quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Entre Véus e Estruturas: O Fechamento da Consciência diante do Real.

    

Quando observamos pessoas que continuam a apoiar regimes totalitários mesmo depois de confrontadas com evidências claras de abusos, contradições ou violações estruturais, não estamos diante apenas de um fenômeno político, mas de uma configuração metafísica da consciência. O que está em jogo não é apenas opinião, mas a relação entre a consciência e o real. O SMACR parte da distinção fundamental entre aquilo que é estruturalmente dado — o Campo Ontológico — e aquilo que é configurado pela consciência. O drama não ocorre no real em si, mas na forma como ele é processado, filtrado e reinterpretado.
A primeira variável decisiva é o grau de compatibilidade, Φ. Compatibilidade não significa concordar com fatos isolados, mas manter uma relação viva com a estrutura do real. Quando alguém mantém adesão a um projeto totalizante apesar de provas contrárias, o problema não está na ausência de dados, mas na ruptura entre dado e juízo. A evidência deixa de funcionar como elemento corretivo e passa a ser absorvida por um sistema narrativo já fechado. Nesse ponto, Φ declina, porque a consciência já não responde ao real, mas a si mesma.
Essa queda de Φ quase sempre é acompanhada pelo aumento da opacidade dos Véus, variável que chamamos de V. O Véu não é ignorância simples; é filtro ativo. A informação chega, mas é reinterpretada antes de ser julgada. Torna-se propaganda inimiga, manipulação, exagero ou conspiração. O que deveria ser analisado é previamente neutralizado. A opacidade aumenta quando a identidade do sujeito está amarrada à narrativa política. Nesse caso, aceitar um fato não é apenas mudar de opinião — é ameaçar o próprio pertencimento.
Em paralelo, surge a contradição estrutural, C. A consciência começa a sustentar proposições incompatíveis sem perceber o conflito. Pode defender liberdade enquanto apoia censura; pode defender justiça enquanto aceita perseguição de opositores. O problema aqui não é apenas hipocrisia moral, mas fratura lógica. A estrutura interna do pensamento deixa de ser coerente. A contradição torna-se estável, porque é protegida por lealdade emocional e narrativa. O sistema suporta incoerência desde que preserve a identidade.
A variável H, inversão hierárquica, aprofunda o quadro. Em uma ordem saudável, a verdade ocupa posição superior à estratégia, e o bem comum é superior à vitória de grupo. Quando há inversão, essa hierarquia se altera. A lealdade substitui a verdade; o líder substitui o princípio; o poder substitui a justiça. Essa troca não ocorre de forma consciente, mas progressiva. A cada concessão narrativa, a estrutura axiológica se desloca um pouco mais, até que o inferior governe o superior.
A dominância narrativa, N, é o momento em que a história substitui o real como critério. A narrativa deixa de ser instrumento explicativo e torna-se filtro ontológico. Não se pergunta mais “isso é verdadeiro?”, mas “isso serve à história que contamos?”. A narrativa cria um mundo fechado onde cada evento já possui significado pré-atribuído. Nesse ambiente, a realidade não é descoberta; é encaixada. A consciência deixa de investigar e passa a organizar confirmações.
O fechamento sistêmico, W, é a consequência mais perigosa. Um sistema fechado é aquele que transforma qualquer refutação em prova. Se há críticas, é porque o inimigo teme. Se há denúncias, é porque há perseguição injusta. Se há fatos contrários, são distorções. O sistema passa a ser imune à correção. A consciência não apenas resiste à evidência — ela a metaboliza como combustível da própria convicção. Aqui, a reversão torna-se difícil, porque a estrutura interna já opera de forma autossustentada.
O horizonte temporal, T, completa a análise. Regimes totalizantes costumam operar sob retórica de urgência: crise permanente, ameaça constante, necessidade imediata. Quando o horizonte temporal encurta, a avaliação de longo prazo desaparece. Não se ponderam precedentes históricos, nem consequências futuras. O imediato domina. A urgência justifica exceções, e as exceções tornam-se permanentes. A consciência passa a viver em estado de mobilização contínua, incapaz de refletir com profundidade.
O ponto central é compreender que essa configuração não altera o real, apenas altera a relação com ele. O Campo Ontológico permanece intacto. O que se deforma é a estrutura de acesso. A cisão é configuracional, não ontológica. Contudo, seus efeitos práticos são reais. Decisões tomadas sob baixa compatibilidade e alto fechamento produzem consequências concretas. A distorção interna torna-se ação externa. A consciência passa a habitar um mundo reduzido, mesmo que o mundo real permaneça o mesmo.
A reversão exige restauração hierárquica. É necessário recolocar a verdade acima da identidade, o princípio acima do grupo, o bem acima da vitória. Isso implica abrir o sistema à possibilidade de refutação. A pergunta decisiva torna-se: o que me faria mudar de posição? Se não há resposta possível, o fechamento já está consolidado. A correção começa quando a consciência aceita vulnerabilidade epistêmica e admite que pode estar errada.
Em última instância, apoiar regimes totalitários diante da verdade revelada é sintoma de decaimento de plenitude configuracional. Φ baixo, V alto, C alto, H alto, N alto e W alto compõem uma equação de fechamento. A plenitude não decai porque o mundo mudou, mas porque a consciência se retraiu. O drama não é político apenas; é estrutural. A consciência deixou de se abrir ao real e passou a se proteger dele.
O SMACR não condena pessoas; ele descreve configurações. E toda configuração pode, em princípio, ser reordenada. A abertura começa quando a verdade volta a ser critério e não ameaça. Quando a narrativa aceita ser corrigida pelo fato, e não o contrário, Φ começa a subir. O sistema reabre. O horizonte temporal se expande. E a consciência volta a habitar o real em vez de habitá-lo apenas através de filtros.

Nenhum comentário: