A primeira variável decisiva é o grau de compatibilidade, Φ. Compatibilidade não significa concordar com fatos isolados, mas manter uma relação viva com a estrutura do real. Quando alguém mantém adesão a um projeto totalizante apesar de provas contrárias, o problema não está na ausência de dados, mas na ruptura entre dado e juízo. A evidência deixa de funcionar como elemento corretivo e passa a ser absorvida por um sistema narrativo já fechado. Nesse ponto, Φ declina, porque a consciência já não responde ao real, mas a si mesma.
Essa queda de Φ quase sempre é acompanhada pelo aumento da opacidade dos Véus, variável que chamamos de V. O Véu não é ignorância simples; é filtro ativo. A informação chega, mas é reinterpretada antes de ser julgada. Torna-se propaganda inimiga, manipulação, exagero ou conspiração. O que deveria ser analisado é previamente neutralizado. A opacidade aumenta quando a identidade do sujeito está amarrada à narrativa política. Nesse caso, aceitar um fato não é apenas mudar de opinião — é ameaçar o próprio pertencimento.
Em paralelo, surge a contradição estrutural, C. A consciência começa a sustentar proposições incompatíveis sem perceber o conflito. Pode defender liberdade enquanto apoia censura; pode defender justiça enquanto aceita perseguição de opositores. O problema aqui não é apenas hipocrisia moral, mas fratura lógica. A estrutura interna do pensamento deixa de ser coerente. A contradição torna-se estável, porque é protegida por lealdade emocional e narrativa. O sistema suporta incoerência desde que preserve a identidade.
A variável H, inversão hierárquica, aprofunda o quadro. Em uma ordem saudável, a verdade ocupa posição superior à estratégia, e o bem comum é superior à vitória de grupo. Quando há inversão, essa hierarquia se altera. A lealdade substitui a verdade; o líder substitui o princípio; o poder substitui a justiça. Essa troca não ocorre de forma consciente, mas progressiva. A cada concessão narrativa, a estrutura axiológica se desloca um pouco mais, até que o inferior governe o superior.
A dominância narrativa, N, é o momento em que a história substitui o real como critério. A narrativa deixa de ser instrumento explicativo e torna-se filtro ontológico. Não se pergunta mais “isso é verdadeiro?”, mas “isso serve à história que contamos?”. A narrativa cria um mundo fechado onde cada evento já possui significado pré-atribuído. Nesse ambiente, a realidade não é descoberta; é encaixada. A consciência deixa de investigar e passa a organizar confirmações.
O fechamento sistêmico, W, é a consequência mais perigosa. Um sistema fechado é aquele que transforma qualquer refutação em prova. Se há críticas, é porque o inimigo teme. Se há denúncias, é porque há perseguição injusta. Se há fatos contrários, são distorções. O sistema passa a ser imune à correção. A consciência não apenas resiste à evidência — ela a metaboliza como combustível da própria convicção. Aqui, a reversão torna-se difícil, porque a estrutura interna já opera de forma autossustentada.
O horizonte temporal, T, completa a análise. Regimes totalizantes costumam operar sob retórica de urgência: crise permanente, ameaça constante, necessidade imediata. Quando o horizonte temporal encurta, a avaliação de longo prazo desaparece. Não se ponderam precedentes históricos, nem consequências futuras. O imediato domina. A urgência justifica exceções, e as exceções tornam-se permanentes. A consciência passa a viver em estado de mobilização contínua, incapaz de refletir com profundidade.
O ponto central é compreender que essa configuração não altera o real, apenas altera a relação com ele. O Campo Ontológico permanece intacto. O que se deforma é a estrutura de acesso. A cisão é configuracional, não ontológica. Contudo, seus efeitos práticos são reais. Decisões tomadas sob baixa compatibilidade e alto fechamento produzem consequências concretas. A distorção interna torna-se ação externa. A consciência passa a habitar um mundo reduzido, mesmo que o mundo real permaneça o mesmo.
A reversão exige restauração hierárquica. É necessário recolocar a verdade acima da identidade, o princípio acima do grupo, o bem acima da vitória. Isso implica abrir o sistema à possibilidade de refutação. A pergunta decisiva torna-se: o que me faria mudar de posição? Se não há resposta possível, o fechamento já está consolidado. A correção começa quando a consciência aceita vulnerabilidade epistêmica e admite que pode estar errada.
Em última instância, apoiar regimes totalitários diante da verdade revelada é sintoma de decaimento de plenitude configuracional. Φ baixo, V alto, C alto, H alto, N alto e W alto compõem uma equação de fechamento. A plenitude não decai porque o mundo mudou, mas porque a consciência se retraiu. O drama não é político apenas; é estrutural. A consciência deixou de se abrir ao real e passou a se proteger dele.
O SMACR não condena pessoas; ele descreve configurações. E toda configuração pode, em princípio, ser reordenada. A abertura começa quando a verdade volta a ser critério e não ameaça. Quando a narrativa aceita ser corrigida pelo fato, e não o contrário, Φ começa a subir. O sistema reabre. O horizonte temporal se expande. E a consciência volta a habitar o real em vez de habitá-lo apenas através de filtros.
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