sexta-feira, 17 de julho de 2026

Entre Migalhas e Destinos.

O Tempo, o Homem e o Silêncio do Fim

Havia, no centro de uma praça que a cidade aprendera a contornar, um banco de madeira escurecido pela chuva, pelo sol e pela sucessão dos corpos que ali se haviam sentado para esperar coisas diferentes. Alguns esperaram pessoas. Outros, notícias. Houve quem esperasse coragem. O banco, menos exigente, recebeu todos sem perguntar o nome de ninguém e conservou em suas tábuas o peso dos que partiram antes de descobrir se aquilo por que esperavam vinha realmente em sua direção.

Naquela manhã, um velho ocupava a extremidade esquerda, embora o banco estivesse vazio. Sentava-se sempre assim, deixando ao lado um espaço suficiente para alguém que talvez não viesse. Trazia no bolso do casaco um punhado de pão endurecido, que esmagava lentamente entre os dedos antes de lançá-lo aos pombos. Não os alimentava por piedade. Havia perdido, havia muitos anos, a vaidade de supor que alguma criatura dependesse dele. Fazia-o porque os pássaros voltavam, e o retorno das coisas era uma das poucas formas de ordem que ainda não lhe pareciam ofensivas.

Os pombos aproximavam-se sem cerimônia, curvando o pescoço com a solenidade de pequenos funcionários públicos encarregados de recolher tributos. Os pardais, mais desconfiados, aguardavam nos galhos baixos, medindo o risco e a vantagem, como se a sobrevivência lhes houvesse ensinado contabilidade. Quanto às criaturas invisíveis, essas recolhiam o que caía entre as pedras, onde os olhos apressados não costumavam procurar.

Chamavam o velho de Tempo.

Ninguém sabia ao certo quando o nome começara a circular. Talvez algum bêbado o tivesse inventado; talvez uma criança, dessas que ainda enxergam títulos onde os adultos percebem apenas roupas gastas. O próprio velho não se lembrava de ter recebido nome algum. Desconfiava que os nomes fossem modos delicados de aprisionar aquilo que não se compreende. Um rio, depois de nomeado, parece menos vasto. Uma doença, depois de diagnosticada, parece menos obscura. Um homem, quando chamado por alguma palavra durante anos suficientes, acaba por responder a ela mesmo sem reconhecer nela o próprio rosto.

O velho olhava os pássaros e murmurava. Falava baixo não porque temesse ser ouvido, mas porque certas ideias perdem a compostura quando ditas em voz alta.

— O homem só vai até onde o princípio o empurra e até onde o fim consente.

Disse isso sem levantar os olhos. Partiu uma migalha maior e a lançou um pouco mais longe, para que os pardais tivessem alguma chance contra os pombos.

— Entre uma coisa e outra, chama de liberdade o intervalo em que desconhece as paredes.

Atrás de uma árvore retorcida, cujo tronco havia crescido ao redor de uma antiga grade de ferro, alguma coisa se moveu. Primeiro surgiu uma mão suja. Depois, um ombro coberto por um casaco que já tivera cor. Por fim, apareceu um homem de barba irregular, cabelos endurecidos pela poeira e olhos excessivamente vivos para o restante do corpo. Parecia ter dormido em muitos lugares e descansado em nenhum.

Aproximou-se com o passo agressivo de quem não possuía nada, salvo a necessidade de parecer dono de si.

— Conversa de velho — disse.

O Tempo não respondeu de imediato. Um pombo havia levado no bico uma porção desproporcional de pão e fugia dos outros com a dignidade ferida de um ladrão perseguido por ladrões menores.

— Toda conversa é velha — disse o homem do banco. — As novas apenas ainda não confessaram.

O mendigo cuspiu próximo ao meio-fio. Não era um gesto de desprezo; era uma assinatura. Como não tinha propriedade, marcava o mundo com aquilo que o mundo não desejava conservar.

— O homem não tem limite nenhum. Basta olhar em volta.

O Tempo olhou.

A praça possuía quatro saídas, três árvores doentes, uma fonte sem água e um monumento dedicado a um sujeito cujo nome já não se lia. Ao redor, erguiam-se prédios de vidro, lojas com portas automáticas e anúncios prometendo juventude a quem pagasse em doze parcelas. Um caminhão de coleta passava ao fundo carregando, com eficiência municipal, os restos da noite anterior.

