rosto em direção à estrada.
O vento começou a soprar.
Longe dali, em Porto Seco, Carcará limpava Madalena sentado à porta de casa.
Sem jamais terem se encontrado, dois homens olharam, no mesmo instante, para caminhos diferentes.
E o velho respondeu apenas quando ambos já estavam em silêncio.
— Aquele que ainda não sabe o próprio nome.
Capítulo 6 — Zóio-Torto e Vida-Curta
Toda fronteira possui um guardião.
Nem sempre é um soldado.
Às vezes é uma ruína.
Outras vezes, uma lembrança.
Na Região de Lugar Nenhum, a fronteira era uma taberna.
Chamava-se Vida-Curta.
Quem vinha da capital em direção às cidades da Região inevitavelmente passava por ela. O mesmo acontecia com quem deixava Tomotôco, Para-Abaixo ou Mal-Fazer em busca de Lugar Nenhum. A estrada estreitava-se pouco antes da construção, obrigando homens, animais e carroças a diminuir o passo. Era como se o próprio caminho desejasse que todo viajante olhasse para aquele lugar antes de continuar.
A taberna não possuía beleza alguma.
As paredes eram de pedra irregular, o telhado parecia desafiar o vento havia décadas, e a placa de madeira pendurada sobre a porta rangia mesmo quando o ar permanecia completamente imóvel.
Ainda assim, ninguém a chamava de velha.
Chamavam-na apenas de necessária.
Ali chegavam caixeiros-viajantes, soldados, retirantes, apostadores, padres, músicos, comerciantes, fugitivos e homens que diziam estar apenas passeando. Quase todos entravam carregando uma história; quase todos saíam levando outra.
Poucos percebiam que ambas já não eram a mesma.
O dono do lugar chamava-se Zóio-Torto.
Diziam que um de seus olhos fitava sempre o presente, enquanto o outro insistia em permanecer preso ao passado. Quem acreditava nisso nunca conversara com ele. Bastava alguns minutos diante do homem para perceber que ambos os olhos olhavam exatamente para o mesmo lugar.
A diferença estava em quem era observado.
Havia muitos anos, quando ainda morava na capital, Zóio-Torto cometera um erro considerado imperdoável.
Não roubou.
Não matou.
Não conspirou.
Apenas falou em praça pública:
— Lugar Nenhum não é lugar para se viver.
A frase espalhou-se pela cidade antes que o eco terminasse de morrer.
Alguns riram.
Outros se ofenderam.
Os homens do governo preferiram agir.
Prendê-lo seria reconhecer que uma frase possuía força suficiente para ameaçar um poder inteiro.
Resolveram algo mais elegante.
Expulsaram-no.
O comandante Pega-Pega conduziu pessoalmente o exílio.
Quando chegaram ao limite da capital, apontou a estrada da Região.
— Vá para o começo.
Zóio-Torto não respondeu.
Apenas caminhou.
Jamais voltou.
Foi ali, entre o início da Região e o fim da capital, que construiu Vida-Curta.
Nunca mais pronunciou aquela frase.
Também nunca precisou.
A taberna passou a dizê-la por ele.
Quem permanecia ali uma noite inteira acabava compreendendo.
---
Morte-Longa cuidava do balcão.
Ninguém perguntava por seu passado.
Ela também não perguntava pelo dos outros.
Servia comida quente, café forte e escutava mais do que falava.
Zóio-Torto costumava dizer que havia pessoas capazes de curar doenças.
Morte-Longa curava silêncios.
Foi ela quem recebeu o primeiro caixeiro naquela manhã.
— O melhor que tiver.
Ela colocou diante dele um prato simples.
Feijão.
Farinha.
Carne seca.
O homem olhou.
— É isso?
— O melhor que temos já está na mesa.
Ele comeu devagar.
Ao terminar, percebeu que fazia muito tempo desde a última refeição sem pressa.
Pagou.
Partiu.
Nunca esqueceu o gosto daquela comida.
Não por causa do tempero.
Mas porque, pela primeira vez em muitos anos, alguém lhe servira exatamente aquilo de que precisava.
---
Dias depois apareceu Coisa-Ruim.
Entrou sem cumprimentar ninguém.
Sentou-se.
Esperou.
Quando Zóio-Torto surgiu dos fundos da taberna, os dois permaneceram longo tempo apenas se olhando.
Havia entre eles uma antiga familiaridade.
Não amizade.
Familiaridade.
Como dois jogadores que disputam a mesma partida há tantos anos que já conhecem de memória os movimentos um do outro.
— Vim acertar a Querela do Tempo.
Zóio-Torto assentiu.
— O dinheiro.
Coisa-Ruim colocou um pequeno saco de couro sobre a mesa.
O taberneiro não abriu.
Empurrou-o de volta.
— Isso paga a dívida.
Não paga o motivo dela.
Pela primeira vez, o prefeito de Mal-Fazer desviou os olhos.
Pouquíssimos homens conseguiam fazê-lo olhar para o chão.
Zóio-Torto era um deles.
---
Naquela mesma semana, o velho caixeiro apareceu outra vez.
Chegou ao entardecer.
Encontrou apenas dois fregueses.
Sentou-se junto à janela.
Depois de algum tempo perguntou:
— Os três passaram por aqui?
— Passaram.
— Comeram?
— Comeram.
— Pagaram?
Zóio-Torto sorriu discretamente.
— Pagaram mais do que deviam.
O caixeiro compreendeu que a conversa terminara.
Com Zóio-Torto era sempre assim.
As respostas nunca fechavam uma questão.
Apenas indicavam outra.
---
Quando a noite caiu, Morte-Longa recolheu as mesas da varanda.
O vento soprava do sul.
Zóio-Torto permanecia sentado diante da estrada.
Parecia esperar alguém.
— Está esperando visita? — perguntou ela.
— Não.
— Então por que olha tanto para o caminho?
Ele demorou a responder.
— Porque hoje duas estradas começaram a caminhar uma em direção à outra.
Morte-Longa não entendeu.
Também não insistiu.
Conhecia o suficiente daquele homem para saber que algumas frases amadurecem antes de serem compreendidas.
Na mesma hora, em Tomotôco, Honesto voltava da casa do Cego que Vê.
Em Porto Seco, Carcará terminava de desmontar Madalena para limpá-la.
Nenhum dos dois imaginava que jamais pisaria em Vida-Curta por acaso.
Nem que Zóio-Torto os aguardava havia muitos anos.
Não porque soubesse quem eram.
Mas porque aprendera que certos homens não escolhem o caminho.
É o caminho que, pacientemente, aprende a chegar até eles.
Assim se encerrava o primeiro movimento da história.
Sem que ninguém percebesse, Honesto deixara de ser apenas o rapaz de um nome inconveniente.
E Carcará deixara de ser apenas o homem que chamava a morte pelo nome.
Os dois ainda caminhavam separados.
Mas a estrada que os conduzia já era a mesma.
Livro II — As Estradas que Julgam
Capítulo 7 — A Feira dos Fins
Em toda a Região de Lugar Nenhum existia uma crença antiga, dessas que ninguém sabia dizer onde começavam, mas que sobreviviam justamente porque nunca pertenciam a uma única pessoa.
Dizia-se que certas feiras não viajavam pelas estradas.
Eram as estradas que, de tempos em tempos, viajavam até elas.
Quando alguém escutava essa história pela primeira vez, costumava rir. Depois perguntava quem a inventara. Recebia sempre a mesma resposta:
— Ninguém. Ela simplesmente apareceu.
Talvez fosse verdade.
As grandes mentiras costumam ter autor. As grandes verdades, quase nunca.
Foi numa manhã de céu limpo, semanas depois da visita de Honesto ao Cego que Vê, que Tomotôco despertou com um ruído incomum. Não era o sino da igreja, nem o ranger das carroças, tampouco o canto dos galos. Parecia uma música distante, tão fraca que cada morador julgou tê-la ouvido de um lugar diferente.
Jubiscreudo jurou que vinha da estrada de Para-Abaixo.
Dona Língua-Grande garantiu que chegava da capital.
Padre Salva-Salva afirmou que descia do vento.
Honesto, que varria a frente da venda de Zé do Carvão sem grande entusiasmo, limitou-se a erguer os olhos.
A música não vinha de lugar algum.
A música vinha chegando.
Pouco depois do meio-dia, quando o calor já obrigava até as sombras a procurarem abrigo, uma longa fileira de carroções apareceu na curva da estrada. Eram pintados com cores que pareciam novas demais para aquele mundo, puxados por cavalos igualmente estranhos, animais que avançavam sem levantar poeira, como se o chão fizesse questão de não marcar sua passagem.
As crianças foram as primeiras a correr.
Os adultos caminharam com a dignidade possível para quem desejava muito correr também.
Na carroça da frente seguia um homem magro, de roupas escuras, chapéu comprido e um sorriso que não parecia destinado a convencer ninguém. Apenas existia.
Quando alcançou a praça, levantou-se lentamente.
Olhou a cidade como quem revê um lugar conhecido.
Depois retirou o chapéu.
— Boa tarde, Tomotôco.
A voz era baixa.
Ainda assim, todos escutaram.
— Quem é o senhor? — perguntou Gole de Pinga, já assumindo a postura solene que reservava às visitas importantes.
O homem inclinou levemente a cabeça.
— Hoje... sou um feirante.
O prefeito aguardou o restante da resposta.
Ela não veio.
Atrás da primeira carroça surgiram outras.
Havia tendas desmontáveis, pequenos palcos, brinquedos mecânicos, espelhos enormes protegidos por panos escuros, barracas de comida e uma quantidade impossível de caixas, todas numeradas, mas nenhuma seguindo ordem aparente.
Tomotôco jamais recebera espetáculo semelhante.
As mulheres comentavam os tecidos.
As crianças apontavam para uma roda-gigante pequena demais para desafiar o céu e grande o bastante para desafiar a imaginação.
Os homens calculavam quanto custaria tudo aquilo.
Somente Honesto observava os trabalhadores.
Nenhum deles parecia improvisar.
Montavam cada peça como quem apenas repetia um gesto aprendido há muito tempo.
Não discutiam.
Não erravam.
Nem mesmo olhavam uns para os outros.
— Estranho... — murmurou.
Pedaço de Lenha aproximou-se.
— O quê?
— Eles não estão montando uma feira.
Ela sorriu.
— Então o que estão montando?
Honesto demorou alguns segundos.
— Parece que já encontraram tudo pronto... e só estão retirando os panos.
Ela riu da resposta.
Ele não.
---
Ao final da tarde, a estrutura estava completa.
No centro da praça erguia-se um portal de madeira escura. Sobre ele havia apenas duas palavras gravadas em letras douradas.
CERTEZA PROFUNDA.
Ninguém compreendeu o nome.
Mesmo assim, todos gostaram dele.
Os nomes estranhos possuem essa vantagem: antes de serem entendidos, podem ser admirados.
O homem do chapéu reapareceu diante da entrada.
Continuava sorrindo.
— Senhor prefeito...
— Pois não?
— Precisarei apenas de uma autorização.
— Qual?
— Que os moradores entrem por vontade própria.
Gole de Pinga piscou duas vezes.
— Ora... ninguém entra obrigado em feira nenhuma.
O homem apenas respondeu:
— Fico feliz em saber.
---
Naquela noite, a cidade quase não dormiu.
Os mais curiosos aproximavam-se da cerca improvisada tentando enxergar alguma coisa através das frestas.
Não conseguiam.
Lá dentro parecia haver menos luz do que deveria.
E, ao mesmo tempo, mais movimento.
Alguns juravam ouvir risadas.
Outros, música.
Uma senhora garantiu ter escutado o próprio pai, morto havia quinze anos, chamando seu nome.
Na manhã seguinte retirou discretamente a afirmação.
Nunca voltou a comentar o assunto.
---
Zé do Carvão decidiu levar a filha logo cedo.
— Vamos antes que lotem.
Honesto recusou o convite.
— Feira é tudo igual.
O velho ajeitou o chapéu.
— Você nunca entrou.
— Justamente por isso.
Pedaço de Lenha insistiu.
— Venha.
— Depois.
— Quando?
— Quando o povo sair.
Ela riu.
— Você desconfia até de diversão.
Honesto olhou novamente para o grande portal.
Aquelas duas palavras continuavam incomodando mais do que deveriam.
Não era o nome.
Era a tranquilidade com que aquele homem o pronunciara.
Como quem apresenta um velho conhecido.
---
Enquanto isso, centenas de quilômetros dali, em Porto Seco, Carcará terminava um serviço simples.
Recebera pagamento para acompanhar uma pequena comitiva até a divisa da costa.
Nada extraordinário.
Entretanto, durante a viagem, um tropeiro comentou casualmente:
— Ouvi dizer que montaram um circo lá pras bandas de Tomotôco.
Carcará não respondeu.
Continuou caminhando.
O homem insistiu.
— Dizem que não é bem um circo.
Nem feira.
Nem parque.
Cada um chama de um jeito.
Só concordam numa coisa.
O nome.
Carcará parou.
— Qual?
— Certeza Profunda.
Pela primeira vez desde Porto Seco, o rapaz pareceu verdadeiramente interessado.
— Quem está comandando?
O tropeiro coçou a barba.
— Ninguém sabe.
Uns dizem que é um sujeito chamado Boa Prosa.
Outros juram que nunca perguntaram.
Carcará retomou a caminhada.
Não comentou mais nada.
Mas, naquela noite, desmontou o acampamento antes do amanhecer e mudou completamente sua rota.
Sem conhecer Honesto.
Sem jamais ter ouvido falar de Tomotôco.
Sem imaginar que alguém o aguardava.
Partiu em direção à Região de Lugar Nenhum.
Não porque buscasse a feira.
Nem porque acreditasse em histórias.
Foi apenas uma inquietação antiga, daquelas que surgem quando a vida muda de direção antes mesmo de pedir licença ao homem que a vive.
E, às vezes, é exatamente assim que começam os acontecimentos que mais tarde insistimos em chamar de destino.
Capítulo 8 — O Espelho de Certeza Profunda
No primeiro dia, ninguém entrou.
Ou melhor, quase ninguém.
Os moradores passaram horas circulando ao redor da feira com a solenidade de quem inspeciona uma obra pública financiada pelo governo. Paravam diante das barracas, comentavam os detalhes, perguntavam preços que não pretendiam pagar e voltavam para casa convencidos de que fariam uma visita "quando a novidade passasse". Em cidades pequenas, a curiosidade sempre disputa espaço com o receio de ser o primeiro a fazer qualquer coisa.
O homem do chapéu parecia conhecer muito bem aquele costume.
Não chamava ninguém.
Não anunciava atrações.
Nem distribuía folhetos.
Limitava-se a caminhar lentamente entre as tendas, conversando com os trabalhadores, como se houvesse todo o tempo do mundo.
Isso incomodava.
O espetáculo parecia não precisar do público.
E tudo aquilo que não precisa de nós acaba despertando uma vontade quase infantil de descobrir por quê.
Foi Dona Língua-Grande quem rompeu o cerco.
Naturalmente.
Ela jamais suportara a ideia de outra novidade chegar antes dela.
Entrou logo depois do almoço, acompanhada por Jubiscreudo e por duas vizinhas que, durante o caminho, juraram estar ali apenas para protegê-la de possíveis vigarices.
Uma hora depois, reapareceram.
Ninguém conseguiu arrancar delas uma descrição convincente.
— E então?
— Como é lá dentro?
Dona Língua-Grande demorou um instante antes de responder.
— Grande.
— Só isso?
— Muito maior do que parece.
A resposta causou certo desapontamento.
Esperavam histórias de monstros, mágicas ou artistas exóticos.
Receberam apenas uma observação sobre espaço.
Jubiscreudo tentou ajudar.
— Tem umas coisas...
— Que coisas?
Ele coçou a cabeça.
— Umas coisas.
Durante o restante da tarde, ninguém conseguiu fazê-los dizer mais do que isso.
Pareciam sinceramente incapazes de organizar a experiência em palavras.
---
Honesto observava tudo da janela da venda.
Havia aprendido, desde menino, que o silêncio das pessoas costuma revelar mais do que suas explicações.
Quando Dona Língua-Grande perdeu a capacidade de exagerar, percebeu que algo realmente incomum existia dentro daquela feira.
— Vai entrar? — perguntou Zé do Carvão.
— Ainda não.
— Está esperando o quê?
Honesto demorou a responder.
— Quero ver quem sai diferente.
O velho sorriu.
— E se ninguém sair?
— Então eu entro.
---
Nos dias seguintes, Tomotôco começou a mudar discretamente.
Não eram mudanças grandes.
Nem espetaculares.
Mas suficientes para que quem conhecia a cidade desde sempre sentisse um pequeno desconforto.
Jubiscreudo deixou de discutir política.
Dona Língua-Grande passou uma manhã inteira sem comentar a vida de ninguém.
O padeiro, famoso por reclamar do preço da farinha, assobiava enquanto trabalhava.
Até Gole de Pinga parecia menos interessado em inaugurar obras que ainda não existiam.
As pessoas continuavam sendo as mesmas.
Mas alguma coisa havia perdido importância.
