O Anticristo, cuja aparição é profetizada para o fim dos tempos, será um personagem histórico determinado, ou apenas um ser coletivo? O Magistério nunca resolveu infalivelmente a questão, de modo que a matéria permanece livre. É permitido a um católico fiel considerar o Anticristo como um ser coletivo. Não se poderia censurá-lo em nome da fé. Inversamente, os partidários da “personalidade do Anticristo” também não incorrem em reprovação. Vamos expor os principais argumentos que normalmente são invocados em favor dessa opinião.
Os dois escritores sagrados que mencionam mais explicitamente o personagem do Anticristo são São João e São Paulo. Convém citá-los integralmente e tomá-los como base de nosso raciocínio.
I João II, 18: “Filhinhos, é a última hora. Como ouvistes que o Anticristo deve vir, já agora muitos anticristos apareceram; por isso conhecemos que é a última hora. Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas saíram, para que se manifestasse que nem todos são dos nossos.”
I João II, 22: “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse é o anticristo, que nega o Pai e o Filho.”
I João IV, 3: “Todo espírito que não confessa Jesus não é de Deus; e este é o espírito do Anticristo, do qual ouvistes dizer que vem, e que já agora está no mundo.”
II João 7: “Muitos sedutores entraram no mundo, que não confessam que Jesus Cristo veio na carne; esse é o sedutor e o anticristo.”
Eis agora duas passagens de São Paulo que precisaram as de São João.
II Tessalonicenses II, 1: “Quanto à vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com Ele, nós vos pedimos, irmãos, que não vos deixeis abalar facilmente em vossos sentimentos, nem alarmar, seja por algum espírito, seja por alguma palavra ou carta supostamente vinda de nós, como se o dia do Senhor (o juízo final) estivesse iminente. Que ninguém vos engane de modo algum; pois antes virá a apostasia e se manifestará o homem do pecado, o filho da perdição, o adversário que se eleva contra tudo o que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de se sentar no templo de Deus e apresentar-se como se fosse Deus.”
II Tessalonicenses II, 8: “E então será revelado o ímpio, a quem o Senhor destruirá pelo sopro de Sua boca e aniquilará pelo esplendor de Sua vinda. Em sua aparição, esse ímpio será, pelo poder de Satanás, acompanhado de toda espécie de milagres, sinais e prodígios mentirosos, com todas as seduções da iniquidade para aqueles que se perdem, porque não acolheram o amor da verdade que os teria salvado.”
Esses poucos textos de São João e de São Paulo contêm as noções fundamentais relativas ao Anticristo. Distinguiremos quatro:
1 — A aparição, no futuro, mas antes do Juízo Final, de um “Sedutor” que será um personagem histórico bem definido e ao qual os escritores sagrados dão antecipadamente o nome de Anticristo, homem do pecado, filho da perdição, adversário e ímpio.
2 — Entre os contemporâneos dos Apóstolos, a manifestação de uma certa categoria de maus cristãos impregnados do espírito desse Anticristo e que professam sua doutrina, negando que Jesus é o Cristo, negando o Pai e o Filho, não confessando Jesus e não confessando que Jesus Cristo veio na carne (esta última acusação designa os “docetistas”, isto é, aqueles que pretendem que Nosso Senhor Jesus Cristo, na Cruz, sofreu apenas em aparência, sendo a carne de um Deus, segundo eles, impassível). A esses maus cristãos, São João dá, por extensão, o nome de anticristos, pois anunciam o Anticristo pessoal cujas doutrinas já partilham. É nesse sentido que o espírito do Anticristo “já está no mundo”. Mais ainda, esses pequenos anticristos formam já, com o grande Anticristo final, um ser coletivo que o Apocalipse chamará de “a besta”.
3 — São Paulo adverte os cristãos de sua geração contra os agitadores que querem persuadi-los de que o “Dia do Senhor” (isto é, o Juízo Final) é iminente.
4 — O Anticristo não será Satanás em pessoa. Será um homem ao qual Satanás comunicará poderes excepcionais para operar pseudo-milagres e prodígios mentirosos.
