terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Liberdade como Ato da Razão na Ordem do Real.

A liberdade humana não pode ser compreendida como autonomia absoluta do movimento, pois todo movimento real ocorre dentro de limites impostos pela própria ordem da natureza. Quando se fala em liberdade, tende-se a confundi-la com a simples capacidade de agir, mover-se ou escolher, como se bastasse a ausência de coerção externa para que o homem fosse livre. Contudo, essa concepção falha ao ignorar que nenhuma ação humana ocorre fora de uma estrutura ontológica prévia, na qual o sujeito já está inserido antes mesmo de decidir. A natureza possui uma ordem própria, e essa ordem introduz limites reais ao agir humano, tornando impossível qualquer forma de liberdade total ou irrestrita.
Se a liberdade absoluta fosse possível, ela implicaria uma ruptura com a própria realidade, pois exigiria um sujeito capaz de agir sem qualquer condicionamento — algo que contradiz o fato de o homem existir como parte de um todo ordenado. Assim, a liberdade humana é necessariamente limitada, transitiva e situada. Ela não consiste em poder fazer qualquer coisa, mas em poder agir dentro de um campo de possibilidades reais, delimitadas tanto pelas leis da natureza quanto pela própria constituição do sujeito.
É nesse ponto que a razão humana assume um papel central. O pecado, entendido corretamente, não é um simples erro de comportamento, mas um ato contra a razão. Um falso pecado seria, portanto, um falso ato contra a razão humana. Isso exige esclarecer o que é a razão: não apenas uma faculdade abstrata de cálculo, mas a capacidade de o ser humano apreender a verdade na realidade e ordenar sua ação segundo essa apreensão. A razão é, nesse sentido, inseparável da consciência, pois ambas dizem respeito à relação do sujeito com o real enquanto verdadeiro.
O juízo humano nasce desse processo: o sujeito percebe a realidade, reconhece valores e razões, e então julga. Esse juízo se desdobra em verdade ou erro, e a responsabilidade moral emerge exatamente aí. A liberdade não está no movimento em si, mas na conformidade — ou não — do juízo e da ação com a verdade apreendida. Assim, a liberdade humana não é negação da ordem, mas participação consciente nela.
Em última análise, a liberdade não é um poder arbitrário de romper limites, mas a capacidade racional de agir segundo a verdade dentro dos limites que constituem o próprio ser humano. Fora disso, o que se chama liberdade não passa de uma abstração vazia, sem qualquer referência real à estrutura das coisas.

(J.A)

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