Ninguém sabia dizer exatamente o quê.
---
No quarto dia, o homem do chapéu apareceu na venda.
Entrou como qualquer freguês.
Pediu um copo d'água.
Zé do Carvão serviu.
O visitante bebeu devagar, agradeceu e permaneceu olhando as prateleiras.
Foi Honesto quem rompeu o silêncio.
— O senhor não vende nada?
— Vendo.
— E o que vende?
O homem sorriu.
— Depende do freguês.
— Não entendi.
— Nem eu, quando comecei.
Honesto cruzou os braços.
— Então por que veio até aqui?
— Porque você ainda não foi até mim.
A resposta o incomodou mais do que gostaria de admitir.
— Está preocupado com um cliente?
— Não.
— Então?
O homem pousou o copo vazio sobre o balcão.
— Estou preocupado com uma pergunta.
— Qual?
— A que você ainda não fez.
Disse isso com tanta naturalidade que parecia comentar o tempo.
Depois retirou o chapéu em sinal de despedida.
— Até breve, Honesto.
Saiu.
O rapaz permaneceu imóvel.
Demorou alguns segundos para perceber o detalhe.
Jamais dissera seu nome.
---
Naquela noite, quase sem perceber, decidiu ir.
Esperou a cidade dormir.
Cruzou a praça.
A lua iluminava apenas metade do portal de entrada.
A outra metade permanecia mergulhada numa sombra estranhamente nítida.
Não havia bilheteria.
Nem porteiro.
Somente o homem do chapéu, sentado numa cadeira simples.
Parecia esperá-lo desde sempre.
— Boa noite.
Honesto respondeu com um aceno.
— Posso entrar?
— Claro.
— Quanto custa?
O homem sorriu.
— Depende do que pretende levar.
Honesto respirou fundo.
Já estava começando a se irritar com aquele jeito de responder.
Mesmo assim entrou.
---
O interior da feira não parecia maior.
Parecia impossível.
Os corredores prolongavam-se muito além do espaço que a estrutura ocupava do lado de fora.
Barracas sucediam-se em silêncio.
Nenhum vendedor gritava.
Nenhuma criança corria.
As pessoas caminhavam lentamente, observando objetos que não pareciam estar à venda.
Havia uma banca repleta de relógios sem ponteiros.
Outra exibia portas antigas, todas abertas, mas nenhuma conduzindo a lugar algum.
Num canto, dezenas de cadeiras vazias encontravam-se dispostas em círculo, como se aguardassem uma reunião que jamais começava.
Honesto caminhava devagar.
Não sentia medo.
Sentia familiaridade.
Como se nunca tivesse estado ali e, ao mesmo tempo, reconhecesse cada detalhe.
Foi então que encontrou o espelho.
Era enorme.
Mais alto do que qualquer homem.
Coberto apenas por um tecido escuro.
Ao lado havia uma pequena placa.
"Olhe apenas quando estiver disposto a perder uma certeza."
Honesto sorriu.
— Finalmente alguma coisa faz sentido.
Puxou o pano.
Durante um instante viu apenas o próprio reflexo.
Depois a imagem começou a mudar.
Não foi seu rosto que envelheceu.
Nem seu corpo.
Foi o nome.
A palavra HONESTO, gravada invisivelmente sobre sua testa desde o nascimento, começou a desprender-se como tinta antiga descascando de uma parede.
Debaixo dela havia outra coisa.
Não um nome.
Um homem.
Antes que pudesse distinguir-lhe o rosto, alguém cobriu novamente o espelho.
Era o homem do chapéu.
— Ainda não.
Honesto virou-se irritado.
— O que eu vi?
O homem permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois respondeu com serenidade.
— A diferença entre aquilo que os outros chamam você... e aquilo que ainda está se tornando.
Os dois permaneceram imóveis.
Do lado de fora, um sino distante marcou as nove horas.
O homem recolocou cuidadosamente o pano sobre o espelho.
— O espetáculo continua amanhã.
Honesto caminhou em direção à saída sem olhar para trás.
Ao atravessar novamente o portal, percebeu que Tomotôco parecia exatamente igual.
As mesmas casas.
A mesma praça.
A mesma igreja.
Ainda assim, teve a estranha impressão de que a cidade inteira havia mudado de lugar.
Ou talvez tivesse sido apenas ele.
Enquanto isso, muitos quilômetros ao sul, Carcará seguia pela estrada.
Sem saber, aproximava-se do mesmo espelho.
E havia muito tempo desde que alguém com aquele olhar parara diante dele.
Capítulo 9 — Anca-de-Ouro e Faca-Longa
Toda cidade inventa uma história para explicar a própria origem.
Quase nenhuma conta a verdadeira.
As versões oficiais costumam ser limpas demais, organizadas demais, como se o passado tivesse sido conduzido por homens prudentes. Mas cidades, assim como pessoas, quase nunca nascem da prudência. Surgem de um amor exagerado, de um erro persistente ou de uma aposta que ninguém imaginava perder.
Com Bem-Fazer aconteceu um pouco dos três.
Antes que existisse cidade, existia apenas a beira da estrada. Casas improvisadas, cercas tortas, crianças crescendo sem saber onde terminava um quintal e começava outro. Ali as pessoas viviam como quem faz uma pausa durante uma viagem que nunca termina. Construíam um rancho, criavam alguns animais, casavam os filhos e, quando percebiam, já haviam envelhecido sem jamais decidir se aquele lugar era casa ou passagem.
Foi ali que nasceu Anca-de-Ouro.
O nome não lhe veio por riqueza, nem por herança. Veio pela crueldade espontânea com que as aldeias costumam batizar aquilo que não conseguem ignorar. Ainda menina, chamava atenção pela presença. Não era apenas bonita; havia nela uma serenidade que desorganizava os homens. Alguns falavam dos olhos. Outros dos cabelos. A maioria preferia comentar suas ancas, e o apelido acabou vencendo o nome de batismo antes que alguém se lembrasse dele.
Ela nunca reclamou.
Aprendera cedo que discutir com um nome é como discutir com uma sombra: ambos caminham atrás da pessoa durante tempo suficiente para parecerem parte dela.
Enquanto crescia, a beira da estrada continuava a produzir o mesmo tipo de gente: trabalhadores incansáveis, bêbados ocasionais, sonhadores permanentes e caixeiros-viajantes que apareciam sempre carregando novidades capazes de durar apenas até a próxima curva.
Foi um desses caixeiros quem trouxe a primeira notícia sobre Certeza Profunda.
Não falava de feira.
Nem de parque.
Muito menos de circo.
Dizia apenas que existia um homem alto, vestido de preto, que viajava levando um espelho capaz de mostrar aquilo que ninguém conseguia esconder de si mesmo.
Os ouvintes riram.
O caixeiro também.
Mas nenhum deles ria da mesma coisa.
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Meses depois, numa tarde em que o calor parecia ter expulsado até os passarinhos das árvores, surgiu uma pequena companhia de artistas. Montaram um palco improvisado perto do riacho, levantaram algumas lonas e anunciaram uma única apresentação.
A população inteira compareceu.
Não havia muito o que fazer naquelas bandas.
Quando a vida oferece um espetáculo, o sertão inteiro vira plateia.
Vieram os músicos.
Vieram os malabaristas.
Vieram os contadores de histórias.
Por fim entrou um homem alto, magro, segurando um grande espelho coberto por um tecido escuro.
Ninguém aplaudiu.
Ninguém sabia se aquela era a atração principal ou apenas alguém perdido no caminho.
O homem colocou o espelho no centro do palco.
Sorriu.
— Quem deseja conhecer uma certeza?
As crianças levantaram a mão.
Os adultos permaneceram imóveis.
Ele esperou.
Não insistiu.
Foi então que alguém gritou do fundo da multidão:
— Chama Anca!
O coro repetiu imediatamente.
— Anca!
— Anca!
Ela tentou recusar.
Não conseguiu.
Empurrada mais pela expectativa alheia do que pela própria vontade, subiu ao palco.
O homem retirou lentamente o pano.
No início havia apenas um reflexo comum.
Depois o espelho deixou de refletir.
Começou a lembrar.
Anca viu um terreno seco.
Um velho plantando uma única semente.
Uma raposa atravessando o campo sem tocar o chão.
Depois uma árvore.
Torta.
Muito torta.
O velho sorriu para a árvore.
Em vez de corrigi-la, plantou outra semente ao lado.
Dela nasceu uma segunda árvore.
As duas cresceram entrelaçadas.
O vento passava por seus galhos produzindo um som parecido com uma conversa.
Antes que a imagem prosseguisse, o homem cobriu novamente o espelho.
— Basta.
Anca ainda permanecia olhando.
— O que significa?
O homem respondeu como quem comenta o tempo.
— Significa quando chegar a hora.
Foi tudo.
Nenhuma explicação.
Nenhum mistério adicional.
A apresentação continuou.
Mas Anca jamais voltou a prestar atenção em qualquer outro número.
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Pouco mais de um ano depois apareceu Faca-Longa.
Chegou sozinho.
Montado num cavalo castanho.
Trazia poucas roupas, uma peixeira comprida presa à cintura e uma calma incompatível com o tamanho da arma.
Os homens da região passaram dois dias tentando descobrir quem era o desconhecido.
As mulheres descobriram antes.
Era um homem que escutava.
Coisa rara.
Enquanto os demais falavam de negócios, caçadas e política, Faca-Longa fazia perguntas.
Perguntava sobre plantações.
Sobre chuvas.
Sobre crianças.
Sobre caminhos.
E ouvia as respostas até o fim.
Foi assim que conheceu Anca.
Sem espetáculo.
Sem declaração.
Sem pressa.
Os dois começaram a caminhar juntos pelas margens da estrada, conversando longamente ao cair da tarde.
Ninguém sabia sobre o que falavam.
Também não perguntavam.
Certas conversas parecem tão necessárias que até a curiosidade aprende a respeitá-las.
Quando decidiram casar, Faca-Longa fez apenas uma promessa.
Não prometeu riqueza.
Nem felicidade.
Nem descanso.
Prometeu apenas isto:
— Você nunca mais vai morar à beira da estrada.
Na semana seguinte começou a levantar as primeiras casas.
Depois veio uma capela.
Mais adiante uma praça.
Em seguida um poço.
As famílias aproximaram-se naturalmente.
Cada nova construção parecia convencer outra pessoa de que finalmente existia um lugar onde valia a pena permanecer.
Chamaram a cidade de Bem-Fazer.
O nome agradou a todos.
Inclusive aos que nunca acreditaram muito nele.
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Durante alguns anos tudo pareceu confirmar a escolha.
As colheitas eram boas.
Os casamentos numerosos.
As crianças corriam pelas ruas sem medo.
Até os caixeiros-viajantes demoravam mais do que o habitual antes de seguir viagem.
Foi então que Anca adoeceu.
Ninguém soube dizer de quê.
Chamaram curandeiros.
Parteiras.
Padres.
Médicos da capital.
Todos saíam da casa com a mesma expressão desconcertada de quem compreende menos do que quando entrou.
Faca-Longa percorreu estradas que jamais imaginara percorrer.
Voltou sempre trazendo esperança.
Nunca trouxe resposta.
Na madrugada em que Corte-Longo nasceu, Anca morreu.
O menino chorou.
O pai permaneceu em silêncio.
Durante muito tempo, os moradores acreditaram que aquele silêncio fosse apenas luto.
Estavam enganados.
Era o início de uma pergunta.
A mesma pergunta que, muitos anos depois, três homens fariam em Porto Seco.
A mesma que ainda caminhava lentamente em direção a Honesto.
Porque certas perguntas, antes de serem pronunciadas, passam décadas escolhendo as pessoas que terão de respondê-las.
Capítulo 10 — O Pedaço que Sobe ou Desce
Há uma diferença curiosa entre uma aposta e uma promessa.
A promessa tenta prender o futuro.
A aposta tenta adivinhá-lo.
Quem promete costuma confiar na própria vontade. Quem aposta deposita confiança na vontade das coisas, como se o mundo pudesse ser persuadido por um punhado de moedas, uma assinatura malfeita ou um aperto de mãos. Talvez por isso toda região possua jogadores, mas poucas produzam homens de palavra.
Mal-Fazer transformara esse hábito numa arte.
As apostas não aconteciam apenas nas tavernas. Apostava-se na chegada das chuvas, na duração dos casamentos, na saúde dos cavalos, no número de filhos que um casal teria, na data da morte de um velho doente e até no tempo que um recém-chegado levaria para perceber que estava sendo enganado.
Não era exatamente ganância.
Era uma maneira de medir quem compreendia melhor o movimento invisível das coisas.
Ou, pelo menos, era isso que diziam.
Coisa Ruim gostava dessa explicação porque a fazia parecer menos vergonhosa.
O prefeito governava pouco e administrava muito. Mantinha um pequeno escritório ao lado da prefeitura, onde papéis, livros-caixa e recibos ocupavam mais espaço do que qualquer símbolo da autoridade pública. Quem entrava ali pela primeira vez imaginava tratar-se de um cartório. Depois de alguns minutos descobria que o lugar registrava compromissos bem mais difíceis de apagar.
Sobre a mesa principal repousava um caderno de capa escura.
Não possuía título.
Nem precisava.
Todos o conheciam simplesmente como o Livro.
Os moradores de Mal-Fazer assinavam ali suas apostas. Não havia testemunhas, selo do governo ou firma reconhecida. Bastava o nome.
E isso era suficiente.
— Um nome pesa mais do que uma moeda — repetia Coisa Ruim.
A frase soava respeitável.
Poucos percebiam que ela escondia justamente o contrário.
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Raposa Ligeira conhecia aquele escritório melhor do que qualquer outro habitante da cidade.
Era pequena, magra, inquieta, dona de uma rapidez que fazia seu apelido parecer modesto. Percorria estradas como quem atravessa corredores de casa. Levava recados, documentos, pequenas encomendas e, às vezes, pessoas inteiras. Havia quem jurasse que conseguia sair de Mal-Fazer ao amanhecer, almoçar em Vida-Curta e voltar antes que o café esfriasse.
Ela nunca confirmava.
Também nunca desmentia.
Aprendera que a fama trabalha melhor quando encontra espaço para exagerar sozinha.
Naquela manhã entrou na prefeitura sem bater.
Encontrou Coisa Ruim e Não Tenho Pena inclinados sobre o Livro.
— Ainda nisso?
O prefeito ergueu os olhos.
— Sempre nisso.
Raposa aproximou-se.
Havia uma folha em branco.
No alto lia-se apenas uma pergunta.
O pedaço que conta sobe ou desce?
Ela sorriu.
— Vocês transformam qualquer desgraça em negócio.
Não Tenho Pena deu de ombros.
— Desgraça é quando ninguém lucra.
Coisa Ruim fechou lentamente o caderno.
— Não. Desgraça é quando todos ganham a mesma coisa.
Raposa conhecia aquele tom.
Quando o prefeito falava baixo era porque acreditava ter encontrado alguma vantagem invisível.
— E qual é a novidade?
Ele levantou-se.
Foi até a janela.
De lá era possível ver parte da estrada que levava a Tomotôco.
— A mulher e a filha do governador continuam desaparecidas.
— Sim.
— Toda a Região acredita que foram levadas pelos Voa-Voa.
— Sim.
— Então todos apostarão que descerão.
Raposa cruzou os braços.
— E você?
O sorriso de Coisa Ruim apareceu lentamente.
— Apostarei o contrário.
Ela não perguntou por quê.
Percebeu que ele também não responderia.
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Enquanto Mal-Fazer organizava apostas, Tomotôco organizava filas.
A Feira dos Fins já não despertava apenas curiosidade.
Começava a produzir hábito.
As pessoas entravam pela manhã, passavam horas caminhando entre barracas, espelhos e corredores silenciosos, depois voltavam para casa carregando uma estranha sensação de que alguma coisa importante lhes escapara por muito pouco.
Mesmo assim retornavam no dia seguinte.
Padre Salva-Salva visitou a feira três vezes.
Na quarta, decidiu que não pisaria mais ali.
No quinto dia foi visto entrando novamente.
Jubiscreudo perguntava menos.
Dona Língua-Grande falava mais baixo.
Até Gole de Pinga deixara de discutir projetos grandiosos.
A cidade não parecia encantada.
Parecia ocupada.
Como se cada morador estivesse tentando recordar uma lembrança que ainda não vivera.
Honesto continuava observando.
Entrava.
Saía.
Voltava.
Nunca permanecia tempo suficiente para sentir-se confortável.
O homem do chapéu não o procurava mais.
Isso o incomodava ainda mais.
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Na terceira visita encontrou uma barraca nova.
Não havia mercadorias.
Somente uma mesa.
Sobre ela repousava uma balança de ferro.
Num prato, uma pedra.
No outro, uma pena.
A balança permanecia perfeitamente equilibrada.
— Está quebrada?
A voz veio atrás dele.
— Não.
Era Boa Prosa.
— Então por que não pesa?
O homem aproximou-se da mesa.
Passou os dedos pela pedra.
Depois pela pena.
— Porque você ainda está olhando para as coisas erradas.
Honesto respirou fundo.
— O senhor nunca responde direito.
Boa Prosa riu discretamente.
— E você continua fazendo as perguntas pequenas.
O rapaz aproximou-se da balança.
— O que ela mede?
— Aquilo que cada pessoa insiste em chamar de peso.
Silêncio.
Depois Boa Prosa acrescentou:
— Alguns colocam ouro.
Outros culpa.
Há quem coloque lembranças.
Todos juram estar pesando a mesma coisa.
Honesto permaneceu diante da balança por mais alguns minutos.
Quando voltou a erguer a cabeça, Boa Prosa já havia desaparecido.
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Naquela mesma tarde, Raposa Ligeira cruzava a estrada entre Mal-Fazer e Tomotôco.
Levava consigo apenas um envelope.
Dentro dele havia uma aposta.
Não sabia para quem.
Nem precisava.
Seu trabalho nunca consistira em compreender os recados.
Consistia em fazê-los chegar.
Ao passar pela velha ponte do Pega-Ligeiro avistou um homem sentado sobre o guarda-corpo de pedra.
Limpava cuidadosamente um revólver enorme.
Raposa diminuiu o passo.
Nunca o vira antes.
Mesmo assim reconheceu imediatamente que não era dali.
Carcará ergueu os olhos.
Os dois trocaram apenas um breve aceno.
Nenhum perguntou nome.
Nenhum perguntou destino.
Cada um seguiu seu caminho.
Somente depois de muitos quilômetros Raposa percebeu uma curiosidade.
Durante todo o encontro, o homem jamais deixara de olhar para a estrada.
Como se soubesse que, mais cedo ou mais tarde, ela acabaria trazendo exatamente aquilo que procurava.
Sem perceber, dois fios da mesma história haviam acabado de cruzar-se pela primeira vez.
Nenhum deles deu importância ao encontro.
O tempo daria.
Capítulo 11 — Os Seis Caminhos de Tomotôco
Os moradores de Tomotôco gostavam de dizer que a cidade possuía seis caminhos.
Não era uma afirmação rigorosamente verdadeira.
Se alguém resolvesse medi-los com a paciência de um engenheiro ou a teimosia de um agrimensor, descobriria desvios, trilhas de gado, atalhos abertos pelas enxurradas e picadas que desapareciam durante o inverno. Havia muito mais do que seis caminhos.
Mesmo assim, continuavam dizendo que eram seis.
Porque o homem raramente conta aquilo que existe.
Conta apenas aquilo que consegue compreender.
O primeiro seguia para Mal-Fazer.
O segundo alcançava Para-Abaixo.
O terceiro conduzia à capital.
O quarto perdia-se entre as casas dispersas da beira da estrada.
O quinto terminava num descampado onde ninguém construía nada, embora todos jurassem conhecer alguém que um dia vivera por ali.
Quanto ao sexto...
Ninguém concordava.
Alguns afirmavam que levava ao Tudo.
Outros insistiam que desembocava no Nada.
Padre Salva-Salva costumava resolver a discussão dizendo que ambos estavam certos, pois quase sempre o homem chega aos dois lugares pela mesma estrada.
A frase parecia profunda o suficiente para encerrar qualquer conversa.
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Na manhã seguinte à passagem de Raposa Ligeira pela ponte do Pega-Ligeiro, Honesto resolveu deixar a venda mais cedo.
Não comunicou a ninguém.
Pegou o velho chapéu de palha, colocou um canivete no bolso e saiu caminhando sem objetivo declarado.
Zé do Carvão observou-o atravessar a praça.
— Esse rapaz só trabalha quando está andando.
Pedaço de Lenha sorriu.
— Não, pai. Ele pensa andando.
— Dá no mesmo.
Ela balançou a cabeça.
— Não dá.
O velho não insistiu. Já aprendera que discutir com a filha sobre Honesto era perder duas vezes: primeiro o argumento, depois a tranquilidade.
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O rapaz seguiu pelo caminho que levava à beira da estrada.
Gostava daquele trecho porque quase ninguém o utilizava. Não havia comércio, igreja ou vizinhos curiosos. Apenas o som do vento passando entre os arbustos secos e algumas árvores antigas que pareciam guardar segredos mais velhos do que a própria região.
Depois de quase uma hora de caminhada encontrou um homem sentado sobre um tronco caído.
Era um sujeito de barba branca, chapéu gasto e uma carroça carregada de caixas.
O mesmo caixeiro-viajante.
— Achei que o senhor já tivesse ido embora.
O velho sorriu.
— Fui.
— Então como voltou?
— Pelo outro caminho.
Honesto olhou ao redor.
Só havia uma estrada.
O caixeiro percebeu a confusão.
— Esse é justamente o problema das estradas. A gente imagina que elas servem apenas para levar alguém a algum lugar.
— E não servem?
— Servem também para trazer.
Sentaram-se lado a lado.
Durante alguns minutos permaneceram em silêncio.
Não era um silêncio constrangedor.
Era desses que deixam espaço para o pensamento caminhar sem precisar pedir licença.
Foi Honesto quem falou primeiro.
— O senhor conhece muita gente.
— Conheço muita estrada.
— Dá na mesma?
O velho riu.
— Nunca.
Conhecer uma estrada é fácil. Difícil é conhecer quem ela transforma.
A resposta ficou rodando na cabeça de Honesto.
O caixeiro retirou uma pequena caixa da carroça.
Abriu-a.
Lá dentro havia apenas uma chave antiga.
Grande.
Pesada.
Escurecida pelo tempo.
— Sabe de onde veio?
— Não.
— Também não.
O rapaz olhou intrigado.
— Então por que guarda isso?
O velho fechou lentamente a tampa.
— Porque passei quarenta anos procurando a porta.
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Enquanto isso, Tomotôco recebia visitantes incomuns.
Não eram artistas da feira.
Nem comerciantes.
Chegavam homens e mulheres das cidades vizinhas apenas para conhecer Certeza Profunda.
Alguns vinham de Para-Abaixo trazendo cestos de frutas.
Outros apareciam montados em cavalos cansados, vindos das bandas de Mal-Fazer.
A cidade nunca estivera tão movimentada.
Dona Língua-Grande encontrava-se em estado de felicidade absoluta.
Finalmente havia novidades suficientes para abastecer conversas durante meses.
Jubiscreudo, porém, começou a notar algo estranho.
— Já repararam que ninguém pergunta quanto tempo a feira vai ficar?
Padre Salva-Salva olhou em direção ao portal.
— Porque ninguém acredita que ela vá embora.
— Mas toda feira vai.
O padre demorou um pouco antes de responder.
— Toda feira comum.
---
Boa Prosa caminhava lentamente entre as barracas.
Cumprimentava crianças pelo nome.
Conversava com idosos como se os conhecesse havia décadas.
Escutava histórias que nunca interrompia.
Havia algo de profundamente cortês naquele homem.
Mesmo assim, ninguém conseguia lembrar exatamente de seu rosto depois que ele se afastava.
Era como tentar recordar a expressão de alguém visto num sonho.
Nítida enquanto acontece.
Escorregadia logo depois.
Naquele fim de tarde ele parou diante da grande entrada da feira.
Olhou demoradamente para o sexto caminho de Tomotôco.
Morte-Longa, que chegara horas antes trazendo alguns mantimentos de Vida-Curta, aproximou-se.
— Está esperando alguém?
— Sempre.
— Honesto?
Boa Prosa sorriu.
— Ele já chegou.
Ela compreendeu.
— Então é o outro.
O homem assentiu.
Pela primeira vez desde que a feira se instalara, sua expressão perdeu o leve humor que costumava acompanhá-lo.
— Sim.
O outro.
---
Muito distante dali, o sol começava a desaparecer atrás das serras quando Carcará alcançou uma pequena elevação.
Lá de cima podia avistar boa parte da região.
As estradas desenhavam linhas tortas sobre a terra seca.
Algumas aproximavam cidades.
Outras pareciam afastá-las ainda mais.
Ele desmontou do cavalo.
Permaneceu longo tempo observando.
Havia aprendido, ainda menino, que antes de entrar num lugar era preciso entender para onde seus caminhos apontavam.
Foi então que percebeu uma coisa curiosa.
Todas as estradas pareciam conduzir a Tomotôco.
Mesmo aquelas que claramente seguiam em outra direção.
Não era um fenômeno da terra.
Era uma sensação.
Como se os acontecimentos tivessem decidido reunir-se ali antes de continuar viagem.
Carcará apoiou a mão sobre Madalena.
Não por receio.
Por hábito.
Depois tornou a montar.
Sem que ninguém o avisasse, escolheu justamente a estrada que levava ao sexto caminho.
Aquela sobre a qual ninguém jamais concordava para onde conduzia.
E talvez fosse exatamente por isso que ela o escolhera primeiro.
Capítulo 12 — O Início do Julgamento
Há acontecimentos que chegam fazendo barulho.
Outros, os mais perigosos, entram pela porta da frente com a delicadeza de uma visita educada. Quando alguém finalmente percebe que alguma coisa mudou, a mudança já terminou de acontecer.
O julgamento de Tomotôco começou exatamente assim.
Ninguém ouviu trombetas. Nenhum mensageiro atravessou a cidade montado a cavalo. A igreja continuou tocando os sinos nas mesmas horas, o padeiro abriu a venda antes do amanhecer, Dona Língua-Grande encontrou assunto para comentar antes mesmo do café, e as crianças seguiram correndo pela praça. Tudo parecia conservar a mesma ordem de sempre.
Entretanto, havia um detalhe que escapava aos olhos acostumados.
As pessoas já não conversavam sobre os mesmos assuntos.
Dias antes, qualquer roda de prosa terminava inevitavelmente em Honesto, nas estripulias do rapaz ou na esperada visita do governador. Agora os nomes mudavam de direção. Falava-se da Feira dos Fins, do espelho, do homem do chapéu, das barracas silenciosas e, principalmente, daquela estranha sensação que todos experimentavam ao sair dali: a impressão de terem esquecido algo importante sem conseguir dizer exatamente o quê.
Padre Salva-Salva foi o primeiro a notar.
Depois da missa de domingo, observou que os fiéis permaneciam mais tempo do lado de fora da igreja do que dentro dela. Não discutiam política, não comentavam colheitas nem reclamavam dos impostos. Limitavam-se a olhar uns para os outros como se procurassem reconhecer antigos conhecidos.
Aquilo o inquietou.
Não porque houvesse pecado.
Mas porque parecia haver espera.
Na segunda-feira resolveu entrar sozinho na feira.
Não vestiu a batina.
Preferiu roupas simples, chapéu de palha e um velho cajado de madeira. Caminhou lentamente pelos corredores até encontrar Boa Prosa sentado diante de uma pequena mesa onde descansavam apenas uma vela apagada e um livro fechado.
— Posso sentar?
— Se já veio até aqui, já está sentado faz tempo.
O padre sorriu de canto.
— O senhor tem um gosto curioso para responder perguntas.
— Só às perguntas que ainda não aprenderam a escutar.
O sacerdote pousou o cajado ao lado da cadeira.
— Diga-me uma coisa. Esta feira... é um espetáculo?
Boa Prosa olhou para a vela.
— Às vezes.
— Um parque?
— Também.
— Um circo?
— Quando precisa.
O padre respirou lentamente.
— Então o que ela é?
Boa Prosa ergueu os olhos.
Havia serenidade em seu rosto, mas nenhuma intenção de impressionar.
— Ela é aquilo que cada pessoa acredita estar procurando antes de descobrir o que realmente veio encontrar.
O padre permaneceu longo tempo calado.
Não era uma resposta que pudesse ser refutada.
Também não era uma resposta que pudesse ser aceita imediatamente.
Levantou-se, agradeceu e caminhou até a saída.
Quando alcançou o portal, voltou apenas para fazer uma última pergunta.
— E quem foi que construiu tudo isto?
Boa Prosa respondeu sem sequer olhar em sua direção.
— A mesma pessoa que construiu a estrada.
Padre Salva-Salva saiu ainda mais confuso do que entrara.
Pela primeira vez desde que fora ordenado, teve a impressão de que algumas perguntas religiosas talvez precisassem começar pela geografia.
Enquanto isso, em Mal-Fazer, o Livro das Apostas já não fechava completamente. Novas folhas eram acrescentadas todos os dias. A notícia do desaparecimento da família do governador transformara-se numa febre que ultrapassava os limites da cidade. Gente da beira da estrada aparecia apenas para registrar um palpite e voltar para casa antes do anoitecer.
Coisa Ruim observava o movimento com satisfação discreta.
Não era o dinheiro que lhe interessava.
Dinheiro sempre reaparece.
O que realmente o atraía era outra coisa.
Toda aposta obrigava alguém a revelar aquilo em que acreditava.
E um homem se torna muito mais previsível depois de declarar, ainda que por escrito, aquilo que espera do mundo.
Não Tenho Pena fechou a porta do escritório e aproximou-se do prefeito.
— Já passou de trezentas.
— Quantos escolheram que o pedaço desce?
— Todos.
— Todos?
— Todos... menos um.
Coisa Ruim sorriu.
— Então o mundo continua funcionando.
No extremo oposto da Região, Carcará atravessava lentamente uma mata rala que antecedia Tomotôco. Viajava havia dias, mas não sentia cansaço. A estrada parecia conhecê-lo. Os cavalos estranham certos caminhos; aquele não. Avançava com a tranquilidade de quem regressa a um lugar onde nunca esteve.
Pouco antes do entardecer encontrou um velho sentado sobre uma pedra, afiando um facão.
— Boa tarde.
O homem respondeu com um gesto breve.
— Falta muito para Tomotôco?
O velho apontou adiante.
— Se for pela estrada, uma hora.
— E se eu cortar caminho?
O velho sorriu pela primeira vez.
— A estrada também corta caminho.
Carcará não compreendeu.
Agradeceu e seguiu viagem.
Depois de alguns metros olhou para trás.
A pedra continuava ali.
O facão também.
Mas o velho desaparecera como desaparecem certas lembranças quando tentamos recuperá-las depressa demais.
Naquela mesma hora, Honesto voltava à feira.
Não procurava Boa Prosa.
Nem o espelho.
Havia outra coisa que lhe chamava a atenção desde a primeira visita.
Nos fundos do terreno existia uma pequena construção de madeira, quase escondida entre duas tendas maiores. Não possuía letreiro, entrada decorada ou qualquer sinal de que fizesse parte do espetáculo.
Parecia esquecida.
Empurrou a porta.
O ambiente era simples.
Uma mesa.
Seis cadeiras.
Nenhuma janela.
Sobre a parede do fundo havia apenas uma moldura vazia.
Nada mais.
Boa Prosa entrou logo depois.
— Gostou da sala?
Honesto percorreu o lugar com os olhos.
— Não tem nada.
— Tem.
— O quê?
O homem caminhou até a moldura.
Passou delicadamente a mão sobre a madeira envelhecida.
— Ainda falta quem será julgado.
Honesto soltou uma breve risada.
— Julgado por quem?
Boa Prosa voltou-se lentamente para ele.
— Pelo mesmo que construiu os nomes.
O rapaz já preparava outra pergunta quando escutou, do lado de fora, um estampido seco.
Não parecia tiro.
Também não parecia trovão.
Era o som pesado dos antigos portões da cidade se fechando.
Tomotôco jamais possuíra portões.
Até aquele instante.
Livro III — O Homem da Madalena
Capítulo 13 — Porto Seco
Quando o barulho cessou, ninguém correu para verificar o que havia acontecido.
O silêncio que veio logo depois era pesado demais para permitir qualquer gesto precipitado. As pessoas saíram das casas devagar, como fazem aqueles que ainda esperam encontrar uma explicação razoável para um acontecimento claramente desprovido de razão.
Padre Salva-Salva foi o primeiro a alcançar a praça.
Depois vieram Gole de Pinga, Jubiscreudo, Zé do Carvão e, pouco a pouco, o restante da cidade.
Não havia portões.
Nunca houvera.
Mesmo assim, todos olhavam para a entrada principal de Tomotôco como se alguma coisa invisível tivesse acabado de fechar-se diante deles.
Honesto saiu da pequena sala da feira quase ao mesmo tempo.
Boa Prosa permaneceu onde estava.
Não fez menção de acompanhar a multidão.
— O senhor não vem?
— Já estou onde preciso estar.
— O senhor ouviu?
— Ouvi.
— O que foi aquilo?
Boa Prosa olhou demoradamente para a moldura vazia pendurada na parede.
— Uma porta.
— Não existe porta nenhuma.
— Agora existe.
Honesto já começava a irritar-se com aquela maneira de responder.
Ainda assim, percebeu uma diferença.
Pela primeira vez desde que a feira chegara, Boa Prosa parecia preocupado.
Não assustado.
Preocupado.
Como quem percebe que uma peça importante do tabuleiro acaba de ser movimentada.
---
Na entrada da cidade, os moradores revistaram cada palmo da estrada.
Nada.
Nenhum vestígio.
Nem carroça.
Nem cavalo.
Nem pedra deslocada.
Era como se o enorme estrondo tivesse acontecido apenas para anunciar a si mesmo.
Gole de Pinga retirou o chapéu e enxugou a testa.
— Alguém viu alguma coisa?
Todos responderam negativamente.
Foi Jubiscreudo quem apontou para o chão.
— Tem marca.
A poeira da estrada conservava uma sequência nítida de pegadas.
Não eram muitas.
Apenas um homem.
Entrava na cidade.
Nenhuma saía.
Os moradores se entreolharam.
Padre Salva-Salva ajoelhou-se para observá-las melhor.
As marcas eram profundas, regulares, sem sinal de hesitação.
Quem quer que tivesse caminhado por ali não procurava caminho.
Já o conhecia.
---
Naquele mesmo instante, muitos quilômetros ao sul, Porto Seco começava a desaparecer atrás do viajante.
Carcará conduzia o cavalo sem qualquer pressa.
Jamais gostara de correr.
A velocidade costuma impedir que o homem perceba aquilo que o acompanha.
Desde a conversa com o velho da pedra, a sensação tornara-se ainda mais clara.
Não estava sozinho.
Não porque alguém o seguisse.
Era outra coisa.
Como se a própria estrada esperasse dele alguma decisão.
Madalena repousava no coldre.
Havia dias que não disparava um único tiro.
Mesmo assim, o peso do revólver parecia diferente.
Mais vivo.
Quando o sol alcançou o ponto mais alto do céu, Carcará encontrou uma pequena venda à beira da estrada.
Parou apenas para dar água ao cavalo.
A proprietária era uma senhora baixa, cabelos completamente brancos e olhos atentos.
Enquanto enchia o balde, lançou-lhe um olhar demorado.
— Faz tempo que ela não fala?
Carcará franziu a testa.
— Quem?
Ela apontou discretamente para o revólver.
— Madalena.
Ele permaneceu imóvel.
Jamais pronunciara aquele nome diante daquela mulher.
— Como sabe?
A velha sorriu com a naturalidade de quem responde algo evidente.
— Armas têm nomes.
Algumas pessoas também.
O difícil é descobrir qual dos dois está carregando o outro.
Carcará não respondeu.
Pagou a água.
Montou novamente.
Quando retomou a viagem, olhou para trás.
A venda permanecia aberta.
A mulher, porém, desaparecera.
---
Em Vida-Curta, Zóio-Torto interrompeu o almoço antes da primeira colherada.
Morte-Longa percebeu.
— Esfriou?
— Não.
— Então?
Ele continuou olhando pela janela.
A estrada permanecia vazia.
Ainda assim, respondeu:
— O homem da Madalena entrou na Região.
Ela apoiou lentamente o prato sobre a mesa.
— Tem certeza?
— Não.
Fez uma breve pausa.
— Tenho estrada.
Morte-Longa conhecia aquele jeito de falar.
Quando Zóio-Torto substituía respostas por caminhos, era porque a resposta já estava acontecendo.
— Vai passar por aqui?
O velho taberneiro fechou os olhos por um instante.
— Todo mundo passa.
— Nem todos entram.
— Os que não entram... voltam depois.
---
No final da tarde, Tomotôco já havia esquecido o estrondo.
Ou, pelo menos, fingia tê-lo esquecido.
As crianças voltaram a brincar.
A venda abriu normalmente.
A igreja tocou o sino.
A única pessoa que não conseguia retomar a rotina era Honesto.
Desde a saída da feira, uma ideia insistia em acompanhá-lo.
A sala vazia.
A moldura.
A frase de Boa Prosa.
"Ainda falta quem será julgado."
Enquanto caminhava pela praça, percebeu novamente as pegadas na poeira.
Ninguém mais lhes prestava atenção.
Abaixou-se.
Observou-as cuidadosamente.
E então notou um detalhe que escapara aos demais.
Não eram pegadas de chegada.
Também não eram de partida.
As marcas terminavam exatamente no centro da praça.
Como se o homem tivesse simplesmente deixado de caminhar.
Ou como se a estrada tivesse decidido continuar sozinha.
Honesto permaneceu longo tempo olhando para o chão.
Pela primeira vez desde menino, sentiu medo.
Não do desconhecido.
Mas da possibilidade de que o desconhecido já estivesse andando ao lado dele havia muito tempo.
Capítulo 14 — Carcará
As pessoas costumam acreditar que a fama nasce de grandes feitos.
Não nasce.
Ela nasce quando um homem deixa de pertencer apenas à própria vida e passa a habitar a imaginação dos outros. Depois disso, pouco importa o que realmente aconteceu. Cada lembrança acrescenta um detalhe, cada narrador corrige o anterior, e, sem que ninguém perceba, o homem desaparece atrás da própria história.
Com Carcará acontecera exatamente isso.
Em Porto Seco já existiam pelo menos cinco versões para o episódio das três feras.
Numa delas, o disparo partira o animal em três pedaços.
Noutra, a bala atravessara também um velho cajueiro que ainda exibia, segundo diziam, o buraco do projétil.
Havia quem jurasse que Madalena nunca precisara ser recarregada desde aquele dia.
As crianças preferiam uma história diferente: afirmavam que a arma escolhia sozinha quem podia tocá-la e que certa vez mordera a mão de um ladrão.
Carcará jamais desmentia.
Também não confirmava.
A verdade, aprendera cedo, possui um defeito incômodo: quando é explicada em excesso, perde o interesse até de quem a viveu.
Por isso viajava.
Era mais fácil abandonar uma cidade antes que ela transformasse um homem numa estátua.
Na manhã seguinte ao encontro com a velha da venda, o caminho começou a mudar.
As árvores tornaram-se mais altas.
A terra avermelhada deu lugar a um solo escuro, úmido, e pequenas pedras surgiam no meio da estrada como se alguém as tivesse colocado ali para obrigar os viajantes a diminuir o passo.
Carcará desmontou.
Seguiu conduzindo o cavalo pelas rédeas.
Gostava de caminhar quando o terreno mudava.
As botas conversam com o chão de um jeito que cavalo nenhum consegue compreender.
Foi assim que encontrou a ponte.
Era estreita.
Construída com troncos antigos e sustentada por pilares de pedra cobertos de musgo.
Uma pequena placa de madeira, quase apagada pelo tempo, trazia apenas duas palavras.
Pega-Ligeiro.
O nome arrancou-lhe um sorriso.
— Quem será que inventa essas coisas...
Mal terminou a frase e escutou uma voz atrás de si.
— Quase sempre quem chega primeiro.
Virou-se rapidamente.
Sentado sobre o guarda-corpo da ponte estava um velho de chapéu largo, fumando um cachimbo tão gasto quanto a própria madeira.
— O senhor mora por aqui?
— Moro onde paro.
— É caixeiro?
— Hoje não.
Carcará aproximou-se.
Havia aprendido que alguns velhos respondiam melhor quando não se lhes fazia muitas perguntas.
Ficaram olhando o rio.
A água corria lentamente, sem pressa de alcançar lugar algum.
Depois de alguns minutos, o velho falou:
— Você anda carregando peso demais.
Carcará bateu de leve na coronha de Madalena.
— Está falando dela?
— Não.
— Então de quê?
O velho sorriu.
— Do homem que ainda acredita estar segurando essa arma.
A frase permaneceu entre os dois.
Carcará não respondeu.
O desconhecido levantou-se, bateu a cinza do cachimbo na pedra da ponte e apontou para o outro lado.
— Continue por esse caminho.
— Dá em Tomotôco?
— Dá.
— O senhor conhece a cidade?
— Conheço quem está esperando nela.
Carcará franziu a testa.
— Está me esperando?
O velho pareceu divertir-se.
— Não.
Fez uma pausa.
— Mas você está.
---
Em Tomotôco, a rotina insistia em parecer normal.
Era uma tentativa honesta.
Fracassava discretamente.
As pegadas que terminavam no centro da praça haviam sido apagadas durante a madrugada por uma chuva curta, daquelas que umedecem o chão sem convencer a terra de que realmente choveu.
Os moradores agradeceram.
Era mais confortável apagar um mistério do que conviver com ele.
Honesto, entretanto, lembrava perfeitamente o lugar onde as marcas terminavam.
Voltou ali logo cedo.
Permaneceu alguns minutos observando a praça vazia.
Nada.
Nem sinal.
Foi quando percebeu Boa Prosa sentado num banco, alimentando pardais com pequenos grãos de milho.
— O senhor sabia que a chuva viria?
— Sabia.
— Como?
Boa Prosa olhou para os pássaros.
— Eles chegaram antes.
Honesto respirou fundo.
Já desistira de esperar respostas comuns.
Sentou-se ao lado dele.
— Posso perguntar outra coisa?
— Já perguntou.
— Então posso fazer outra?
Boa Prosa riu.
— Deve.
Honesto apontou para o centro da praça.
— Quem deixou aquelas pegadas?
O homem permaneceu longo tempo em silêncio.
Depois respondeu sem retirar os olhos dos pardais.
— Um homem.
— Isso eu também sei.
— Não sabe.
— Como não?
Boa Prosa recolheu os últimos grãos que restavam na palma da mão.
Os pássaros voaram todos ao mesmo tempo.
Só então ele voltou o rosto para Honesto.
— Você viu pegadas.
Eu vi uma estrada chegando.
---
Ao cair da tarde, dois homens caminhavam em direção um ao outro sem saber.
Um atravessava a ponte do Pega-Ligeiro.
O outro deixava lentamente a praça de Tomotôco.
Entre eles havia léguas de distância.
Mas já não era a distância que importava.
O que realmente diminuía era o tempo.
Porque certas pessoas passam a vida procurando umas às outras.
Outras, sem perceber, passam a vida sendo procuradas.
E existe um instante raro em que essas duas viagens finalmente resolvem obedecer ao mesmo caminho.
Capítulo 15 — Madalena
Há objetos que pertencem ao homem.
Outros acabam possuindo quem os carrega.
Ninguém em Porto Seco perguntava de onde viera Madalena. Depois de tantos anos, a origem pouco importava. O que interessava era o modo como Carcará tratava aquela velha Magnum. Nunca a exibia para intimidar, jamais a deixava sobre uma mesa para impressionar curiosos e, diferentemente de tantos pistoleiros da região, não cultivava o hábito de sacar a arma para encerrar discussões. Madalena aparecia apenas quando todas as outras possibilidades já haviam desistido.
Talvez fosse exatamente por isso que todos a temessem.
Na segunda noite de viagem rumo a Tomotôco, Carcará decidiu acampar junto a um velho umbuzeiro. O lugar era conhecido pelos tropeiros apenas como Descanso Comprido. Não havia povoado, venda nem abrigo; somente uma pequena nascente que insistia em sobreviver ao calor do sertão.
Enquanto preparava o café, retirou Madalena do coldre e começou, como fazia desde rapaz, a desmontá-la peça por peça.
Aquele ritual nunca fora aprendido com armeiro algum.
Aprendera sozinho.
Primeiro o tambor.
Depois a haste.
A mola.
Por fim o cano.
Não era apenas limpeza.
Era conversa.
Cada marca de desgaste lhe recordava uma estrada, um serviço, uma escolha da qual nunca mais conseguira se livrar completamente.
Foi então que encontrou algo estranho.
Havia um risco fino, quase invisível, próximo à boca do cano.
Carcará passou a unha sobre ele.
Não estava ali na última desmontagem.
Aproximou a arma do fogo para enxergar melhor.
O risco formava uma pequena linha curva.
Depois outra.
Até desenhar algo parecido com uma letra.
Não.
Parecia um caminho.
Franziu a testa.
Girou a peça contra a luz.
O desenho desapareceu.
Voltou a enxergar apenas aço.
Permaneceu longo tempo imóvel.
Não acreditava em assombrações.
Também não acreditava que o metal resolvesse desenhar estradas durante a madrugada.
Mesmo assim, remontou a arma com mais cuidado do que de costume.
Na manhã seguinte, antes mesmo de o sol vencer a cerração baixa que cobria o campo, encontrou um velho ferrador trabalhando à porta de uma oficina improvisada.
Parou apenas para ferrar o cavalo.
O homem fez o serviço em silêncio.
Quando terminou, limpou as mãos no avental e apontou para Madalena.
— Ela está cansada.
Carcará sorriu.
— Quem?
— A arma.
— Ferro não cansa.
O velho levantou os olhos.
— Não.
Fez uma breve pausa.
— Mas memória cansa.
Carcará permaneceu olhando para ele.
Já perdera a conta de quantas pessoas desconhecidas pareciam saber mais sobre Madalena do que deveriam.
— O senhor conhece essa arma?
O ferrador respondeu enquanto recolhia as ferramentas.
— Não.
Conheço o homem que a fez.
O silêncio que se seguiu pareceu alongar a manhã.
— Ainda vive?
— Não.
— Então como sabe?
O velho apoiou uma das mãos sobre a cabeça do cavalo.
— Porque certas obras continuam conversando quando o artesão já foi embora.
Sem acrescentar outra palavra, entrou na oficina.
Carcará esperou alguns instantes.
Depois desmontou do cavalo e entrou também.
Não havia ninguém.
A porta dos fundos permanecia fechada.
As janelas, cobertas por tábuas antigas.
A oficina possuía apenas uma entrada.
Ainda assim, o ferrador desaparecera.
Carcará saiu lentamente.
Olhou a estrada.
Nenhuma pegada recente.
Apenas o vento.
Montou novamente.
Durante o restante da viagem, pela primeira vez em muitos anos, deixou de pensar em quem poderia encontrar adiante.
Passou a pensar em quem estivera caminhando atrás dele desde o começo.
Enquanto isso, em Tomotôco, Honesto voltava pela quarta vez ao espelho de Certeza Profunda.
Não pretendia olhar o próprio reflexo.
Queria compreender por que aquele objeto parecia conhecer as pessoas antes que elas mesmas.
Encontrou Boa Prosa sentado diante dele, lendo um livro sem título.
— Posso fazer uma pergunta?
O homem fechou cuidadosamente o volume.
— Você já fez muitas.
— Essa é diferente.
— São sempre as diferentes que importam.
Honesto respirou fundo.
— O espelho mostra o futuro?
Boa Prosa sorriu.
— Não.
— O passado?
— Também não.
— Então o que ele mostra?
Boa Prosa levantou-se.
Retirou lentamente o pano escuro.
O espelho refletia apenas os dois.
Nada mais.
— Ele mostra aquilo que continua igual... enquanto o tempo muda tudo ao redor.
Honesto permaneceu em silêncio.
Boa Prosa tornou a cobrir o espelho.
— É por isso que quase ninguém suporta olhar durante muito tempo.
Naquele mesmo instante, sem que qualquer um deles pudesse saber, Carcará cruzava o último morro antes da região de Tomotôco.
Faltavam poucas horas para que os dois homens finalmente respirassem o mesmo ar.
E, quando isso acontecesse, nenhum deles compreenderia que não estava encontrando um desconhecido.
Cada um deles encontraria a parte da própria história que passara a vida inteira imaginando pertencer a outra pessoa.
Capítulo 16 — Morte Lenta, Morena e Caranguejeira
Existem encontros que aproximam pessoas.
Outros apenas revelam que elas já estavam caminhando uma em direção à outra muito antes de se conhecerem.
Carcará costumava pensar pouco nessas coisas. Gostava da objetividade das estradas. Caminho era caminho. Poeira era poeira. Homem era homem. A vida parecia suficientemente complicada sem que se inventassem significados para cada curva.
Ainda assim, desde que deixara Porto Seco, nada seguia obedecendo à simplicidade que sempre encontrara no mundo.
As pessoas sabiam o nome de Madalena.
Velhos desapareciam no meio de uma conversa.
Estradas pareciam escolhê-lo antes que ele decidisse por elas.
E agora, ao descer a última serra antes da Região de Lugar Nenhum, avistou novamente Vida-Curta.
A taberna surgia ao lado da estrada como se nunca tivesse pertencido ao lugar, mas ao próprio caminho. Não parecia construída; parecia ter crescido ali com a mesma naturalidade das pedras e das árvores.
Carcará amarrou o cavalo no mourão da varanda.
Entrou.
O salão estava quase vazio.
Dois tropeiros discutiam o preço do sal.
Um rapaz dormia apoiado sobre os braços.
Num canto, Zóio-Torto bebia café olhando pela janela, como se acompanhasse alguém invisível caminhando pela estrada.
Morte-Longa aproximou-se.
— Vai comer?
— Se tiver comida.
Ela sorriu.
— Ainda bem que pediu isso.
Poucos minutos depois colocou sobre a mesa um prato simples.
Feijão.
Carne de panela.
Farinha grossa.
Sem perguntar, serviu também um copo de café.
Carcará comeu em silêncio.
Era uma comida estranhamente familiar, embora tivesse certeza de jamais haver estado ali.
Quando terminou, aproximou-se do balcão para pagar.
Zóio-Torto falou antes.
— A conta já foi acertada.
Carcará virou-se.
— Por quem?
— Pela estrada.
O rapaz soltou uma breve risada.
— Então a estrada anda rica.
— Não.
Respondeu o velho.
— Anda cobrando depois.
A frase não parecia ameaça.
Também não parecia conselho.
Era apenas uma constatação.
Carcará deixou algumas moedas sobre o balcão mesmo assim.
Morte-Longa empurrou-as de volta.
— Aqui ninguém paga duas vezes pela mesma refeição.
Ele desistiu de insistir.
Enquanto se preparava para sair, percebeu um velho mapa preso à parede.
Ao contrário dos mapas comuns, aquele não indicava rios, montanhas nem cidades.
Mostrava apenas estradas.
Todas convergiam para um mesmo ponto.
Tomotôco.
Carcará aproximou-se.
— Está errado.
Zóio-Torto respondeu sem olhar.
— Está adiantado.
---
Na mesma manhã, Honesto ajudava Zé do Carvão a descarregar um carro de mantimentos vindos de Para-Abaixo.
O velho observava o rapaz trabalhar.
Havia algo diferente.
Desde que começara a frequentar Certeza Profunda, Honesto falava menos.
Curiosamente, parecia escutar mais.
Até os movimentos haviam mudado.
Não perdera a ironia.
Perdera apenas a pressa.
— Está doente?
Honesto ergueu a cabeça.
— Não.
— Então por que anda tão quieto?
— Porque comecei a desconfiar que metade das respostas da cidade depende das perguntas erradas.
Zé apoiou um saco de milho no chão.
— Isso foi o homem da feira que disse?
— Não.
— Então quem?
Honesto demorou alguns segundos.
— Acho que fui eu.
O velho sorriu satisfeito.
Era a primeira vez que via aquele rapaz responder sem tentar vencer a conversa.
---
Ao meio-dia, Pedaço de Lenha encontrou Honesto sentado na praça.
Não fazia nada.
Apenas observava o movimento.
Sentou-se ao lado dele.
— Posso perguntar uma coisa?
— Pode.
— Você ainda vai embora daqui algum dia?
Honesto demorou a responder.
Olhava distraidamente para o sexto caminho.
— Sempre achei que sim.
— E agora?
Ele sorriu.
— Agora acho que alguma coisa chegou antes de mim.
Ela acompanhou seu olhar.
— A feira?
— Não.
— Então o quê?
Honesto respirou fundo.
— Ainda não sei dar nome.
Pedaço de Lenha permaneceu calada.
Percebeu que aquela resposta era mais honesta do que qualquer outra que já ouvira dele.
---
No fim da tarde, um cavaleiro surgiu na entrada da cidade.
As crianças correram primeiro.
Depois os curiosos.
Era comum tropeiros passarem por Tomotôco.
Mas havia algo naquele homem que chamava atenção antes mesmo que seu rosto pudesse ser distinguido.
Montava ereto.
Sem arrogância.
Sem medo.
Como quem atravessa uma estrada porque ela existe, e não porque deseja chegar logo ao destino.
Jubiscreudo estreitou os olhos.
— Conhecem?
Ninguém respondeu.
O cavaleiro desmontou lentamente.
Prendeu o animal junto ao velho bebedouro.
Passou os olhos pela praça.
Pela igreja.
Pela venda.
Pela feira.
Quando seus olhos encontraram o grande portal de Certeza Profunda, permaneceram ali por alguns instantes.
Boa Prosa, parado à entrada da feira, retirou discretamente o chapéu.
Os dois homens não trocaram palavra alguma.
Não era necessário.
Havia reconhecimento.
Não entre pessoas.
Entre acontecimentos.
Honesto saía da venda exatamente naquele instante.
Os dois ficaram frente a frente pela primeira vez.
Nenhum deles disse o próprio nome.
Carcará apenas perguntou, apontando para o portal:
— O espetáculo já começou?
Honesto olhou para Boa Prosa.
Depois voltou os olhos para o desconhecido.
Respondeu com uma tranquilidade que nem ele sabia possuir:
— Acho que começou faz muito tempo.
Boa Prosa sorriu.
Pela primeira vez desde que a feira chegara a Tomotôco, o sorriso não parecia dirigido a ninguém em particular.
Parecia dirigido à própria história.
Porque algumas páginas levam centenas de quilômetros para finalmente se encontrarem.
E, quando isso acontece, o livro inteiro muda de direção sem precisar virar uma única folha.
Capítulo 17 — As Feras de Lugar Nenhum
Os homens costumam imaginar que o mal chega disfarçado.
Nem sempre.
Às vezes ele faz exatamente o contrário.
Anuncia a própria chegada.
Bate à porta.
Pergunta quem manda.
Espera resposta.
Foi assim que começou a história que transformaria Carcará numa lenda muito antes de fazê-lo compreender por que caminhava em direção a Tomotôco.
Até então, o episódio sobrevivia apenas como um causo repetido nas rodas de conversa de Porto Seco. Cada narrador acrescentava um exagero, retirava outro e, ao final, ninguém sabia onde terminava a lembrança e começava a imaginação.
Mas os fatos, quando despidos da espuma das palavras, haviam sido suficientemente extraordinários por si mesmos.
---
Porto Seco era a última cidade antes dos Portões do Sul.
Ninguém sabia quem os construíra.
Também não havia registro de quando apareceram.
Estavam ali desde antes da memória dos mais velhos, enormes, de pedra escura, sempre abertos, sempre silenciosos.
Do outro lado começava uma região chamada apenas de Sul.
Os mais antigos preferiam outro nome.
Lugar Nenhum de Baixo.
Pouquíssimos atravessavam aqueles portões.
Menos ainda voltavam.
A explicação variava conforme o narrador.
Uns diziam que o caminho enlouquecia o viajante.
Outros juravam que a terra mudava de posição durante a noite.
Havia até quem afirmasse que o problema não era entrar.
Era continuar sendo a mesma pessoa quando se saía.
Carcará nunca dera importância às histórias.
Trabalhava em Porto Seco havia anos.
Passava frequentemente diante dos portões.
Jamais sentira curiosidade suficiente para atravessá-los.
Aprendera que certas perguntas envelhecem melhor quando permanecem sem resposta.
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Naquela manhã o calor chegou cedo.
As ruas estavam cheias.
Mercadores descarregavam carroças.
Pescadores retornavam da costa.
Crianças perseguiam galinhas pela praça.
Nada anunciava mudança alguma.
Foi Gemírico quem percebeu primeiro.
O menino vendia frutas próximo aos portões.
Enquanto organizava as cestas, notou três figuras surgindo lentamente do outro lado.
Não caminhavam depressa.
Também não demonstravam qualquer receio.
Atravessaram o grande arco de pedra como quem retorna para casa.
Cada homem conduzia uma corrente grossa.
Na extremidade de cada corrente vinha uma criatura.
As pessoas demoraram alguns segundos para compreender o que estavam vendo.
Não eram cães.
Nem onças.
Nem qualquer animal conhecido.
Tinham altura suficiente para olhar um cavalo de frente.
Os corpos lembravam felinos.
As patas pareciam feitas para esmagar pedra.
Os olhos...
Os olhos não carregavam raiva.
Carregavam fome.
Uma fome antiga.
Como se há muito tivessem esquecido a diferença entre caçar e destruir.
O primeiro homem ergueu a voz.
— Quem é o rei?
Ninguém respondeu.
Não por prudência.
Por incapacidade.
O segundo abriu um sorriso.
— Vou soltar as três cabeças do diabo.
Alguns moradores começaram a recuar.
Outros permaneceram imóveis.
O terceiro homem, aquele que parecia liderar os demais, limitou-se a mover dois dedos.
As correntes caíram.
---
As três feras partiram ao mesmo tempo.
Não atacaram quem estava mais perto.
Nem quem gritava mais alto.
Corriam como se obedecessem a um chamado invisível vindo do centro da cidade.
A primeira atravessou um curral.
Uma única mordida bastou para derrubar um boi.
A segunda lançou-se contra um carroção carregado de madeira, espalhando tábuas, rodas e homens pela rua.
A terceira seguia reta.
Sem desviar.
Sem hesitar.
Foi então que Gemírico fez aquilo que mudaria toda a história.
Apanhou uma pedra.
Pequena.
Ridiculamente pequena.
Atirou-a.
A pedra acertou o flanco da criatura.
Não causou dor.
Chamou atenção.
A fera voltou lentamente a cabeça.
Encontrou o menino.
Gemírico correu.
Correu como nunca correra.
As ruas pareciam estreitas demais.
As pernas curtas demais.
A respiração insuficiente.
A poucos metros dali, sentado à porta de uma pequena oficina, Carcará desmontava Madalena para limpeza.
Tinha voltado de Ponte Curta menos de duas horas antes.
Fora visitar Morena.
Pretendia permanecer alguns dias.
Não permaneceu nem uma tarde.
Caranguejeira, irmão da moça, transformara uma conversa banal numa discussão sem propósito.
Carcará simplesmente montou no cavalo e voltou para Porto Seco.
Mais tarde concluiria que aquele desentendimento talvez lhe tivesse salvado a vida.
Ou condenado.
Depende do ponto de vista.
Gemírico surgiu na esquina praticamente sem tocar o chão.
Atrás dele vinha a fera.
O salto aconteceu quando ainda faltavam quase dez metros.
Quem assistiu jurou que o animal já caía sobre o menino.
Gemírico fechou os olhos.
Foi então que tropeçou.
Não numa pedra.
Nos pés de Carcará.
— Seu Carcará!
A voz saiu quebrada pelo desespero.
— Me ajuda!
Carcará levantou-se sem qualquer movimento brusco.
Segurou Madalena.
Girou lentamente o tambor.
Não havia medo.
Também não havia coragem.
Existia apenas uma precisão adquirida por quem compreendeu que certas decisões precisam acontecer antes que o pensamento tente atrapalhá-las.
Apontou.
Disparou.
O estampido atravessou Porto Seco como se o próprio céu tivesse rachado.
Durante muitos anos discutiu-se o que ocorreu naquele instante.
Alguns afirmavam que o tempo parou.
Outros garantiam ter visto o ar dobrar-se diante do projétil.
Uma velha jurou que centenas de borboletas brancas cruzaram a praça exatamente antes do impacto, como se fugissem de alguma coisa que ainda não chegara.
Carcará nunca comentou nenhuma dessas versões.
Só se lembrava da fera.
Ainda no ar.
E, um segundo depois, já não inteira.
O projétil atravessou-lhe o peito com tamanha violência que o corpo se abriu antes de tocar o chão.
Metade tombou sobre a rua.
A outra desapareceu entre os telhados.
O silêncio que veio depois pareceu maior do que o tiro.
Até as outras duas criaturas interromperam a corrida.
Os três homens permaneceram imóveis.
O líder olhou demoradamente para Carcará.
Depois para Madalena.
Perguntou com absoluta serenidade:
— Quantas balas ainda restam?
Carcará olhou para o tambor do revólver.
Voltou os olhos para o desconhecido.
E respondeu sem elevar a voz.
— O suficiente para fazer as estrelas escorregarem.
Naquele instante, sem que ninguém em Porto Seco pudesse compreender, Boa Prosa interrompeu uma conversa em Tomotôco.
Ergueu lentamente a cabeça.
Sorriu de leve.
Como quem finalmente escuta, ao longe, um sino cuja primeira badalada esperava havia muitos anos.
Porque algumas histórias não começam quando são contadas.
Começam quando duas histórias diferentes pronunciam, ao mesmo tempo, a mesma verdade.
Capítulo 18 — O Tiro das Borboletas
As lendas possuem um defeito curioso.
Elas nunca terminam onde o fato terminou.
Continuam caminhando sozinhas.
Cada pessoa que as escuta acrescenta um detalhe, remove outro, muda um gesto, altera uma palavra, até que, muitos anos depois, a verdade já não consegue reconhecer o próprio rosto.
Foi exatamente isso que aconteceu com o disparo de Carcará.
Antes do pôr do sol, Porto Seco inteiro já contava a história.
Antes da meia-noite, ela atravessara as fazendas da costa.
Dois dias depois alcançava Ponte Curta.
Em menos de uma semana chegava às primeiras casas da beira da estrada.
Quando finalmente entrou na Região de Lugar Nenhum, ninguém mais falava de um homem que matara uma fera.
Falava-se de um tiro que dividira o próprio medo.
Os mais antigos juravam que a bala jamais encontrara o animal.
Atravessara primeiro o pavor dos homens.
Só depois atravessara a carne.
Era uma explicação absurda.
Justamente por isso sobrevivia melhor do que qualquer outra.
---
Em Porto Seco, porém, ninguém comemorava.
Os dois animais restantes haviam desaparecido juntamente com os três homens.
Não deixaram rastros.
Nem corpos.
Nem pegadas.
Como se jamais houvessem atravessado os Portões do Sul.
O prefeito reuniu os moradores ainda naquela noite.
— Fecharemos os portões.
Um velho pescador levantou-se lentamente.
— Nunca foram fechados.
— Então serão agora.
O ancião balançou a cabeça.
— Quem construiu aqueles portões nunca colocou tranca.
Não somos nós que vamos inventá-la.
A discussão prolongou-se até o amanhecer.
Nenhuma decisão foi tomada.
Às vezes, quando um problema é grande demais, os homens preferem debatê-lo até que o tempo faça o trabalho de esquecê-lo.
Carcará permaneceu distante.
Sentado na mesma oficina onde limpara Madalena poucas horas antes.
O revólver repousava desmontado sobre a bancada.
Pela primeira vez em muitos anos ele não conseguia remontá-lo imediatamente.
As mãos obedeciam.
O pensamento, não.
Continuava vendo as borboletas.
Nunca acreditara nelas.
Ainda assim...
Também nunca acreditara que um projétil pudesse partir um animal daquele tamanho.
Na dúvida, decidiu não confiar completamente nem na memória.
---
Gemírico apareceu antes do amanhecer.
Carregava um embrulho pequeno.
Parou diante da oficina.
— Seu Carcará...
O homem ergueu os olhos.
O menino colocou o embrulho sobre a bancada.
Dentro havia apenas um pedaço de pano branco.
— Minha mãe mandou.
— O que é?
— Ela disse que todo homem que salva outra vida precisa levar um pedaço de casa junto.
Carcará sorriu discretamente.
Era um sorriso raro.
Guardou o pano dentro do alforje.
— Diga a ela que agradeço.
Gemírico permaneceu parado.
Parecia querer perguntar alguma coisa.
Criou coragem.
— O senhor ficou com medo?
Carcará demorou.
Olhou para Madalena.
Depois para o menino.
— Fiquei.
Gemírico arregalou os olhos.
— Mas o senhor nem tremeu.
— Medo não faz barulho.
A resposta acompanharia o garoto pelo resto da vida.
---
Muito longe dali, em Tomotôco, Boa Prosa caminhava sozinho entre as barracas da feira.
O movimento diminuíra.
A noite caía lentamente.
Parou diante do grande espelho.
Retirou o pano.
Pela primeira vez desde que Certeza Profunda chegara à cidade, não apareceu reflexo algum.
O vidro mostrava apenas uma estrada.
Vazia.
Boa Prosa observou-a longamente.
— Está vindo.
A voz surgiu atrás dele.
Era o Cego que Vê.
Ninguém o ouvira entrar.
Aliás, quase ninguém jamais o via chegar.
Boa Prosa tornou a cobrir o espelho.
— Sempre esteve.
O velho aproximou-se.
Passou delicadamente a mão sobre a moldura.
— Ainda acredita que conseguirá mudar alguma coisa?
Boa Prosa sorriu.
— Não.
— Então por que continua?
— Porque a história também precisa tentar.
O Cego que Vê permaneceu alguns instantes em silêncio.
Depois respondeu com uma serenidade quase triste.
— As histórias nunca tentam.
Elas apenas revelam aquilo que os homens passaram a vida tentando esconder.
---
Na manhã seguinte, Carcará atravessou definitivamente os limites de Porto Seco.
Não olhou para trás.
Nunca tivera o hábito de despedir-se das cidades.
Acreditava que certos lugares continuavam vivendo melhor quando não eram transformados em saudade.
Enquanto o cavalo seguia pela estrada principal, retirou do alforje o pequeno pano branco entregue por Gemírico.
Havia algo bordado num dos cantos.
Uma única borboleta.
Carcará sorriu pela segunda vez em dois dias.
Dobrou cuidadosamente o tecido.
Guardou-o junto de Madalena.
Sem perceber, colocava lado a lado duas coisas que julgava completamente diferentes.
Uma lembrava a morte.
A outra, a vida.
Mas o caminho que agora percorria começava lentamente a ensinar-lhe uma verdade que Tomotôco já aprendia havia algum tempo.
Não é a arma que decide um disparo.
Nem a mão que aperta o gatilho.
Toda bala começa muito antes do estampido.
Assim como toda salvação começa muito antes do homem imaginar que precisará dela.
E era justamente esse começo que, silenciosamente, caminhava ao encontro de Honesto.
Livro IV — A Convergência
Capítulo 19 — Quem é o Rei?
Existem perguntas que procuram uma resposta.
Outras procuram um homem.
A diferença entre elas raramente é percebida no instante em que são pronunciadas. Só muitos anos depois alguém compreende que a pergunta nunca esteve interessada naquilo que parecia perguntar.
"Quem é o rei?"
Desde o ataque em Porto Seco, essa frase acompanhava Carcará como uma cantiga que insiste em permanecer na memória depois que a música termina. Não importava a distância percorrida, nem quantas conversas tivesse desde então. Em algum momento do dia ela voltava.
Quem é o rei?
Ele tentava responder de maneira simples.
O governador.
Algum coronel.
Um homem rico.
O sujeito mais forte.
Nenhuma resposta permanecia de pé por muito tempo.
A pergunta parecia rejeitar todas elas.
Era como se procurasse outra espécie de realeza.
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Tomotôco acordou coberta por uma neblina rara.
Naquela região o frio nunca durava muito, mas bastava uma madrugada diferente para alterar completamente o humor da cidade.
As crianças demoraram a sair de casa.
Os velhos passaram mais tempo diante do café.
Até Dona Língua-Grande falava baixo, como se receasse acordar alguém que não estava dormindo.
A Feira dos Fins permanecia aberta.
Mesmo envolta pela névoa.
As barracas surgiam apenas quando alguém se aproximava delas.
De longe pareciam dissolver-se no branco.
Honesto caminhava lentamente pela praça quando percebeu uma figura sentada nos degraus da igreja.
Era o Cego que Vê.
Pela primeira vez o encontrava dentro da cidade.
Parou diante dele.
O velho mantinha o rosto voltado para a torre do sino.
— Achei que o senhor nunca viesse até aqui.
O Cego sorriu.
— Eu também.
Honesto sentou-se ao seu lado.
Durante alguns minutos permaneceram escutando apenas o vento.
Depois perguntou:
— Posso fazer uma pergunta?
— Pode.
— O senhor realmente enxerga?
O velho demorou um pouco antes de responder.
— Menos do que gostaria.
A resposta fez Honesto rir.
Era a primeira vez, desde a chegada da feira, que ria sem ironia.
O Cego voltou o rosto em sua direção.
— Agora faça a pergunta verdadeira.
O rapaz ficou sério.
Baixou os olhos.
Pensou.
E percebeu que, desde menino, jamais fizera aquela pergunta em voz alta.
— Como alguém sabe quem realmente é?
O velho passou lentamente a mão sobre o degrau de pedra onde estavam sentados.
— Quando deixa de perguntar aos espelhos.
Honesto permaneceu calado.
Não insistiu.
Já começava a aprender que certas respostas precisavam de silêncio para continuar falando.
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Na estrada, Carcará encontrou uma pequena procissão.
Não religiosa.
Eram lavradores conduzindo uma imagem antiga de madeira que seria restaurada na capital.
Ao vê-lo aproximar-se, um dos homens pediu ajuda para atravessar um trecho alagado.
Carcará desmontou.
Empurrou a carroça.
Quando terminaram, o mais velho agradeceu.
— Deus lhe pague.
Carcará sorriu.
— Não fiz quase nada.
O homem apoiou a mão sobre a imagem coberta por um pano.
— Quase tudo o que sustenta o mundo parece pequeno para quem olha de perto.
Seguiram juntos durante algumas léguas.
Conversaram pouco.
Foi o suficiente.
Ao despedirem-se, o velho perguntou:
— Está indo para Tomotôco?
— Estou.
— Então chegará antes da noite.
Fez uma pausa.
— Se a cidade ainda estiver no mesmo lugar.
Carcará olhou intrigado.
O homem apenas sorriu e continuou viagem.
Desde que deixara Porto Seco, já perdera a conta de quantas pessoas falavam de Tomotôco como quem descreve uma cidade e um acontecimento ao mesmo tempo.
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Em Mal-Fazer, Coisa Ruim fechou o Livro das Apostas.
Não por falta de interessados.
Pelo contrário.
As pessoas continuavam chegando.
Mas o prefeito compreendia que algumas apostas precisam terminar antes de serem vencidas.
Não Tenho Pena observou o gesto.
— Encerramos?
— Encerramos.
— E se aparecer mais alguém?
Coisa Ruim passou a mão sobre a capa escura do livro.
— Quem chega depois não aposta.
Paga.
O secretário não gostou da frase.
Ela lhe pareceu menos uma previsão e mais uma lembrança.
Foi então que um menino entrou correndo na prefeitura.
Sem fôlego.
— Prefeito!
— O que foi?
— Um homem chegou em Tomotôco.
Coisa Ruim ergueu lentamente a cabeça.
— Qual homem?
— Não sei.
Dizem que carrega um revólver enorme.
O silêncio instalou-se na sala.
Não Tenho Pena foi o primeiro a falar.
— É ele?
Coisa Ruim não respondeu imediatamente.
Foi até a janela.
Olhou a estrada.
Muito distante, quase perdida entre a poeira do horizonte, uma nuvem avançava lentamente.
— Não.
Disse por fim.
— É o tiro.
O homem vem depois.
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No final da tarde, Carcará alcançou o último morro.
Lá de cima avistou Tomotôco inteira.
A igreja.
A praça.
A venda.
As primeiras casas.
E, destacando-se acima de tudo, um grande portal de madeira onde duas palavras podiam ser lidas mesmo à distância.
CERTEZA PROFUNDA.
Carcará permaneceu imóvel.
Nunca ouvira falar daquele portal.
Mesmo assim teve a estranha sensação de reconhecê-lo.
Como acontece quando reencontramos uma pessoa vista apenas em sonho.
Enquanto observava a cidade, Boa Prosa surgiu à entrada da feira.
Também olhava para o alto do morro.
Entre os dois havia quase um quilômetro.
Nenhum poderia distinguir o rosto do outro.
Ainda assim, ambos retiraram lentamente o chapéu.
Como fazem dois homens que acabam de compreender que o verdadeiro encontro nunca acontece quando os corpos se aproximam.
Acontece quando duas histórias, escritas muito antes de seus autores nascerem, finalmente alcançam a mesma página.
E, naquele fim de tarde, pela primeira vez desde o início do romance, o narrador compreendeu que já não contava duas histórias.
Contava apenas uma.
Capítulo 20 — O Chamado de Certeza Profunda
Ninguém percebe exatamente quando uma cidade deixa de ser cenário e passa a agir como personagem.
Tal transformação não acontece por causa das casas, nem das ruas ou dos habitantes. O que muda é outra coisa. Os acontecimentos deixam de utilizar o lugar apenas como passagem e começam a obedecer ao ritmo dele. A cidade passa a escolher quem entra, quem permanece e, sobretudo, quem ainda não está preparado para partir.
Tomotôco alcançara esse instante.
Carcará desceu o último trecho do morro sem qualquer pressa. O cavalo parecia conhecer o caminho melhor do que ele próprio, diminuindo naturalmente o passo à medida que as primeiras casas surgiam. Havia cidades que recebiam o viajante com poeira, outras com cães latindo ou crianças correndo ao lado da montaria. Tomotôco recebeu-o com silêncio.
Não um silêncio vazio.
Um silêncio atento.
As janelas permaneciam abertas.
As portas também.
As pessoas observavam discretamente aquele homem alto, chapéu de couro gasto, barba por fazer e um revólver cuja fama chegara antes do dono.
Carcará fingiu não perceber.
Desde cedo aprendera que o olhar curioso dos outros pesa menos quando não encontra resposta.
Ao alcançar a praça, desmontou.
Amarrou o cavalo junto ao velho bebedouro de pedra.
Passou lentamente a mão pelo pescoço do animal.
— Descansa um pouco.
O cavalo bufou, como se compreendesse mais do que a frase continha.
Foi então que percebeu Honesto atravessando a praça.
Os dois já haviam se visto na véspera.
Agora, sem a distância do primeiro encontro, podiam finalmente observar um ao outro.
Honesto foi o primeiro a falar.
— Dormiu bem?
Carcará sorriu discretamente.
— Melhor do que muita gente que mora aqui.
— Encontrou pouso?
— Encontrei estrada.
Honesto riu.
— Já conheceu Boa Prosa.
— Conheci?
— Está começando.
Os dois caminharam lado a lado até a venda de Zé do Carvão.
Não havia constrangimento.
Também não havia intimidade.
Era como se ambos reconhecessem uma familiaridade que ainda não possuíam explicação suficiente para chamar de amizade.
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Zé do Carvão preparou café para os dois.
Enquanto servia as canecas, estudava discretamente o recém-chegado.
Não era homem de formar opinião depressa.
Mesmo assim concluiu quase imediatamente que Carcará pertencia àquela espécie rara de gente que falava menos do que via.
Gostou disso.
— Então o senhor vem de Porto Seco?
— Venho.
— É verdade o que contam?
Carcará soprou o café.
— Contam muita coisa.
— Sobre as feras.
O viajante permaneceu alguns segundos olhando o líquido escuro dentro da caneca.
Depois respondeu:
— O animal era menor do que a história.
Zé do Carvão soltou uma gargalhada.
— Essa foi boa.
Honesto, entretanto, percebeu outra coisa.
Carcará respondera como alguém que desejava diminuir o próprio feito.
Não aumentá-lo.
Aquilo lhe pareceu mais interessante do que qualquer lenda.
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Na entrada da feira, Boa Prosa observava os dois pela janela de uma das barracas.
Morte-Longa aproximou-se silenciosamente.
— Vai chamá-los?
— Não.
— Então por que espera?
Boa Prosa retirou o chapéu e passou lentamente os dedos pela aba.
— Porque certas portas só se abrem quando dois homens chegam caminhando no mesmo passo.
Ela acompanhou seu olhar.
— E eles já chegaram?
— Ainda não.
— O que falta?
Boa Prosa sorriu.
— Um terceiro.
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Naquela tarde a feira parecia diferente.
Algumas barracas haviam desaparecido.
Outras ocupavam lugares novos.
Honesto já não estranhava.
Percebera havia dias que Certeza Profunda mudava discretamente de forma, como se acompanhasse o pensamento das pessoas.
Carcará, porém, notou imediatamente.
— Ela cresceu.
— Cresceu?
— Ontem aquele corredor não existia.
Honesto olhou na direção indicada.
Tinha certeza de que sempre estivera ali.
Boa Prosa surgiu atrás deles.
— A feira nunca aumenta.
Carcará voltou-se.
— Não?
— São as pessoas que finalmente começam a enxergar partes que antes atravessavam sem ver.
O viajante permaneceu observando o homem.
— O senhor fala como padre.
Boa Prosa sorriu.
— Não.
— Como filósofo?
— Também não.
Carcará cruzou os braços.
— Então quem é o senhor?
Boa Prosa demorou um instante.
— Sou aquele que abre a lona.
— E o espetáculo?
— Esse pertence aos que entram.
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Os três caminharam lentamente até o centro da feira.
Ali havia uma construção que Carcará ainda não conhecia.
Pequena.
Circular.
Sem portas.
Apenas seis colunas sustentando um teto de madeira escura.
No centro repousava um sino.
Antigo.
Enorme.
Jamais visto por Honesto.
Jamais ouvido por Boa Prosa.
Carcará aproximou-se.
Passou a mão sobre o bronze envelhecido.
Havia uma inscrição quase apagada.
"Não toca quem chama.
Toca quem responde."
O homem retirou lentamente a mão.
— Nunca vi um sino assim.
Boa Prosa respondeu quase num sussurro.
— Nem ele viu alguém como você.
Nesse instante o vento atravessou a estrutura.
O sino permaneceu imóvel.
Mesmo assim...
Um som grave espalhou-se por toda Tomotôco.
Não vinha do bronze.
Nem do ar.
Parecia nascer da própria terra.
Na praça, Padre Salva-Salva interrompeu a conversa.
O Cego que Vê ergueu lentamente a cabeça.
Zóio-Torto, muitos quilômetros distante, fechou a porta de Vida-Curta sem dizer palavra.
Em Mal-Fazer, Coisa Ruim interrompeu uma assinatura no Livro das Apostas.
E, junto aos Portões do Sul, onde tudo começara semanas antes, três corvos levantaram voo ao mesmo tempo.
Boa Prosa fechou os olhos.
Respirou profundamente.
Depois olhou para Honesto e Carcará.
Pela primeira vez sua voz perdeu qualquer traço de brincadeira.
— Agora começou.
Nenhum dos dois perguntou o que começara.
Ambos compreenderam, ainda que sem palavras, que certas histórias atravessam um ponto invisível a partir do qual já não pertencem aos homens que as vivem.
São elas que passam a conduzir os homens.
Capítulo 21 — O Rei, o Juiz e o Palhaço
Na manhã seguinte, ninguém comentou o sino.
Isso era o que mais assustava.
Se um trovão rasga o céu, fala-se dele durante dias. Se uma casa desaba, a cidade inteira interrompe a rotina. Mas quando um acontecimento importante demais encontra um homem despreparado, ele costuma agir como se absolutamente nada tivesse acontecido.
Tomotôco acordou assim.
As mulheres varriam as calçadas.
Zé do Carvão abriu a venda.
Padre Salva-Salva preparava a missa.
As crianças voltaram a correr pela praça.
Tudo igual.
Ou quase.
Havia um pequeno atraso em todos os movimentos, como se a cidade inteira precisasse de um segundo a mais para decidir cada gesto.
Honesto percebeu primeiro.
Uma criança tentou pegar uma bola.
Parou.
Olhou para ela.
Só depois a recolheu.
O padeiro levou a mão até a porta.
Hesitou.
Abriu.
Um cachorro latiu para um cavalo.
Silenciou no meio do latido.
Era pouco.
Mas acontecia com todos.
Como se o mundo tivesse começado a pensar antes de agir.
---
Carcará caminhava sozinho pela feira.
Boa Prosa não o acompanhava.
Também não parecia necessário.
O viajante atravessou corredores inteiros sem encontrar vendedor algum.
As barracas permaneciam abertas.
Mesmo assim, não havia quem chamasse fregueses.
Num dos corredores encontrou um homem vestido como palhaço.
Roupa colorida.
Sapatos enormes.
Nariz vermelho.
Sentado sozinho sobre um banco de madeira.
Não fazia malabarismos.
Não ria.
Nem parecia triste.
Apenas observava o movimento.
Carcará parou diante dele.
— O espetáculo acabou?
O homem sorriu.
— Ainda nem começou.
— Então por que está vestido assim?
O palhaço respondeu como quem comenta uma lembrança antiga.
— Porque toda corte precisa de alguém que possa dizer a verdade sem ser levado a sério.
Carcará permaneceu alguns segundos olhando para ele.
— E funciona?
O homem soltou uma pequena gargalhada.
— Nunca.
Depois acrescentou:
— Mas às vezes alguém escuta.
Quando Carcará voltou os olhos para o corredor, o banco estava vazio.
Não havia sinal do palhaço.
Nem pegadas.
Nem porta.
Apenas o silêncio.
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Na igreja, Padre Salva-Salva preparava a homilia quando percebeu um homem sentado no último banco.
Vestia roupas simples.
Chapéu escuro.
Mantinha os olhos fechados.
O padre aproximou-se.
— Posso ajudá-lo?
O desconhecido abriu lentamente os olhos.
— Talvez.
— Está procurando alguém?
— Sim.
— Quem?
O homem sorriu discretamente.
— Um juiz.
Padre Salva-Salva apontou para o altar.
— Aqui só há um.
O visitante levantou-se.
— Ainda não.
Passou pelo sacerdote.
Saiu da igreja.
O padre correu até a porta.
A praça permanecia vazia.
O homem desaparecera.
Naquele dia resolveu encurtar o sermão.
Não porque tivesse menos a dizer.
Porque começava a suspeitar que as palavras perderam parte da utilidade quando a realidade decide falar primeiro.
---
Honesto encontrou o Cego que Vê sentado junto ao velho bebedouro.
Levava nas mãos uma pequena pedra lisa.
Passava os dedos sobre ela como quem lê um livro.
— Posso sentar?
— Já sentou.
Honesto sorriu.
— O senhor sempre responde antes.
— Não.
— Não?
— Você sempre demora para perguntar.
O rapaz olhou para a pedra.
— O que o senhor está fazendo?
— Escutando.
— Pedra fala?
O velho balançou lentamente a cabeça.
— Não.
Fez uma pausa.
— Mas guarda.
Honesto permaneceu em silêncio.
Depois de algum tempo perguntou:
— Guarda o quê?
O Cego entregou-lhe a pedra.
Era comum.
Cinza.
Sem qualquer marca especial.
— Segure.
Honesto obedeceu.
— O que sente?
— Nada.
— Continue segurando.
Passaram-se alguns minutos.
O vento atravessou a praça.
O sino da igreja permaneceu imóvel.
Então Honesto respondeu quase sem perceber.
— Ela é quente.
O velho sorriu.
— Não.
— Não?
— Sua mão é.
Honesto baixou os olhos.
Pela primeira vez compreendeu que passara a vida inteira atribuindo às coisas aquilo que muitas vezes nascia nele próprio.
Guardou a pedra no bolso.
O Cego nada disse.
Sabia que algumas respostas precisam acompanhar o homem durante muitos quilômetros antes de começarem a fazer sentido.
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No fim da tarde, Boa Prosa reuniu Honesto e Carcará no centro da feira.
Sobre a velha mesa circular havia três objetos.
Uma coroa de ferro enferrujada.
Um pequeno martelo de madeira.
E um nariz vermelho de palhaço.
Nenhum deles parecia valioso.
Boa Prosa olhou primeiro para Honesto.
Depois para Carcará.
Por fim falou com uma serenidade quase solene.
— Todo homem, mais cedo ou mais tarde, encontra três figuras.
Passou a mão sobre a coroa.
— Aquele que deseja mandar.
Depois sobre o martelo.
— Aquele que deseja julgar.
Por último tocou o nariz vermelho.
— E aquele que compreende que ambos estão representando.
Carcará observava os três objetos.
Honesto fazia o mesmo.
Boa Prosa recolheu lentamente o nariz de palhaço.
Sorriu.
— Descubram qual dos três vocês têm alimentado.
Sem esperar resposta, afastou-se.
Os dois permaneceram diante da mesa.
Nenhum deles tocou na coroa.
Nenhum deles pegou o martelo.
Quando finalmente decidiram ir embora, perceberam que o nariz vermelho também desaparecera.
Como se jamais tivesse estado ali.
E talvez nunca tivesse.
Porque existem verdades que só aparecem enquanto alguém ainda é capaz de rir delas. Depois disso, deixam apenas o espaço vazio que ocupavam.
Capítulo 22 — A Dívida das Almas
As dívidas mais difíceis de pagar não são contraídas por necessidade.
São assumidas por distração.
Um homem promete uma visita que nunca faz, aceita um favor que julga pequeno, adia uma conversa importante, deixa para amanhã um pedido de perdão. Quando finalmente olha para trás, descobre que passou a vida inteira carregando compromissos cujo nascimento já não consegue recordar.
Coisa Ruim compreendia isso melhor do que qualquer tabelião da capital.
Por essa razão nunca dizia que administrava apostas.
Administrava pendências.
Naquela manhã abriu novamente o Livro.
Não para receber novos apostadores.
Apenas para reler os nomes.
Percorria cada página lentamente, como quem visita velhos conhecidos.
Alguns já haviam morrido.
Outros mudaram de cidade.
Vários sequer lembravam da assinatura que haviam deixado tantos anos antes.
Mesmo assim, os nomes permaneciam.
Não Tenho Pena aproximou-se com duas canecas de café.
— Ainda acredita que vão pagar?
Coisa Ruim aceitou a bebida sem desviar os olhos do Livro.
— Já estão pagando.
— Não entendi.
O prefeito fechou delicadamente a capa escura.
— Ninguém paga uma dívida apenas quando entrega alguma coisa.
Às vezes paga vivendo exatamente a vida que escolheu depois dela.
O secretário permaneceu em silêncio.
Era um raciocínio que lhe desagradava.
Preferia contas simples.
Moedas.
Recibos.
Juros.
Aquilo parecia escapar à matemática.
---
Enquanto isso, Tomotôco recebia visitantes como nunca acontecera em toda a sua história.
Chegavam homens de Para-Abaixo.
Famílias da beira da estrada.
Alguns curiosos vindos até da capital.
Quase todos afirmavam ter ouvido falar da feira.
Quando entravam, porém, percebiam rapidamente que não tinham vindo apenas por causa dela.
Haviam sido atraídos por outra coisa.
Uma sensação difícil de explicar.
Como se alguma pergunta antiga finalmente tivesse encontrado o endereço correto.
Honesto observava o movimento sentado diante da venda.
Carcará permanecia ao seu lado.
Os dois conversavam pouco.
A companhia entre eles dispensava esforço.
Depois de algum tempo, Honesto perguntou:
— Você acredita em destino?
Carcará demorou a responder.
Pegou uma pequena pedra do chão.
Lançou-a alguns metros adiante.
— Acredito em caminho.
— Não é a mesma coisa?
— Não.
Silêncio.
— Caminho existe.
Destino só aparece quando a gente olha para trás.
Honesto ficou pensando na resposta.
Percebeu que talvez toda explicação fosse construída ao contrário.
Primeiro os passos.
Depois o sentido.
---
Na feira, Boa Prosa encontrava-se diante do grande espelho.
Não havia ninguém por perto.
Retirou lentamente o pano.
Desta vez o vidro não refletia estrada alguma.
Mostrava apenas uma porta fechada.
Muito antiga.
Feita da mesma madeira escura do portal de entrada.
O Cego que Vê aproximou-se sem produzir ruído.
— Ela fechou?
Boa Prosa assentiu.
— A primeira.
— E a segunda?
— Ainda espera.
O velho passou a mão pela moldura.
— Quantas faltam?
Boa Prosa sorriu discretamente.
— Sempre menos do que imaginamos.
---
Naquela mesma tarde, Morte-Longa chegou a Tomotôco trazendo alguns mantimentos de Vida-Curta.
Encontrou Carcará conversando com Zé do Carvão.
Parou por um instante.
Observou-o em silêncio.
Depois aproximou-se.
— Zóio-Torto mandou um recado.
Carcará ergueu os olhos.
— Qual?
— Ele disse que você ainda não encontrou aquilo que veio procurar.
— E o que foi que eu vim procurar?
Morte-Longa deu um leve sorriso.
— Se eu soubesse, o recado seria meu.
Entregou-lhe um pequeno embrulho de pano.
Foi embora.
Dentro havia apenas uma chave antiga.
Grande.
Escurecida pelo tempo.
Carcará permaneceu imóvel.
Reconheceu-a imediatamente.
Era idêntica à que o velho caixeiro lhe mostrara dias antes.
Ou talvez fosse exatamente a mesma.
Não havia como saber.
Guardou-a no bolso sem comentar o assunto.
Do outro lado da praça, Honesto observava tudo.
— O que foi?
Carcará retirou a chave por um instante.
Mostrou-a.
— Já viu uma dessas?
Honesto arregalou os olhos.
Lentamente colocou a mão no próprio bolso.
Retirou outra.
Também antiga.
Também escurecida.
Também sem fechadura conhecida.
Os dois homens permaneceram olhando uma para a outra.
Nenhuma era igual.
Nenhuma era diferente.
Boa Prosa, parado à entrada da feira, assistia à cena de longe.
Sorriu.
Não porque as chaves existissem.
Mas porque, pela primeira vez, haviam aparecido ao mesmo tempo.
Alguns acontecimentos não servem para abrir portas.
Servem apenas para revelar que elas sempre estiveram ali, esperando pacientemente que alguém descobrisse possuir a chave.
E, naquele fim de tarde, duas delas finalmente haviam decidido reconhecer uma à outra.
Capítulo 23 — Madalena no Picadeiro
O homem quase nunca percebe o instante exato em que deixa de visitar um lugar e passa a pertencer a ele.
Até então, Carcará ainda se considerava um viajante.
Dormia em Tomotôco como quem dorme numa pousada entre duas jornadas. Conversava com os moradores sem criar raízes. Caminhava pelas ruas com a atenção de quem sabe que, mais cedo ou mais tarde, tornará a montar no cavalo e seguirá adiante.
Naquela manhã, porém, aconteceu uma coisa pequena.
E as pequenas coisas costumam escolher com muito cuidado o momento de alterar uma existência.
Ao despertar, encontrou Madalena fora do coldre.
Não sobre a mesa.
Não junto às botas.
Estava cuidadosamente apoiada sobre uma velha cadeira de madeira, voltada para a janela, como se durante a noite tivesse permanecido observando a praça.
Carcará permaneceu alguns segundos imóvel.
Depois sorriu de si mesmo.
Sabia perfeitamente que a deixara desmontada ao lado da cama.
Ainda assim, preferiu não procurar explicações.
Recolheu a arma.
Montou-a lentamente.
Quando encaixou a última peça, percebeu que o pequeno pano branco bordado com a borboleta, presente de Gemírico, desaparecera.
Revistou o quarto inteiro.
Nada.
Somente ao prender novamente Madalena ao cinturão notou um detalhe.
A borboleta estava agora gravada discretamente na coronha de madeira.
Não parecia desenho recente.
Parecia existir ali desde sempre.
---
Na praça, Boa Prosa mandava desmontar parte da feira.
Os moradores observavam preocupados.
— Vai embora?
— Ainda não.
— Então por que desmontar?
Boa Prosa apontou para o centro do terreno.
— Porque hoje precisamos de espaço.
Ninguém compreendeu.
Mesmo assim, ajudaram.
Ao meio-dia restava apenas um enorme picadeiro circular.
Sem arquibancadas.
Sem lona.
Somente um círculo de terra muito bem varrido.
No centro havia um único banco.
E nada mais.
As crianças estranharam.
Os adultos também.
Jamais haviam visto um espetáculo que começasse retirando tudo aquilo que normalmente existia num espetáculo.
---
Honesto aproximou-se.
— O que vai acontecer?
Boa Prosa olhou demoradamente para o círculo.
— Um julgamento.
— Mas cadê o juiz?
— Chega depois.
— E o réu?
Boa Prosa sorriu.
— Já chegou.
Honesto acompanhou o olhar do homem.
Carcará atravessava lentamente a praça.
Sem perceber, caminhava exatamente na direção do picadeiro.
---
Quando entrou no círculo de terra, um vento forte atravessou Tomotôco.
Não levantou poeira.
Não derrubou chapéus.
Parecia interessado apenas naquele espaço.
Carcará parou.
Olhou ao redor.
Todos os moradores permaneciam em silêncio.
Ninguém lhe dera ordem.
Mesmo assim, sentia que não deveria sair dali.
Boa Prosa aproximou-se apenas o suficiente para ser ouvido.
— Traga Madalena.
Carcará franziu a testa.
— Para quê?
— Ela também veio.
Pela primeira vez desde Porto Seco, o nome da arma provocou verdadeiro desconforto.
Retirou lentamente o revólver.
Segurou-o diante do peito.
Boa Prosa não o tocou.
Também não pediu que o entregasse.
Apenas perguntou:
— Há quanto tempo vocês caminham juntos?
Carcará permaneceu olhando para a arma.
Tentou calcular.
Não conseguiu.
Percebeu apenas que sua vida já não cabia numa lembrança onde Madalena não estivesse presente.
— Muito tempo.
Boa Prosa assentiu.
— Mais do que imagina.
Fez uma pausa.
Depois acrescentou:
— E quantas vezes ela decidiu por você?
Carcará ergueu os olhos imediatamente.
— Nunca.
Boa Prosa não respondeu.
Olhou apenas para Honesto.
O rapaz compreendeu.
A pergunta não era acusação.
Era convite.
---
Naquele instante, o Cego que Vê entrou lentamente no picadeiro.
Os moradores abriram passagem sem que ninguém pedisse.
O velho caminhou até o centro.
Estendeu a mão.
— Posso?
Carcará entregou-lhe Madalena.
O Cego percorreu lentamente a arma com as pontas dos dedos.
Não procurava mecanismo algum.
Parecia ler.
Quando terminou, devolveu-a.
— Ela pesa menos.
Carcará estranhou.
— Está dizendo que ficou mais leve?
— Não.
Respondeu o velho.
— Você ficou mais pesado.
Silêncio.
Os moradores não entendiam.
Honesto começava a entender.
Boa Prosa apenas observava.
---
Foi então que um menino atravessou correndo a praça.
Vinha sem fôlego.
Era um dos mensageiros que costumavam viajar entre as cidades da Região.
Parou diante de Gole de Pinga.
— Prefeito!
— O que houve?
O rapaz mal conseguia respirar.
— Mal-Fazer...
Todos voltaram o rosto.
— O prefeito Coisa Ruim...
Nova pausa.
— Está vindo para Tomotôco.
— Sozinho?
— Não.
O mensageiro engoliu em seco.
— Trouxe o Livro.
O vento cessou imediatamente.
Boa Prosa fechou os olhos por um breve instante.
O Cego que Vê apoiou a mão sobre o ombro de Carcará.
E Honesto compreendeu, antes mesmo que qualquer palavra fosse dita, que o verdadeiro julgamento ainda não acontecera.
Tudo aquilo fora apenas a convocação.
Porque nenhum homem é julgado primeiro por aquilo que fez.
É julgado pelo que decide fazer quando finalmente encontra a conta que acreditava esquecida.
Capítulo 24 — O Cego que Vê Carcará
O problema dos homens não é desconhecer a verdade.
É reconhecê-la tarde demais.
Quando o mensageiro anunciou a chegada de Coisa Ruim, ninguém voltou imediatamente aos afazeres. A praça permaneceu imóvel, como se a cidade inteira tivesse decidido prender a respiração.
Os mais velhos trocaram olhares discretos.
Os mais jovens perguntavam em voz baixa quem era aquele homem capaz de interromper o ritmo de Tomotôco apenas por estar a caminho.
Boa Prosa não demonstrou surpresa.
Apenas retirou o chapéu, limpou cuidadosamente a aba com a manga do casaco e tornou a colocá-lo na cabeça.
— Quanto tempo temos? — perguntou Gole de Pinga.
O rapaz fez rapidamente as contas.
— Se vier sem parar... antes do anoitecer.
Boa Prosa balançou afirmativamente a cabeça.
— Então ainda temos tempo para a única conversa que realmente importa.
Ninguém perguntou qual era.
O Cego que Vê voltou-se para Carcará.
— Venha comigo.
---
Os dois deixaram a praça sem qualquer cerimônia.
Honesto tentou acompanhá-los.
O velho levantou apenas um dedo.
— Ainda não.
O rapaz compreendeu.
Nem toda porta se abre para duas pessoas ao mesmo tempo.
Seguiram pelo sexto caminho.
Aquele sobre o qual ninguém jamais concordava.
A estrada parecia menor do que na véspera.
As árvores inclinavam-se sobre o caminho formando um corredor de sombra, embora o sol ainda estivesse alto. Nenhum pássaro cantava.
Carcará caminhava alguns passos atrás do velho.
Não por respeito.
Por necessidade.
Sentia que, pela primeira vez desde menino, alguém conhecia um destino que ele próprio ignorava.
Depois de quase meia hora chegaram a um pequeno descampado.
No centro havia apenas uma pedra.
Grande.
Lisa.
Gasta pelo tempo.
O Cego sentou-se.
Apalpou lentamente a superfície.
Sorriu.
— Ainda está aqui.
Carcará permaneceu em pé.
— O senhor já veio muitas vezes?
— Mais do que você imagina.
Silêncio.
Depois o velho perguntou:
— Quantos homens você matou?
Carcará não esperava a pergunta.
Olhou para o horizonte antes de responder.
— Não contei.
— Por quê?
— Porque alguns precisavam morrer.
O velho assentiu.
— Talvez.
Nova pausa.
— Quantos homens você salvou?
Carcará demorou ainda mais.
Pensou em Gemírico.
Pensou em tropeiros.
Pensou em desconhecidos cujos rostos já não lembrava.
Por fim respondeu:
— Também não contei.
O Cego sorriu.
— Ainda bem.
Carcará franziu a testa.
— Por quê?
— Porque quem conta uma coisa acaba transformando a outra em moeda de troca.
O vento atravessou lentamente o campo.
As folhas secas deslizaram sobre a pedra.
Foi então que o velho perguntou aquilo que realmente desejava saber.
— E de qual deles você ainda se lembra?
Carcará respondeu sem pensar.
— De todos.
O Cego baixou lentamente a cabeça.
— Não.
— Como não?
— Você lembra apenas daqueles diante dos quais ainda continua parado.
A frase permaneceu suspensa entre os dois.
Carcará percebeu, com um desconforto inesperado, que alguns rostos lhe surgiam imediatamente na memória.
Outros haviam desaparecido completamente.
Nunca notara essa diferença.
---
Em Tomotôco, Honesto permanecia sentado diante da feira.
Boa Prosa aproximou-se carregando duas canecas de café.
Entregou uma ao rapaz.
— Está preocupado?
— Estou.
— Com Carcará?
— Comigo.
Boa Prosa sorriu discretamente.
— Finalmente.
Honesto olhou para ele.
— O que quer dizer?
— Enquanto você se preocupava apenas com os outros, ainda estava escondido.
O rapaz permaneceu em silêncio.
Boa Prosa tomou um pequeno gole de café.
— Diga-me.
Você admira Carcará?
Honesto respondeu com sinceridade.
— Sim.
— Por causa da arma?
— Não.
— Então por quê?
Honesto demorou.
Depois respondeu quase envergonhado.
— Porque ele parece inteiro.
Boa Prosa apoiou lentamente a caneca sobre o banco.
— Esse é o maior engano que um homem pode cometer.
— Qual?
— Imaginar que alguém se tornou inteiro antes de terminar de quebrar.
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Na metade da tarde surgiu uma pequena nuvem de poeira na estrada de Mal-Fazer.
Os primeiros moradores a perceberem o movimento chamaram os demais.
Pouco a pouco, a praça voltou a encher-se.
Não havia cavaleiros numerosos.
Nem tropas.
Nem carroças.
Apenas um homem.
Vestia roupas escuras.
Conduzia um cavalo baio.
Atrás dele, preso por grossas correias de couro, seguia um baú comprido.
Quando finalmente alcançou a entrada da cidade, desmontou.
Retirou cuidadosamente o chapéu.
Olhou demoradamente para o portal de Certeza Profunda.
Depois para a igreja.
Por fim para os moradores.
Somente então falou.
— Coisa Ruim vem atrás.
Fez uma pausa.
