Artigo I — O Homem que Caiu para Cima
O carro de Caranjumú voou do precipício numa terça-feira sem nenhuma dignidade meteorológica. Não chovia, não ventava, não havia trovão, não havia sinal no céu, nem presságio nos animais, nem velha benzedeira olhando torto para o nascente. Apenas uma curva ruim, uma pedra solta, um motor tossindo como funcionário público às seis da manhã e, de repente, o automóvel abandonou a estrada como quem se demite da realidade.
Os homens de Coisa Perdida só souberam do acidente porque o burro de Seu Nicanor parou diante da venda, recusou água, recusou milho e começou a olhar para o barranco com a solenidade de um juiz aposentado. Quando foram ver, encontraram o carro lá embaixo, virado de lado, fumegando feito panela esquecida no fogo. Caranjumú estava sentado no capô amassado, limpando sangue do supercílio com um pedaço da própria camisa, como se tivesse apenas descido para conferir o estado da paisagem.
Disseram que ele devia estar morto. Ele concordou.
— Devia mesmo.
Foi a primeira declaração oficial do caso.
O delegado, que chegara com atraso porque sua bicicleta perdera a corrente e a paciência, anotou no caderno: “Indivíduo caiu de grande altura, recusou falecer e apresenta resistência à lógica.” Depois riscou a última parte, pois não sabia se lógica era crime estadual ou federal.
Caranjumú olhou para cima. A estrada, vista do fundo, parecia uma linha desenhada por alguém que não sabia decidir entre separar e unir os lugares. Havia nela qualquer coisa de promessa falsa. A mesma estrada que conduzia homens ao mercado, ao cemitério, ao casamento e ao tribunal agora fingia inocência no alto do barranco, como se jamais tivesse empurrado ninguém para baixo.
A notícia correu antes dele. Quando Caranjumú chegou mancando à vila, todos já sabiam que ele havia morrido, ressuscitado, matado três urubus com os olhos e conversado com uma santa sem cabeça. Nenhuma dessas versões era verdadeira, mas todas pareciam mais aceitáveis que a simples hipótese de um homem ter sobrevivido porque ainda não terminara de entender a própria vida.
Naquela noite, Coisa Perdida dormiu mal. Não por compaixão, que era artigo raro e geralmente fiado, mas porque um homem que cai de um precipício e retorna andando perturba a contabilidade secreta das coisas. Se a morte podia errar daquele jeito, então talvez também errassem os impostos, os casamentos, as dívidas antigas e as promessas feitas ao pé do altar.
Caranjumú, porém, não comemorou. Sentou-se diante de casa, encarou a estrada escura e permaneceu ali até o amanhecer. Quem passou jurou que ele sorria. Quem olhou melhor percebeu que não. Havia em seu rosto apenas aquela expressão de quem ouviu uma piada grande demais para rir antes do final.
Artigo II — Coisa Perdida
Coisa Perdida não aparecia em mapa algum digno desse nome. Os mapas honestos terminavam alguns quilômetros antes, como se os cartógrafos, chegando àquela região, resolvessem preservar a própria reputação. Os desonestos, por outro lado, desenhavam uma estrada, um rio, duas casas e uma igreja, apenas para que o vazio não parecesse tão constrangedor. Nenhum deles acertava. Coisa Perdida era uma localidade que se recusava a caber em qualquer representação, porque mudava menos de lugar do que de significado.
Dizia-se que a vila nascera de um erro. Um escrivão do Império, cansado de copiar nomes de fazendas e sesmarias, registrara como povoado o espaço destinado às observações. Quando descobriram o equívoco, já havia gente suficiente para defendê-lo. Desde então, a existência da vila era sustentada mais pela teimosia de seus habitantes do que pela geografia. Talvez por isso ninguém conseguisse explicar ao certo onde começava ou terminava. Os viajantes apenas percebiam que, em algum momento da estrada, o mundo passava a obedecer a um tipo diferente de lógica.
Ali, o padeiro vendia pão fiado aos ricos e exigia pagamento adiantado dos pobres, alegando que os primeiros sempre acabavam quitando as dívidas por vergonha, enquanto os segundos pagavam por honra. O farmacêutico receitava silêncio para dores de cabeça e conversa para dores do peito. O coveiro era o único homem da vila que trabalhava sem pressa; dizia que os clientes jamais reclamavam do atraso. Essas excentricidades não escandalizavam ninguém. O espanto, em Coisa Perdida, era reservado apenas às coisas normais.
No centro da praça havia uma igreja antiga, construída com pedras de tonalidades diferentes, como se cada geração tivesse acrescentado um pedaço da própria fé sem consultar a anterior. O sino tocava em horários imprevisíveis. Não porque estivesse quebrado, mas porque o sacristão acreditava que a hora certa era uma superstição inventada pelos relojoeiros. Havia dias em que chamava para a missa antes do amanhecer; noutros, fazia soar as badaladas quando os fiéis já voltavam para casa. Curiosamente, quase nunca errava. Quem precisava estar presente acabava chegando, ainda que por caminhos completamente distintos.
Caranjumú atravessou a praça sem olhar para a igreja. Não por irreverência, mas porque havia aprendido que certas construções observam melhor quando não são encaradas. Em Coisa Perdida, as paredes pareciam guardar mais memória do que os homens. A tinta descascava, as telhas rachavam, mas havia nelas uma permanência difícil de explicar, como se o tempo gastasse apenas aquilo que fosse superficial.
As crianças interromperam a brincadeira quando o viram passar. Não sentiam medo dele. Sentiam curiosidade. Cresceram ouvindo histórias contraditórias: que enfrentara jagunços armado apenas com um machado cego; que devolvera uma fortuna encontrada na estrada porque desconfiara da honestidade do dinheiro; que certa vez passara três dias conversando com um velho desconhecido sem perguntar-lhe o nome. Cada narrador acrescentava um detalhe diferente, e, estranhamente, todas as versões pareciam verdadeiras ao mesmo tempo.
Na venda de Seu Nicanor, os fregueses discutiam o acidente com a solenidade reservada aos grandes acontecimentos nacionais. Um defendia que o carro fora salvo por intervenção divina. Outro jurava que o precipício não tinha profundidade suficiente para matar um homem daquele tamanho. Um terceiro afirmava que Caranjumú jamais caíra; era o barranco que subira ao encontro dele. A discussão prolongou-se por horas, encerrando-se apenas quando todos concordaram que a verdade, fosse qual fosse, seria menos interessante do que as hipóteses.
Caranjumú entrou na venda apenas para comprar querosene. Pagou, agradeceu e preparava-se para sair quando Seu Nicanor perguntou, sem erguer os olhos do balcão:
— E então... como é morrer?
O silêncio espalhou-se pelo recinto como fumaça.
Caranjumú demorou alguns segundos antes de responder.
— Não sei. Ainda estou tentando descobrir como é continuar vivo.
Ninguém comentou a frase. Cada homem voltou lentamente ao próprio copo, como se tivesse acabado de ouvir algo simples demais para merecer aplauso e profundo demais para admitir resposta. Do lado de fora, a estrada permanecia imóvel sob o sol da tarde. Vista dali, parecia apenas um caminho de terra. Vista por quem já caíra dela, entretanto, começava a adquirir a aparência discreta de um velho enigma que fingia conduzir os homens, quando talvez fosse conduzido por eles.
Artigo III — Caranjumú Não Faz Acordos
Ninguém sabia ao certo de onde surgira o apelido. Alguns sustentavam que nascera do encontro improvável entre um carcará e um caranguejo, porque ele avançava como ave de rapina e permanecia imóvel como bicho de mangue quando julgava necessário. Outros afirmavam que o nome fora inventado por uma criança que ainda não aprendera a separar as palavras do mundo. Caranjumú jamais corrigiu ninguém. Havia descoberto muito cedo que um homem gasta menos energia carregando um apelido do que tentando explicar o próprio nome.
Seu nome de batismo era Antônio, mas esse detalhe sobrevivia apenas nos livros da paróquia, escritos com uma caligrafia tão antiga que parecia pertencer a alguém que copiava o tempo em vez das pessoas. Para os íntimos, quando ainda existiam íntimos, era Zé Antônio. Para o restante da região, era simplesmente Caranjumú. O apelido acabara crescendo mais do que o homem.
Foi numa manhã de calor seco que a vila voltou a pronunciá-lo com respeito. Dois sujeitos haviam invadido a pequena creche durante a madrugada. Não levaram dinheiro, porque não havia. Não levaram comida, porque também não havia muita. Roubaram os colchões onde as crianças dormiam depois do almoço. A notícia parecia ridícula demais para provocar indignação; justamente por isso indignou a todos. Havia crimes que nasciam tão pequenos que revelavam uma perversidade maior do que os grandes massacres.
Chamaram a polícia apenas por hábito. O delegado ouviu a ocorrência, prometeu instaurar um procedimento, abriu uma gaveta, fechou outra, coçou a barba e concluiu que o processo precisava amadurecer antes de qualquer providência. Era um homem que acreditava profundamente na capacidade do tempo de resolver aquilo que os homens evitavam enfrentar.
Quando a notícia chegou aos ouvidos de Caranjumú, ele apenas perguntou em que direção os ladrões haviam seguido.
Indicaram a estrada do norte.
Ele caminhou.
Não pediu cavalo, nem arma, nem companhia. Apenas caminhou. Havia em seus passos uma economia de gestos que fazia parecer que o esforço era realizado pela própria estrada.
Encontrou os dois homens perto da ponte velha, tentando vender os colchões a um comerciante que negociava qualquer mercadoria, desde que não precisasse fazer perguntas. O comerciante percebeu a aproximação de Caranjumú e decidiu que, naquele dia, não compraria sequer o silêncio.
Os ladrões sacaram facas.
Caranjumú não.
A conversa foi curta.
— Vieram me prender? — perguntou um deles, rindo.
— Não.
— Então vieram cobrar?
— Também não.
O outro sorriu com a confiança típica daqueles que confundem ausência de gritos com ausência de perigo.
— Então o que querem?
Caranjumú olhou demoradamente para os colchões empilhados.
— Amanhã haverá cinquenta colchões novos nas creches das cidades vizinhas.
Os homens riram.
— E se não houver?
Ele respondeu sem alterar a voz.
— Então o barqueiro terá duas almas a mais para atravessar.
Um dos ladrões cuspiu no chão.
— Quem é você para decidir isso?
Caranjumú fitou o homem como quem mede a distância entre duas montanhas.
— Ninguém.
A resposta desconcertou mais do que qualquer ameaça.
Depois acrescentou:
— Não sou juiz. Só corto cabeças quando preciso.
As palavras caíram sobre a ponte com a mesma naturalidade com que uma pedra cai na água. Não havia bravata, nem orgulho, nem prazer. Apenas uma espécie de constatação desagradável, como quem informa que a chuva chegará antes da noite.
Ninguém jamais soube exatamente o que aconteceu nos minutos seguintes. O comerciante fechou os olhos antes que pudesse testemunhar qualquer desfecho; dizia que certas cenas envelhecem quem as presencia. Quando voltou a olhar, os dois homens caminhavam na direção oposta, carregando os colchões sobre os ombros. Um deles mancava. O outro chorava discretamente, não de dor, mas daquela vergonha que só aparece quando um homem percebe ter encontrado alguém impossível de comprar.
Três dias depois, cinquenta colchões chegaram às creches de cinco povoados diferentes. Vieram em carroças distintas, conduzidas por pessoas que juravam desconhecer o remetente. O delegado abriu novo procedimento para investigar o estranho caso da restituição multiplicada. Arquivou-o duas semanas depois, concluindo que a generosidade organizada produzia mais problemas administrativos do que os próprios furtos.
Quando soube do encerramento do inquérito, Caranjumú apenas sorriu de canto. Pela primeira vez desde o acidente no precipício, compreendeu que o mundo insistia em organizar os fatos pela ordem errada. Os homens julgavam que a justiça servia para restaurar as coisas; talvez fosse exatamente o contrário. Talvez fossem as coisas, silenciosamente, que julgassem os homens.
Naquela mesma tarde, muito além da última cerca da vila, um cavaleiro levantava uma nuvem de poeira na estrada. Trazia consigo uma carta lacrada com cera vermelha e o brasão do homem mais poderoso da região. Antes do pôr do sol, o nome de Coronel Pavio Curto pisaria, pela primeira vez, o destino de Caranjumú.
Capítulo II — Os Homens que Administravam o Caos
Artigo IV — O Coronel que Comprava Horizontes
O nome de Coronel Pavio Curto percorria o sertão muito antes de sua sombra. Não era apenas um proprietário de terras, nem simplesmente um homem rico, tampouco um daqueles chefes locais que confundiam autoridade com quantidade de empregados armados. Havia conseguido algo mais raro: convencer uma região inteira de que a realidade terminava onde suas cercas começavam. Os mapas podiam discordar; os cartórios, eventualmente; a chuva, de tempos em tempos. Os homens, quase nunca.
Diziam que comprava fazendas da mesma maneira que outros compravam relógios: não porque precisasse delas, mas porque lhe desagradava a ideia de que existissem pertencendo a outra pessoa. Nunca perguntava quanto valiam. Perguntava apenas quanto custava fazer o proprietário desistir de chamá-las de suas. Se o dinheiro não bastasse, empregava argumentos de pólvora. Se nem a pólvora resolvesse, deixava que o tempo trabalhasse. Descobrira cedo que a fome costuma ser mais paciente do que qualquer exército.
Seu verdadeiro nome desaparecera havia muitos anos. Restara apenas o apelido. Contavam que nascera do pavio curtíssimo de sua paciência. Outros sustentavam que o nome viera de uma explosão ocorrida na juventude, quando um paiol inteiro voara pelos ares porque ele resolvera medir a pólvora com a pressa dos ignorantes. O coronel nunca confirmou nenhuma versão. Um homem poderoso aprende que o mistério custa menos do que a propaganda.
Naquela semana, porém, algo perturbava sua rotina. Uma pequena faixa de terra, perdida entre duas serras e um riacho quase seco, recusava-se a obedecer-lhe. Não porque tivesse grande valor econômico. Era estreita demais para o gado e pedregosa demais para o plantio. O problema estava em outra parte. Todas as estradas antigas da região passavam, cedo ou tarde, por aquele pedaço de chão. Controlá-lo significava possuir não apenas a terra, mas a direção dos homens.
O administrador apresentou-lhe os documentos. Havia escrituras, registros, medições, testemunhas e até um mapa desenhado por um engenheiro da capital. O coronel folheou tudo sem ler. Conhecia a diferença entre papel e poder. Os papéis apenas registravam aquilo que o poder decidia recordar.
— De quem é?
— Legalmente... ninguém sabe mais.
— Então pertence a quem?
O administrador hesitou.
— Ao povo, dizem alguns.
O coronel soltou um riso breve.
— O povo nunca possui nada. Apenas ocupa enquanto alguém mais forte não chega.
A conversa terminou ali.
No dia seguinte, cinquenta homens montados seguiram para a região disputada. Não receberam ordem para matar ninguém. Receberam instruções muito mais eficientes: erguer cercas. O coronel compreendia que uma cerca bem colocada costuma produzir mais cadáveres do que um rifle mal apontado. Os homens discutem por honra, por dinheiro, por religião; mas enlouquecem verdadeiramente quando uma linha invisível lhes diz onde podem ou não pisar.
Enquanto isso, em Coisa Perdida, a notícia chegava fragmentada, como todas as notícias importantes. Um tropeiro falava em invasão. Um mascate jurava que se tratava apenas de nova medição. Um padre itinerante afirmava que a disputa era antiga como o pecado da propriedade. Ninguém possuía a história inteira. Cada um carregava apenas um pedaço, e os pedaços pareciam discordar uns dos outros.
Caranjumú ouviu tudo em silêncio. Não perguntou quem venceria. Perguntou apenas onde começava exatamente a terra em disputa.
Responderam apontando para o horizonte.
Ele sorriu discretamente.
Havia aprendido, desde menino, que todo homem capaz de apontar um horizonte como se fosse objeto de bolso já perdera a capacidade de distinguir posse de ilusão.
Naquela noite, voltou a caminhar até o alto do precipício de onde sobrevivera dias antes. A estrada permanecia imóvel, atravessando a escuridão como uma cicatriz muito antiga. Pela primeira vez lhe ocorreu uma ideia incômoda. Talvez os homens jamais brigassem pela terra. Talvez brigassem pelo direito de acreditar que poderiam permanecer onde o tempo jamais permitira permanência a ninguém.
Enquanto pensava nisso, um cavalo aproximou-se lentamente pela estrada. O mensageiro desmontou, entregou-lhe uma carta lacrada e retirou-se sem pronunciar palavra.
Caranjumú rompeu o selo.
Havia apenas uma frase.
«"Alguns homens vendem a terra. Outros são vendidos por ela. Descubra de que lado pretende morrer."»
Não havia assinatura.
Também não era necessária.
Artigo V — O Prefeito Esbofeteado
Coisa Perdida possuía um prefeito por exigência da República e um conselho de anciãos por exigência da realidade. O primeiro assinava documentos; o segundo decidia silenciosamente quais deles mereciam existir. Essa convivência produzia uma administração curiosa, na qual os decretos eram publicados antes de serem compreendidos e revogados muito depois de terem sido esquecidos.
O prefeito chamava-se Ambrósio Valadares, embora poucos se lembrassem disso. Era conhecido apenas como Doutor Prefeito, título conquistado não por formação acadêmica, mas porque aprendera a usar palavras suficientemente longas para impedir perguntas curtas. Discursava com elegância sobre progresso, civilização e ordem pública, enquanto a ponte principal permanecia sustentada por duas vigas, três promessas eleitorais e a confiança excessiva dos carroceiros.
Ao saber da movimentação do Coronel Pavio Curto, convocou imediatamente uma reunião extraordinária na Câmara Municipal. O edifício, antigo sobrado de janelas altas, possuía mais retratos de homens mortos do que cadeiras para os vivos. Ali discutia-se tudo: impostos, procissões, tamanho das calçadas, posição dos bancos da praça e até o comportamento do vento, sempre que este contrariava algum comerciante influente.
O secretário iniciou a sessão lendo um documento de vinte e sete páginas cujo conteúdo poderia ter sido resumido em uma única frase: "Não sabemos o que fazer." Como toda burocracia respeitável, preferiu gastar papel em vez de admitir ignorância.
Um vereador sugeriu criar uma comissão para estudar a formação de outra comissão. Outro propôs solicitar esclarecimentos ao governo provincial, embora a resposta levasse meses para chegar. Um terceiro defendeu a construção de um marco de pedra delimitando a propriedade contestada, esquecendo-se de que o problema era justamente saber onde colocá-lo.
Enquanto discutiam, a terra continuava onde sempre estivera.
Foi então que alguém sugeriu chamar Caranjumú.
A proposta dividiu a sala.
Alguns riram.
Outros empalideceram.
O prefeito recusou imediatamente.
— A administração pública não negocia com homens dessa espécie.
Ninguém perguntou de que espécie falava. Talvez porque todos soubessem que certas classificações servem apenas para esconder a incapacidade de compreender alguém.
No entanto, naquela mesma tarde, o destino resolveu dispensar convites formais.
Caranjumú entrou na Câmara sem anunciar a chegada. Não empurrou portas, não levantou a voz, não exigiu audiência. Apenas entrou. O murmúrio cessou como se alguém tivesse fechado uma torneira invisível.
O prefeito recompôs a postura.
— Esta sessão é restrita.
— Percebi.
— Então por que entrou?
Caranjumú observou demoradamente os mapas espalhados sobre a mesa. Eram belas folhas coloridas, riscadas por linhas, números e assinaturas. Nenhuma delas possuía cheiro de terra.
— Porque vocês estão tentando resolver um problema do chão sem encostar os pés nele.
Alguns vereadores desviaram o olhar.
O prefeito sorriu com aquela cordialidade cultivada por homens que confundem educação com superioridade.
— O senhor entende de leis?
— Não.
— De cartografia?
— Também não.
— Então de que entende?
Caranjumú respondeu quase sem pensar.
— De consequências.
A palavra caiu pesada sobre a mesa.
O prefeito ergueu um dos mapas.
— Estas divisas são legais.
Caranjumú aproximou-se, tomou delicadamente o papel entre os dedos e perguntou:
— Quando a chuva passa por aqui... ela lê isto antes?
Alguns homens esconderam o riso.
Outros fizeram esforço para não rir.
O prefeito enrubesceu.
— Está zombando desta Casa?
— Não.
Fez uma breve pausa.
— Ela já se encarrega disso sozinha.
O silêncio seguinte foi mais ofensivo do que qualquer insulto.
O prefeito levantou-se bruscamente.
— Retire-se imediatamente!
Caranjumú permaneceu imóvel.
Havia momentos em que sua quietude parecia mais violenta do que uma carga de cavalaria.
O prefeito aproximou-se até ficar a poucos centímetros dele.
— Está ouvindo?
Caranjumú confirmou com um discreto movimento de cabeça.
Então, com a naturalidade de quem afasta um galho do caminho, ergueu a mão e desferiu um único tapa no rosto do prefeito.
Não houve fúria.
Não houve espetáculo.
O som ecoou pelo salão como um livro sendo fechado.
O prefeito cambaleou dois passos para trás, mais surpreendido do que ferido.
Antes que qualquer guarda reagisse, Caranjumú falou calmamente:
— Guarde esse para quando esquecer que cargo não aumenta homem.
Voltou-se para a porta e saiu caminhando no mesmo ritmo com que entrara.
Ninguém tentou detê-lo.
Não por medo.
Porque todos perceberam, ainda que por um instante, que prender aquele homem resolveria menos do que prender a própria pergunta que ele deixara sobre a mesa.
Na manhã seguinte, a notícia espalhou-se por toda a região. Em algumas versões, Caranjumú derrubara o prefeito com um soco. Em outras, humilhara toda a Câmara. Houve até quem jurasse que o edifício inteiro estremecera.
A verdade era bem menor.
E justamente por isso muito maior.
Naquele dia, pela primeira vez em muitos anos, os homens de Coisa Perdida passaram a discutir menos quem possuía a terra e mais quem, afinal, possuía autoridade para dizer o que era justo.
Enquanto isso, muito além das cercas recém-erguidas, cinquenta cavaleiros terminavam de fechar o último trecho da propriedade disputada.
A guerra ainda não havia começado.
Mas o silêncio já escolhera um lado.
Artigo VI — Cinquenta Colchões para o Inferno
As cercas erguidas pelos homens do Coronel Pavio Curto produziram um efeito curioso. Não impediram a passagem de ninguém durante os primeiros dias. Continuavam abertas em vários pontos, algumas mal sustentadas por mourões recém-fincados, outras ainda sem arame suficiente para deter sequer uma cabra determinada. Apesar disso, os viajantes passaram a contorná-las como se fossem muralhas. Descobriram, mais uma vez, que o primeiro material de toda prisão não é a madeira, mas a imaginação.
Coisa Perdida começou a sentir as consequências antes mesmo de compreendê-las. As carroças chegavam por caminhos mais longos, o sal encareceu, o correio passou a atrasar, tropeiros preferiram novas rotas e comerciantes, sempre atentos ao vento do lucro, elevaram os preços alegando dificuldades logísticas que nem eles próprios saberiam explicar. Uma simples cerca alterara o comportamento de uma região inteira sem mover um palmo de terra.
O prefeito enxergou naquilo uma oportunidade. Convocou outra sessão extraordinária, criou a Comissão Permanente para a Pacificação das Divisas Transitórias e determinou que fossem confeccionados selos oficiais para autenticar futuros pareceres. Os selos chegaram antes dos pareceres. A tipografia trabalhava melhor que a administração.
Enquanto isso, os homens comentavam outro assunto.
Os cinquenta colchões.
As creches vizinhas continuavam recebendo visitas de curiosos que procuravam descobrir quem pagara por eles. Algumas freiras atribuíam o gesto à Providência. Os comerciantes diziam ter sido um benfeitor anônimo. As crianças pouco se importavam com a autoria; dormiam melhor e isso lhes bastava. Somente os dois antigos ladrões conheciam a resposta, mas mantinham um silêncio que parecia mais pesado do que qualquer corrente.
Foi numa dessas tardes que um deles reapareceu em Coisa Perdida.
Chamava-se Firmino. Tinha o rosto castigado pelo sol, um ombro mais baixo que o outro e um olhar inquieto, típico dos homens que já haviam mentido tantas vezes que começavam a desconfiar até da própria memória. Entrou na venda de Seu Nicanor, pediu café e permaneceu alguns minutos observando a porta, como quem esperava alguém que desejava encontrar e temia ao mesmo tempo.
Caranjumú chegou pouco depois.
Sentou-se à mesa ao lado.
Nenhum dos dois falou imediatamente.
O silêncio entre ambos possuía a intimidade dos acontecimentos que dispensam testemunhas.
Foi Firmino quem rompeu a espera.
— Trouxemos os cinquenta.
Caranjumú fez um discreto movimento afirmativo com a cabeça.
— Eu soube.
— Não foi fácil.
— Nunca imaginei que fosse.
Firmino sorriu com amargura.
— Passei a vida roubando dos outros. Descobri que devolver custa muito mais.
A frase permaneceu suspensa entre os dois.
Seu Nicanor fingia limpar copos enquanto escutava cada palavra.
— Então por que devolveu? — perguntou Caranjumú.
Firmino demorou a responder.
Olhou para as próprias mãos.
As unhas ainda guardavam vestígios de terra.
— Porque naquela ponte... pela primeira vez... alguém me fez sentir vergonha antes de sentir medo.
Caranjumú não respondeu.
Sabia que existiam derrotas das quais um homem saía maior do que das vitórias.
Firmino retirou do bolso uma pequena chave enferrujada.
Colocou-a sobre a mesa.
— Era do depósito onde escondíamos as coisas roubadas.
Caranjumú não a tocou.
— Não preciso dela.
— E se houver mais coisas?
— Haverá.
— Então por que não pega?
Caranjumú sorriu quase imperceptivelmente.
— Porque não são as portas que mantêm um homem preso.
Firmino guardou novamente a chave.
Levantou-se.
Antes de sair, voltou-se apenas uma vez.
— Ainda não entendo quem é você.
Caranjumú respondeu olhando para a janela, onde a estrada desaparecia atrás da poeira.
— Nem eu.
Firmino foi embora.
Seu Nicanor aproximou-se lentamente.
— Podia ter entregue esse homem ao delegado.
— Podia.
— Por que não fez?
Caranjumú demorou alguns instantes.
Depois respondeu com a simplicidade de quem comenta o clima.
— Porque existem homens que precisam de uma sentença.
Outros...
Precisam sobreviver a ela.
Naquela mesma noite, muito distante dali, Coronel Pavio Curto recebeu notícias preocupantes.
Os moradores começavam a atravessar suas cercas durante a madrugada.
Não para roubar.
Não para destruir.
Apenas para continuar usando os antigos caminhos.
O coronel ouviu o relatório sem alterar a expressão.
Depois perguntou:
— Quem foi o primeiro?
O capataz respondeu sem hesitar.
— Não sabemos.
O coronel levantou-se.
Caminhou lentamente até a varanda.
Observou o horizonte escurecendo.
Sorriu pela primeira vez em muitos dias.
— Descubram.
Porque toda multidão começa com um único homem que decidiu dar o primeiro passo.
O capataz permaneceu em silêncio.
No fundo, ambos já suspeitavam da resposta.
Embora ninguém o tivesse visto cruzando as cercas, havia apenas um homem em toda a região capaz de ensinar uma estrada a desobedecer.
Capítulo III — O Peso Invisível das Pegadas
Artigo VII — Os Cães do Coronel
Quando o Coronel Pavio Curto descobriu que suas cercas já não bastavam para impedir a passagem dos homens, compreendeu que perdera algo muito mais valioso do que um pedaço de terra. Não perdera autoridade. Autoridade ainda podia ser recuperada pela violência. Perdera a ilusão de inevitabilidade. E um poder que deixa de parecer inevitável envelhece de um dia para o outro.
Na manhã seguinte, chamou seus homens ao terreiro da fazenda.
Não gritou.
Os homens perigosos raramente gritam.
Falou como quem organiza uma colheita.
— Quero Caranjumú.
Ninguém perguntou vivo ou morto.
A ausência da pergunta já continha a resposta.
Cinquenta cavaleiros partiram antes do nascer completo do sol. Eram conhecidos na região como os Cães do Coronel. Não porque fossem cruéis, embora muitos o fossem, mas porque haviam aprendido a perseguir sem pensar. O bom caçador conhece a presa; o bom cão conhece apenas o comando.
Durante dois dias seguiram rastros.
No terceiro perceberam algo desconcertante.
Os rastros multiplicavam-se.
Pegadas apareciam e desapareciam sobre a estrada, cruzavam riachos, contornavam pedras e, de repente, terminavam onde nenhum homem poderia ter deixado de caminhar. Um dos mais velhos sugeriu que Caranjumú conhecia trilhas antigas dos tropeiros. Outro jurou que ele andava para trás a fim de confundir perseguidores. O mais jovem permaneceu calado. Começava a desconfiar de que certos homens não escondem os passos; escondem o sentido deles.
Ao cair da tarde encontraram um velho sentado à sombra de um angico.
Vestia roupas gastas e afiava lentamente uma enxada que já não parecia capaz de cortar sequer a própria ferrugem.
— Passou um homem por aqui? — perguntou o chefe da patrulha.
O velho continuou afiando.
— Muitos.
— Alto. Forte.
— Também.
— Chamam-no Caranjumú.
O velho ergueu os olhos.
— Esse nome passa por aqui faz muitos anos.
— Quando?
— Depende.
Os homens trocaram olhares.
O chefe perdeu a paciência.
— Estamos falando de hoje!
O velho sorriu.
— Eu também.
A resposta irritou mais do que qualquer insulto.
Seguiram adiante.
Horas depois perceberam que haviam voltado exatamente ao mesmo angico.
O velho continuava afiando a mesma enxada.
Como se jamais tivessem partido.
Naquela noite acamparam inquietos.
Nenhum deles confessou o medo.
Mas todos passaram a dormir com um olho aberto.
Enquanto isso, Caranjumú caminhava sozinho por uma estrada secundária, muito distante dali.
Não fugia.
Jamais confundira deslocamento com fuga.
Parou junto a uma velha ponte de pedra.
A mesma onde encontrara os ladrões dos colchões.
Encostou a mão no parapeito.
A pedra conservava pequenas marcas de tiros antigos.
Recordou-se, então, de um rosto que tentara esquecer durante quase vinte anos.
O primeiro homem que matara.
Não fora por coragem.
Nem por honra.
Muito menos por prazer.
Fora porque, naquela época, acreditava que algumas decisões podiam ser delegadas ao instante.
Descobrira depois que o instante termina depressa.
A memória não.
Sentou-se sobre a ponte.
O rio corria lentamente sob seus pés.
A água parecia repetir uma verdade silenciosa: nenhuma corrente retorna ao lugar de onde partiu, embora todas pareçam iguais para quem as observa de longe.
Caranjumú fechou os olhos.
Pela primeira vez desde o acidente, compreendeu que não era o Coronel quem o perseguia.
Nem aqueles cinquenta homens.
Era outra coisa.
Muito mais antiga.
Muito mais paciente.
Cada escolha que fizera permanecia caminhando atrás dele.
Não para cobrá-lo.
Mas para alcançá-lo.
Ao amanhecer, um disparo ecoou entre as serras.
Depois outro.
Os Cães do Coronel finalmente haviam encontrado um rastro verdadeiro.
Não o de Caranjumú.
O deles próprios.
Artigo VIII — Caranguejeira
Poucos homens tinham o privilégio de chamar Caranjumú pelo nome de batismo. Menos ainda ousavam tratá-lo por Zé Antônio. Entre esses poucos havia apenas um que conseguia fazê-lo sem diminuir nem aumentar a distância entre ambos.
Chamavam-no de Caranguejeira.
Ninguém sabia ao certo por quê.
Alguns diziam que, quando menino, passara três dias escondido numa furna infestada de aranhas para escapar de um bando de jagunços. Outros sustentavam que construía armadilhas tão engenhosas que até as aranhas pareciam copiá-las. Havia ainda quem afirmasse que o apelido nascera simplesmente porque era um homem que nunca caminhava em linha reta; aproximava-se das coisas de lado, como se desconfiasse das evidências.
Seu verdadeiro nome era José Antônio.
O curioso era que Caranjumú também se chamava Antônio.
Durante anos, isso confundira viajantes, padres, soldados e escrivães. Em certo cartório chegaram a registrar um deles como testemunha do casamento do outro, embora ambos estivessem presentes ao mesmo tempo. O erro jamais foi corrigido. Em Coisa Perdida, a verdade documental sempre chegava atrasada em relação à realidade.
Encontraram-se ao entardecer, junto às ruínas de um antigo moinho.
Não se abraçaram.
Nunca haviam desenvolvido esse costume.
Sentaram-se lado a lado, observando a roda imóvel que, décadas antes, transformara a força da água em farinha. Agora restava apenas madeira ressequida e um curso d'água cada vez mais estreito.
Caranguejeira foi o primeiro a falar.
— Cinquenta homens.
— Eu sei.
— Vieram atrás de você.
— Também sei.
Houve novo silêncio.
Os dois compreendiam que algumas conversas amadurecem melhor quando nenhuma palavra lhes apressa o nascimento.
Caranguejeira retirou do bolso um pequeno canivete e começou a aparar um galho seco.
— Lembra da Serra do Umbuzeiro?
Caranjumú respondeu sem olhar para ele.
— Todos os dias.
Foi ali que tudo começara.
Não a fama.
Nem a violência.
Mas a dúvida.
Muitos anos antes, quando ambos ainda mal haviam aprendido a distinguir coragem de imprudência, acompanharam um velho tropeiro por uma passagem estreita entre as serras. No caminho encontraram um homem agonizando, atingido por um disparo.
Pedia água.
Pedia ajuda.
Pedia qualquer coisa que prolongasse alguns minutos da própria existência.
O velho tropeiro não parou.
Continuou caminhando.
Os dois rapazes permaneceram imóveis.
Esperando uma explicação.
Ela nunca veio.
Somente ao anoitecer, já longe dali, o velho comentou:
— Existem dores que pertencem ao homem.
E existem dores que pertencem ao caminho.
Nenhum dos dois compreendeu.
Durante semanas discutiram aquela frase.
Durante anos tentaram esquecê-la.
Jamais conseguiram.
Caranguejeira quebrou o silêncio.
— Acho que finalmente entendi.
Caranjumú permaneceu ouvindo.
— O velho não estava dizendo que aquele homem devia morrer.
Estava dizendo outra coisa.
Que existem sofrimentos que nenhum de nós pode tomar para si.
Caranjumú observou a roda parada do moinho.
A madeira ainda conservava a forma perfeita.
Faltava-lhe apenas a correnteza.
— Passei a vida tentando carregar pesos que não eram meus.
Caranguejeira sorriu discretamente.
— Todos nós fazemos isso.
A diferença é que você acredita conseguir.
Ao longe ouviu-se o trotar de cavalos.
Os dois homens levantaram-se quase ao mesmo tempo.
Não havia pressa.
A pressa pertence aos perseguidos.
Eles apenas escutavam.
O som aproximava-se lentamente.
Caranguejeira apontou para o alto da colina.
— Vieram.
Caranjumú fez um movimento afirmativo.
— Vieram.
Os dois subiram em silêncio.
Quando alcançaram o topo, avistaram os cinquenta cavaleiros espalhando-se pelos vales como uma mancha escura.
Caranguejeira calculou rapidamente as distâncias.
Dois tiros.
Era tudo o que possuía.
Sorriu.
— Continua ruim de pontaria?
Caranjumú respondeu com a mesma ironia tranquila de tantos anos antes.
— Nunca fui bom em acertar homens.
Apenas decisões.
Os cavaleiros soltaram os cães.
O latido espalhou-se pelas serras.
Durante alguns segundos, ninguém se moveu.
Depois vieram dois disparos secos.
Não atingiram cavaleiro algum.
Os dois cães que guiavam a perseguição tombaram quase simultaneamente.
O restante da matilha parou.
Os cavalos empinaram.
Os homens hesitaram.
Naquele breve instante, a perseguição perdeu seu próprio rumo.
Caranguejeira guardou a arma.
— Sempre achei injusto matar quem apenas obedece.
Caranjumú olhava fixamente para os cães caídos.
Não havia triunfo em seu rosto.
Apenas uma tristeza antiga.
— Eu também.
Mas às vezes...
o caminho cobra um preço antes que o homem compreenda quem realmente o está perseguindo.
Os dois desapareceram entre as pedras antes que os cavaleiros reorganizassem a formação.
Lá embaixo, o comandante da tropa desmontou.
Observou os cães mortos.
Depois fitou demoradamente o horizonte.
Pela primeira vez desde o início da caçada, suspeitou de algo que nenhum relatório seria capaz de registrar.
Talvez não estivessem perseguindo um homem.
Talvez estivessem sendo conduzidos por ele.
Artigo IX — A Estrada Sem Testemunhas
Ao terceiro dia da perseguição, os cavalos já demonstravam mais cansaço do que seus cavaleiros. Não era uma exaustão do corpo, mas da direção. Um homem suporta longas distâncias quando acredita aproximar-se do destino; começa a envelhecer quando percebe que percorre apenas o mesmo círculo com nomes diferentes.
Caranjumú e Caranguejeira caminhavam por uma estrada abandonada havia décadas. As pedras antigas ainda apareciam sob a terra vermelha, lembrando que alguém, muito antes deles, imaginara que os caminhos precisavam durar mais do que os viajantes. Em vários trechos, árvores centenárias haviam rompido o antigo calçamento. A natureza não destruíra a estrada. Apenas lhe devolvera a condição de coisa viva.
Ao entardecer chegaram a uma pequena capela em ruínas.
Não havia portas.
O telhado cedera em parte.
O altar permanecia de pé.
Sobre ele repousava uma cruz de madeira escurecida pelo tempo. Não possuía a figura do Crucificado. Restava apenas o madeiro vazio, como se alguém houvesse compreendido que certas ausências também podem ser imagens.
Caranguejeira entrou primeiro.
Acendeu uma pequena lamparina.
A chama oscilou lentamente.
Durante alguns instantes, pareceu que as sombras rezavam mais do que os homens.
— Faz quanto tempo? — perguntou ele.
Caranjumú não respondeu de imediato.
Passou os dedos sobre a madeira áspera do altar.
Havia marcas de faca gravadas ali, nomes esquecidos, datas incompletas, promessas interrompidas.
— Trinta anos.
A resposta saiu quase sem voz.
Caranguejeira assentiu.
Não precisava perguntar de quê.
Ambos sabiam.
Foi naquela capela que, três décadas antes, Caranjumú encontrara o homem cuja lembrança jamais o abandonara.
Chamava-se Elias.
Não era santo.
Não era bandido.
Era apenas um pequeno lavrador que tivera o azar de cultivar um pedaço de terra desejado por gente poderosa.
Chegara à capela carregando um filho nos braços.
O menino mal respirava.
Elias pedia socorro.
Não dinheiro.
Não vingança.
Apenas um cavalo para alcançar a cidade antes do amanhecer.
Caranjumú possuía um.
E recusou.
Não por crueldade.
Naquele tempo, acreditava que prudência era o mesmo que justiça. Os jagunços do coronel rondavam a região, e entregar o cavalo significava permanecer a pé numa estrada dominada por homens armados. Calculou riscos, mediu possibilidades, escolheu preservar o que considerava necessário.
Ao amanhecer, voltou à capela.
Encontrou apenas silêncio.
O cavalo continuava preso ao mourão.
O menino também permanecia ali.
Agora imóvel.
Elias ajoelhava-se diante do altar vazio.
Não chorava.
Algumas dores atravessam o homem sem produzir lágrimas.
Caranjumú ofereceu ajuda.
Elias recusou.
Depois pronunciou uma única frase.
— Há escolhas que Deus perdoa.
Os homens...
demoram mais.
Nunca mais se viram.
Durante muitos anos, Caranjumú contou a si mesmo que nada poderia ter feito.
Repetiu a justificativa tantas vezes que quase acreditou nela.
Quase.
Agora, trinta anos depois, a mesma capela devolvia-lhe a memória sem qualquer acusação.
As paredes não julgavam.
O altar não condenava.
A cruz vazia permanecia imóvel.
Era justamente essa ausência de julgamento que tornava tudo insuportável.
Caranguejeira aproximou-se.
— Você nunca matou esse homem.
Caranjumú respondeu sem desviar os olhos do altar.
— Não.
Fez uma pausa.
— Apenas conservei vivo o homem que poderia tê-lo salvado.
O silêncio voltou a ocupar a capela.
Lá fora, o vento atravessava as árvores com um som semelhante ao das rodas de antigas carroças.
Parecia que a estrada respirava.
Caranguejeira compreendeu então aquilo que nunca conseguira nomear.
Caranjumú não carregava culpa por ter feito o mal.
Carregava algo muito mais pesado.
A memória de um bem que deixara de realizar.
Pouco antes da meia-noite, ouviram passos.
Não eram cavalos.
Não eram soldados.
Um velho aproximava-se lentamente pela estrada.
Vestia roupas simples.
Apoiava-se num cajado gasto.
Ao entrar na capela, fitou demoradamente Caranjumú.
Sorriu como quem reencontra alguém esperado havia muito tempo.
— Demorou.
Caranjumú franziu a testa.
— Nós nos conhecemos?
O velho apoiou o cajado junto ao altar.
Olhou para a cruz vazia.
Depois respondeu com absoluta serenidade:
— Não.
Mas caminhei atrás das mesmas perguntas durante toda a minha vida.
E elas sempre terminavam aqui.
Naquele instante, Caranjumú teve a estranha impressão de que a perseguição havia terminado.
Não porque os homens do coronel desistiriam.
Mas porque compreendeu, enfim, que nunca estivera fugindo deles.
Durante trinta anos, caminhara tentando alcançar um instante que já não existia.
E nenhuma estrada, por mais longa que fosse, conduzia de volta ao passado.
Do lado de fora, muito distante dali, os cinquenta cavaleiros finalmente alcançavam a velha estrada de pedras.
Pela primeira vez, seus rastros coincidiam exatamente com os de Caranjumú.
O curioso era que, naquele momento, já não conduziam ao homem que procuravam.
Conduziam ao homem que ele deixara de ser.
Capítulo IV — Onde o Nada Faz Fronteira com o Tudo
Artigo X — O Lugar Onde os Mortos Esperam
O velho recusou alimento, água e cobertor. Aceitou apenas um banco de madeira junto à parede da capela. Sentou-se como quem não interrompia uma viagem, mas apenas lhe concedia alguns minutos de descanso. A madrugada avançava lentamente, e a lamparina projetava sobre as pedras sombras que pareciam envelhecer mais depressa do que os próprios homens.
Caranguejeira dormiu antes do amanhecer. Não profundamente. Apenas o suficiente para que o corpo lembrasse ao espírito seus limites. Caranjumú permaneceu acordado.
Observava o velho.
O velho observava a cruz.
Nenhum dos dois parecia interessado em quebrar o silêncio.
Quando o primeiro raio de sol atravessou a abertura do telhado, o visitante falou:
— Os homens imaginam que os mortos ficam nos cemitérios.
Caranjumú esperou.
— Não ficam.
Fez nova pausa.
— Os mortos esperam nos lugares onde ainda somos incapazes de compreendê-los.
A frase permaneceu suspensa no ar.
Não possuía o peso de uma explicação.
Possuía o peso de uma lembrança.
Caranjumú voltou a olhar para a cruz vazia.
De repente, compreendeu por que aquela capela jamais fora abandonada de verdade.
As paredes estavam em ruínas.
O teto quase desaparecera.
O altar permanecia.
Os homens deixaram de frequentá-la.
As perguntas, não.
Partiram pouco depois.
O velho caminhava surpreendentemente rápido para alguém de sua idade. Não seguia a estrada principal. Escolhia desvios quase invisíveis, antigos caminhos de tropeiros, trilhas abertas pela água muito antes de qualquer homem imaginar fronteiras.
Ao meio-dia chegaram a um vale estreito.
Ali não havia casas.
Nem plantações.
Nem cercas.
Espalhadas entre as árvores, erguiam-se dezenas de lápides antigas.
Algumas inclinadas.
Outras partidas.
Muitas sem nome.
Caranguejeira olhou em volta.
— Nunca ouvi falar deste lugar.
O velho sorriu.
— Porque ninguém vem aqui procurar os mortos.
Vem procurar a si mesmo.
Caminharam entre as sepulturas.
Sobre várias delas cresciam pequenas flores silvestres.
Em outras, apenas musgo.
Havia um túmulo particularmente simples.
Sem cruz.
Sem inscrição.
Somente uma pedra lisa.
O velho parou diante dela.
— Leia.
Caranjumú franziu a testa.
— Não há nada escrito.
— Há.
Ele aproximou-se.
Passou lentamente a mão sobre a superfície.
A pedra estava completamente lisa.
Mesmo assim, sentiu uma estranha familiaridade.
Como se já a tivesse tocado em algum momento da vida.
O velho comentou, quase em voz baixa:
— Todo homem possui um túmulo onde enterra aquilo que poderia ter sido.
Alguns passam a vida inteira ajoelhados diante dele sem perceber.
Caranjumú permaneceu imóvel.
Pela primeira vez desde a infância, lembrou-se do pai.
Não do rosto.
Nem da voz.
Lembrou-se apenas de uma frase repetida incontáveis vezes durante o trabalho na lavoura:
"Filho...
a terra nunca devolve exatamente o que recebe."
Naquele tempo acreditava que o pai falava de sementes.
Agora suspeitava que falasse dos homens.
Enquanto permaneciam ali, ouviu-se ao longe o som de cavalos.
Os Cães do Coronel aproximavam-se.
Caranguejeira levou a mão ao revólver.
O velho colocou delicadamente a palma sobre seu braço.
— Ainda não.
— Eles vêm matar.
— Eu sei.
— Então por que esperar?
O velho fitou demoradamente o caminho por onde a tropa surgiria.
Depois respondeu:
— Porque há encontros que acontecem apenas quando todos já perderam a esperança de evitá-los.
Minutos depois, os cavaleiros apareceram entre as árvores.
Não avançaram imediatamente.
O comandante desmontou.
Olhou para o cemitério.
Depois para Caranjumú.
Havia percorrido centenas de quilômetros para encontrá-lo.
Agora que finalmente o tinha diante de si, percebeu algo desconcertante.
O homem que procurara durante toda a caçada parecia muito menos interessado em escapar do que ele próprio em alcançá-lo.
Por um longo instante ninguém falou.
Nem os homens.
Nem o vento.
Nem as árvores.
Era como se o próprio vale aguardasse a primeira palavra para decidir a qual lado pertenceria.
Foi então que Caranjumú sorriu.
Não um sorriso de vitória.
Nem de resignação.
Era o primeiro sorriso verdadeiro desde o dia em que sobrevivera ao precipício.
E, por alguma razão que ninguém ali saberia explicar, esse sorriso inquietou os cinquenta homens muito mais do que qualquer arma que ele pudesse empunhar.
Porque alguns homens tornam-se realmente perigosos apenas depois que deixam de fugir de si mesmos.
Artigo XI — A Grande Piada
O comandante desmontou lentamente.
Era um homem chamado Evaristo, embora seus subordinados raramente pronunciassem seu nome. Havia muitos anos deixara de responder por ele. Tornara-se apenas "o Capitão", como se a função tivesse devorado a pessoa. Descobriu, tarde demais, que alguns títulos são apenas maneiras elegantes de esquecer quem os carrega.
Os cinquenta homens permaneceram imóveis.
Os cavalos, curiosamente, estavam mais tranquilos do que seus donos.
Evaristo caminhou até poucos passos de Caranjumú.
Esperava encontrar um fugitivo.
Encontrou um homem em paz.
A diferença era insuportável.
— Acabou.
Caranjumú respondeu com simplicidade.
— Sim.
O capitão estranhou a concordância.
Durante dias imaginara perseguições desesperadas, emboscadas, tiroteios, talvez um último confronto digno das histórias que ouvira desde menino. Preparara-se para vencer uma batalha.
Não esperava descobrir que a batalha já terminara antes de sua chegada.
— Vai se entregar?
Caranjumú sorriu.
— A quem?
O capitão não respondeu.
Percebeu que jamais refletira sobre aquela pergunta.
Entregar-se ao coronel?
À justiça?
À própria consciência?
Cada resposta conduzia a um destino diferente.
O velho caminhou lentamente até o centro do pequeno cemitério.
Apoiou ambas as mãos sobre o cajado.
— Digam-me...
Por que vieram?
Um dos cavaleiros respondeu prontamente.
— Cumprimos ordens.
— E antes disso?
Silêncio.
Outro falou:
— Somos homens do coronel.
— Antes disso?
Mais silêncio.
O velho continuou.
— Antes das armas?
Antes do uniforme?
Antes da cerca?
Antes do medo?
As perguntas caíam lentamente sobre aqueles homens.
Não exigiam resposta.
Apenas desfaziam certezas.
Caranguejeira observava tudo com crescente estranheza.
Durante toda a vida acreditara que os grandes conflitos terminavam quando um lado derrotava o outro.
Ali acontecia exatamente o contrário.
Quanto menos alguém parecia vencer, mais próximo estava da verdade.
Foi então que surgiu um cavaleiro vindo do sul.
Montava um animal exausto.
Mal conseguiu parar diante do grupo.
Desceu às pressas.
Aproximou-se do capitão.
Sussurrou-lhe algumas palavras.
O rosto de Evaristo empalideceu.
Caranjumú percebeu.
— O que aconteceu?
O capitão permaneceu alguns instantes sem conseguir organizar a resposta.
Por fim falou:
— O coronel morreu.
Ninguém compreendeu imediatamente.
— Como?
— Caiu do cavalo.
Quebrou o pescoço.
Morreu antes de alcançar a própria fazenda.
O silêncio que se seguiu era diferente de todos os anteriores.
Não possuía solenidade.
Nem tristeza.
Parecia apenas deslocado.
Quase inconveniente.
Durante tantos dias, tantas estradas, tantas cercas, tantas ameaças...
E o homem em torno do qual tudo girava desaparecera por causa de um simples desequilíbrio.
Caranguejeira deixou escapar um riso curto.
Tentou contê-lo.
Não conseguiu.
Logo depois outro cavaleiro começou a rir.
Em seguida mais um.
O riso espalhou-se discretamente.
Não era zombaria da morte.
Era espanto diante da desproporção entre a grandeza das ambições humanas e a humildade com que o acaso costuma encerrá-las.
Até o capitão sorriu.
Pela primeira vez em muitos anos.
Caranjumú permaneceu olhando para o horizonte.
Depois comentou:
— Passamos semanas correndo atrás uns dos outros...
E ninguém percebeu que o único homem incapaz de fugir era o tempo.
O velho voltou-se para ele.
Os olhos brilhavam com uma alegria quase infantil.
— Está começando a entender.
Caranjumú franziu levemente a testa.
— Entender o quê?
O velho apontou para a estrada que atravessava o vale.
Depois para as cercas invisíveis que existiam apenas na memória dos homens.
Em seguida para as lápides.
Por fim para a cruz vazia da capela, distante no alto da colina.
— Que vocês nunca lutaram por terra.
Nunca perseguiram homens.
Nunca defenderam cercas.
Tudo isso era apenas o idioma pelo qual cada um tentava responder à mesma pergunta.
Quem sou eu...
quando tudo aquilo que imaginei possuir deixa de existir?
Naquele instante, Caranjumú recordou o precipício.
Recordou Elias.
Os cinquenta colchões.
O prefeito.
Os cães.
A carta sem assinatura.
O moinho.
As estradas.
Percebeu, com um assombro quase divertido, que nenhum daqueles acontecimentos fazia sentido isoladamente.
Mas todos se encaixavam quando vistos de trás para diante.
Era como observar uma tapeçaria pelo avesso durante toda a vida e, subitamente, encontrar o lado correto.
Sorriu.
Depois riu.
Não alto.
Nem demoradamente.
Apenas o suficiente para reconhecer a delicadeza da ironia.
Passara décadas acreditando que a vida era uma sucessão de acidentes.
Agora descobria que os acidentes eram apenas as costuras invisíveis de uma ordem que nunca precisara pedir licença para existir.
O velho também ria.
Caranguejeira ria.
Até o capitão, sem compreender inteiramente a razão, ria junto.
O curioso era que nada havia melhorado.
Um homem continuava morto.
As cercas continuavam erguidas.
As culpas permaneciam.
As perdas também.
Mesmo assim...
pela primeira vez, a tragédia inteira parecia possuir um extraordinário senso de humor.
E talvez fosse exatamente isso que os homens chamavam, desde o princípio do mundo, de sabedoria.
Artigo XII — O Homem que Nunca Caiu
Ninguém prendeu Caranjumú.
Não porque faltassem armas.
Nem porque houvesse desistência.
A necessidade simplesmente desapareceu.
Os cinquenta cavaleiros regressaram em pequenos grupos, sem formação, sem ordens e sem pressa. Pela primeira vez desde que vestiram as cores do coronel, caminhavam como homens e não como extensão da vontade de outro. Alguns voltariam para pequenas propriedades esquecidas. Outros aprenderiam um ofício qualquer. Havia até quem sonhasse abrir uma venda à beira da estrada. Descobriram, quase com constrangimento, que a liberdade costuma começar quando deixa de haver alguém disposto a mandar.
O prefeito permaneceu no cargo por mais alguns anos. Continuou pronunciando discursos impecáveis, inaugurando obras inacabadas e assinando documentos cuja utilidade desaparecia antes da tinta secar. Mas havia mudado uma pequena coisa. Sempre que passava diante de um espelho, levava inconscientemente a mão ao lado esquerdo do rosto. O tapa de Caranjumú não lhe deixara cicatriz na pele. Deixara-lhe uma dúvida. E certas dúvidas sobrevivem muito mais do que os hematomas.
Firmino abriu uma pequena oficina de móveis. Nunca voltou a roubar. Não porque se julgasse virtuoso, mas porque descobrira que construir exige mais imaginação do que tomar aquilo que já existe. De tempos em tempos enviava discretamente colchões novos para povoados distantes. Jamais assinava bilhetes. Algumas reparações perdem valor quando procuram testemunhas.
Caranguejeira permaneceu ao lado de Caranjumú durante mais alguns anos. Depois seguiu seu próprio caminho, como sempre soubera que aconteceria. Encontravam-se raramente. Quando isso ocorria, conversavam pouco. Haviam alcançado a idade em que os homens percebem que as amizades verdadeiras são sustentadas menos pelas palavras do que pela permanência silenciosa de uma mesma direção.
Quanto ao velho, ninguém mais o viu.
Alguns juravam que jamais existira.
Outros afirmavam que fora um eremita conhecido em toda a região.
O sacristão da velha capela dizia tratar-se de um peregrino que aparecia havia mais de cinquenta anos, sempre com a mesma idade.
Caranjumú nunca tentou descobrir.
Aprendera que certos encontros deixam de ser verdadeiros no instante em que são explicados.
Os anos passaram.
Seus cabelos embranqueceram.
As mãos endureceram ainda mais.
Os joelhos passaram a reclamar das longas caminhadas.
Mesmo assim, continuava percorrendo as estradas.
Não para chegar a algum lugar.
Mas porque compreendera que caminhar era a forma mais honesta de agradecer ao tempo.
Numa manhã de inverno, decidiu visitar novamente o precipício.
A velha estrada permanecia quase igual.
A curva.
As pedras.
O barranco.
Até mesmo algumas árvores pareciam conservar a memória daquele dia.
Desceu lentamente até onde o automóvel havia sido encontrado.
Já não restava ferro algum.
A vegetação engolira tudo.
Sentou-se sobre uma grande pedra.
Permaneceu ali durante horas.
Pensava no acidente.
Ou melhor...
naquilo que durante tantos anos chamara de acidente.
Então sorriu.
Percebeu, finalmente, o detalhe que sempre estivera diante de seus olhos.
Naquele dia, o carro realmente caíra.
Quem nunca caíra fora ele.
Antes do precipício, acreditava controlar a própria existência.
Escolhia cuidadosamente as estradas, avaliava perigos, media consequências, calculava vitórias e derrotas como um contador de probabilidades.
O automóvel despencara.
Essa ilusão também.
Desde então caminhava muito melhor.
Porque deixara de exigir da vida aquilo que ela jamais prometera oferecer.
Levantou-se com esforço.
Olhou uma última vez para a estrada lá em cima.
Ela continuava parecendo conduzir os homens.
Agora sabia.
Era exatamente o contrário.
As estradas não conduzem ninguém.
São os homens que, caminhando, lhes dão existência.
Sem viajantes, toda estrada volta lentamente a ser apenas terra.
Começou a subida.
Devagar.
Sem pressa.
Cada passo parecia reconciliar um ano antigo.
Quando alcançou novamente o alto, voltou-se pela última vez.
Sorriu.
Não para o precipício.
Nem para a estrada.
Sorriu para o homem que imaginara ter perdido ali.
Descobriu que nunca o perdera.
Apenas o confundira com alguém que precisava deixar de existir.
Muito tempo depois, quando também ele se tornou apenas uma lembrança repetida em rodas de conversa, os moradores de Coisa Perdida continuaram contando histórias sobre Caranjumú. Uns diziam que derrotara cinquenta homens. Outros lembravam o prefeito esbofeteado. Havia quem jurasse que sobrevivera à própria morte. As crianças ouviam tudo com espanto, acrescentando novos exageros a cada geração.
Nenhuma dessas histórias era a verdadeira.
A verdadeira jamais se prestou ao heroísmo.
Um homem caiu de um precipício e sobreviveu.
Passou o resto da vida acreditando que aquele era o maior acontecimento de sua existência.
Somente no fim compreendeu que o precipício nunca estivera abaixo da estrada.
Sempre estivera dentro dele.
E foi exatamente no instante em que deixou de tentar escapar dessa queda que começou, pela primeira vez, a caminhar.
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Epígrafe Final
«"O homem não se perde quando erra a estrada; perde-se quando imagina que ela existia antes de seus próprios passos."»
Epílogo — Depois da Estrada
Os anos fizeram com Coisa Perdida aquilo que sempre fazem com todos os lugares: substituíram homens por nomes e nomes por histórias. A venda de Seu Nicanor tornou-se outra venda; a Câmara recebeu nova pintura; a velha ponte ganhou pedras novas; a cerca do Coronel desapareceu pouco a pouco sob o mato, até que ninguém mais soubesse indicar onde começava ou terminava.
A terra permaneceu. Os proprietários mudaram.
As crianças que ouviram falar de Caranjumú envelheceram contando a seus netos episódios que já não distinguiam entre lembrança e invenção. Alguns afirmavam que enfrentara um exército sozinho. Outros juravam que jamais tocara numa arma. Houve quem dissesse que conversava com santos. Houve quem garantisse que nunca entrara numa igreja sem antes tirar o chapéu diante da porta. Todas as versões estavam erradas. Curiosamente, nenhuma era completamente falsa.
O tempo possui um estranho talento para lapidar os fatos até que apenas sua estrutura permaneça. Os detalhes desaparecem; a forma continua. É por isso que certas histórias sobrevivem mais do que seus protagonistas. Não porque tenham acontecido exatamente daquela maneira, mas porque continuam acontecendo sob outras formas.
A velha capela acabou ruindo quase por inteiro. Restou apenas parte do altar e a cruz de madeira, escurecida pelo tempo. Os viajantes ainda paravam ali por alguns minutos, não por devoção conhecida, mas por uma sensação difícil de explicar. Alguns permaneciam em silêncio. Outros retomavam a viagem sem perceber que saíam um pouco diferentes de como haviam chegado.
Quanto ao precipício, nunca recebeu nome oficial. Permanecia apenas como uma curva perigosa da estrada antiga. Os tropeiros recomendavam cautela ao atravessá-la. Os mais velhos sorriam discretamente ao ouvir o conselho. Sabiam que os precipícios verdadeiramente perigosos jamais aparecem nos mapas.
Talvez seja por isso que quase todos os homens passem parte da vida tentando corrigir o caminho quando aquilo que precisa ser corrigido é o caminhante. Mudam de cidade, de profissão, de amigos, de crenças, de inimigos e até de linguagem, sem perceber que continuam levando consigo exatamente aquele de quem pretendiam fugir.
Caranjumú jamais descobriu uma fórmula para viver. Tampouco encontrou respostas definitivas. O que encontrou foi algo muito menos vistoso e muito mais raro: aprendeu a formular perguntas que já não exigiam vitória para fazer sentido. Com isso, perdeu inúmeras certezas e ganhou uma serenidade que nenhuma conquista poderia oferecer.
Talvez fosse esse o segredo escondido desde a primeira página. O carro realmente caiu. A cerca realmente foi erguida. O coronel realmente morreu. O menino realmente não foi salvo. Os colchões realmente chegaram às creches. Nada disso deixou de acontecer. A ordem invisível da existência não elimina a tragédia; apenas impede que ela seja a última palavra.
Assim, quando alguém perguntar quem foi Caranjumú, talvez seja melhor não responder imediatamente. Conte apenas que existiu um homem comum que passou metade da vida tentando dominar a estrada e a outra metade compreendendo que a estrada nunca lhe pertencera. Se o ouvinte sorrir sem saber exatamente por quê, então a história terá encontrado mais um viajante.
Porque algumas narrativas terminam na última página. Outras apenas esperam, pacientemente, que alguém volte ao início para descobrir que o primeiro passo já continha a chegada.
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