— Estou olhando — disse o velho.

— Construímos cidades, atravessamos o céu, arrancamos doenças do corpo, fazemos máquinas pensarem. O começo não manda em nós. O fim também não. Quando ele chega perto, inventamos outro remédio, outra ponte, outra desculpa. Nós o adiamos. Nós o burlamos.

O mendigo falava com as mãos. Erguia-as diante do peito como quem moldava no ar uma criatura ainda sem forma. Cada palavra parecia destinada menos ao velho do que a uma multidão ausente, diante da qual ele finalmente pudesse provar que não havia sido derrotado, apenas interrompido.

O Tempo o observou. Reconhecia aquela fúria. Já a vira em reis que mandaram gravar o próprio rosto em moedas, em generais que mudaram o nome das cidades conquistadas e em homens ricos que construíram mausoléus altos demais, como se a morte, ao chegar, pudesse confundir a porta.

— Pobre filho do esquecimento — disse. — Julgas que a corrente desapareceu porque aprendeste a nadar na direção dela.

O mendigo riu, mas o riso saiu curto. Havia poucas coisas tão ofensivas quanto ser tratado com compaixão por alguém que possuía menos do que nós.

— Corrente nenhuma. O princípio nos deu as cartas, os dados e as mãos. O resto é jogo.

O velho apanhou outra migalha. Girou-a entre os dedos.

— E quem te ensinou a desejar vencer?

O mendigo abriu a boca, porém não respondeu. Olhou para a fonte seca, como se a água pudesse ajudá-lo. Depois se aproximou ainda mais do banco.

— O fim não acontece — disse, agora sem gritar. — Ele é feito. Cada homem constrói o seu.

Naquele instante, o vento atravessou a praça. Não foi forte, mas bastou para levantar folhas, recibos, poeira e uma fotografia amarelada que estava presa sob o banco. A fotografia girou duas vezes no ar antes de cair aos pés do mendigo. Mostrava três pessoas diante de uma casa baixa: um casal e uma criança. O rosto do homem fora corroído pela umidade. O da mulher permanecia quase intacto. A criança sorria para alguma coisa fora do enquadramento.

O mendigo abaixou-se e apanhou a fotografia.

Por alguns segundos, seu polegar permaneceu sobre o rosto da criança.

— Não é minha — disse.

O Tempo não perguntara.

O homem largou a fotografia sobre o banco, virada para baixo. Em seguida, passou a mão na barba e retomou a postura anterior, mas alguma coisa nele já não cabia dentro do discurso.

O velho sorriu. Não era um sorriso de triunfo. O Tempo havia vivido demais para considerar a contradição humana uma vitória. Sabia que os homens defendem certas ideias não porque acreditam nelas, mas porque precisam que elas fiquem entre eles e uma lembrança.

— Então vejamos — disse. — Vejamos até onde chega essa dança de criaturas que escolhem aquilo que ainda não compreenderam.

Foi quando um garoto atravessou a praça.

Trazia os cadarços desamarrados, os joelhos manchados de terra e um graveto com o qual desenhava linhas no chão enquanto caminhava. Não seguia por nenhuma das alamedas. Criava seu próprio trajeto entre elas, embora o resultado, visto de cima, provavelmente fosse apenas outra maneira de chegar ao mesmo lugar.

Passou pela fonte, contornou o monumento e parou diante dos dois homens. Olhou primeiro o velho, depois o mendigo, depois os pássaros. As crianças não observam uma cena na ordem em que os adultos gostariam de ser compreendidos.

— Vocês estão brigando? — perguntou.

— Estamos pensando — respondeu o mendigo.

O garoto fez uma expressão de desconfiança.

— Parece pior.

O Tempo inclinou levemente a cabeça. O menino segurava o graveto como se fosse uma vara de medir destinada a objetos que ainda não existiam.

— Ele diz que o começo manda em tudo — explicou o mendigo. — Eu digo que o homem decide o próprio fim.

O garoto olhou para o chão, onde havia desenhado uma figura semelhante a uma espiral. Pisou sobre ela por acidente e apagou metade do traço.