— Eu vim na frente.
Boa Prosa caminhou até ele.
— Quem é você?
O desconhecido sorriu.
Um sorriso cansado.
— Sou o Escrivão.
Apontou para o grande baú.
— E trouxe os livros que ninguém mais queria abrir.
Naquele instante, muitos quilômetros adiante, o Cego que Vê levantava-se lentamente da pedra.
Voltou o rosto para Carcará.
— Vamos.
— Já?
— Já.
— Ainda não conversamos.
O velho sorriu.
— Conversamos desde que saímos da praça.
Carcará permaneceu olhando para ele.
O Cego apoiou delicadamente uma das mãos sobre Madalena.
Depois retirou-a.
— Ela não precisa mais falar por você.
Os dois retomaram a caminhada.
Sem que qualquer um deles soubesse, Tomotôco acabava de receber um homem cuja função não era escrever a história.
Era impedir que alguém a apagasse.
Capítulo 25 — O Último Espelho
Há espelhos que devolvem o rosto.
Outros devolvem o tempo.
O mais perigoso, porém, é aquele que devolve a ordem das coisas.
Porque, diante dele, o homem descobre que nunca caminhou sozinho; foi caminhado.
O Escrivão permaneceu alguns minutos ao lado do grande baú.
Ninguém se ofereceu para ajudá-lo.
Não porque fosse pesado.
Mas porque havia naquele objeto uma solenidade que afastava qualquer gesto impensado.
Boa Prosa aproximou-se primeiro.
Passou a mão sobre a madeira escurecida.
— Continua usando ferro?
— Madeira envelhece melhor.
Respondeu o Escrivão.
— O ferro lembra força.
A madeira lembra tempo.
Boa Prosa sorriu.
— Então trouxe o tempo.
— Trouxe o registro dele.
Atrás dos dois, os moradores começavam a formar uma roda silenciosa.
Nem mesmo Dona Língua-Grande ousava interromper.
Parecia compreender que certas histórias, quando chegam ao ponto decisivo, dispensam comentários.
O Escrivão abriu lentamente o baú.
Lá dentro não havia ouro.
Nem armas.
Nem documentos oficiais.
Apenas livros.
Centenas deles.
Grandes.
Pequenos.
Alguns quase desfeitos.
Todos sem título.
Honesto aproximou-se.
— O que são?
O homem respondeu sem erguer os olhos.
— Contabilidades.
— De quê?
— Daquilo que ninguém acredita estar escrevendo enquanto vive.
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No mesmo instante, Carcará e o Cego que Vê atravessavam o sexto caminho de volta para Tomotôco.
Nenhum dos dois falava.
Já não era necessário.
Foi Carcará quem interrompeu o silêncio.
— O senhor nunca respondeu uma pergunta.
— Qual delas?
— Quem é o rei?
O velho sorriu.
— Ainda está preso nela?
— Desde Porto Seco.
O Cego caminhou mais alguns metros.
Parou diante de uma velha figueira.
Apalpou lentamente o tronco.
— Diga-me...
Quando você apontou Madalena para aquela fera... quem mandou?
— Eu.
— Tem certeza?
Carcará permaneceu calado.
O velho continuou.
— O medo mandou?
— Não.
— A fama?
— Não.
— A raiva?
— Também não.
Nova pausa.
— Então por que atirou?
Carcará respondeu quase num sussurro.
— Porque o menino precisava continuar vivendo.
O Cego assentiu lentamente.
— Pois aí está.
— O quê?
— O rei.
Carcará franziu a testa.
— Não entendi.
O velho voltou a caminhar.
— Todo homem imagina que um rei seja aquele que obriga os outros a obedecer.
Sorriu.
— Os verdadeiros fazem exatamente o contrário.
Obedecem primeiro àquilo que merece ser salvo.
O vento atravessou lentamente a estrada.
Carcará permaneceu em silêncio durante todo o restante do caminho.
A pergunta finalmente encontrara uma resposta.
E, curiosamente, ela não apontava para um trono.
Apontava para uma criança.
---
Na praça, Boa Prosa conduziu Honesto até o grande espelho.
Pela primeira vez desde a chegada da feira, não havia pano algum cobrindo o vidro.
Todos podiam olhar.
Mesmo assim, ninguém se aproximava.
— Entre.
Disse Boa Prosa.
Honesto obedeceu.
Parou diante do espelho.
Esperava ver novamente o próprio rosto.
Não viu.
Também não viu estradas.
Nem árvores.
Nem o velho plantando sementes.
O espelho mostrava apenas Tomotôco.
Exatamente como estava.
A praça.
A igreja.
A venda.
As pessoas.
Boa Prosa apareceu ao seu lado.
— O que está vendo?
— A cidade.
— Olhe outra vez.
Honesto aproximou-se.
Só então percebeu.
Não havia ninguém.
As casas estavam vazias.
A igreja permanecia aberta.
A venda também.
Mas todas as ruas encontravam-se desertas.
— Onde estão as pessoas?
Boa Prosa respondeu serenamente.
— Onde sempre estiveram.
— Não entendi.
— Você passou a vida olhando para os nomes das cidades.
Nunca olhou para aqueles que lhes davam existência.
O espelho começou lentamente a escurecer.
Uma única imagem permaneceu visível.
O velho portal de entrada de Tomotôco.
Fechado.
Sobre ele surgia uma frase que ninguém escrevera.
"Toda cidade termina quando esquece quem lhe dá nome."
O vidro voltou a ser apenas vidro.
---
Nesse instante, Carcará entrou na praça.
Honesto voltou-se imediatamente.
Os dois permaneceram alguns segundos olhando um para o outro.
Boa Prosa afastou-se discretamente.
O Cego que Vê caminhou até o banco da igreja e sentou-se.
Era chegada a hora de os dois homens conversarem sem intermediários.
Carcará retirou do bolso a velha chave.
Honesto fez o mesmo.
Colocaram ambas sobre o banco de pedra.
As duas chaves deslizaram lentamente.
Não por ação de mãos.
Nem do vento.
Aproximaram-se sozinhas.
Quando finalmente se tocaram, ouviu-se um pequeno estalo metálico.
Não se fundiram.
Também não permaneceram separadas.
Agora formavam uma única peça.
Uma chave incompleta.
Boa Prosa sorriu.
— Como imaginei.
Honesto olhou para ele.
— Só existe metade?
— Não.
Respondeu.
— Sempre existiu uma terceira.
Nesse mesmo momento, ao longe, uma nova nuvem de poeira ergueu-se na estrada de Mal-Fazer.
Desta vez ninguém precisou perguntar quem vinha.
Até o silêncio parecia reconhecer o passo daquele cavalo.
Coisa Ruim finalmente chegava.
E, curiosamente, não era ele quem trazia o julgamento.
Era ele quem vinha prestar contas.
Capítulo 26 — O Fim que Volta ao Começo
Todo homem acredita que caminha em linha reta.
Nasce, cresce, trabalha, ama, perde, envelhece e morre. Vista de perto, a vida parece obedecer a essa sequência simples, como uma estrada que nunca abandona a direção escolhida.
É somente muito tarde que alguns descobrem a ironia.
As grandes estradas não terminam.
Curvam-se lentamente até alcançarem o próprio início.
Foi por isso que, quando Coisa Ruim entrou em Tomotôco, ninguém sentiu que um visitante chegava.
A impressão era exatamente a oposta.
Parecia que alguma coisa antiga finalmente retornava ao lugar de onde jamais deveria ter saído.
O cavalo avançava devagar.
Não havia soldados.
Nem bandeiras.
Nem secretários.
Somente o prefeito de Mal-Fazer e o velho Livro preso ao lombo do animal por duas correias de couro escurecidas pelo tempo.
Coisa Ruim desmontou diante da praça.
Olhou demoradamente para a igreja.
Depois para a feira.
Por fim para Boa Prosa.
Sorriu.
— Ainda monta circo.
Boa Prosa respondeu com a mesma serenidade.
— E você continua chamando de negócio aquilo que nunca conseguiu compreender.
Os dois permaneceram alguns instantes em silêncio.
Quem os observasse pela primeira vez imaginaria tratar-se de antigos adversários.
Quem olhasse com mais atenção perceberia outra coisa.
Não havia hostilidade.
Havia familiaridade.
Como dois homens que discutem o mesmo assunto há tanto tempo que já não conseguem lembrar quando começou a conversa.
---
O Escrivão abriu um dos livros.
As páginas estavam completamente em branco.
Honesto aproximou-se.
— Não há nada escrito.
O homem passou lentamente a mão sobre o papel.
— Ainda há.
Carcará também olhava.
— Então por que trouxe livros vazios?
O Escrivão ergueu os olhos.
— Porque vocês insistem em acreditar que primeiro se vive e depois se escreve.
Fez uma pausa.
— É exatamente o contrário.
Boa Prosa sorriu discretamente.
Honesto começava a compreender.
Carcará ainda resistia.
Não por incapacidade.
Por prudência.
Sempre desconfiara das explicações que chegavam antes dos fatos.
---
Coisa Ruim caminhou até o centro da praça.
Retirou cuidadosamente o Livro das Apostas.
Colocou-o sobre o banco de pedra.
Abriu-o.
Percorreu algumas páginas.
Parou.
— Gole de Pinga.
O prefeito deu um passo à frente.
— Estou aqui.
— Continua me devendo.
— Nunca apostei com você.
Coisa Ruim virou lentamente o livro.
Apontou uma assinatura antiga.
— Não apostou dinheiro.
Apostou tempo.
Silêncio.
Voltou algumas folhas.
— Pena-Pena.
O prefeito de Para-Abaixo, que chegara horas antes acompanhado de alguns moradores, aproximou-se.
— Também não lembro de aposta nenhuma.
— Justamente.
Respondeu Coisa Ruim.
— As maiores nunca são lembradas.
Passou outra página.
— Padre Salva-Salva.
O sacerdote respirou fundo.
Não caminhou.
Sabia que seu nome também estaria ali.
Coisa Ruim fechou delicadamente o livro.
— Não vou cobrar hoje.
Todos se entreolharam.
Aquilo ninguém esperava.
O prefeito de Mal-Fazer sorriu.
Um sorriso estranhamente leve.
— Descobri tarde demais que dívida paga por medo continua existindo.
Só desaparece quando alguém a reconhece como sua.
Pela primeira vez desde o início da história, Honesto olhou para Coisa Ruim sem enxergar apenas um adversário.
Havia cansaço naquele homem.
Muito cansaço.
---
Boa Prosa aproximou-se do grande portal da feira.
Retirou com cuidado a placa onde se lia CERTEZA PROFUNDA.
Virou-a lentamente.
No verso havia outra inscrição.
Muito mais antiga.
Muito mais simples.
COMEÇO DA HISTÓRIA.
Carcará aproximou-se.
— Então a feira...
— Nunca foi uma feira.
— O circo?
— Também não.
— O parque?
Boa Prosa balançou a cabeça.
— As pessoas davam nomes diferentes porque cada uma precisava entrar por uma porta diferente.
Honesto permaneceu olhando para a placa.
Lembrou-se da primeira visita.
Do espelho.
Da sala vazia.
Da moldura.
Do sino.
Das chaves.
Tudo parecia reorganizar-se silenciosamente dentro dele.
Não eram acontecimentos separados.
Eram o mesmo acontecimento visto de ângulos diferentes.
---
O Cego que Vê levantou-se pela última vez.
Apoiando-se no cajado, caminhou lentamente até o centro da praça.
Todos abriram passagem.
Ele voltou o rosto para Boa Prosa.
Depois para Honesto.
Depois para Carcará.
Sorriu.
— Agora já podem continuar sem mim.
Honesto deu um passo.
— Espere...
O velho levantou a mão.
— Não.
— Ainda tenho perguntas.
— Sempre terá.
Carcará aproximou-se também.
— Nós voltaremos a vê-lo?
O Cego permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois respondeu:
— Toda vez que olharem para o fim antes de julgarem o começo.
O vento atravessou a praça.
Quando todos voltaram os olhos para o velho...
Ele já não estava ali.
Ninguém o viu partir.
Como ninguém jamais o vira chegar.
Restava apenas o cajado, encostado no velho banco de pedra.
Boa Prosa recolheu-o cuidadosamente.
Olhou demoradamente para Honesto e Carcará.
Depois para o portal agora sem placa.
Sorriu com uma alegria tranquila, quase imperceptível.
— O espetáculo acabou.
Fez uma breve pausa.
— Agora a história pode começar.
Naquele instante, Honesto compreendeu que passara a vida inteira acreditando estar entrando em lugares novos.
Carcará percebeu que jamais caminhara sozinho.
E ambos entenderam, ao mesmo tempo, que o primeiro passo de uma existência raramente acontece no dia em que nascemos.
Acontece no instante em que descobrimos que aquilo que chamávamos de destino era apenas o caminho de volta para a pergunta que sempre nos esperou no começo.
Epílogo — Caixa-Pequena Fecha o Livro
Muitos anos depois, quando Tomotôco já era lembrada mais pelas histórias do que pelos caminhos, um velho caixeiro parou à sombra de um ipê seco e abriu uma das caixas que carregava no roda-roda.
Dentro não havia mercadoria.
Havia apenas um livro.
As páginas estavam gastas nas bordas, como se muitas mãos as tivessem folheado. O couro da capa perdera o brilho, mas conservava uma elegância silenciosa, própria das coisas que sobreviveram aos seus donos. O velho passou os dedos sobre o volume, respirou fundo e sorriu daquele modo reservado de quem reencontra um companheiro antigo.
Sentou-se à beira da estrada. Algumas crianças, curiosas, aproximaram-se. Um rapaz pediu licença para descansar um pouco. Uma mulher, voltando do moinho, também resolveu parar. Pouco a pouco, formou-se ao redor dele uma pequena roda, semelhante a tantas outras que existiram antes e que existiriam depois.
— O senhor vende livros? — perguntou uma das crianças.
O velho balançou a cabeça.
— Não.
— Então por que carrega tantos?
Ele abriu lentamente a primeira página.
— Porque alguns livros ainda estão procurando seus leitores.
A resposta pareceu decepcionar os menores, mas satisfez os mais velhos, que aprenderam há muito tempo que as melhores explicações costumam deixar uma pequena inquietação para trás.
Sem anunciar título algum, o caixeiro começou a ler.
Falou de um rapaz chamado Honesto, cujo nome chegava sempre antes dele. Falou de uma cidade onde tudo era simples, rápido e fácil, até deixar de ser. Contou de um prefeito chamado Coisa Ruim, de um homem exilado conhecido como Zóio-Torto, de uma moça chamada Pedaço de Lenha, de um governador chamado Grande Pedaço e de uma feira que mudava de forma conforme mudava o coração de quem a visitava.
As crianças riam dos nomes.
Os adultos, não.
Sabiam que o mundo possuía mais gente parecida com aqueles personagens do que estavam dispostos a admitir.
Depois vieram as estradas.
Vieram os espelhos.
Vieram as apostas.
Vieram as portas.
Por fim, surgiu um homem de chapéu de couro que chamava a morte pelo nome de Madalena e outro que descobriu, tarde demais, que honestidade nunca foi uma palavra, mas um caminho.
Quando terminou a leitura, ninguém falou por alguns instantes.
O silêncio não era desconfortável. Era o silêncio próprio das histórias que ainda continuam acontecendo dentro do leitor.
Foi uma senhora quem rompeu o encanto.
— Isso aconteceu de verdade?
O velho fechou cuidadosamente o livro.
— Depende.
— Depende de quê?
— Do que a senhora chama de verdade.
Ela sorriu sem responder.
Já um rapaz, curioso, perguntou:
— E o Cego que Vê? Existiu mesmo?
O caixeiro olhou para a estrada, onde o vento levantava pequenas espirais de poeira.
— Ainda existe.
— Onde?
— Sempre um pouco adiante daquele que acredita já ter entendido tudo.
As crianças se dispersaram primeiro. Depois os adultos retomaram seus caminhos. Logo restou apenas o velho, o roda-roda e o livro.
O sol começava a cair.
Ele guardou cuidadosamente o volume na caixa, fechou a tampa e segurou as rédeas do cavalo.
Antes de partir, porém, voltou os olhos para a estrada por onde todos haviam ido embora.
Sorriu.
Não para as pessoas.
Nem para o caminho.
Sorriu para a história.
Porque finalmente compreendia aquilo que demorara uma vida inteira para aceitar: ninguém entra em Lugar Nenhum.
Lugar Nenhum entra, lentamente, em cada homem que decide atravessar a primeira porta sem perguntar para onde ela leva.
O roda-roda começou a mover-se.
As rodas produziram o mesmo rangido antigo de sempre.
Poucos metros adiante, o velho pareceu lembrar-se de alguma coisa. Parou o cavalo, abriu novamente a caixa e retirou o livro pela última vez.
Na capa, onde antes não havia título algum, agora se podia ler:
O Homem que Chamava a Morte pelo Nome
Logo abaixo, em letras menores, havia apenas uma frase.
"Toda história começa quando deixamos de perguntar quem escreve o livro e começamos a perceber que, enquanto o lemos, ele também nos escreve."