sexta-feira, 17 de julho de 2026

Apenas um Dia Para Ela.

"Há perguntas que não procuram respostas; procuram apenas quem seja capaz de atravessá-las."

— Agora — disse a Morte.

A palavra saiu sem pressa, como se tivesse atravessado lugares onde nenhuma voz conseguia permanecer inteira.

— Agora volto a caminhar. Talvez por muito tempo. Talvez pela última vez.

Ela não moveu os pés. Não fez sombra, não dobrou uma folha, não alterou o curso do ar. Ainda assim, já não estava ali. O espaço que deixara não parecia vazio; parecia apenas devolvido a si mesmo.

O velho permaneceu algum tempo olhando para o ponto onde ela estivera. Depois recolheu o couro estendido sobre os joelhos e o fechou devagar, símbolo sobre símbolo, dobra sobre dobra, até que tudo quanto estivera exposto voltasse a ser apenas matéria curtida, escura e silenciosa. Sabia que certas respostas não suportam ser pronunciadas. Quando ditas, tornam-se menores do que a pergunta. Por isso guardou o couro e, com ele, aquilo que não lhe pertencia explicar.

A Morte seguiu pelas veredas.

Já não carregava a dúvida como quem transporta um morto às costas, mas tampouco recebera a leveza concedida aos tolos e aos sábios completos, duas espécies que, vistas de longe, por vezes se confundem. Caminhava como antes, embora alguma coisa nela houvesse perdido a rigidez. Seus passos não tocavam o chão, mas as raízes estremeciam sob a terra e os pássaros interrompiam o canto por um instante, sem saber o motivo.

Atravessou clareiras onde a luz pousava em pedaços, contornou troncos apodrecidos e seguiu por entre sombras que se moviam mais do que as próprias árvores. Foi então que viu, junto a uma pedra coberta de musgo, uma cena tão pequena que qualquer homem teria passado por ela sem diminuir o passo.

Um inseto debatia-se nos fios de uma teia.

Não era raro, belo ou digno de nome. Tinha pernas finas demais para a urgência que as governava e um corpo insignificante, construído sem qualquer intenção de ser lembrado. Lutava como lutam todas as criaturas quando o mundo, de súbito, se torna estreito: lançando contra o impossível tudo aquilo que ainda podia mover.

Do outro lado da teia, a aranha esperava.

Não havia maldade em sua imobilidade. Havia cálculo, fome e uma antiga obediência. Aproximava-se apenas quando o inseto se cansava, recuava quando ele encontrava nova força e parecia conhecer, sem jamais ter aprendido, a medida exata entre a paciência e a necessidade. Era cruel como são cruéis os mecanismos que não escolheram funcionar.

A Morte observou.

O inseto rompeu um fio. Por um momento, pareceu livre. A liberdade, porém, tinha o tamanho daquele intervalo. Outra linha o reteve, e sua luta recomeçou com uma violência que já não buscava vencer, mas apenas não terminar.

Então a Morte riu.

Não riu do inseto, nem da aranha. Não havia desprezo naquele som, nem o prazer mesquinho de quem contempla uma derrota alheia. Seu riso atravessou a floresta sem acordar animal algum, como se não pertencesse ao ar, mas à estrutura escondida das coisas. Era o riso de quem, depois de procurar uma resposta nos abismos, encontra-a trabalhando em silêncio junto a uma pedra.

Lembrou-se do velho, do couro fechado, da pedra que não vivia nem morria, do círculo e de sua borda, do fim que talvez também encontrasse um fim. Recordou as perguntas que fizera como se fossem lâminas e percebeu que nenhuma delas havia tocado aquilo que agora se mostrava sem esforço diante dela.

O inseto continuava lutando.

A aranha continuava esperando.

A pedra permanecia pedra.

Nada ali pedia a presença da Morte. Nada dependia dela para começar, esforçar-se, ferir, escapar, falhar ou perecer. A luta já possuía sua própria ordem; a fome, sua disciplina; a resistência, sua estranha dignidade. O mundo não aguardava que ela lhe concedesse um desfecho. O mundo produzia desfechos desde antes de haver quem os nomeasse.

A Morte compreendeu, então, que talvez sempre tivesse confundido presença com soberania. Chegava ao fim das coisas e, por isso, imaginara pertencer-lhe o fim. Mas a folha não caía porque ela passava, nem o animal fugia porque ela o observava. Havia nos seres uma inclinação mais antiga, um movimento que os empurrava para dentro de si mesmos e, ao mesmo tempo, para além do que podiam conservar.

O inseto cessou por um instante. A aranha avançou.

A Morte não desviou os olhos.

Não sentiu piedade, pois a piedade teria sido uma forma de se colocar acima da cena. Não sentiu horror, porque o horror nasce, muitas vezes, da pretensão de que o real deveria ter consultado nossos desejos antes de existir. Sentiu apenas uma espécie de reconhecimento, duro e sereno, como o de quem encontra o próprio nome gravado numa porta que jamais havia aberto.

Aceitou.

Não a aranha, nem o inseto, nem o desfecho inevitável entre ambos. Aceitou a medida de sua participação. Aceitou que talvez não fosse senhora, mas passagem; não causa, mas sinal; não a mão que encerra, e sim a sombra que aparece quando algo já se aproxima de sua própria conclusão.

Se também ela possuía um fim, esse fim não lhe pareceu uma ofensa. Pela primeira vez, imaginou-o sem medo e sem orgulho.

Depois seguiu.

Não desapareceu. Apenas deixou de estar, como certas perguntas deixam uma sala quando já não encontram ninguém disposto a mentir-lhes.

Na vila, naquele mesmo instante, o velho retirou do peito um suspiro longo. Não era o suspiro dolorido dos que lutam para permanecer, nem o suspiro aliviado de quem acredita ter terminado uma tarefa. Era mais simples. Parecia o gesto de alguém que, depois de carregar durante anos um objeto encontrado no caminho, enfim o devolve ao lugar de onde nunca deveria tê-lo tirado.

Seu corpo inclinou-se para a frente. A mão escorregou do banco e tocou a terra com os dedos abertos. Quem o visse de longe poderia pensar que procurava apoio. Quem se aproximasse talvez percebesse que havia naquele gesto uma reverência.

Ele morreu assim, curvado diante do chão.

Ninguém notou imediatamente.

Uma mulher passou carregando dois baldes, equilibrando entre eles o peso desigual da água. Um menino perseguiu uma galinha e perdeu a sandália no barro. Mais adiante, alguém alimentava o fogo com gravetos úmidos e praguejava contra a fumaça, como se a fumaça tivesse escolhido nascer naquele dia apenas para contrariá-lo. O tear continuou seu ruído regular dentro de uma casa, e uma panela ferveu até derramar, sem respeito algum pelo homem que acabara de partir.

A vila seguiu.

Só depois alguém viu o velho. Chamaram por ele uma vez, depois outra. Um dos baldes foi deixado no chão. A galinha escapou. A panela continuou fervendo.

Houve silêncio, mas não por muito tempo. O silêncio humano é sempre interrompido por alguma necessidade: uma criança com fome, um animal preso, um fogo que ameaça apagar. Aos poucos, as mãos voltaram ao que faziam, agora um pouco mais lentas. O corpo do velho permaneceu no banco, e a vida começou a contorná-lo como a água contorna uma pedra caída no leito.

Em algum lugar da mata, a teia oscilou.

Talvez o inseto tivesse escapado. Talvez não. A aranha precisaria comer de qualquer modo. A pedra conservaria o musgo. Outra criatura passaria por ali sem saber que, durante alguns instantes, a Morte havia observado aquela pequena batalha e aprendido com ela aquilo que homem algum poderia ensinar.

O mundo continuou a carregar água, a acender fogo, a tecer, a ferir, a cuidar e a esquecer. Continuou sem triunfo e sem desculpa, indiferente apenas na medida em que tudo acolhia.

E o velho, que passara a vida procurando o limite entre o começo e o fim, finalmente descobriu que nenhum dos dois lhe pertencia.

Porque a vida não vence a morte.

Ela apenas nunca lhe entrega o mundo.

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