Tais são, a respeito do Anticristo, as quatro noções fundamentais que se extraem diretamente dos textos do Novo Testamento. Os Padres e Doutores que vieram depois nada acrescentaram de essencial a essas quatro componentes da doutrina escriturística do Anticristo. Apenas, ao longo da História, encontraram-se diante de personagens históricos que apresentavam singulares semelhanças com o Anticristo final anunciado pela Escritura. A esses personagens, que se alimentam do espírito anticrístico, deram, a exemplo de São João, o nome de anticristos.
Assim nasceu a noção de “prefiguração” do Anticristo. Nero foi assimilado, mais exatamente comparado ao Anticristo. Juliano, o Apóstata, também o foi. Na Idade Média, numerosos autores cristãos consideraram Maomé como um anticristo. Deve-se reconhecer que tais assimilações são de grande exatidão, pois todos esses personagens da história foram temíveis “adversários” de Cristo; elas não prejudicam a noção fundamental e escriturística da “personalidade” do Anticristo dos últimos tempos. E não se pode dizer que a tradição patrística nos tenha transmitido a ideia de um Anticristo “ser coletivo” e pessoa moral; pelo contrário.
Santo Irineu, por exemplo, empenhou-se em imaginar, a partir das passagens do Antigo e do Novo Testamento que pôde reunir, como se comportaria, no futuro distante, esse personagem formidável. Ele será, diz ele, o autor de uma grande apostasia e se fará adorar como Deus por todos aqueles que tiver seduzido; fará prodígios por meio dos demônios e seduzirá os habitantes da terra; resumirá em si mesmo a apostasia universal.
Mesma doutrina da “personalidade” do Anticristo em São Cirilo de Jerusalém: “Assim como o diabo enganou os homens antes da vinda de Jesus Cristo, do mesmo modo o Anticristo, na segunda vinda de Jesus Cristo, enganará os homens e usurpará o domínio sobre o império romano.”
Quanto à questão de saber em que época aparecerá o Anticristo “pessoal”, admite-se há muito tempo que será nas proximidades do fim dos tempos. Santo Tomás de Aquino assim pensava, como muitos outros, apoiando-se primeiramente em Mateus XXIV, 12: “E, por causa do progresso da iniquidade, a caridade de muitos esfriará... e então virá o fim”, e, em segundo lugar, em I Timóteo IV, 1: “Mas o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns abandonarão a fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios...”. Sobre esse ponto, a tradição apostólica sempre recebeu o reforço dos místicos. A revelação privada abunda em profecias relativas às tribulações finais e ao Anticristo que será seu mais ativo artífice. Citemos em particular Santa Hildegarda, que escreveu, a esse respeito, páginas muito claras.
E agora, como se situa “a Besta”, de que se fala tão frequentemente no Apocalipse, em relação ao Anticristo? O que ela é em comparação com ele? A resposta a essa questão difere segundo as escolas.
Os partidários do Anticristo coletivo pensam que “a besta” e o Anticristo designam uma só e mesma pessoa moral. Nessa concepção, a besta anticrística seria um vasto corpo composto que não teria cabeça.
Para os partidários da escola oposta, o Anticristo é “o chefe”, isto é, a cabeça da Besta, a qual é o corpo constituído por todos os homens que se alimentam do espírito do Anticristo e partilham sua doutrina, corpo que será particularmente disforme e desmesurado nos últimos tempos. Nessa concepção, a existência do corpo não exclui a do chefe. Se há um corpo, que é a besta, há também um chefe, que é o “filho da perdição”. As duas noções não apenas não se anulam, mas se completam.
A doutrina da “personalidade” do Anticristo está longe de ser estranha à tradição apostólica. Ela foi partilhada pelos mais ilustres pontífices. Recorda-se este trecho da encíclica pela qual São Pio X anunciava ao mundo católico sua elevação ao trono de Pedro: “Quem pondera a gravidade das iniquidades modernas tem o direito de se perguntar se tal perversão não é o começo das tribulações finais... e se mesmo o ‘Filho da perdição’ de que fala o Apóstolo não teria já aparecido entre nós.” Pode-se, portanto, afirmar que São Pio X acreditava na “personalidade” do Anticristo.
Jean Vaquié
Nenhum comentário:
Postar um comentário