— E se nenhum dos três mandar?

Os dois homens permaneceram imóveis.

O garoto apontou o graveto para a fonte seca.

— A água não escolheu parar. A pedra também não escolheu ficar. E quem construiu isso talvez quisesse que funcionasse para sempre.

O mendigo apertou os lábios.

— Então quem manda?

O menino encolheu os ombros.

— Talvez essa seja a pergunta que faz a gente obedecer.

Não houve espanto. O espanto ainda seria uma forma de defesa. Fez-se apenas um silêncio espesso, desses que não interrompem uma conversa, mas revelam que talvez ela nunca tenha começado.

Ao longe, o relógio da igreja bateu onze vezes, embora fossem dez e meia. Ninguém comentou. A cidade continuou funcionando com a naturalidade das coisas que erram há tanto tempo que transformaram o erro em serviço.

O Tempo levantou-se devagar. As articulações estalaram, e por um instante ele pareceu menos antigo do que simplesmente cansado. Sacudiu as migalhas das mãos, ajeitou o casaco e olhou para o mendigo. Depois olhou para o garoto. Parecia procurar uma resposta entre os dois, como quem revira um bolso já vazio.

Não encontrou.

Caminhou em direção à alameda coberta de neblina. Os pombos o seguiram por alguns metros, mais por hábito que por fidelidade, e depois voltaram ao banco. Antes de desaparecer, o velho passou diante do monumento e tocou com a ponta dos dedos o nome apagado do homem de pedra. Talvez o tivesse conhecido. Talvez fosse ele. A praça não se preocupou em esclarecer.

O mendigo permaneceu de pé. Observou a neblina durante algum tempo, esperando que o velho retornasse ou que o desaparecimento significasse alguma coisa. Como nenhuma das duas coisas aconteceu, sentou-se no espaço que o Tempo havia deixado livre no banco.

A fotografia continuava virada para baixo.

Ele não a tocou.

Apanhou do chão algumas migalhas e as lançou aos pássaros. No início, fez isso com impaciência, jogando tudo de uma vez. Os pombos se atropelaram. Um pardal conseguiu apanhar um pedaço e voou para a árvore retorcida. O mendigo acompanhou seu movimento com os olhos e, na vez seguinte, partiu o pão em porções menores.

O garoto já se afastava.

— Para onde você vai? — perguntou o homem.

O menino não parou.

— Ver se chego antes.

— Antes de quê?

O garoto ergueu o graveto, como se saudasse alguém invisível, e continuou correndo por uma rua que não levava nem à entrada nem à saída da praça, mas apenas ao lado oposto dela.

O mendigo ficou sozinho com os pássaros, a fonte seca e a fotografia. Depois de algum tempo, virou-a.

No verso havia uma data e uma frase escrita à mão. A chuva apagara quase todas as palavras. Restava apenas uma:

“Volte.”

Ele leu uma vez. Depois outra.

Quando o sino tornou a tocar, agora marcando uma hora que talvez estivesse certa, o homem guardou a fotografia no bolso do casaco. Em seguida, afastou-se um pouco para a esquerda, deixando ao lado um espaço vazio.

Na manhã seguinte, os moradores encontraram o banco ocupado apenas pelos pombos. Havia migalhas frescas sobre as tábuas e, desenhada na poeira, uma espiral incompleta, cujo fim tocava exatamente o lugar de onde partira.

Durante muitos anos, ninguém soube dizer se o velho desaparecera, se o mendigo o seguira ou se o menino, correndo mais depressa que ambos, havia chegado primeiro. A praça, entretanto, continuou envelhecendo. A árvore absorveu por inteiro a antiga grade de ferro, a fonte foi demolida, o monumento caiu durante uma tempestade e o banco recebeu novas camadas de tinta sobre a madeira apodrecida.

Só os pássaros permaneceram.

Voltavam todas as manhãs, pousavam ao redor do lugar vazio e bicavam o chão com a paciência de quem sabe que até as migalhas têm um destino.

Porque talvez o fim não seja aquilo que nos espera adiante, mas aquilo que, desde o começo, aprende silenciosamente a voltar.

Nenhum comentário: